Uma Realidade Mágica!

23 Observando às escuras


Notas iniciais
A gente já sabe como foi a noite das garotas. Porém, algo mais aconteceu naquela noite, com alguém que estava discretamente presente, apenas observando.

Regina’s POV:

Aquilo que Henry havia me dito naquela tarde em que o busquei no parque realmente mexeu comigo.

Eu nunca tinha parado para pensar no fato de que nunca tive amigos. Que as únicas pessoas que me aproximei de verdade, sem que fosse minha família, haviam sido Daniel e Snow e, em ambos os casos, eu tive meu coração quebrado por uma mágoa sem tamanho.

Desde então ocupei meu tempo apenas em querer separar relacionamentos, afastar pessoas, machucar sentimentos. Arrancar corações. Nunca deixei que outra pessoa se aproximasse de mim que não fosse de meu interesse usá-la depois. Eu havia criado muralhas em meu próprio coração.

Mas essas defesas não foram barreira para Henry. O menino que eu adotei, talvez, para me aplacar a solidão, conseguia penetrar sem esforço no mais fundo canto do meu coração. Eu me apeguei a ele. Eu o amo como o filho que ele é.

Para minha mãe o amor é uma fraqueza. Sempre acreditei no que ela dizia, afinal o amor nunca tinha dado muito certo comigo. Henry era minha maior fraqueza, certamente a maneira mais fácil de alguém me atingir hoje é através dele. Porém, eu descobri que Henry também pode ser a fonte da minha maior força, meu maior poder. Se alguém ou algo o ameaça, faz com que uma coragem e determinação, que nunca pensei em ter, me dominem para que eu possa salvá-lo.

Os dias em StoryBrooke foram voltando ao normal com o passar do tempo, as pessoas já não se importavam mais com a presença de Remy Hadley, muito menos que ela e Emma tivessem um romance. Mas eu ainda não conseguia, de fato, encará-las.

Sempre que estavam por perto eu tentava, ao máximo, fingir que não estavam ali. Sim, eu as estava ignorando. Mas isso era um bom passo, não era? Melhor que eu as ignorasse do que me irritar com suas presenças. Certamente ignorando-as eu não estaria fazendo mal algum. Por Henry, eu tentaria mudar. Prometi a ele que iria melhorar.

O garoto chegou da escola numa tarde, estava nitidamente empolgado, havia falado com Remy no Granny’s e secretamente concordaram que eu poderia aparecer, se quisesse, na famosa noite das garotas que elas estavam organizando.

— Você fez o que? – Minha voz se alterou para um espanto irritado.

— Anda mãe, vai ser legal. – Ele sorria enquanto tirava a mochila dos ombros e subia correndo as escadas até o quarto, me fazendo acompanhá-lo a passos largos. – Eu vou ficar com vovô David na casa dele. Mary Margareth também vai à noite das garotas e ele vai ficar sozinho.

— Que ótimo! – O tom saiu irônico e o menino percebeu.

— Anda mãe, não seja tão durona assim. – Ele largou a mochila num canto e veio na minha direção. Puxou minha mão e me fez sentar na cama ao seu lado. – Você precisa de amigas.

— Não, eu não preciso. – Estava emburrada, era só o que me faltava, meu filho, no alto dos seus onze anos, querendo me dizer ou não o que preciso.

— Vai ser legal. Vai poder conversar com elas, vão se entender.

— Não quero me entender com ninguém, Henry. Estou muito bem como estou.

— Mas não está feliz. – Ele passou a pequena mão pelo meu rosto e sorriu. – Ouvi dizer que Emma vai fazer uma surpresa. — Ele riu.

— Não tenho interesse nas surpresas de Emma, nem em conhecer a tal de Treze e muito menos em me enturmar com Mary Margareth e o resto das princesas do reino encantado. – Fui firme, categórica e desdenhosa.

— Você que sabe. De qualquer forma, Treze disse que não tinha mal algum em você ir.

— Ela disse isso porque não é daqui. – Houve um sorriso maldoso em meus lábios que meu filho desaprovou com uma careta. – Ela não sabe quem sou, nem mesmo do que sou capaz.

— Ela sabe o suficiente. Que você é madrasta da sogra dela e que, por tabela, é parente de Emma também, querendo ou não. Sabe que é minha mãe e que eu a amo. – Ele disse a primeira parte com firmeza, na segunda parte foi bem mais brando e já sorrindo novamente.

— Henry...

— Não dê mais desculpas. Você pode ir, está convidada e Treze se responsabiliza disso com Emma e eu me responsabilizo por ela.

— Era só o que me faltava. – Revirei os olhos.

— Eu só quero que você seja feliz. — Ele sorriu.

— Eu também.

— Eu vou dormir com o vovô hoje. Tchau mãe.

Ele terminou de arrumar sua pequena bagagem e jogou a mochila sobre os ombros. Me deu um beijo no rosto e saiu em disparada.

— Henry! Henry, volte aqui! Henry...

Ignorada. Ouvi a porta bater lá embaixo depois que ele saiu. Suspirei, estava com a cabeça doendo pelas contradições que se passavam dentro dela.

Conforme a noite caía, as palavras de Henry começavam a se repetir na minha mente. “Você foi convidada...”. Eu não me lembrava da última vez que havia sido convidada para nada. Eu sempre impunha a minha presença como rainha e, consequentemente, como prefeita. Era sempre o título que me levava aos lugares, nunca a boa vontade das pessoas.

Era cerca de nove e meia da noite, sem aguentar mais a voz de Henry em minha mente e minha própria consciência me traindo, me arrumei e decidi ir até o Granny’s.

Me arrumei, uma roupa comum e discreta, simples, nada que desse o ar de “ela é a prefeita” ou pior “ela é a rainha má”, apenas de que era mais uma mulher ali presente.

Não quis ir de carro, principalmente para ter uma certa descrição na chegada. Foi um grande acerto. Me teletransportei para a mesma esquina em que fui na primeira vez que vi Emma pisar na cidade com Treze. Não foi uma boa recordação. Vi pelas grandes janelas de vidro que tinha bastante gente, que todas estavam sentadas em uma única mesa grande conversando, comendo e rindo. Respirei fundo, fui me aproximando por trás dos muros e, quando estava prestes a sair do meu esconderijo para bater na porta do local, a morena apareceu. Morena? Aquela era Emma, sem dúvida alguma, estava atrasada, pelo que notei, já que o lugar parecia estar cheio e animado há algum tempo.

Recuei, enquanto ela se dirigia à porta da frente do Granny’s. Sem cerimônia, foi entrando, pegando todas de surpresa. Realmente Emma estava muito diferente, a roupa que usava, nunca a imaginei daquele jeito, sempre tão séria e durona. Acabei permanecendo no meu esconderijo e observando as cenas. Vez ou outra era possível ouvir alguma gargalhada mais alta vindo do local, como pequenos gritos e vozes elevadas.

Perdi a noção do tempo que fiquei ali e de como aquilo era constrangedor. Teria sido a maior vergonha de minha vida se alguém me visse ali. Eu fora me ajeitando, conforme as pernas se cansavam sobre os saltos, acabei por me sentar sobre um caixote, encostada na parede do muro lateral da casa de alguém que morava vizinho à lanchonete.

Meu braço estava marcado pela alvenaria e o cabelo estava levemente molhado pelo orvalho noturno, como também tinha algumas pequenas folhas da árvore acima de mim. Eu teria caído no sono, se o berro daquela índia desajeitada não tivesse me dado um susto tão grande e me posto em alerta.

Fiquei surpresa com a brincadeira que elas faziam. Parecia uma conversa, mas em outros momentos alguém fazia uma loucura qualquer. Tentei analisar e descobri que havia uma garrafa no centro da mesa, aquela era a roleta do jogo. Interessante. Porém, mais surpresa fiquei ao ver que elas se beijavam. Selinhos dados com rapidez ou timidez inicialmente, mas que causavam muitos risos em seguida. Foi naquele momento que percebi que fiz a escolha certa ao não entrar. Todas ali eram íntimas e todas confiavam umas nas outras. Me repreendi ao notar que estava com a mão direita acariciando os lábios, ansiando por algo como um selinho daqueles.

A altas horas da madrugada, vi que elas se preparavam para ir embora. Davam uma geral no ambiente, colocavam as mesas de volta aos seus lugares e jogavam copos descartáveis no lixo, assim como os recipientes em que haviam colocado os doces e salgados. Foram mais rápidas que eu. Apenas quando vi Mary Margareth dar boa noite para a dupla que se retirava à sua frente, assim como Emma dar um selinho em Treze e dar tchau para as outras moças, que notei que aquele era o rumo que elas pegariam para ir embora. Passariam por mim.

Tive que ser rápida, me teletransportando de volta para casa, exatamente para o meu quarto, de onde havia saído. Meu braço estava dormente e o cabelo em estado de caos. A noite não estava fria, o que agradeci, ou estaria certamente resfriada de manhã. Desabei na cama, exatamente como estava. O dia seguinte era sábado e eu não precisaria levantar cedo. Como também estaria sozinha, poderia cuidar depois da minha aparência. Naquele momento eu queria apenas dormir e tentar esquecer tudo o que vi. E, principalmente, tudo o que senti.

Notas finais
Espero que tenham gostado desse capítulo especial da Regina! xD Comentários bem-vindos. *_*