Acordei com uma luz refletindo em meus olhos. Félix estava em minha frente segurando uma lanterna e mexendo a luz que saía dela. Ele deixou sobre a mesa em que ficava o livro um prato com dois pães e um copo de leite.

— Hora de acordar. — Felix disse abrindo um sorriso. Ele estava vestindo um colete preto, assim como Jax no dia anterior.

— O que vocês fizeram comigo? — Pergunto, um pouco nervosa e com medo do que ele irá fazer comigo.

Ele caminhou mais perto de mim, só que agora em direção às minhas costas. Naquele momento eu estava em pânico, porém tão em choque que não conseguia demonstrar nada, apesar que minhas mãos escorrendo suor falavam por mim. Eu sabia que era naquele momento em que minha vida acabaria. Félix estava pronto para me matar e acabar com tudo o que eu tinha visto ali. Eu estava vulnerável, sem qualquer possibilidade de ação. Seria fácil.

Senti uma dor terrível, lágrimas escorreram involuntariamente dos meus olhos. Porém, era só a fita adesiva que estava me mantendo presa sendo retirada de mim, levando junto todos os meus pelos.

— Aíí! — Não pude conter um grito assim que ele retirou toda aquela fita de mim.

— Sinto muito. — Respondeu com aquela voz terna, novamente.

Félix não disse mais nada. Apenas caminhou em direção à porta e me deixou ali, com meu café da manhã. Eu estava faminta. Assim que ele fechou a porta fui atacar o primeiro pão, consequentemente o comi em poucos minutos. Mas o barulho da porta se abrindo interrompeu o momento. Era Jax. Ele estava usando o mesmo colete do dia anterior, idêntico ao de Félix, exceto pelo fato de possuir o nome dele no canto. Ele veio em direção a mim. Em poucos segundos, ele estava próximo o bastante para que eu pudesse sentir seu perfume doce e até mesmo sentir baixinho sua respiração, que, com certeza, faria qualquer garota sentir uma vontade imensa de ficar ali para sempre.

— O que eu faço com você, Lauren?... — Ele sussurrou como se eu não estivesse ali. Ele olha para baixo e para os lados procurando por uma solução.

— Você poderia simplesmente me deixar ir. — Eu devolvi o sussurro. Ainda estava nervosa e com medo, porém mais confortável do que quando Félix estava ali.

Ele abriu um sorriso para mim, mas desfez alguns segundos depois.

— Não posso fazer isso. Você sabe que acabou de se meter em uma bomba cronometrada para explodir, não é? — Ele não hesitou, me olhou e franziu a testa.

— Como... Como assim?

Jax se afastou e escorou em uma das estantes que estava próxima de nós. Ainda continuava com o olhar fixo em mim. Sem dúvidas, aqueles eram os olhos mais incríveis, nunca tinha visto nada igual. Seus olhos eram da cor do mar e eu sentia uma vontade tremenda de navegar neles, mas eu sabia que eles eram como o mar em clima de tempestade. Eu me perderia neles.

— Responder essa pergunta só pioraria mais sua situação. — Deu uma risada e desviou o olhar para uma das estantes em que ficavam outros coletes como o que ele estava usando.

— Só quero entender o porquê.

— Acredite, é melhor você não querer saber. Somos só motoqueiros levando uma vida difícil. — Foi tudo o que ele conseguiu dizer.

— O que irão fazer comigo? Me manter presa aqui eternamente? Dar um sumiço em mim quando estiverem prontos? Vocês sabem que meus pais já devem ter ligado para a Polícia e elas irão me encontrar. É melhor me deixar ir antes que piore para vocês, não irei contar nada, por favor. — Eu já estava irritada e desesperada com tantos segredos.

— Não existe Polícia para nós, Lauren. Nós somos a lei.

Jax deixou de se apoiar na estante e saiu andando em direção à porta sem dizer mais nada. Eu estava sozinha, novamente. Sentei-me na cadeira e fiquei refletindo sobre nossa conversa. Não encontrei respostas para nada daquilo que estava acontecendo comigo.

Porque Félix havia sido tão bom comigo e agora estava sendo tão mal me mantendo aqui? Era como se ele tivesse me dado tudo e, de repente, tomado de uma só vez. Ele me deu histórias, uma casa confortável e agora pretende apagar tudo da minha memória de uma forma cruel. Tudo o que eu queria fazer naquele momento era correr e gritar o quanto aquilo era injusto. Mas ao invés disso, fiquei quieta, chorando baixinho. Levantei a cabeça e fiquei analisando todo aquele lugar, cada detalhe. Avistei o livro novamente, fui, então foleá-lo. Precisava ter algo que me explicasse o porquê disso. No exemplar só haviam nomes e ao lado datas, várias pessoas e datas listadas. Páginas e páginas de registros.

Um nome em específico me chamou a atenção. Joans Oliver. Esse era o nome do meu tio, que era bem próximo de mim e de toda a minha família, ele era bom com todos, com exceção das vezes em que ele perdia a paciência e a serenidade com as irresponsabilidade de seus dois filhos. Era uma pessoa boa no geral. Era. Ele foi assassinado de 2 de Junho de 1999. Esse era o dia em que constava no livro ao lado do nome do meu tio. Aquelas datas só poderiam ser o dia em que aquelas pessoas deixaram de existir. E eu jamais poderia me esquecer do dia exato em que esse episódio aconteceu com umas das pessoas mais importante para mim. Joans estava indo para a minha festa de aniversário de 6 anos, mas não conseguiu chegar porque uma van preta cercou seu carro e dispararam um tiro pela janela do automóvel. Acertou em cheio no peito dele. Ele não teve chances e nem esperanças, os médicos deram o laudo de que ele morreu segundos após a bala entrar no corpo, não conseguiu resistir.