Uma adolescente nada normal
3 Pesadelo
Notas iniciais
Aquele som amedrontador havia tocado. Meu despertador soou. Primeiro dia de aula e minha animação para aquela palhaçada estava zero. Não queria levantar da cama de jeito nenhum. Os meninos gatinhos do terceiro ano que eram do time de futebol esse ano não vão estar mais lá, o único que sobrou foi o Tony, que é do segundo ano e nem gatinho é. Que saco! O que eu vou querer fazer naquela bosta estudantil? Nada! Eu não tenho mais incentivo! Mas vamos lá. Coragem, Margo!
Levantei daquela cama quase precisando de um guindaste pra me levar até o banheiro. Lavei os cabelos pra ver se me despertava, mas só me arrependi. Só lembrei que havia emprestado meu secador pra idiota da Clara que queimou o dela depois que tinha saído do chuveiro. Encharquei minha blusa toda, já que nem todas as toalhas daquela casa juntas conseguiria secar totalmente meu cabelo. Assim que desci encontrei João sentado no sofá e mamãe parecia não estar em casa.
– Caramba, achei que não ia pra escola. Estou revendo meu material, você já reviu o seu? Está todo certinho?- João me perguntou com um sorriso tão grande no rosto que eu me perguntava da onde ele conseguia tirar tanta animação.
Revirando os olhos fui caçar alguma coisa pra comer, ainda tinha uns minutos, não queria começar o dia com um buraco no estômago. Assim que despejei o suco no copo, meu lindo e espetacular irmão só faltou ter um ataque dizendo que se não saíssemos em um minuto, iríamos nos atrasar feio. É sério, ter um irmão gêmeo nerd é a pior coisa que existe. Tomei o suco rápido, não iria aguentar aquele garoto falando no meu ouvido que a culpa era minha se realmente chegássemos atrasados.
Fomos andando até o ponto, onde pegamos o ônibus por sorte, eu admito. Ele já estava parado embarcando alguns passageiros quando chegamos, correndo. Se perdêssemos aquele, só conseguiríamos pegar outro em duas horas, e aí já viu, meu irmão morreria.
– Nossa, chegou cedo, cdf.- Falei assim que estava chegando no portão da escola e vi Clara encostada nele.
– Você não vai acreditar, Margo.- Ela disse com um olhar triste, preocupado, assim que me viu.
– Que houve, cara?- Segurei os ombros dela, assustada.
– O Paulo! Ele vai voltar! Eu recebi um sms do cretino hoje falando que agora não adiantava fugir, ele ia voltar pra buscar o que é dele, no caso, eu! Aquele garoto é maluco, o que eu vou fazer?- Clara estava quase chorando, eu podia perceber.
Paulo era um ex dela. Eles se conheceram no final do ano retrasado quando ele veio estudar na mesma escola que a nossa. Ele tinha dezoito anos, mas ainda estava no segundo ano. Eu sabia que ele era encrenca, mas Clara dizia que o amava e que ajudaria ele com seus problemas. Mal sabia ela que seus problemas eram drogas, furtos e agressão. Semanas depois deles assumirem o namoro pra tia Rô, a mãe dela, que não gostou nada do garoto, ela começou a aparecer com manchas roxas pelo corpo, até que me revelou que ele a agredia. Mesmo eu falando, implorando e até ameaçando parar de falar com ela, ela disse que não o deixaria, que ele prometeu que mudaria, pena que ela era a única que não via que ele mentia. Um dia Madson me ligou desesperado falando que ela estava no hospital toda arrebentada e com um corte de faca muito profundo na perna. Tia Rô o denunciou e ele fugiu mas acabou sendo pego em outra cidade e foi preso. Depois do acontecido Clara viu o erro que cometeu e o que ele realmente era. Vivia com medo dele ser solto e voltasse atrás dela, e eu via na minha frente o que ela temia vir a acontecer.
– Clara, liga agora pra sua mãe e pro Madson. Isso não pode ser verdade! Ele foi preso tem pouco tempo pro que ele fez, ele deve ter fugido. Anda, liga logo, sua mãe e seu irmão saberão o que fazer.- Eu estava tremendo, com medo junto com Clara. Aquele garoto era um psicopata e estava voltando pra trazer problema.
– Eu não posso!- Naquele momento ela não aguentou e a lágrima escorreu pelo seu rosto.
– Porque? Porque não pode? Que mensagens mais ele mandou, Clara? Anda, desembucha.- Eu sabia que ele não tinha mandado só aquilo. Clara só estendeu o celular pra mim.
"Oi, gatinha. Tudo bem? Lembra de mim? Eu fui o cara que te fez feliz e sua família enxotou, botou na cadeia! Eu não fazia nada além do que você merecia. Eu tô voltando, bons modos e trabalhos dentro da cadeia até que não é ruim, me concedeu a coisa que eu mais queria: LIBERDADE! Liberdade pra ir te procurar, ir atrás do que é meu. Eu não vou desistir de você, nós vamos fugir, viver nossa vida sem ninguém pra se meter. Eu tô te vigiando e sei que você continua amiga daquela menina, como é mesmo seu nome? Margareth? Isso, é Margareth! Não fale nada pra ninguém, não tente fugir, ou então, Margo está frita! Você não vai querer ferrar com ela, né? Paulo"
Eu senti meu sangue gelar. O que era aquilo? Eu li aquilo mesmo? Ele estava ameaçando Clara? E estava ameaçando comigo? Sua melhor amiga? Não sabia o que fazer, só sabia que eu deveria me preocupar e sentir medo, Paulo era um psicopata e seria capaz de tudo! mas eu não podia deixar aquilo assim, eu simplesmente tinha que agir. Não era só Clara que corria grande perigo agora, eu também. O que era melhor? Falar com mamãe? Avisar Tia Rô? Mas ele disse que estava nos vigiando, então já devia estar solto por aí à tempo nos observando. Eu estava perdida, não tinha o que fazer, o medo tomou conta de mim e eu também não consegui escorreu minhas lágrimas. Caí nos braços de Clara, só querendo que aquilo não fosse verdade.
– Ei, aconteceu alguma coisa? Está na hora de entrar, meninas. Vocês estão bem?- O porteiro nos perguntou, chegando mais perto, parecendo ocupado.
– Não, está tudo bem.- Disse para o porteiro, depois virei-me para Clara- Vamos, Clara. Vai ficar tudo bem, nós resolveremos isso.
Entramos na sala caladas e saímos dela caladas. Passamos o intervalo inteiro perdidas em pensamentos, eu tentando achar uma saída, o que parecia impossível, e Clara parecia estar com medo do mundo. Qualquer barulho diferente a assustava! Na hora da saída eu liguei pra um táxi nos levar em casa. No tempo que ficamos do lado de fora aguardando o táxi e esperando João sair para eu avisar que não iria pra casa, eu vi um menino vestido com roupas pretas e um boné, também preto, dentro da locadora enfrente a escola, nos olhando, Era ele, eu sabia! Paulo estava ali. Não sei o que me deu, só sei que eu precisava ir até lá, eu sentia que não seria uma coisa boa, mas que era o que eu deveria fazer, ele tinha que parar com aquela maluquice, aquilo não era normal. Ele pareceu não notar que eu o vi, assim que o táxi chegou eu botei Clara dentro e disse que em minutos estaria lá, falei que lembrei que tinha que ir na secretaria entregar um documento que já faltava a tempos na minha matrícula, mas que agora estavam enchendo o saco. Por sorte ela não desconfiou de nada e foi embora sem mim. Assim que o carro desapareceu na esquina eu respirei e fui até lá. Ele ainda estava lá e só quando eu estava chegando que ele tinha percebido que o reconheci. Abriu um sorriso que me fez tremer.
– Você não sabe o que está fazendo! Deixa ela em paz, não a ameace, você é um psicopata, vamos te por atrás das grades de novo.- Falei assim que abri a porta e o olhei. Aquele sorriso cínico, aquele olhar do mal me fitando, ele era um doente mental.
– Ei, calma. Não faça escândalo. Está bem corajosa e com bons olhos, hein!? Me viu aqui, escondidinho, só observando as donzelas.- Ele soltou um risinho.- Mas então quer dizer que ela contou tudo? Nosso plano de fugir também?- Dessa vez foi uma gargalhada que saiu de sua boca.
– Olha aqui, Paulo, quem você pensa que é? Desiste! Desiste de ser assim, um babaca, um doente mental. A Clara não gosta de você, você só fez mal pra ela, só fez ela sofrer e se machucar, e eu não estou falando sentimentalmente, mas fisicamente. Se você voltar a atormentar e ficar fazendo ameaças, é pra trás das grades que você vai voltar.- Meu dedo apontado pra ele tremia.
– Oh, que medo. Acho que vou fazer xixi nas calças de tanto medo que tô de você!- Ele falou rindo, mas logo sua cara se fechou e seu olho ficou mais negro do que nunca, ele agarrou meu braço.- Você vem comigo, agora! Vai se arrepender de ter levantado esse dedo e essa voz pra mim. Eu disse pra vadia da Clara não falar nada pra evitar isso, mas ela não tem jeito. Que porra! Se der um pio, eu te mato!- Ele disse me mostrando uma faca que tirou do bolso.
Eu não sabia o que fazer, eu só senti que as lágrimas estavam escorrendo pelo meu rosto, eu estava com medo, eu estava com muito medo. Ele havia me mostrado uma faca e estava me obrigando ir sei lá pra onde com ele. Aquilo não estava de jeito nenhum acontecendo. Pensei em tudo, pensei em todas as coisas da minha vida. Ele era capaz mesmo de me matar? Será que faria tal crueldade? Mas pra ele, nada era crueldade. Ele era capaz de tudo! Eu sentia meu sangue gelar cada vez mais, só queria que aquele pesadelo acabasse.
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