Uma adolescente nada normal
5 Quem era ele?
Notas iniciais
Depois de todo aquele susto, passei uma noite meio caótica, podemos assim dizer. Tive pesadelos horrendos que iam desde minha morte provocada por Paulo com uma faca, até um estupro. Sim, eu sonhei isso! Ridículo, sei bem, mas quem comanda nossos sonhos? Acordei com meu despertador tocando aquela música horrível que deixava qualquer um com um humor péssimo. Levantei e por um segundo achei que minha mãe tinha continuado com aquela atitude um tanto fofa do dia em que me encontraram naquela casa onde eu era mantida acorrentada por um maníaco. Pensei em fazer charme para não ir pra escola, dizer que ainda estava assustada, mas desisti depois de ter descido ainda de pijama e ouvido um grito que quase estourou meus tímpanos.
– Margareth, não acredito que ainda está assim. Não pense que só por causa do que aconteceu vai ficar em casa sem fazer nada. Você precisa estudar e sabe bem disso! Anda, suba, vá se arrumar.- Mamãe parecia estar com raiva. O que não era novidade alguma.
Subi aquelas escadas com passos firmes. Cada passo parecia um lutador socando um saco de pancadas. Eu não merecia aquilo, tinha acabado de passar por um momento difícil da minha vida. Não era drama, claro que não era! Tomei banho e desci, saí naquela porta como um foguete, não olhei nem a hora e nem esperei João. Ou já estava tarde e ele já havia saído? Só fui ver a hora quando estava perto do ponto, na verdade, estava cedo demais. Resolvi ir andando, o que eu lembrei que não era boa ideia, vai que Paulo me pega de novo? Ele era maluco. Passei a dar passos largos eme peguei olhando para todos os lados possíveis. Nada dele, graças a Deus! Cheguei na escola e o portão já estava aberto. O pátio estava vazio e resolvi sentar-me em um canto que havia perto da cantina para relaxar. Foi quando vi um menino, super lindo, com um coturno preto (o que confesso que me deixava apaixonada), um cabelo liso jogado pro lado e um violão pendurado nas costas. Ele me viu e veio falar comigo, acreditem, ou não.
– Ei, menina. Pode me dar um informação? Sou novo aqui e não conheço nada. Tenho que ir na diretoria pra pegar um papel pra apresentar aos professores nas aulas, mas não sei onde é. Me ajuda aí!- Até que era educadinho.
– Oi- Disse me levantando.- A secretaria é ali!- Apontei.- Só você ir lá e falar com a secretária, ela entrou lá ainda pouco, com certeza ainda está por lá.
– Valeu mesmo. Mas, me acompanha aí?- Ele disse meio sem graça, eu acho. Deu um risinho super fofo, o que me fez quase ficar de queixo caído. Controlei-me!
– Ah... claro.- Sorri de volta.
Chegando lá eu fiquei sentada, esperando ele resolver as coisas. Quando ele saiu, me chamou e mostrou-me um papel que dizia sua turma, turno e essas coisinhas. Assim que olhei, agradeci a Deus. Aquele GATO era da minha sala. Meu Deus!
– Você é da minha sala, cara.- Não consegui conter o riso.
– Sério? Ainda bem. Uma companhia legal! Prazer, meu nome é Vinícius. E qual sua graça?- Ele disse, depois soltou aquele riso novamente. Acho que queria me matar, só podia.
– Margareth, mas todos me chamam de Margo, eu prefiro.
– Então vamos, Margo.- Ele enfatizou meu nome.
Aquele dia por incrível que pareça estava indo perfeitamente bem. Ao chegarmos à sala o apresentei à Clara. Era a primeira vez que a via depois do acontecimento. Eu só havia ligado pra ela depois que cheguei em casa e contado tudo, detalhe por detalhe. Ela me xingou, disse que eu era maluca e que sua mãe já tinha conversado a respeito. Minha mãe tinha dado parte e eu tinha tido uma breve conversa com o delegado. Tia Rô disse que também daria parte, e precisava da ajuda e da mensagem do celular de Clara. Ela estava meio diferente, encabulada. Quando começou a aula de matemática, que tínhamos como professor seu Maurício, lerdo que só ele, aproveitei pra falar com ela.
– Ei, Clara, sei do que ta acontecendo, mas você ficar assim, só piora. Vai dar tudo certo.- Disse, cutucando ela que estava sentada do meu lado.
– Margo, eu to com muito medo. Eu sei que ele não vai parar. Parar, desistir não é bem o tipo dele. Ele fez mal pra você e eu me sinto culpada por isso, agora chegou minha vez, ele com certeza está me seguindo, eu sinto isso.- O medo era visível nos olhos dela.
– A polícia está atrás dele. Se ele já não está longe daqui, logo, logo será pego e aí acabou.- Me abaixei perto dela e ela me abraçou, chorando.
Quando tocou o sinal da saída mandei João ir pra casa, eu e Clara ainda demoramos pra sair. Tia Rô viria nos buscar, com medo do que aconteceu. Pelo menos ela tinha senso, coisa que minha mãe não tinha. Quando estávamos indo em direção ao portão, vi que Vinícius estava encostado na grade, parecia esperar alguém.
– Ei, estava esperando vocês.- Ele disse correndo até a gente.
– Anh.. porque?- Confesso que fiquei surpresa.
– Desculpa, mas eu ouvi o que vocês estavam falando na sala. Fiquei preocupado, esse tal de Paulo parece ser barra pesada. Não querem que eu lhes acompanhe até em casa?- Ele parecia verdadeiramente preocupado. Além de gato era prestativo, hm.
– Olha, muito obrigado, mas minha mãe vai vir buscar a gente.- Clara falou antes que eu pudesse dizer algo.
– Bom, então ok. Posso ficar esperando ela aqui com vocês, esse lugar está vazio!
– Verdade, nós aceitamos!- Disse, vendo que era verdade o que ele disse.
Ficamos conversando sobre o violão de Vinícius. Ele sabia tocar, e bem! Deu uma palhinha pra gente. Sua voz também era muito bonita. Acho que tudo nele era bonito. Não pude deixar de fazer esse comentário, desculpa! Uns vinte minutos depois tia Rô estava buzinando do outro lado da rua. Oferecemos carona pra ele, mas ele disse que morava perto e que iria andando mesmo.
– Eu vi o jeito que você olha pra ele, sua safada!- Clara falou, rindo, quando chegamos em seu quarto.
– Hã?- Fingi não entender, mas sabia a quem ela estava se referindo.
– Não se fingi de boba. To falando do Vinícius, você ta babando por ele.- Ela riu.
– Para de ser maluca, Clara. Nada a ver. Só achei ele bem simpático.- Queria matar aquela garota.
– Simpático e lindo, né?- Ela caiu na gargalhada.
Passei à tarde lá, tive que ir embora quando mamãe me ligou falando que já estava tarde, se eu queria ser sequestrada de novo. Sabe, né, naquela famosa ignorância. Tia Rô falou que me levaria em casa, mas disse que não precisava. Estava com medo, mas não iria tirá-la de seu conforto pra me fazer um simples capricho. Preocupada, ela me fez prometer que ligaria assim que pegasse o ônibus e assim que chegasse em casa.
Cheguei no ponto, estava vazio. Rezava pra Deus ter piedade de mim e mandar um ônibus logo, juro que estava com medo. Sentei. Estava frio e resolvi por o casaco que Clara tinha me emprestado. Olhava para os lados, assim que olhei novamente, parecia ter visto uma pessoa com um capuz preto, encostada na mureta da calçada. Ela se escondeu. Estava eu vendo coisas? Onde estava aquele ônibus?
– Com medo, gatinha?- Eu conhecia aquela voz, aquela risada, então... Era Paulo!
Olhei pra ele, estava com uma camisa sem mangas, naquele frio. Se eu tinha visto alguém naquela mureta, não era ele. Tentei correr, mas ele me agarrou pela cintura e tampou minha boca.
– Você não vai a lugar nenhum!- Falou ele.
– Quem não vai a lugar nenhum é você!- Ouvi uma voz familiar, a voz dele, a voz de Vinícius.
Senti o peso do corpo de Paulo caindo sobre mim. O que ele havia feito? Olhei para quem tinha falado, era ele mesmo. Estava vestido com um casaco preto com um capuz na cabeça e botando uma faca na cintura. Fora ele quem eu havia visto na mureta e fora com aquela faca que ele tinha acertado Paulo.
– Vamos sair daqui, anda.- Gritou ele, me puxando. Não tive reação, apenas me deixei ser levada por aquele, agora misterioso, menino que eu acabara de conhecer.
Eram tantas dúvidas, tantas perguntas, coisas pra esclarecer. Porque ele estava ali, naquela hora? Porque andava com uma faca? Porque tinha me salvado? Estava me seguindo? Não entendia nada, só queria uma explicação.
Na verdade, quem era Vinícius?
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