Uma Vida Qualquer, Ou Quase Isso
4 Uma voz. Um sentimento
Silêncio. Nenhum barulho capaz de ser escutado por ouvidos humanos estava presente naquele momento. Eu estava sozinho, no fundo do chão, dentro de um táxi. Encolhi minhas pernas, abracei-as e fiquei agachado entre o banco dianteiro e o traseiro, com a cabeça entre os joelhos, esperando algo acontecer.
Quatorze anos, tanto pouco tempo, e agora, vou morrer, simples assim.
Não posso ouvir nada, me questionei, abri a boca, tentei modelar as palavras a ponto de conseguir pronunciar algo bonito mas não saia nada. Como qualquer um, me senti preocupado, estaria eu, surdo? ou mudo? ou simplesmente dominado pelo medo de tal forma que não conseguia pronunciar uma palavra? Ignorando tudo, chutei a porta do carro na esperança de ser um sonho. Não. Era real, deitei-me, com os pés na janela do carro, pois era pouco táxi para muito eu. Alguém diria que não conseguiria dormir com tanto medo, mas o sono era maior, meus olhos semiabertos me pediam que os fechasse, e assim fiz, sobre o meu braço, descansei.
Como se fosse novidade, sonhei. Não com pôneis, arco-íris e borboletas e sim, com aquele "breve e esperado" futuro do qual as letras falavam.
Lá estava eu, amarrado das mãos e dos pés, preparado para levar aquela seção de cócegas com uma pluma na barriga. Quem dera que fosse assim. Finalmente escutava, o barulho de passos, altos e puros, ecoavam no meu ouvido, sem dono. De repente, diante mim surgiu uma sombra. Que sombra? aquela sombra. A que sempre surgia no dia do meu aniversário, aquela sombra que tanto me angustiava, aquela sombra. Mas agora, tinha um dono, um senhor alto, barbudo, com as pernas fiiinas e uma pança enorme. "Meu pai?" pensei, mas logo mudei de ideia, esse homem não era nada elegante, nada especial, como dissera minha mãe.
– Ah, ah, ah. Aqui está você, homenzinho, quem diria que alguém tão poderoso como você se deixaria fácil.
Poderoso? Como assim? Só poderiam estar errados, eu não era nada poderoso. Não mesmo. Sentia saudades das minhas tostadas com mel. Queria voltar para casa. Além do mais, aquela voz não era do homem, nem da sombra, vinha do além, sendo que o homem mexia os lábios, estaria ele, sendo dublado? Em seguida, retruquei: — Quem é você? E, ah, quero minhas tostadas... Você tem algo de comida para me oferecer?! — Não sei da onde tirei tanta coragem, mas a voz me respondeu: – Comida? Sim! Temos de montão! He he. O problema é que não posso te oferecer nada antes de cumprir suas obrigações! O quê? Obrigações? Que obrigações? Sem mais nem menos, o homem pançudo me sacou das correntes e me levou — me arrastou, quero dizer — até outra sala. Afinal, onde eu estaria? Em um palácio subterrâneo?
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