- Olá Amanda. Bom te ver de novo. Agora eu vou ser sua nova mãe.

- E eu seu pai.

- Eu sei vocês me adotaram agora mesmo.

- Vamos nos dar bem que nem nas visitas que fazíamos a você antes, tá?

- Tá.

Depois de 1 hora no carro chegamos à minha nova casa. Tinha dois andares e um pequeno jardim. Meus pais adotivos mostraram onde seria o meu futuro quarto e, o que posso dizer... Não era muito a minha cara. Era muito rosa e florido.

- O que acha Amanda? – perguntou Izabella

Forcei um sorriso.

- Ele é perfeito. – disse

- Ah que bueno! – Ah, é. Eles são argentinos. – Pensamos que você não ia gostar porque tem mucho rosa. É que este quarto tá pronto desde que tentamos engravidar. É claro esperávamos que fosse una chica.

- Ah, você é infértil? – perguntei ao Gonzalo, sem vergonha de expressar minha dúvida.

- Infelizmente.

- Ah querida usted pode não tocar neste assunto? É delicado pra ele.

- OK.

Foi a vez dela de tocar num assunto delicado.

- Usted algún dia vai nos contar como parou naquele orfanato?

- Não sei – comecei a lembrar do incêndio – Vocês podem sair, por favor, quero ficar sozinha.

- Está bem. Estamos na sala.

Finalmente eles saíram. Joguei-me na cama rosa bebê e dormi. Estava cansada de tudo aquilo.

***

- Boa sorte no primeiro dia de aula, querida – disse Izabella no lado do passageiro, no carro.

- Adiós filha! – disse Gonzalo no volante.

- Até mais.

Faz dois meses que cheguei à casa dos Aelle Licardi e hoje é o primeiro dia de aula. Parece que meus pais adotivos eram conhecidos por toda a escola, e de alguma maneira descobriram que eu era adotada. Até hoje não sei como.

- Então você é a filha adotiva de Izabella e Gonzalo.

Um grupo de meninas me parou quando estava entrando na sala de aula.

- Sou por quê?

- Ah por nada não, só pensando que deve ser horrível ser criada num orfanato de quinta categoria – ela sorriu como se fosse superior a mim.

Eu fiquei com muita raiva. Sim, o orfanato não era um dos melhores, mas foi minha casa desde os sete anos, ou seja, por quatro anos.

Dei um soco nela.

O problema é que a professora estava passando neste exato momento.

- Pra coordenação!

Que ótimo. Expulsa de sala no primeiro dia de aula. Se bem, que nem entrar na sala tinha entrado.

Chegando lá encontrei um garoto que parecia também parecia estar esperando para ver a diretora. Sentei ao lado dele.

- O que você fez?

- Dei um soco em alguém – respondi – E você?

- Arrumei briga com um bando de garotos metidos. Porque você deu um soco em alguém?

Eu precisava desabafar pra alguém. E ele era a minha única opção.

- Teve um grupinho de garotas mimadas que começaram a falar mal do... – parei. Não consegui continuar.

- Do...?

- Desculpe, não dá.

Ele parecia entender. Então propôs:

- Se eu falar primeiro você fala depois?

Pensei na sua proposta.

- OK...

- Eu arrumei briga com eles porque eles começaram a zoar de eu ser gay.

Virei-me pra ele chocada.

- Surpresa, não? As pessoas vivem me dizendo que se eu não falasse nunca descobririam. – ele deu um sorriso solidário – Acho que agora é a sua vez.

Suspirei.

- Elas começaram a falar mal do orfanato do qual eu vivi por quatro anos. – olhei pra baixo.

Ele ficou em silêncio por um tempinho.

- Bem feito pra elas. Não tem o direito de falar mal sobre o lar de uma pessoa. Eu concordo plenamente com você.

Pude dar um pequeno sorriso.

- E eu não acho certo as pessoas zoarem você só porque sua opção sexual é diferente. Todos tem o direito de escolher.

- Sou Vinícius. Mas pode me chamar de Vini.

- Sou Amanda.

Nós dois sorrimos.