Uma Viagem Perfeita

25 Capítulo 22 - Viva a California


Notas iniciais
Ferias chatas na casa da prima. Quase sem net kkkkkkk

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Desceram por volta de seis da manha sob o fraco sol de Califórnia, que ultrapassa os vidros fumes do Aeroporto Internacional de Los Angeles. A movimentação do local tirou qualquer torpor dos deuses, que tão acostumados que ficaram com a calmaria das cidades européias, até, poucos segundos, ficaram perdidos ao tentarem achar as suas malas. Mas, o dia começara bem para eles, e logo encontraram o que precisavam.

Com muita calma, Apolo andou pelo estacionamento, de mãos dadas com Artemis, a procura do carro do qual Afrodite ocupara-se de alugar. Mais uma vez, Apolo teve a certeza de que a deusa Barbie tinha muito bom gosto e adorava velocidade.

Uma lustrosa e esportiva Ferrari vermelha ultimo modelo piscava para ele quando o mesmo apertou a chave ganha da comissária de bordo logo que pousaram. O veiculo esbanjava um ar de perfeição ao local, pela visão dele, já perfeita. Só de ter Artemis.

O deus sorriu para a garota e abriu a porta. Artemis entrou sem dizer nada, mas um sorriso brincava em sua boca. Ele não tinha palavras para explicar como estava. Havia acordado com ela em seus braços, ressonando em seu pescoço, em segurança. E sem duvida de que este dia seria gravado para sempre em sua memória. Em um piscar de olhos, Apolo ligava o carro e digitava a rota em seu GPS. Podia ser o deus mais machão, mas se perder em um estado daquele com uma garota de longe era seu desejo, alem do mais, o que mais queria agora era dirigir. Estava em êxtase só por fazer isso.

– Para onde vamos? — perguntou uma voz em seu ouvido, debruçada sobre seu ombro, tentando a todo custo descobrir o trajeto que o objeto de bordo tracejava e explicava. Apolo sorriu.

– Vamos para Crescent City.

Ele escutou um resmungo.

– Vai ser o dia todo de viagem. Será que Afrodite não tinha um lugar mais perto não?

– Acho que não. Ela quis um local bem mais... Privado. E desde quando sabe onde fica Crescente City?

– Por causa da caçada. Já viemos atrás do Minotauro lá, ele estava fazendo bagunça demais e os humanos começavam a desconfiar.

– E ficaram muito tempo?

– Não, só viemos e fomos embora, ainda tínhamos outros lugares para irmos.

– Então, dessa vez, você vai para se divertir comigo.

Ela revirou os olhos enquanto ele dava re e virava o volante para a rua que deveriam seguir. E um sorriso espalhava-se pelo seu rosto. Apolo acelerou.

– Teremos um dia, eu acho, antes que todos cheguem — explicou ele, com um passar de marcha — Então, poderemos aprontar.

Artemis franziu muito levemente sua testa.

– Mas, Afrodite, não disse que estaria lá assim que chegássemos?

– "Vai ter um desfile da nova Coleção da Victoria Secret's e eu preciso comprar novos lingeries. Então, gato, vou ter que demorar um pouco. Devo chegar amanha. Doces beijinhos, da Dite." — ela riu da imitação dele da deusa — Foi isso que ela me disse hoje mais cedo quando a liguei.

– Parece que desfiles valem mais que sua família.

– E eu agradeço isso. Ela já está fazendo confusão demais.

Ele viu pelo canto de olho, quando pegou o caminho que levava a Rota 5, ela erguendo uma sobrancelha.

– Ela está fazendo uma bagunça, é?

Foi neste exato momento em que viu a besteira que havia falado. Por que dissera isso? Era tão obvio que a deusa estava colocando sua vida de cabeça para baixo com a chegada de Artemis, mas não admitiria tal coisa. E se odiava por ter tocado no assunto. Pigarreou, notando que algo estranho ocorria em seu rosto. Por acaso, estava corando? Soube a resposta antes de mesmo de dizer, com um sorriso da deusa.

– Sabe que ela sempre faz bagunça, Artemis.

Outra vez, limpou a garganta Ao menos sua voz havia ficado firme.

– Sei. E esta bagunça tem algo a ver com alguma garota?

Agora, ele imprevisivelmente sentia seu rosto pegar fogo.

– Claro que não — tentou uma revirada de olhos totalmente patética.

E nem mesmo havia terminado e Artemis ria. O som de sua risada o descongelou do medo dela descobrir ser ela a garota.

– Você fica engraçado quando está sem graça, Apolo.

Sorriu.

– Eu sou engraçado.

– E sempre se acha.

– Sempre, com isso eu concordo.

– Exibido.

Ambos riram, se divertindo com isso quando Artemis pediu a ele que parasse um pouco a frente, sem muitas explicações do que faria. E o deus jamais negaria um desejo dela. Assim, estacionou a Ferrari, um dos poucos carros realmente chamativos, atrás de um Mustang antigo muito bem conservado em preto, mas não desligou o motor.

– Volto rapidinho — disse a ele, apanhando a sua carteira e já abrindo a porta. — Em dois segundos.

– Seja rápida, temos muito para andar ainda.

Artemis assentiu, se inclinando pelo banco para lhe dar um selinho surpresa e saiu, batendo a porta atrás de si. Apolo estava simplesmente em jubilo com seu jeito novo. Libertino, divertido e extravagante, sem medo de ser feliz. E outra vez se viu notando fazer tudo para ver aquele sorriso só dele, isto virava rotina. Não havia uma hora em que seus pensamentos apagavam aquele rosto de sua mente. Ela tomava sua vida de uma forma única.

Era... Artemis.


Poucos minutos depois de minutos torturantes sem qualquer cd bom ou radio considerável para escutar, Artemis pulou para dentro do carro, com dois pacotes em suas mãos. O cheiro de café com algo mais doce invadiu e preencheu o interior do veiculo. Seu estomago roncou.

– Sabia que você ia ficar com fome — disse ela aos sorrisos — Por isso, trouxe seu favorito.

Apolo ergueu a sobrancelha, aceitando com vontade quando a mesma escorregou o pacote de papel pardo para seu colo.

– E qual é o meu favorito?

– Café forte e cookies de chocolate — piscou — Acertei?

– Acho que você é a única pessoa que já acertou isso.

Ela deu de ombros.

– Se eu fosse sua irmã, acho que gostaria do mesmo — e mostrou seus cookies e seu café, igual aos que havia comprado de desjejum para o deus — Somos muito parecidos.

– Muito — concordou com um sorriso seguido de um suave colar de lábios — Só não te beijo mais porque esse café esta muito quente e eu tenho o dom de derrubar qualquer coisa em cima das outras pessoas.

Artemis riu e ruborizada, afastou-se, para morder um de seus biscoitos com pedacinhos de chocolate.

Apolo seguiu seus passos, comendo com vontade, algumas mordidas grandes e muito café. Então, a viu parada, fitando o copo que levava em seu colo.Limpou a boca e a encarou.

– Artemis? Querida? Que foi?

Com um suspiro, aqueles olhos prateados fizeram contato com os seus.

– Estou pensando em como faremos nesses dias que seguirão. Como faremos?

E ele se fazia a mesma pergunta, ainda que não demonstrasse.

– Arrumaremos um modo... Só preciso pensar um pouco para ter... Arrumarei um modo, ok? — deslizou um dedo pelo rosto dela, sorrindo, confiante. — Confia em mim?

– Claro que sim, Apolo.

– Então... Sem preocupações, tudo bem? Vou planejar algo... Só que sem a ajuda de Afrodite.

Ela sorriu fracamente.

– Sem Afrodite.

E aquele simples repuxar de lábios o fez ver que valia a pena.

Assim, comeram o resto e juntaram as sobras dentro de um dos sacos, colocando-o ao canto. Assim que possível, jogariam fora. E sem mais espera, ao som de Shook Me All Night Long, do cd do ACDC comprado pela deusa, pegaram a estrada, em direção a Crescent City. Apenas 1476 quilômetros.

Longa viagem.


Apolo desligou o carro.

Era praticamente a metade do dia e a fome já se estabelecia outra vez. Com a espera de comer algo gostoso, segurou mais alguns metros, até chegar a Alameda Island. Talvez se tivesse chegado mais cedo, iriam ao museu de barco. Mas, tempo era essencial agora. Queria chegar antes do sol se por. Por mais divertida que fosse a idéia de dirigir durante a noite, Artemis estava consigo e a segurança dela barrava qualquer pensamento de diversão com taaanta adrenalina.

Muito delicadamente, Apolo saiu do carro, sem fazer barulho, deu a volta e abriu o lado de Artemis, que dormia por não haver nada que fazer, ainda que houvesse conversado grande parte do trajeto até ali. E o Iphone e um Palm, com seus e-mails atrasados, espalhavam-se pela sua perna, mostrando o quão ocupada esteve lendo os relatórios de Thalia.

Com cuidado para não tocá-la, jogou para o seu banco os aparelhos e, por fim, tocou seu rosto, acordando-a.

– Acorde, Cinderela.

Lentamente, um sorriso cresceu em seus lábios, ainda de olhos fechados, mimando.

– Apolo, é a Bela Adormecida que dorme.

– Tanto faz. — ela riu — Acho que deve estar com fome o suficiente para comermos algo.

– Que horas são?

– Passam das duas da tarde.

Suave, soltou um ronrono, antes de se por de pé, ainda trôpega.

– O que você quer comer, petite?

– Qualquer coisa, desde que seja gostosa e não muito gordurosa.

Fechando o carro com um "wiu wiu" das travas elétricas, Apolo passou um braço pelos seus ombros e começou a caminhar pela calçada, outra vez sem pressa de chegar.

Afinal, Alameda Island, pelo que conseguiu descobrir da cidade, era muito aconchegante e relaxada fora de estação. As casas eram bem cuidadas e todos os prédios eram bonitos. Uma linda cidadezinha, ou talvez nem tão cidadezinha assim. O sol forte da Califórnia recaia sobre eles, os esquentando de leve e molhando toda a cidade com sua luz dourada.

Sem força alguma, Apolo empurrou uma porta de vidro e adentraram o local.

– Amo Subway– foi a primeira frase que Artemis disse antes de praticamente correr, como uma criança, para pegar o cardápio.

Escolheu rápido e para quem não queria algo gorduroso, as camadas duplas de queijo se mostraram bastante... Amanteigadas. Mas, ele nada disse, pois escolhia o sanduiche e assim, pagaram, apos os pegarem já prontos e foram sentarem-se do lado de fora, sob a proteção de uma das varias arvores por ali, que de fato, criava uma Alameda.

– Gostei dessa cidade — anunciou Artemis, desfrutando-se de uma mordida do seu bem completo almoço.

– Uma mulher disse que aqui era legal.

– Uma mulher?

Ele assentiu com um sorriso safado para a sobrancelha erguida em arco dela.

– Sim.

– E quem é essa mulher?

– Vem cá, que eu te conto — disse pedindo que se aproximasse, e assim o fez. Baixo, como se contasse um segredo, sussurrou — A mulher do GPS.

Artemis caiu na gargalhada junto com ele.

– Seu... Idiota — falou entre lufadas de ar, aos risos, sem acreditar que havia caído na piadinha dele.

Depois de um tempo, as respirações se normalizaram e eles se olharam.

– Artemis.

– Ha?

– Você também acha a voz da mulher do GPS muito sexy?

Outra vez, a deusa riu e revirou os olhos, secando algumas gotas que escorriam.

– Ridículo.

–O Ridículo mais perfeito que você já conheceu.

– E mais exibido também. Ainda bem que eu gosto de você.

Ambos se fitaram, as brincadeiras esquecidas por um momento, então ela voltou a comer seu sanduiche sem nada mais a acrescentar.

Logo que terminaram de comer, colocaram o lixo no lixo, voltaram para o carro e Apolo retirou o saco de papel de dentro do automóvel, limpando-o e mantendo-o pronto para mais algumas horas de viagem. Se dessem sorte, chegariam poucos minutos antes do por do sol.

Outra vez, Artemis voltou-se para os seus e-mails e a única pessoa que teve para fazer companhia foi Dave Evans cantando Highway to Hell, em volume alto e, de fato, uma auto-estrada na qual pode acelerar até quanto queria, sentindo a potencia do motor e as curvas sinuosas e suaves de se fazer ao som da música.

Ainda teria muita estrada até seu inferno.



Chegaram a Crescent City no horário quase planejado antes mesmo do sol começar a se por, ainda escaldando lá em cima. Mesmo fora de época, a cidade fervilhava, pessoas alugando casas, lojas vendendo a vontade, restaurantes com muitos casais comendo algo antes do verdadeiro jantar e crianças brincando pela areia da praia, se divertindo com as ondas da beirada.

De óculos escuros, no modo conversível, Apolo colocou o cotovelo para fora, dirigindo com uma só mão, divertindo-se muito só com os pequenos filetes dourados sobre si e aquele delicioso cheiro de maresia que tanto apreciava.

Ao seu lado, Artemis prendia o cabelo em um coque frouxo, os óculos de sol já a proteger seus olhos prateados enquanto fitavam a cidade que ficariam por um tempo. Era confortável e acolhedora, de um modo que jamais pensou que Califórnia fosse ser, uma vez que nunca ter ido, pois odiava. Ou assim pensava.

Sem problema algum, atravessaram a cidade, em direção Pebble Beach, onde ficariam. Eram dois quarteirões do coração de Crescent City, com uma praia um pouco mais deserta e casas maiores.

Para a surpresa de ambos, pois pensavam em ficar um pouco mais para dentro, a casa era de frente a praia. Em dois andares, ela se dividia.

A parte superior em madeira nobre em um tom escuro e a parte de baixo, em sua maioria em vidro para aproveitar bem a paisagem magnífica que por ali tinham. E quase deixaram de lado a idéia de voltar ao Olimpo, caso este não fossem seus deveres.

Assim que desligou o carro na garagem, apostaram corrida até a parte de cima da casa, mesmo que pouco soubessem sobre a mesma, e, aos risos, subiram as escadas, passaram pela sala de estar, copa, cozinha e biblioteca até chegarem ao topo, um pouco ofegantes, apos corrido reto pela porta de quatros quartos e pararam abruptamente na varanda.

– Eu ganhei — gritou ele, rindo dela, por ter trapaceado e conseguido o posto de primeiro lugar.

– Isso foi injusto — reclamou, mas sorriu, a por as duas mãos na bancada, fitando os milhares de quilômetros azulados que em algum ponto parecia se juntar ao céu que se tornava escarlate, laranja e muito fracamente, rosado. — Apesar de perder, admito que valeu a pena, olha essa vista.

Apolo ergueu-se de onde estava sentado e fitou o horizonte.

O céu se dividia em cores, dissolvendo-se entre o fraco azul, criando se reflexo na água e banhando alguns rochedos ao redor da praia. Era uma visão que William Turner teria desejo de pintar com pinceladas e mais pinceladas coloridas e perfeitas.

O deus suspirou e a abraçou por trás.

– Você é mais linda — murmurou em seu ouvido a verdade que palpitava em sua mente em seu coração. Ela então se virou para ele. — Muito mais linda.

Um sorriso brotou nos lábios polpudos e delineados dela enquanto a mão pequena gelada escorregava pela sua bochecha.

– Amo quando seus olhos ficam dourados desse modo — o encarou — Vão ganhando a mesma tonalidade do céu. É...

– Perfeita — sussurrou, já contra seus lábios e por fim, os juntou em um suave encontro. O coração dele arrancou em disparada, o peito subindo e descendo rápido enquanto suas mãos buscavam aqueles cabelos negros macios e lisos que se enroscavam entre seus dedos com familiaridade.

Suspirou.

Beijá-la, era a melhor idéia que já haviam inventado em seu mundo. Aquele gosto de frutas silvestres de sua língua, intoxicava-o. Aquele cheiro de floresta e flores selvagens, atormentava-o até em pensamento. E aquela boca deliciosamente feminina e macia contra a sua, que era tão diferente, o fazia querer que somente ela existisse. Nada mais do que isso. E, como nunca havia ocorrido, viu-se como um verdadeiro apaixonado. Suas mãos tocaram a delicadeza da pele do final de suas costas e a trouxe para mais perto. Um suspiro dela tirou-lhe a respiração. Aquela mãozinha pousando sobre seu peito fez seu coração pular mais rápido e quando a mesma se inclinou para aprofundar o beijo, tudo em sua mente se dissipou, só ela sobrava. Somente ela. E a abraçou, soltando seus lábios, fortemente contra seu corpo.

Por tantos anos, nunca teve nenhum ponto fraco para um inimigo. Não tinha. Não até agora.

– Apolo — foi só o que ela disse, sua perdição, seu ponto fraco.

– Nunca nada vai te machucar, nunca.

– Confio em você, Apolo.

Suspirou naqueles cabelos envolta de seus braços e beijou-lhe a têmpora, ainda sem ar. Jamais algo ocorreria a ela.

Faria tudo por Artemis. Tudo.

Notas finais
=)