Uma Pintura Da Minha Vida
3 Capítulo 2
Não sei quanto tempo tive que esperar ansiosa e com medo naquela sala branca onde o sofrimento varria o coração das pessoas. Então uma enfermeira com a cara rechonchuda e gordinha com aparência de mais de 50 anos, me chamou. Fui guiada até ao quarto que meu pai estava na UTI. Não posso nem descrever o estado em que ele estava. Tudo que fiz foi sen-tar no sofá e ficar observando o vai e vem das enfermeiras. Não chorei. Não tinha lágrima o suficiente pra isso. Minha vida, minha família, tudo isso desapareceu em um segundo.
Adormeci no sofá, não compartilhando minha tristeza com ninguém.
***
Três dias se passaram e nenhum sinal de melhora. Conversava com meu pai todos os dias, apesar dele nem sequer abrir os olhos. Até que numa noite em que estava lendo, as máquinas que faziam meu pai ficar vivo começaram a fazer sons diferentes dos que eu tava acostumada. Levantei-me e vi que o espaço entre os bips diminuía; estava ficando insuportá-vel. Chamei a enfermeira enquanto tapava os ouvidos e fechava os olhos. Se antes o barulho estava insuportável, agora que estava mais agudo e sem nenhuma pausa, estava impossível. Até que parou. As enfermeiras tinham desligado as máquinas.
- Porque desligaram as máquinas? – no fundo eu já sabia a resposta. Acho que só precisava ouvir para se tornar realidade.
- Desculpe querida, mas ele não conseguiu.
A enfermeira me abraçou, e eu a segurei firmemente, não deixando ela me soltar.
***
Seu nome?
Amanda.
Idade?
Sete.
Nenhum parente vivo?
Não.
Certeza?
Sim.
Foi assim que parei neste orfanato. Estou aqui há uma semana, e a maior parte do tempo passo sozinha. Tirando o horário do café da manhã, almoço e jantar passo a maior parte do tempo no meu quarto, e na escola do orfanato eu simplesmente fico na minha. Leio livros e faço o dever. Sou uma boa menina. Talvez meus pais voltem se eu for uma boa menina. É no que quero acreditar. É como se, até o dia em que eu fui adotada, o tempo tivesse parado. Como se minha vida estivesse esperando pra recomeçar no momento em que eu saísse daquele inferno. E esse dia finalmente chegou. Foi como se eu tivesse renascido.
A partir de agora eu me chamava Amanda Aelle Licardi.
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