Uma Segunda Chance
2 Capítulo 1
Notas iniciais
– Chega, me dá aqui Edward – Alice puxou o grosso diário de minhas mãos e começou a ler...
Minha mãe me levou ao aeroporto com as janelas do carro abertas. Fazia 24 graus em Phoenix, o céu de um azul perfeito e sem nuvens. Adorava o clima daqui, grande parte do tempo Phoenix possui um belo sol todos os dias. Minha mãe sempre adorou o sol, devo ter herdado isso dela, já que todas as cidades em que moramos calor e sol predominavam.
– Então nunca queira morar em Forks, por que sol sem dúvidas é a última coisa que ela veria! – Emmett disse brincando.
– Como você sabe que é ela Emmett? – Indaguei confuso, em momento algum dizia quem tinha escrito os diários. Emmett me olhou surpreso.
– Pelo amor de Deus Edward você acha que um homem escreveria um diário?
– Qual o problema, o diário é apenas uma forma de externar suas emoções! – Emmett me olhou boquiaberto.
– Por favor, Edward não me diga que você tem um diário! É isso que você fica fazendo em seu quarto? Escutando músicas depressivas e escrevendo em algum diário que nem uma adolescente apaixonada? – disse gargalhando.
– Claro que não imbecil! Mas não vejo problema nenhum com isso – disse constrangido e com raiva. Os outros tentavam esconder seus sorrisos, mas não adiantava quando você podia ler suas mentes.
– Emmett não fale assim de seu irmão – ralhou Esme.
– Tudo bem Edward, se você quer ter um diário para “externar suas emoções” eu não tenho nenhum problema com isso, sabe você é dá família temos que aceita-lo como você é – continuou – mas se quer uma dica existe outras maneires de externar as emoções sem ser escrevendo no diário, como uma garota – disse levantando as sobrancelhas sugestivamente. Soltei um rosnado involuntário e Alice percebendo que eu estava perdendo a paciência continuou a leitura.
Eu estava com minha blusa preferida – era mais que uma blusa era uma recordação, fazia parte da minha vida.
– Ah, por favor! Não me diga que ela tem uma blusa preferida? Quantas vezes será que ela usou? Preferida? Humpf... isso é uma desculpa para usar uma blusa várias vezes! Quem em sã consciência usa uma blusa várias vezes? – Alice reclamou frustrada
– Filha, ela tem o direito de usar a blusa que ela gosta. Deve se sentir confortável com ela. – disse Esme de modo maternal.
– Mas Esme, imagine ela disse que faz parte da vida dela, essa blusa deve ser usada como uma segunda pele – falou estremecendo.
– Vocês ainda não sabem se realmente é ela que escreveu, até agora nada comprova – eu falei, ainda não havia mencionado quem tinha escrito, podia ser qualquer pessoa. Emmett abriu a boca para falar, mas com um olhar meu ele pensou melhor e resolveu ficar quieto. Muito prudente.
Sem mangas, branca e com renda colada ao corpo; eu a vesti como um gesto de despedida.
– E agora Ed, tem alguma dúvida que é uma garota ou acha que os rapazes estão usando renda e escrevendo em diário? – disse Emmett piscando. Preferi ignora-lo.
Minha bagagem de mão era um grosso casaco.
Na península Olympic, do noroeste do estado de Washington, há uma cidadezinha chamada Forks, quase constantemente debaixo de uma cobertura de nuvens. Chove mais nessa cidade insignificante do que em qualquer outro lugar dos Estados Unidos. Tinha que me despedi da oportunidade de usar essa blusa, naquele clima ela estava fora de cogitação.
– Sorte nossa que existam lugares como esse! – Rosalie disse pela primeira vez se manifestando na conversa – Podemos andar quase como pessoas normais boa parte do ano.
Foi desse lugar e de suas sombras melancólicas e onipresentes que minha mãe fugiu comigo quando eu tinha apenas alguns meses de idade. Nem ela conseguiu ficar lá por muito tempo, mesmo com um bebê nos braços e um marido em casa.
Todos ficaram surpresos com esse comentário.
Nessa cidade eu fui obrigada a passar um mês a cada verão até ter 14 anos. Foi então que finalmente bati o pé.
– Ainda duvida que seja uma mulher Edward? – Emmett disse tirando sarro – ou bater o pé é uma atitude muito masculina?
– Não, na realidade parece ser realmente uma adolescente qualquer – realmente não podia negar, bater o pé parecia uma atitude bastante infantil. Imaginei que tipo de menina ela seria e o que teria a ver conosco. Tudo indicava que era uma menina mimada, mas não falaria isso para Emmett só serviria para pegar ainda mais no meu pé.
Eu sempre morei em diversas cidades ensolaradas, costumava comparar minha mãe e eu como ciganos. Vivíamos mudando de uma cidade para outra, até que ela decidiu que era hora de eu morar um mês com meu pai nas férias de verão. O grande problema é que a primeira vez que ela me mandou para Forks eu tinha em torno de 6 anos, minha mãe achou que com essa idade eu já fosse mais responsável e ficaria mais fácil para meu pai cuidar de mim. Visitar um pai que via poucas vezes, sempre na presença de minha mãe e trocávamos raríssimos telefonemas numa cidade desconhecida foi assustador.
– Claro! Visitar seu pai em Forks é aterrorizante – zombou Rosalie.
– Ela tem um ponto Rose, ela era uma criança e nunca teve contato direto com pai. Lógico que ela ia ficar assustada – Ponderou Carlisle.
Nos últimos dois verões, meu pai, Charlie, passou duas semanas de férias comigo na Califórnia.
– Charlie? Acho que o único Charlie em Forks é o chefe de polícia – disse Esme
– Não sabia que ele tinha uma filha – acrescentou Carlisle – mas também não me lembro de outro Charlie sem ser o chefe Swan – e balançamos a cabeça concordando.
Era em Forks que agora eu me exilava – uma atitude que assumi com muito pavor. Eu detestava Forks. Eu adorava Phoenix. Adorava o sol e o calor intenso. Adorava a cidade vigorosa e esparramada.
– Se gosta tanto do sol por que diabos veio para cá? – Rosalie bufou, se irritando com a implicância da menina com a cidade.
Mas acima de tudo, eu adorava a minha mãe. Nós sempre fomos companheiras. Quando ela fugiu comigo quando eu não passava de um bebê, muitos a jugavam irresponsável e desmiolada, nos mais lisonjeiros pensamentos. Mais eu nunca tomei a sua decisão dessa maneira, apenas achei uma escolha, se ela não era feliz, ela tinha que buscar sua felicidade e teria meu total apoio.
– Ela é muito generosa por pensar desse jeito — disse Carlisle, e concordamos com exceção de Rose.
– Bella – disse minha mãe, pela centésima vez, antes de eu entrar no avião –, você não precisa fazer isso.
– Não disse que era uma garota – Emmett disse se gabando.
– Eu concordei que era uma garota Em, só disse que poderia ser qualquer um no começo – disse rolando os olhos – Todos já imaginavam isso.
– Mas eu falei primeiro! – me deu língua
– Vocês vão me deixar continuar lendo ou não? – Alice encerrou a pequena discursão.
Minha mãe é parecida comigo, fisicamente falando, eu sei que tenho um pouco de Charlie em mim, mas mesmo assim, a não ser pelo cabelo curto e as rugas de expressão, eu parecia um pouco com ela. Senti um espasmo de pânico ao fitar seus olhos arregalados e infantis.
Como eu podia deixar que minha mãe amorosa, instável e descuidada se virasse sozinha? É claro que ela agora tinha o Phil, então as contas provavelmente seriam pagas, haveria comida na geladeira, gasolina no carro, alguém que pegaria a roupa na lavanderia, alguém para cozinhar, alguém para lhe fazer companhia, alguém que não a deixaria jogar tudo fora em uma limpeza da casa, alguém para controlar em não gastar uma fortuna em algo inútil só porque está em promoção e alguém para chamar quando ela se perdesse, mas mesmo assim…
– Céus, tem certeza que ela acabou de descrever a mãe dela? Tenho a ligeira impressão que nem um filho consegue ser tão irresponsável! – disse um pouco surpreso, nenhuma adolescente cuida da mãe desse jeito e nunca conheci uma mãe tão irresponsável.
– Eu quero ir – menti. Sempre menti mal, mas ultimamente ando contando essa mentira com tanta frequência que agora parecia quase convincente.
Todos soltaram risinhos.
– Como pode alguém mentir tão mal? – Disse Emmett incrédulo – Quando eu era humano ninguém duvidava de mim! Por isso me metia em tanta confusão – falou rindo.
– Diga a Charlie que mandei lembranças.
– Vou dizer.
– Verei você em breve – insistiu ela. – Pode vir para casa quando quiser… Eu volto assim que você precisar de mim.
Mas eu podia ver, nos olhos dela, o sacrifício por trás da promessa.
– Não se preocupe comigo – insisti. – Vai ser ótimo. Eu te amo, mãe. Se cuide!
– Que lindo o amor que ela tem pela mãe dela. Vocês viram que ela que mandou a mãe se cuidar? – disse Esme um pouco emocionada. Ela sempre achou lindo o amor entre pais e filhos.
Ela me abraçou com força por um minuto, com muito custo eu me separei, se não a soltasse agora eu não conseguiria ser forte na frente dela. Depois entrei no avião, e ela se foi.
De Phoenix a Seattle são quatro horas de voo, outra hora em um pequeno avião até Port Angeles, depois uma hora de carro até Forks. Voar não me incomodava; a hora no carro com Charlie, porém, era meio preocupante.
– Claro, andar ao lado do pai em um carro por uma hora! Quem não ficaria preocupado? – disse Rose ironicamente, ainda achando besta o medo da garota.
Charlie foi realmente gentil com tudo aquilo. Parecia realmente satisfeito que eu, pela primeira vez, fosse morar com ele por um período mais longo. Já me matriculara na escola e foi buscar meu carro que eu tinha enviado pela transportadora mais cedo.
Ainda era difícil para considera-lo meu pai. Lembro perfeitamente bem quando foi que minha mãe me pediu para morar um tempo durantes as férias com meu pai.
Quando minha mãe fugiu de casa me levou com ela. Charlie não se opôs. Mas, quando visitei aos 6 anos pela primeira vez, ele era quase um desconhecido, falávamos esporadicamente pelo telefone e algumas visitas rápidas. Nunca o tive como uma figura paterna, apenas um parente distante.
– É triste ver o distanciamento de alguns adolescentes com o pai. – disse Carlisle pesaroso, ele sentia falta de seu pai da vida humana. Mesmo ele sendo tão rigoroso com seu filho.
Mas sem dúvida seria estranho com Charlie. Não éramos o que se chamaria de falantes, e eu não sabia se havia alguma coisa para dizer. Sabia que ele estava bastante confuso com minha decisão – como minha mãe antes de mim, eu não escondia o fato de detestar Forks.
– Novamente eu pergunto, então porque raio veio para cá? – Rosalie já estava ficando irritada com aquela humana.
Quando pousamos em Port Angeles, estava chovendo. Não vi isso como um presságio – era apenas inevitável. Eu já tinha dado adeus ao sol.
Charlie me aguardava na radiopatrulha. Eu também esperava por isso. Charlie é o chefe de polícia Swan para o bom povo de Forks.
– Então ela é mesmo a filha do chefe? – Disse Carlisle, mas como uma afirmação do que uma pergunta.
Imediatamente senti falta do meu carro, tinha minhas razões de sentir falta, mas o motivo principal nesse momento, era que me recusava a circular pela cidade em um carro com luzes vermelhas e azuis no teto.
Nada deixa o trânsito mais lento do que um policial.
Avistei Charlie de longe. Ele não mudou muito da última vez que eu me lembrava, sempre o achei um senhor muito charmoso, mas nunca falaria isso para ele, nesse quesito meu pai é quase tão tímido quanto eu. Deu-me um abraço desajeitado com um braço só quando eu cambaleei para fora do avião. O qual eu retribui, como forma de gratidão, apesar do pouco contado ele me recebeu de braços abertos, essa atitude me pegou desprevenida.
– Isso é verdade, no hospital eu reparei que sempre algumas senhoras dão uma segunda olhada no chefe, ele ainda é jovem, não sei por que nunca se casou de novo – Carlisle considerou.
– É bom ver você, Bells – disse ele, sorrindo enquanto automaticamente me segurava e me firmava. – Você não mudou muito. Como está a Renée?
– A mamãe está bem. É bom ver você também, pai. – Eu não tinha permissão para chamá-lo de Charlie na frente dele.
Eu tinha algumas malas, não eram muitas. A maior parte das minhas roupas do Arizona era leve demais para Washington. Deixei grande parte das minhas coisas para trás. Isso havia caído como uma dádiva para minha mãe e um tormento para mim, tivemos que comprar quase tudo novo, muitas roupas de frio. Renné amava fazer comprar. Coube com algum esforço tudo na mala da viatura.
– Eu já gostei da mãe dela! Acho que nos daríamos bem – disse Alice – agora como alguém pode gosta de não fazer compras? Ela faz parecer como se isso fosse um grande sacrifício da parte dela – bufou.
– Seu carro já chegou. É um clássico – anunciou ele quando estávamos afivelando o cinto.
– Imagino que carro que seja – Rosalie disse. – Clássico para os humanos é sinônimo de velho.
– Não fale assim Rose, humanos valorizam bastante as coisas antigas. – disse Esme. Ela também poderia ser incluída nessa categoria, já que sempre gostava de colecionar artes e móveis antigos.
– Então os humanos deveriam supervalorizar agente, por que duvido encontrarem coisas mais antigas do que nós – comentou Emmett gargalhando.
– Que bom. – Disse feliz. Senti saudades do meu carro. Na realidade não do carro em si mais do que ele representava na minha vida.
– Essa garota é estranha, primeiro o apego com a blusa, agora com o carro, que menina superficial – disse Rose reclamando.
– Sério que você está chamando alguém de superficial Rose? – indaguei. Afinal superficialidade é uma das características predominantes em Rose. Com o passar do tempo achei que ela fosse melhorar, principalmente quando o Emmett entrou em sua vida. Mas pelo visto isso não irá acontecer.
– Onde você o comprou? – Charlie indagou. Eu notei pelo tom dele certa admiração. Eu não queria falar sobre isso, é uma história longa e a saudade é ainda maior quando falava disso. Resolvi responder, pelo menos parte da história.
– Foi um presente. – Isso muito sútil Bella, que universo paralelo você vive que pode falar para seu pai que você recebeu um carro de presente e achar que ele não irá questionar isso? Parabéns Isabella Swan você é um gênio! Zombou uma voz chata e irritante na minha cabeça.
Todos riram com isso.
– Quer dizer que ela discute com ela mesma? Essa humana é hilária! – Emmett gargalhou mais um pouco
– Quem lhe deu um cadillac de presente? – Charlie indagou com uma cara de dúvida e desconfiança.
– É realmente um clássico – eu disse surpreso, na realidade eu já tive um cadillac, há algumas décadas.
– Não foi bem de presente. Ele foi restaurado e eu ajudei. Foi mais como uma herança. – disse melancolicamente. Não gostava de lembrar essa época, como reconstruímos o velho cadillac 1957, na época não passava de um carro velho que nem andava, hoje ele poderia valer um bom dinheiro para colecionadores, mas eu jamais o venderia.
Rosalie tentou profundamente não ficar impressionada ao saber que a humana tinha ajudado a restaurar um carro. – Eu não precisaria de ajuda para restaurar carro nenhum. – claro Rose jamais sairia por baixo.
– Hum... – eu podia notar o quanto Charlie queria perguntar. Mas, ele ficou calado. Algo na minha expressão deve ter deixado claro que eu não queria entrar em detalhes. Não seja hipócrita você tá quase fuzilando seu pai com o olhar! Tenha respeito, pelo amor de Deus e melhore essa cara! Comandou minha cadela inferior – Então lembra do Billy Black, de La Push? – La Push é a pequena reserva indígena no litoral.
Emmett soltou uma sonora gargalhada – Cara eu vou amar os debates mentais que ela tem! Como assim cadela inferior? Eu realmente gostei dessa garota – todos riam, não dava para negar que a menina tinha uma mente criativa, até mesmo Rosalie lutava contra um sorriso, mas perdeu a batalha.
– Não... deveria lembrar?
– Ele costumava pescar com a gente no verão – incentivou Charlie.
Isso explicava por que eu não me lembrava dele. Eu era bastante competente em bloquear da minha memória coisas dolorosas e desnecessárias. Lembro quando Charlie me levou para pescar a primeira vez. Definitivamente não foi o momento mais brilhante dele. Tudo bem ele é meu pai, mas o que diabos deu na cabeça dele de achar que era uma boa ideia levar uma menina de 6 anos para pescar? Sério qual o problema dele! Sério que você não sabe? Vamos enumerar os motivos 1) Ele lhe via poucas vezes no ano, não sabia seus gostos; 2) Nunca conviveu com uma criança, muito menos uma menina; 3) O que se tem para fazer em Forks?; 4) E, não menos importante, precisava pirar daquele jeito? Bom, vendo por esse lado, até que faz sentido. Depois de horas sentada dentro de um barco com meu pai, sem trocar uma única palavra, a vara de pescar de Charlie começou a balançar indicando que ele tinha pegado alguma coisa. Pobre Charlie, ficou tão empolgado com que aconteceu que me chamou para olhar com grande entusiasmo, grande erro!
– Veja filha, veja o peixe que papai pegou! — falou
– Pai você machucou, como você pode? – gritei horrorizada
– Do que você tá falando, Bella? – indagou assustado – eu lhe machuquei?
– Claro que não, mas olha o que você fez! Machucou o peixinho, olha como ele tá se debatendo... ele não tá conseguindo respirar! Você gostaria de morrer afogado? Por que eu não gostaria! Ele deve ter a família de peixinhos no fundo do mar, e se a mamãe peixe estiver esperando o peixinho voltar? Ela vai ficar preocupada! Põem ele de volta antes que a mamãe peixe fica preocupada! – disse tudo isso rapidamente, quase sem tomar folego para respirar. Essa foi a primeira e única vez que meu pai me levou para pescar.
Ninguém acreditava no que Alice tinha acabado de ler, tínhamos grande vontade de rir, mas a incredulidade predominava os pensamentos de todos. Como uma criança faz um escândalo desses por causa de um peixe? Não queria nem imaginar o que ela pensaria se soubesse do que fui capaz. Estremeci com essa hipótese. Tentei varrer os pensamentos do minha mente, antes que o desprezo por mim mesmo tomasse conta e me concentrei em ouvir o resto da história.
– Ele agora está numa cadeira de rodas – continuou Charlie quando eu não respondi –, ele e o filho irão fazer uma visita em breve para você.
– Hum... – respondi. Lembrava vagamente do amigo de Charlie, acho que ele tinha umas duas filhas, mas eu brincava mesmo era com seu filho, devido nossa idade ser praticamente a mesma. Notei também que o Charlie podia ter citado que eles sempre pescavam juntos. Creio que não mencionou por eu ter deixado ele um pouco em pânico por causa de um peixe.
– Ela é estranha, como alguém tão pequeno pode fazer um escândalo desses por causa de um peixe? – Emmett externou seus pensamentos – será que ela virou um tipo de protetora dos animais?
Trocamos mais alguns comentários sobre o clima, que estava úmido, e a maior parte da conversa não passou disso. Ficamos olhando pela janela em silêncio.
– Conversar sobre o tempo realmente é a última saída para puxar assunto. Tem que ser muito idiota ou muito desesperado para falar sobre isso!
– Emmett – Todos gritaram juntos
Era lindo, é claro; eu não podia negar isso. Tudo era verde: as árvores, os troncos cobertos de musgo, os galhos que pendiam das copas, a terra coberta de samambaias. Até o ar filtrava o verde das folhas.
– Eu nunca vi a cidade por esse ângulo – eu disse. Um pouco impressionado com a visão dela sobre Forks.
– Sim, com tanta chuva é difícil os humanos repararem nessas coisas – Carlisle disse. – Até mesmo para nós, acabamos não prestando atenção nos detalhes.
Era verde demais – um planeta alienígena. Comecei a esperar pular de algum lugar algum ser verde de outro planeta. Sim, porque ser abduzida é uma ótima forma de começar sua vida em outra cidade. Ironizou minha vadia interior.
Todos riram com o comentário.
Por fim chegamos à casa de Charlie. Ele ainda morava na casa de dois quartos que comprara com minha mãe nos primeiros tempos de seu casamento. Aqueles foram os únicos tempos que o casamento teve – os primeiros. Podia notar que ela sofreu algumas reformas. Acho que Charlie fez para me agradar, ou talvez tenha feito ao longo dos anos, eu realmente não fazia ideia. Subimos para o meu quarto. Ao abrir as portas fiquei surpresa. Essa reforma realmente foi para mim, pelo menos para o meu quarto, as cores predominantes eram o branco e o lilás, no centro uma grande cama de casal e um criado-mudo e duas portas ao lado direito, uma para o closet e outra para o banheiro. Do lado esquerdo tinha uma mesa para computador toda branca e tinha um bonito computador em cima. Isso fora estipulado por minha mãe, assim poderíamos manter contato facilmente. O que me surpreendeu foi a cadeira de balanço de meus tempos de bebê ainda estava no canto. O quarto era simples, mas de bom gosto.
– Caramba, pai, adorei! Obrigada!
– Que bom que você gostou – disse Charlie sem graça. Vi que o Charlie não gostava muito de receber elogios. Talvez eu me pareça mais com o meu pai do que eu mesma tenha me dado conta. Num impulso que não sei de onde surgiu, o abracei com força e lhe dei um beijo na bochecha.
– Ficou lindo pai, obrigada por tudo! – Ele ficou ruborizado e me deu um pequeno sorriso. Sim definitivamente eu parecia com ele!
– Eu só quero que você seja feliz, Bels!
– Isso foi realmente bonito – Esme falou um pouco emocionada. Ela era a pessoa mais bondosa que eu já conheci, parece que nunca ia se cansar de ver o carinho entre pais e filhos.
Uma das melhores coisas em Charlie é que ele não fica rondando a gente. Deixou-me sozinha para desfazer as malas e me acomodar, uma proeza que teria sido completamente impossível para minha mãe. Era legal ficar sozinha, sem ter que sorrir e parecer satisfeita;
– Eu concordo com ela – externei meus pensamentos.
– Concordando com a humana Ed? – Emmett me provocou.
Um alívio olhar desanimadamente pela janela para a chuva entristecendo tudo e deixar algumas lágrimas escaparem. Eu não estava com vontade de ter um acesso de choro. Ia economizar para a hora de dormir, se fosse para chorar que fosse tudo de uma vez, depois do choro sempre vinha o alívio, mas não queria correr o risco de Charlie notar.
– Que garota dramática – menosprezou Rose. – Ela faz parecer que fosse um pesadelo morar em Forks.
A Forks High School tinha um total assustador de apenas 357 – agora 358 – alunos; em Phoenix, havia mais de setecentas pessoas só do meu ano. Todas as crianças daqui foram criadas juntas – seus avós engatinharam juntos. Eu seria a garota nova da cidade grande, uma curiosidade, uma aberração.
Talvez, se eu parecesse uma verdadeira garota de Phoenix, pudesse tirar proveito disso. Mas, fisicamente, nunca me encaixei nesse quesito. Eu devia ser bronzeada coisa compatível com quem mora no vale do sol.
Em vez disso, apesar do sol constante, eu tinha uma pele de marfim, minha pele era extremamente branca, não é à toa que quando criança meu apelido era Branca de Neve, esse foi um dos principais motivos para deixar meus cabelos crescerem, hoje eles são longos e lisos com um leve cacheado nas pontas, dependendo do humor do meu cabelo. Meus olhos eram um pouco diferente, minha mãe me disse que pareciam com da minha avó. Eles eram azuis bem claros rodeados por um tom mais escuro no canto, quase violeta, podendo escurecer com o meu temperamento. Sempre fui magra, afinal era necessário. Era. Agora obviamente não havia necessidade.
– O que ela quis dizer com era? – indagou confusa Alice, mas todos estavam do mesmo jeito.
– Ela parece ser bonita – Esme disse.
– Parece ser sem sal – Rose acrescentou.
– Eu não acho – devia ter ficado calado
– Se interessando pela humana Ed? Estou sentindo que está rolando um sentimento – Emmett falou só para me tirar do sério.
Não dormi bem naquela noite, mesmo depois de chorar.
– Que garota dramática! Parece que é o fim do mundo – Rose bufou.
Ao fundo o ruído constante da chuva e do vento no telhado não desaparecia. Puxei o velho cobertor xadrez sobre a cabeça e mais tarde coloquei também o travesseiro. Mas só consegui dormir depois da meia-noite, quando a chuva finalmente se aquietou num chuvisco mais silencioso.
Só o que eu conseguia ver pela minha janela de manhã era uma neblina densa, e podia sentir a claustrofobia rastejando em minha direção. Jamais se podia ver o céu aqui; parecia uma gaiola.
– Acho que do ponto de vista dos humanos ficar numa cidade sem sol é difícil de se adaptar. – Carlisle ponderou.
O café-da-manhã com Charlie foi um evento silencioso. Ele me desejou boa sorte na escola. Agradeci, rezando para que eu tivesse boa sorte.
O aperto no meu peito aumentou e um pressentimento ruim se apoderou de mim. O que será que me aguarda na Forks High School?
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