Uma Viagem Perfeita
38 Capítulo 35 - Dança e canto, algo melhor?
Notas iniciais
Hoje, peço que escutem quando eu pedir essas duas músicas:
- Beauty and The Beast - http://www.youtube.com/watch?v=3n_5xo9YpmQ
- Once Upon a December.- http://www.youtube.com/watch?v=RpEoMe4a0IE
Vou pedir para ouvir em ordem... Beijinhos.
Do outro lado do navio, Afrodite puxava o braço de um Apolo preguiçoso. Ele, sem saída, havia contado tudo à deusa, assim que a mesma aparecera, a sua procura. Desde a parte em que brigara com Artemis até o beijo do qual ainda se recordava neste momento enquanto era guiado sem saber para onde pelos cômodos internos do transatlântico.
Artemis.
A todo segundo, perguntava-se aonde ela se encontrava e como estaria depois do que fizera ela. Sua maior tese era a de que talvez, quase certeza, de que ela estivesse com nojo e desejando mais do que tudo matá-lo. Pois esta, era a única expressão que poderia vir de alguém que te odeia muito. Suspirou.
E ela sempre me odiará.
Um pouco depressivo, mais do que se acostumara, retirou-se a si mesmo dos pensamentos e tratou de retirar informações para o local que era levado.
- Se você não me contar para onde vai me levar, eu vou contar o que sei de ontem à noite para Ares — era um tiro no escuro, mas estava disposto a saber onde seria sua prisão.
Afrodite nem se quer deu corda.
- Pode contar o que eu não fiz, se recordar de algo.
Apolo suspirou.
- Vamos lá, Afrodite, diga-me aonde vai me deixar encarcerado.
A deusa revirou os olhos.
- Deixa de ser dramático, Apolo, só vou fazer um mega favor para que meus amigos possam jantar comigo.
- Um mega favor igual ao que você fez com Artemis ao deixá-la dormir com um cara.
Afrodite riu.
- Apolo, você é o cara mais fofo que já vi quando está com ciúmes.
- Eu não estou com ciúmes.
- Uhum, sou eu que estou. Bem — ela parou a frente de uma porta e sorriu -, chegamos. — Como sempre, com sua curiosidade, Apolo tentou virar a maçaneta. Afrodite o impediu. — Na na ni na não, Apolo. Vou primeiro explicar o que deve fazer.
O deus suspirou, exasperado.
- Entregue-me logo ao Tártaro, Afrodite. Vai ser melhor.
- Como você está chato hoje, argh! De qualquer jeito — jogou os fios castanhos para o lado -, isto daqui vai estar longe de ser o Tártaro, se bem que eu não faço a mínima idéia de como seja lá. Provavelmente, muito...
Apolo a cortou.
- Afrodite, o que você quer que eu faça?
- Ah, ok, desculpa. Foco. — suspirou — Eu quero que você seja paciente e amoroso. Isto é tudo, tchau.
Algo bem clichê de Afrodite, ela saiu correndo, sem explicações maiores, a deixar um deus perdido e só com uma mão em uma fria maçaneta que nem se quer sabia para onde ia.
Tártaro, talvez?
Ele riu de si mesmo. Estava mesmo tão louco para sofrer assim? Desde quando se tornara tão melodramático?
- Vamos nessa — com essas palavras de auto-insentivo que abriu a porta.
Afrodite não mentira quando pedia que ele tivesse paciência.
Crianças, umas doze que ele pode contar, corriam de um lado ao outro, principalmente garotos. Algumas sentadas ao chão. Outras, garotas, brincando de boneca. Todas em torno de cinco a sete anos. Riam, um som gostoso de se escutar, que o fez sorrir. Ao menos, Afrodite achara algo em que ele poderia relaxar e se divertir. Assim que fechou a porta atrás de si, elas pararam o que faziam e o fitaram, curiosos. Olhares inocentes, alegres e livres de qualquer problema. Isso, era sem duvida, o lar dos anjos.
Mas, não fora isso que o deixara um pouco desconfortável.
E sim, uma mulher, a mesma que havia beijado e corrido, horas atrás, encontrava-se sentada no meio de uma pequena rodinha de crianças mais novas, o encarando.
Era claro que deveria esperar algo do gênero de Afrodite. E isto estava ficando cada vez pior. Esbarravam-se mais vezes, mais do que deveria ocasionalmente, e logicamente, viam-se mais, escavando sentimentos soterrados pelo ódio e pela dor.
Mas, jamais esperava Artemis por ali, entre pequenos e lindos humanos.
Uma mãozinha pegando a sua tirou-o daquele transe e o levou a fitar embaixo.
Uma garotinha de pele bronzeada, olhos castanhos e cabelos quase pretos, sorria um sorriso com lindas covinhas.
- Vem, vem conhecer a nossa amiga — sua voz infantil fez todos voltarem as suas atividades por poucos segundos, antes de correrem para onde Artemis lia algo a eles. Sem dificuldade alguma, a menininha, agora de dedos trançados aos dedos muito maiores do deus, os guiou até a frente de Artemis, que falou as ultimas frases do livro e os encarou — Está daqui é a Claire, nossa melhor amiga.
Como se não o conhecesse, a deusa da caça beijou-a no rosto infantil e estendeu a mão para Apolo.
- Sou Claire — sorriu, ambos a ignorar o choque de suas peles tocando-se ao cumprimentar-se, e indicou uma cadeira ao seu lado que logo Apolo, ainda segurando a garotinha, sentou-se — Você é?
- Jensen — acomodou melhor a menina de cabelos castanhos — Quem é essa linda donzela?
Sorrindo do elogio, toda pomposa, a criança piscou os cílios.
- Eu sou Amy, tio Jensen.
- Amy, lindo nome, donzela.
Amy assentiu com fervor.
- Claire me disse que meu nome significa amor. Não foi, Claire?
Artemis sorriu.
- Foi, sim, meu amor.
Impressionado, Apolo sorriu para Artemis, algo se remexendo dentro de si ao vê-la dar-se tão bem com crianças.
- E, tio Jensen, eu descobri o que o nome dela significa.
O deus encarou Amy com afeto. Sentia os olhos da deusa sobre si, fazendo seu coração implorar para fitá-la, mas deu atenção a garotinha simpática.
- Sozinha?
- Uhum.
- E o que significa?
- Significa brilhante e... Aquela palavra difícil...
- Alva — sussurrou Artemis em seu ouvido.
Amy deu um pulo de alegria.
- Essa. Claire significa brilhante e alva.
Muito suavemente, Apolo desviou o olhar para a deusa, que sorria, com a visão da garota no colo do deus.
- Combina — Artemis corou com as palavras. — Um nome muito apropriado.
- Uhum. Tia Claire é linda, não é, tio Jensen? Parece uma Barbie que eu tenho.
Antes que ele pudesse responder, Artemis sorriu e mostrou-lhe um livro que segurava.
- Vou te dar uma missão, Amy. Acha que pode fazer isso por mim?
Com cara de séria, Amy assentiu, levando os dois a sorrir.
- Posso.
- Então, Amor, você tem um novo nome para procurar. Acha que consegue encontrar o significado do nome Jensen, aqui, neste livro?
Como resposta, Amy, aos gritos de felicidade, apanhou o objeto e fora se esconder perto da janela extensa de vidro que dava vista ao mar, ansiosa por ajudar Claire.
Assim que se viram sozinhos, Artemis o olhou.
- O que faz aqui? — tom bondoso — Pensei que odiasse crianças.
Ele deu de ombros.
- Eu gosto de criança, mas eu não sabia que você gostasse.
Uma sombra de sorriso apareceu nos lábios avermelhados enquanto encarava as garotas indo as "compras" com suas Barbies.
- Elas fazem bem. São atenciosas, amigáveis e risonhas. Alem de ficarem o dia todo aqui, seus pais lá fora, se divertindo nas festas. — ela o olhou — São sozinhas. Gosto de estar com elas. Sem contar que me sinto... Preciosa aqui dentro. Elas gostam de mim, me procuram. Sinto-me uma...
- Mãe — terminou ele, um pouco comovido com o que acontecia com aquelas crianças. — Uma irmã.
Ela assentiu para ele.
Ambos seguiram-nas com os olhos, notando como sorriam ou como emburravam, como eram... Felizes mesmo sem os pais. Um silencio cheio de segredos os rodeou e viram-se, calados, admirando-as. Eram lindas, sem duvida. E pela primeira vez, Apolo sentiu algo semelhante a desejo, um pouco mais fraco, de ter uma criança como aquela. Aquela vontade que os pais tinham de levar os filhos para se divertirem ou de darem-lhe atenção. De ser amado e ter aquele amor de volta. Viu-se sorrindo com aquilo e olhou para Artemis. A deusa, tão igual a ele, cuidava visualmente daqueles pequenos adultos, sorria o sorriso mais amável que já havia visto e parecia-lhe mais linda. A juntar os fatos, compreendeu o que o levou a encará-la: queria que fosse ela. Aquela mulher ao seu lado, tão imperfeita como ele, mas tão completa para si, fosse a mãe de seus filhos. Aquele modo como dizia afavelmente as coisas a eles, como ensinava ou como sorria o fazia querer ter uma família ao seu lado.
Depois de muito tempo a fitando, enquanto sonhava alto, que Artemis devolveu seu olhar. Ainda a sorrir, deu-lhe uma piscadela e empurrou de leve seu ombro, aparentemente, esquecendo-se de todos os maus que lhe fizera um dia.
- Tio Jensen, Tia Claire, achei, achei.
Amy sorria a frente deles.
- E o que o nome dele significa, Amor? — questionou Artemis, afável.
- Significa — olhou para o livro — De-deus Bondoso.
Desta vez, os deuses se olharam e riram da piada interna. Apolo afagou-lhe os cabelos pretos e piscou para Amy.
- Acertou na mosca, Amy.
- Você é um deus, então, tio Jensen?
Entrando na dela, ele assentiu.
- Sim, sou um deus.
- Serio mesmo? Não está me enganando, tio Jensen?
- Juro que não, Amy.
Artemis ria ao lado deles.
- Se você é um deus, é o deus do que?
- Deus da música.
- Oba — Amy bateu palmas — Música. Você toca para nós?
- Seu pedido é uma ordem, Amy.
Atendendo ao que lhe foi proposto que apanhou, com a ajuda de Artemis para encontrar, um violão. Dedilhou rapidamente para ver se estava afinado e inclinou-se para Amy, que dentre as crianças sentadas no circulo, chamava-o com avidez.
- Canta uma música beeeeem bonita, tio Jensen.
- Pode deixar comigo, Amy — piscando, virou-se para Artemis — Alguma dica?
Ela franziu os lábios.
- Que tal... Um bem clássico e que eles gostem?
- Qual?
- Sabe o tema da Bela e a Fera?
- Você começa, não esqueça.
[ESCUTEM "BEAUTY AND THE BEAST"]
Suavemente, em poucos segundos, ele começou a tocar, de olhos fechados. Ao seu lado, Artemis passou a cantar, a voz calma e delicada dela seguindo os acordes. As crianças sorriam para ela, que agora, dançava a sua volta, cantando como se conversasse com elas. Então, chegara a sua vez e viu-se a fitando, sorrindo como um bobo. Piscou para os garotos que a encaravam. Logo, as suas vozes se juntavam para o refrão. Era o ritmo e a harmonia perfeita. Não haveria explicação para aquela química que os entornava. Era como se a própria música tivesse sido feita por eles.
Em um dos pedaços do refrão, Artemis abraçou-o por trás, ainda a cantarem. A alegria aumentou os dois, as vozes entrelaçando até o final.
Juntos, disseram o final e os dedos do deus pararam ao acordes certo.
Foi uma pequena, mas gratificante salva de palmas para eles.
- Nada mal — sussurrou ela em seu ouvido antes de soltá-lo para colocar as mãos em seus ombros. — Então, qual vai ser a próxima música?
Mãozinhas ergueram-se, implorando para serem escolhidas. Os deuses riram.
- Tia Claire, tia Claire — uma garotinha de cabelos ruivos e pequenas sardas gritou — Nós ensina a dançar como princesas?
- E príncipes — remendou um garoto sorridente.
Apolo olhou para cima, para Artemis e, assim como todos, esperou pela sua resposta. A deusa sorriu.
- Ok, ok — uma onda de "obas" — Arrumem seus pares, príncipes e princesas.
Amy ergueu a mão.
- E o seu príncipe é o tio Jensen, não é, tia Claire?
Uma garota de incríveis olhos verdes ao seu lado concordou sorrindo como todos os outros faziam.
- Eles são perfeitos como a Cinderela e o príncipe juntos — esta suspirou.
Artemis riu, mas Apolo via o modo como corava. Deixando de lado o violão, ergueu-se e fez-lhe uma graciosa reverencia. As garotas foram à loucura, os garotos olhavam curiosos.
-Concederia-me — estendeu a mão para Artemis que sorria, divertindo-se com aquilo — A honra de dançar comigo, Alteza?
Com os incessantes "sim" de todos, a deusa deitou os dedos gelados na palma dele, recebendo o leve aperto do deus.
- Será um prazer, Alteza — e fez uma reverencia, antes de ligar um rádio atrás de si e deslizar até a frente de Apolo — Vamos lá, príncipe, guie-me ao som de Anastácia. [ESCUTEM "ONCE UPON ON DECEMBER — ANASTACIA" EM INGLES]
Ele sorriu, fitando seus olhos.
- Com todo o prazer, princesa — para então deslizar uma mão até a cintura da deusa e a trazer mais para perto, sentindo-a pousar com delicadeza de uma pena os dedos em seu ombro. — Príncipes, segurem com cuidado a princesas — falou vendo-os imitá-lo. Assim que todos estiveram juntos e corretos ao máximo possível — Agora, dois passos para lá e dois para cá — ilustrou guiando Artemis com maestria.
- Vejo que sua vida Boemia ensinou-lhe isto — brincou a deusa enquanto deslizavam suavemente dentre as crianças, fitando seus olhos, inertes ao que ocorria lá fora.
- Ensinou — rodou-a lentamente e voltou-se ao passo anterior — E a principal idéia era aproveitar o amor, a felicidade e as noites.
- Aprendeu isto?
- Sem dúvida.
Com uma piscadela, aumentou a velocidade da dança, agora mais fácil a eles seguirem os passos. Assim como na música, jamais erravam, completavam-se, faziam passos que nunca haviam se quer ensaiado e seguiam um ao outro sem medo. Eram... Completamente compatíveis.
- Então, devo presumir que teve a vantagem de dançar com muitas princesas, Príncipe?
- Filas e filas delas. Devo presumir o mesmo de você, Alteza?
- Lamento informar-lhe, mas sim.
Apolo riu.
- Adoro quando você faz isso.
- Isso o que?
- Isso de me provocar. — revirou os olhos — É tão... Artemis.
- Isto — ela revirou os olhos — É tão... Apolo.
- Ei eu não faço muito isso!
Outra vez, ela revirou os olhos.
- Você ia fazer agora, admita, eu sei que ia.
- Ou talvez não — ela fitou-lhe com uma sobrancelha arqueada — Ok, ok, eu ia fazer isso antes e agora de novo.
A deusa riu.
- Viu? Eu sempre acerto, te conheço como a palma da minha mão.
- Uhum, conhece.
- Pode tirar esse tom sarcástico. Eu sei que pouco te conheço — encarou-o, sem brincadeira naqueles olhos prateados. — Nem sei quem é esse Jensen amável e legal com as crianças que dança valsa comigo.
Por poucos segundos desviou o olhar, recordando bem de onde ela tirara aquela resolução. Mentiras. Blasfêmias. Ameaças. E então, ele a fitou outra vez, mais serio ainda. Queria tanto contar-lhe. Ela estava ali, esperando uma resposta sua, encarando-o com olhos brilhantes e misteriosos, dançando com ele.
- Você me conhece muito mais do que pensa.
Ela não desviou o olhar, mas ele a viu destilar o que lhe foi dito.
- Quanto te conheço? — sorriu triste — Duvido muito disto, Apolo. Desculpe.
Ele a trouxe para mais perto.
- Eu juraria me conhecer muito mais do que eu mesmo me conheço.
Com isso, o deus a girou e nada falaram depois. Apolo havia dito o possível. Havia ao menos dado-lhe a pista, bastava ela descobrir. Ela decifrar.
Claro, se ela desejasse isso. Talvez, de fato, quisesse esquecê-lo e viver uma nova vida. Suspirou com a dor que sucedeu. Seria o valor a se pagar pela felicidade dela.
Surpreendentemente, ele a sentiu deitar a cabeça em seu peito, e tão igual a ele, suspirar.
- Queria eu, te conhecer, Apolo. Você é um perfeito estranho.
Mudando de assunto, a fim de evitar outro clima tenso, ele a abraçou mais forte e aspirou aquele cheiro de floresta, flores selvagens.
- A música está acabando.
- Um pouco grande, não acha?
- Não o suficiente — piscou — Últimos passos.
Muito cuidadosamente, Apolo a fez deslizar pelo seu braço e sorriu ao tê-la de volta, girando os dois em pequenos círculos para o outro lado. Os pés iam de um lado a outro da comprida sala.
E viram, ao final, que todas as crianças pararam e os encaravam. Ainda a ver como ela era linda, Apolo a rodou duas vezes e cumprimentaram a platéia, com uma reverencia dupla. As crianças gritaram e correram para eles.
Apolo, segundos antes de ser "atacado" analisou os olhos de Artemis e sorriu. Ele sabia que ela conseguia ver atrás de sua mascara. Só teria de permiti-la fazer isso. E, talvez, nem tudo estivesse tão acabado. Mas, obvio, era tudo uma hipótese.
Fale com o autor