Uma adolescente nada normal
4 Uma boa alma
Notas iniciais
Eu estava terrivelmente assustada. Paulo estava me guiando pelas ruas com a mão em meu ombro e havia me obrigado a agir como se fossemos amigos, não queria ninguém desconfiando. O que ele faria comigo? Pra onde estava me levando? Meu coração estava acelerado e eu só pensava no pior. Afinal, o que eu deveria pensar quando a situação incluía aquele psicopata?
– Chegamos!- Ele estava com um sorriso no rosto e um olhar ameaçador.
– Me deixa ir embora, minha mãe vai por você na cadeia. Isso é sequestro!- Eu disse tentando esconder minha feição apavorada, o que eu sabia que tinha falhado.
– Não fique com medo! Eu não faço nada que não mereçam, e você mereceu ser trazida para cá. Tem que aprender a não afrontar as pessoas, baixinha.- Ele disse, virando meu queixo com as mãos. Dei um tapa na mão dele.
Ele abriu o portão e praticamente me empurrou. Era uma casa em um lugar não muito longe da escola. Eu tinha vindo marcando as ruas, prestando atenção, vai que dá pra eu correr e me livrar daquele crápula? A casa não era rebocada e as janelas eram cobertas por sacos plásticos pretos de lixo. Quando entrei percebi que o cômodo era grande, mas era o único além de um pequeno banheiro que nem porta tinha. Havia um sofá sujo e rasgado, um colchão jogado no chão e uma geladeira. Eram as únicas coisas que preenchiam aquele lugar sujo, que só uma pessoa como aquele idiota poderia viver.
– Qual é, gatinha, não faz essa cara, foi o que eu achei!- Ele ria, parecendo se divertir com a situação, e de fato estava.
– Eu tenho nojo de você!- Cuspi.
– Olhe os modos.- Disse ele agarrando no meu cabelo.- Você não sabe o que pode acontecer.
– Se você fizer alguma coisa comigo, minha mãe vai te matar. Você vai morrer antes de ser preso!- Não consegui conter minhas lágrimas.
– Olha só, temos uma valentona aqui. Mas você deu sorte, preciso resolver uns problemas. Mas como eu não sou burro como você pensa, você vai ficar aqui, acorrentadinha me esperando.- Ele me puxou até dentro do banheiro, onde tinha uma cadeira com uma corrente, aquele idiota era mesmo um maníaco, ele tinha pensado em tudo!
– NÃO!- Gritei.- Você não pode fazer isso!
– Eu posso e vou fazer, quando eu voltar a gente conversa.- Ele disse tendo um trabalho um pouco maior pra me acorrentar depois de ter que lutar contra meu socos, pontapés e gritos.- Pronto, agora sim! Grite a vontade ninguém vai te ouvir. Temos vizinhos de férias em outro estado!
Será que era verdade? Aquele maluco tinha pesquisado até a vida dos vizinhos? Assim que ele saiu comecei a gritar incessantemente, mas depois do que me pareceu horas, resolvi parar. Ninguém havia escutado. Não deveria ter ninguém ali mesmo.
Pensei em como mamãe deveria estar aquela hora. Deveria estar pensando que eu só estava aprontando, querendo chamar atenção mais uma vez. E Clara? Eu tinha prometido a ela que logo iria pra lá. Se eu soubesse que ele era tão maluco assim, nunca teria ido lá, dar uma de salvadora da pátria, ou nesse caso, da vida da minha melhor amiga. Eu estava com medo, mais medo do que lembro ter tido a minha vida toda. Eu estava fodida, literalmente. Acho que tinha chegado minha hora, acho que eu morreria. Não querendo ser dramática, mas era o que eu achava. Comecei a chorar e acabei adormecendo, ali mesmo, sentada naquela cadeira, dentro de um banheiro fedido.
O dia já tinha escurecido quando acordei! Olhei pelo buraco que tinha no teto do banheiro. Que horas seria? Paulo á tinha chegado? Gritei o nome dele milhares de vezes, mas nada. Tentei me soltar daquela cadeira, mas só me machuquei. Puxei tanto o braço que as correntes acabaram me queimando e fazendo cortes em minha pele. Lembrei que minha mochila estava na sala com meu celular dentro, será que conseguiria arrastar a cadeira até lá? Tentei uma, duas, até três vezes, mas o banheiro era muito pequeno e isso dificultou mais minha tentativa. EU também estava sem força, a fome tinha me consumido. Aquilo era um pesadelo mesmo, minha ficha ainda não tinha caído. Minha única saída era esperar e tentar ganhar Paulo no papo para ir embora. Esperei, esperei e só lembro de estar sentada naquela cadeira esperando quando apaguei, de novo.
– Acorda, Margo! Anda! Trouxe pão pra você, só basta ter morrido.- Paulo batia na minha cara.
Olhei pro buraco, estava de dia!
– QUÊ?- Levei um susto.- Que horas são? Me deixa ir embora, por favor, minha família deve estar preocupada.
– Tadinha! Vou pensar no seu caso.- Ele estava rindo tanto que eu fiquei com mais medo ainda.
– Anda, come isso antes que morra de fome.- Ele me deu um pão, mas na boca, sem soltar minha mãe.
– Me solta!.- Supliquei.
– Come, porra!- Ele enfiou o pão na minha boca.
Dei uma mordida, mas não consegui comer mais nada. Não dava! Não olhando pra ele. Eu estava com fome, ms nada descia.
Ele saiu e voltou minutos depois com água. A água graças a Deus consegui beber. Depois disso ele sentou na minha frente, ele era tão alto que sentado ficou na altura do meu rosto.
– Por favor...- Ia começar a pedir, mas ele não deixou eu terminar.
– Fica quieta. Você me viu, mas tinha que ficar calada. Você procurou e acabou achando. Isso é pra você aprender a se por no seu lugar. Olha pro teu tamanho, acha mesmo que conseguiria me impedir de alguma coisa? E olha que ninguém desconfiou.- Ele foi baixando a voz e chegando mais perto, até me beijar. Sim, ele me beijou! Eu mordi o lábio dele com toda força e só senti meu rosto ardendo. Ele havia me dado um tapa e o lábio dele estava sangrando. Ele saiu do banheiro e eu escutei barulho do lado de fora. Acho que era minha chance. Comecei a gritar pedindo socorro. cada vez mais. Ele voltou correndo, tapando minha boca. Acho que eu estava certo, tinha gente ao lado.
– É a polícia, fica quieta.- Ele disse, com uma mãe na minha boca e a outra no meu pescoço. Mordi a mão dele e no momento em que ele tirou por um segundo, dei mais um grito.
Continuava a ouvir os passos e estava ali, com ele pressionando meu pescoço e boca. Parecia que havia se passado alguns minutos quando um barulho invadiu o lugar. A porta foi arrancada e Paulo correu. Comecei a gritar desesperadamente e apareceu um policial na porta do banheiro. Desabei!
– Ah, minha filha, achei que tivesse te perdido de vez!- Minha mãe veio correndo em minha direção e me abraçou assim que eu saí no portão da casa. Ela havia dito aquilo mesmo? Feito aquilo? Para, Margo, não é hora pra implicância.
– Eu também achei que estava perdida de vez!- Acabei retribuindo ao abraço.
– O que houve, Margo?- Meu irmão estava lá também.
Contei tudo que havia acontecido e pedi ajuda a minha mãe. Pedi pra que ela conversasse com tia Rô, pois depois de saber que Paulo conseguiu fugir, tinha a certeza que não desistiria. Ela prometeu que me ajudaria e que me protegeria. Sabia que Paulo não estava jogando pra perder.
Perguntei como tinha sido achada. Um homem que passava ali por perto escutou meus gritos e contactou a polícia. Eu havia tido um salvador! Ainda existia boas almas naquele mundo, graças a Deus. Eu só pensava em como tinha tido sorte e que Paulo estava solto por aí.
Ele voltaria a atacar!
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