Capítulo 22 – Processo.

Edward

“Porque agora eu sou

Mais forte que ontem

Agora não há nada no meu caminho

Minha solidão não me mata mais.

Eu sou, eu sou forte.”

(Britney Spears – Stronger)

Assim que as aulas da tarde acabaram, fui direto para o escritório do Sr. Charles, depois de tentar insistir com Bella, para que deixasse que eu lhe desse uma carona para o hospital. Em vão, é claro. Ela preferiu ir com Alice, que ainda sentia-se um pouco abalada com toda a história da enfermidade de Jasper. Eu ainda me perguntava se tudo isso era uma provação, algum tipo de teste em que eu deveria passar.

- Bom dia, Sr. Charles. – Cumprimentei-o e fui em direção à minha mesa.

- Oh, bom que chegou, Edward. Gostaria que você desse uma lida neste processo e enviasse um relatório para a promotoria, até amanhã cedo, no máximo. – Ele entregou uma pasta com inúmeros arquivos.

- Certo, farei isso agora mesmo. – Assenti.

Ler e reler processos era o que eu fazia, basicamente, naquele lugar. Com exceção do processo que meu pai abriu contra a família materna de Jane Volturi, eu não pegara mais nenhum outro caso. Em alguns momentos eu tinha vontade de apenas sair a esmo e sem qualquer preocupação. Os processos que eu acabara de pegar eram relativos a uma investigação de homicídio, ocorrida há algumas semanas atrás, mas que ainda estava em processo.

Em algum momento do dia, quando eu estava vagando entre algumas palavras técnicas e tentando redigir um relatório até o final do dia, peguei-me pensando no momento em que eu vira Isabella pela primeira vez. Eu não tinha certeza se era o destino, ou talvez apenas coincidência.

Naquela tarde nublada no pequeno cemitério nos limites entre Londres e Oxford, eu havia dito a uma garota que meu irmão havia falecido e, ali mesmo, quando eu estava entorpecido pela dor – e só agora eu posso pensar nisso claramente – pude ver a figura esguia da menina, encostando-se em uma árvore e abaixando a cabeça. Hoje, não consigo pensar em nenhuma punição, nenhum teste, nenhuma provação ou desafio pior que uma garota que tinha apenas quinze anos, tivesse que passar.

- Senhor, Charles, está ocupado? – Bati a porta de seu escritório.

- Não, entre, Edward. Em que posso ajudá-lo? – Ele tirou os óculos e colocou sobre a mesa.

Eu puxei a cadeira e sentei-me frente a ele. E pensei que talvez fosse loucura, mas eu sentia que deveria fazer algo certo, algo justo.

- Eu gostaria de abrir um processo contra abandono de incapaz e menor, abandono material e negligência.

- É um processo grave, Edward, o que aconteceu? – Ele colocou os óculos novamente e pegou uma caneta e folha de papel.

- Conheço alguém que foi abandona aos quinze anos de idade no cemitério, logo após o enterro da irmã, que tinha câncer e falecera. A menina foi deixada lá, sem quaisquer cuidados, dinheiro, mala de roupas, sem parentes.

- E onde ela está agora? O que aconteceu?

- Hoje ela está com vinte anos. Mora com uma amiga num apartamento que deve ser minúsculo. As duas se conheceram no orfanato e dão duro para manter aquele lugar e pagar suas contas. Alice tem sorte porque ganha bem, o suficiente para pagar a faculdade e vive um pouco melhor. – Suspirei. – Bella não. Bom, ela tem sorte porque meu pai é o seu chefe, então ela consegue um pagamento legal, ainda tem a bolsa integral, mas...

- Agora entendo porque me chamou. – Ele sorriu exibindo os dentes brancos. – Ela sabe disso?

- Não. Eu gostaria que o senhor visse o que é possível fazer, até que ponto conseguimos chegar. – Respondi. – Posso ver com meu pai se ele depõe e acho que sei de outras testemunhas.

- Não vou negar, é um caso excelente, que eu faria. Mas primeiro vou verificar tudo. Ver o que é possível fazer, fazer algumas ligações e pedir a você os contatos para que eu possa averiguar. – Ele fazia algumas anotações numa letra corrida, pequena e inclinada. – E os pais dela?

- É uma história delicada. Vou contar ao senhor, mas peço que se abstenha de comentar com outras pessoas. E, conforme o senhor perceber, verá que minha família também está envolvida nesta história.

Eu passei as próximas duas horas e meia tendo uma conversa bem detalhada sobre a forma como a minha história e a história de Isabella se cruzavam em um ponto crucial de nossas vidas. Charles ouvia tudo atentamente e fazia mais e mais anotações. E conforme eu entrava em mais detalhes sobre Isabella, tudo relacionado ao que eu sabia sobre o período em que viveu no orfanato, eu começava a ter uma pequena noção do que ela poderia ter passado.

- É uma história realmente comovente. – Charles fechou o bloco. – Então vou fazer minhas ligações. Termine seu relatório e eu entro em contato com você quando eu tiver alguma coisa. Tudo bem?

- Obrigado. – Levantei-me e fui para minha mesa novamente. Fiquei mais algum tempo redigindo o relatório.

Bella

- Oh, Bella... Depois que meus pais faleceram não foi tão difícil quanto agora. Eu era pequena e mal entendia o que era não se ter uma família, eu mal me lembro do rosto deles, eu mal sei como é estar rodeada de parentes. — Ela encostou a cabeça no banco do carro e derramou algumas lágrimas. — Mas com Jasper é diferente. Eu gosto tanto dele que... Que não suportaria vê-lo partir. Eu sei que você é o que eu tenho de mais próximo de uma família, mas ele... É novo, é algo que eu nunca senti. Eu o amo, Bella.

- Allie, vai ficar tudo bem. Jasper está ótimo, só precisa tomar alguns medicamentos por enquanto. Ele não está em estado terminal, a doença dele não está avançando. — Eu tentava acalmá-la. — E Edward me disse que a família dele tem dinheiro e é bem influente. Querendo ou não, o dinheiro compra certas coisas, Alice.

- Obrigada. — Ela sorriu e me abraçou. — Vamos, vou te deixar no hospital.

O caminho de quase vinte minutos foi silencioso. Eu sabia que ela precisava de um tempo para ela mesma e que falar agora, não iria ajudar. Porém, o clima estava mais leve e minha amiga parecia sentir-se um pouco melhor. Quando ela parou em frente ao hospital, eu lhe dei um beijo na bochecha e sai do carro.

Entrei pelo saguão, tirei meu crachá do bolso e passei pela catraca dos funcionários. Dirigi-me ate o vestiário, peguei uma calca branca e o jaleco para vestir. Prendi o cabelo num coque meio bagunçado, coloquei os saltos médios, brancos e confortáveis.

- Bom dia, Bella. Como está hoje? — O Dr. Cullen perguntou-me, quando eu o encontrei em seu escritório.

- Eu estou bem. Apenas chateada, sabe como é. — Respondi. — Referente a reunião com a diretoria...

Não se preocupe. Já resolvemos isso na semana passada. Deu tudo certo. — Ele acrescentou rapidamente.

- Descobriram quem era? — Risquei o compromisso na página da agenda.

- Sim. Era uma de nossas executivas. Infelizmente ela trabalhava muito bem. — Ele falou com uma expressão séria. — Mas a ganância subiu-lhe a cabeça, então não tivemos outra escolha.

- Eu entendo. É uma pena mesmo. — Levantei-me com a prancheta a mão. — Vou ver Mandy e Jane.

- Tudo bem. Estarei aqui se precisar. – Ele sentou-se em sua cadeira. – A propósito, temos que combinar o plantão dessa semana.

- Sem problema. Fique tranqüilo, eu ficarei aqui no sábado a noite e você descansa. – Sorri e segui para o início do meu turno.

Segui pelo corredor principal até o quarto de Mandy. Felizmente, dessa vez eu tinha boas notícias a dar. Durante os últimos dias, Mandy tinha mostrado um progresso incrível, parecia que seu corpo já estava começando a ganhar força para se recuperar de uma baixa tão grande, que a quimioterapia causara. E eu sabia bem como ela iria reagir; iria sorrir como nunca, abraçar sua mãe e finalmente ter a esperança de que sairia daquele lugar e voltaria à escola. Era nesses momentos que eu via que eu estava no caminho certo, fazendo a coisa certa. Dizer que ela que poderia voltar à escola e ter uma vida quase normal era gratificante.

- Boa tarde. – Eu entrei sorrindo no quarto de Mandy Pembrose.

- Oi, Bella! – Ela sorriu. – Olhe, ganhei bombons. Quer um?

- Não, Mandy, obrigada. – Agradeci e fui fazer as anotações dos monitores. – Então, tudo bem hoje?

- Ela está ótima, Doutora, não houve recaída alguma, vômitos, nada. Ela acordou, conseguiu estudar, viu filme, comeu bem e agora ganhou alguns bombons da nutricionista. – A mãe da menina sorriu.

- Isso é ótimo. O quadro geral está mesmo melhorando. Realmente não houve baixas hoje. Você vai ter alta logo, Mandy. Apenas algumas semanas para seu corpo criar anticorpos e podemos diminuir gradativamente os quimioterapos. Eu sei que demora, mas vai dar tudo certo.

- Isso é bom. Vou voltar com tudo. E praticar exercícios. Acha que eu poderia fazer algum exercício aqui no hospital? – Ela perguntara.

- Se precisar, podemos pagar. – A Sra. Pembrose acrescentou rapidamente.

- Vou ver com o Dr. Cullen e se estiver tudo bem, pedirei para a Fisioterapeuta passar por aqui, tudo bem?

- Perfeito!

- Ótimo. Vou mandar que lhe tragam um jantar especial hoje.

Eu saí do quarto me sentindo bem. Deixei o prontuário de Mandy na caixinha transparente que ficava na porta do quarto, fui até o interfone do pronto atendimento que havia nesse mesmo andar e avisei a nutricionista. Continuei seguindo meu roteiro, passei no quarto de Jane.

Jane Volturi agora era oficialmente neta de Aro. Havia saído, há poucos dias atrás, uma nota no jornal falando sobre as decisões do júri, sobre a pena de Lorenzo e sobre a repercussão do caso. Infelizmente, Jane não pudera desfrutar de toda essa paz, pois se encontrava debilitada demais para responder a qualquer coisa. E quando entrei no quarto tive a sorte de encontrá-la acordada conversando com Alec.

- Olá, tudo bem? – Peguei o prontuário que estava na porta e entrei.

- Oi, B. – Ela disse baixinho. – Alec está me mostrando as fotos da nossa casa na Itália. É linda. Olhe.

A casa a que Jane se referia, tratava-se de um casarão, uma mansão, um – quase – palácio. Todos os arredores, os muros eram de tijolinhos e o lugar era um paraíso. Jardins, esculturas em moitas, um chafariz e um carro negro estacionado, de acordo com a fotografia.

- Lindo mesmo. Você vai gostar de lá, Jane. – Peguei meus instrumentos e comecei a ouvir seus batimentos, observar os monitores, o soro que ficava ligado constantemente e a sonda alimentar.

- Estou muito ruim?

- Não. Na verdade esta semana você estabilizou. Você continua fraca, porque seu organismo não está forte, não está nutrido. Mas desde que você começou a ficar na sonda, ele melhorou. – Eu sentei-me na poltrona ao lado da cama.

- Eu vi isso em biologia, mas ela não me escuta.

- Seu irmão está certo. Devia ouvi-lo. – Eu ri. – Olhe, preciso ir, estou cheia de tarefas hoje.

- Você volta aqui antes de ir embora?

- Sim, volto.

- Até mais, Bella. – Alec falou.

Quando saí do quarto, encontrei com uma enfermeira que me esperava ao lado da porta.

- O Dr. Cullen está chamando-a em seu escritório.

- Ok, obrigada.

Assinei o prontuário de Jane e coloquei-o na porta do quarto. No caminho para o escritório, folheei minhas anotações e dei uma olhada em tudo o que eu teria que fazer. Lembrei-me de um trabalho da faculdade e que, provavelmente eu teria a madrugada de sábado para adiantá-lo. Quando entrei no escritório, Carlisle levantou-se e Edward também.

- O que houve?

- Vou deixá-los a sós. – Carlisle saiu e fechou a porta.

Ele ia me dar más notícias, eu tinha certeza.

- Edward, aconteceu algo?

- Eu preciso conversar sério com você. Sente-se. – Ele falou e indicou a cadeira ao lado dele. – Eu abri um processo contra seus pais.

- O quê? – engasguei. As palavras ainda flutuavam em minha mente, mas eu parecia não conseguir entendê-las. Meu cérebro não codificava a informação.

- Seus pais te abandonaram num cemitério, com quinze anos, sem qualquer amparo. Eu abri um processo contra eles por negligência, abandono de menor incapaz e abandono material. – Ele dizia convicto, sério. Eu ainda continuava sem entender.

Quer dizer, eu sabia que poderia ter processado meus pais por terem feito isso, seria o certo a se fazer. Mas isso nunca tinha passado pela minha cabeça. E esperar que ele, ele, fizesse tal coisa, era... Eu nem sabia o que era.

- Você nem me consultou! – Era tudo o que eu conseguia dizer.

- Não, porque não queria te consultar mesmo. O que eles fizeram foi errado. Se não tivesse aquele santo padre, sabe deus onde você estaria agora, Bella! – Ele falou num tom irônico quando mencionou o padre. – E eu quero continuar a processá-los. Estou fazendo isso para que tudo o que você passou, o que meu irmão fez e tudo o que Emma passou, não seja em vão.

- Eu não sei se é certo, Edward. Eles são...

- Seus pais. Os pais que abandonaram a filha, porque acreditavam que conceber uma filha e usá-la de criadouro de órgãos, era o mais certo a se fazer, porque claro, eles precisavam salvar a outra. – Edward mantinha uma postura séria, de quem não iria mudar de opinião e faria de tudo para continuar com aquilo, quer eu queira, quer não.

E, ocasionalmente, quando eu lembrava o porquê de ter sido concebida, eu fazia uma analogia com o filme “A Ilha”, na qual Evan McGregor faz o papel de um clone, uma apólice de seguros, que logo seria morto para que pudessem usar seus órgãos e manter o “original” saudável. Esse era um filme que em qualquer faculdade de medicina, ou em outras áreas da saúde e até em filosofia, era bem conhecido. Como boa aluna, esse filme foi o primeiro que assisti e que nunca mais esqueci.

- Sempre foi como se eu fosse a apólice de seguros de Emma. – Sibilei. – Eu não a culpo.

- Eu falei com meu chefe e será ele quem vai ser seu advogado. Eu vou apenas estar junto, ajudá-lo em tudo, depor ao seu favor. Eles vão alegar que eu estou emocionalmente envolvido e isso acabaria com tudo. – Os olhos esverdeados ficaram mais suaves e havia um brilho diferente lá dentro. Eu me perdia no olhar de Edward, minha mente viajava ao ouvir a voz dele... – Emma não tem culpa. Seus pais são os culpados, foram inescrupulosos, Bella.

- Ainda sim, são meus pais.

- Vai me deixar continuar?

- Você vai de qualquer maneira. – Falei abaixando a cabeça.

- Olha, — Ele ergueu meu rosto com uma das mãos. – Eu estou fazendo isso porque... Quero o seu bem. Gosto de você, Bella. Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida e... Você merece que eles paguem.

- Tudo bem. Abra o processo.