Uma Vida de Anarquia

4 Correndo como um Cão


Não tive reação. Descobrir aquilo me deixava pensando em milhares de hipóteses sobre quem eram aqueles caras e o que faziam. E eu tinha medo de imaginar. Confesso que fiquei um bom tempo parada observando aqueles registros, com a minha mente totalmente confusa. Eu precisava sair dali a qualquer custo. Eles poderiam se livrar de mim tão facilmente e tão cruelmente como fizeram com meu tio em poucos segundos, e ninguém nunca saberia o que aconteceu.

Olhei por todos os cantos daquela sala, tinha de haver alguma saída. Comecei a procurar entre as estantes, embaixo das mesas, dos tapetes, revirei todos os livros que estavam organizados em sequência de cores e até mesmo apertei alguns botões que ficam perto de um aquário enorme na esperança de encontrar alguma passagem que me levasse para fora daquele lugar. Mas nada consegui. Não encontrei nenhuma brecha naquele lugar, se tivesse alguma saída, com certeza, eu não iria encontrar. Por fim, sem esperanças, escorrei minha cabeça na porta e a tristeza me dominou, não pude conter a decepção de não ter encontrado nada, nenhuma pista. Forcei a maçaneta com raiva e, para a minha surpresa, ela estava destrancada. Porque diabos ela não estava trancada? Eles tinham esquecido ou fizeram propositalmente?

Sem hesitar, eu empurrei vagarosamente a porta para que não fizesse barulho algum. Subi as escadas cuidadosamente e cheguei até a sala de estar. Olhei em todas as direções e estranhei porque não havia sinal de que nem um e nem outro estaria em casa, o que era estranho, porque além de deixarem a porta destrancada também não estavam por ali. Imediatamente, caminhei lentamente em direção à porta de saída e girei a maçaneta. Estava trancada. Ao lado da porta haviam janelas enormes cobertas com cortinas no tom amarronzado que iam do início ao fim da parede, as quais outrora estavam escancaradas e eu estava alinhada, do lado de fora, contemplando aquela bela casa. Através delas vi que o dia já estava escurecendo, a noite estava começando e as estrelas estavam surgindo no céu meio laranja meio azul escuro.

O que eu faço agora, meu Deus? Eu perguntei em minha mente enquanto olhava ao redor procurando por alguma solução.

As janelas eram a minha última esperança. Vi ali a oportunidade para a minha fuga. Tentei abrir aquelas enormes persianas e forçar as janelas. Porém também estavam trancadas. No mesmo minuto, me lembrei que aos meus 17 anos eu tinha observado meu pai romper cuidadosamente a janela da casa da minha avó Grace. Eu e ele tínhamos saído para comprar um relógio para a minha mãe porque era seu aniversário e minha avó tinha ido à feira comprar ingredientes para o almoço. Voltamos das compras primeiro que a minha avó, e, com pressa, não pegamos a chave extra, então meu pai, sem paciência, tirou um clipe de dentro do bolso de sua calça que prendia alguns cupons fiscais e conseguiu manuseá-lo dentro da fechadura até conseguir abri-la. Eu observei cada passo dele e eu me lembrava de alguns, por isso me ousei a tentar. Mas eu não fazia ideia se ali haviam clipes e, se existisse, não saberia por onde começar a procurar. Então, fui até a cozinha e revirei as gavetas até encontrar uma faca pontiaguda o bastante para que eu pudesse substituí-la pelo clipe. Com cuidado, coloquei em prática o que eu tinha observado meu pai fazer. Funcionou, a janela de carvalho branco se abriu. Quando ouvi o barulho da tranca se rompendo não pude conter minha felicidade, dei um sorriso e fiquei orgulhosa por ter conseguido aplicar o que meu pai ensinara naquele momento desesperador.

Imediatamente, passei uma perna para fora e em seguida a outra. Agora eu estava totalmente fora daquela casa, então atravessei correndo o gramado, contra o vento, tão rápido quanto um cão. Enxuguei as lágrimas ao ar livre enquanto tentava afastar todos os pensamentos mórbidos. Eu fiquei aliviada quando me virei para trás e a casa estava ficando longe até se tornar minúscula. O tempo estava fechado e as ruas estavam sustentadas pela iluminação da lua cheia.

​Só mais um pouco, Lauren. Você consegue, falta pouco! Foi tudo o que eu consegui dizer para mim a fim de que eu pudesse continuar correndo.

Minhas vistas estavam começando a falhar, pensei diversas vezes que eu não iria conseguir chegar em casa viva. Todavia, lutei para me manter firme, mas podia perceber pelo meu suor e pelo meu correr que eu estava sofrendo bastante com a desidratação e com a fraqueza de um corpo sem nutrientes e energia.

Eu finalmente consegui chegar em casa. Um lugar pequeno com quatro palmeiras em frente e uma varanda mais atrás onde tinham cadeiras confortáveis e uma rede para descansar aos fins de semana. Ali encontrei a paz e senti uma vontade incontrolável de desmaiar. Lamentei uma dor horrível na barriga e parei em frente à porta de casa, nesse momento senti um choque e minhas pernas perderem a firmeza. Antes que eu pudesse tocar a campanhia, caí no meio da varanda, sozinha e gritando de dor. Eu fiquei lá olhando para o teto, à medida em que as dores iam aumentando mais do que eu podia suportar. Eu mal conseguia respirar ao sentir as dores que vinham em ondas e tomavam conta de todo o meu corpo, uma após a outra. Deitada completamente sozinha, era uma agonia que eu não poderia descrever. Me inclinei para trás e gritei pelos meus pais.