Uma Perfeita Idiota
31 Capítulo 31
Notas iniciais
— O que foi que a senhora disse? — David perguntou, a perplexidade estampada em seu rosto.
— Você não é meu filho — ela repetiu, a expressão se abrandando enquanto olhava para ele. — Quando conheci o seu pai, você praticamente tinha acabado de nascer. A verdade é que você tinha apenas três meses quando sua mãe foi embora com um outro homem. Depois de algum tempo, seu pai e eu começamos a namorar e como você era só um bebê, eu insisti para que casássemos e assim não lhe faltasse o carinho de uma mãe.
David continuava chocado, os olhos verdes arregalados. Ele pressionou as têmporas e se pôs a caminhar pelo escritório.
— Agora eu compreendo muita coisa… — zombrou ele. — Anna também não é sua filha? Porque tudo nesta casa é primeiro para Emma! — acrescentou, seu olhar enfurecido fuzilando os de Ingrid.
— Isso não é verdade. Sempre os tratei de forma igual. O mesmo carinho que eu dei a Emma, eu dei a você também, eu dei a Anna… O mesmo amor, a mesma atenção, os mesmos presentes… Mas você mudou, David. Você se tornou um homem arrogante, mesquinho demais, e o pior de tudo, você vem nutrindo esse ódio pela sua própria irmã sem razão alguma.
— Sem razão? Você veio aqui me pedir para que eu dê o divórcio a Regina e por quê? Porque quer a felicidade de Emma e a minha que se exploda!
— Regina não te ama, David! E você não é feliz com ela, por Deus!
— Tudo bem, não se preocupe. Eu darei o divórcio a ela, e de agora em diante, não faço mais parte do que eu pensei ser minha família. Amanhã mesmo deixarei essa casa e o cargo que você sempre se orgulhou em dizer que pertencia a Emma e com razão…afinal de contas, minha verdadeira mãe não passa de uma vagabunda qualquer e você certamente só me aceitou como seu filho por causa do meu pai! — ele falou, e ao fazer menção de abrir a porta, Ingrid o impediu.
— Não diga isso! Eu não quero que você vá embora! Você pode não ter crescido dentro de mim, mas eu te cuidei e te amo do mesmo jeito que amo suas irmãs!
— Eu não acredito! — ele exclamou, afastando-se bruscamente.
— David, volte aqui…David! — Ingrid o chamou, caminhando apressadamente ao seu encalço.
— Me solta! — ele gritou, e ao tentar afastá-la, num impulso a empurrou.
Ingrid acabou se desequilibrando e caindo. Granny que presenciou a cena, correu ao encontro de sua patroa, enquanto Emma, movida pela raiva, partiu para cima de David.
— Miserável! — ela exclamou, golpeando-lhe o rosto com o punho fechado.
Felizmente, Anna e Ruby que acabavam de adentrar a sala impediram que a briga entre eles tomasse proporções maiores.
— O que está acontecendo? — Anna questionava, enquanto se colocava diante de David para impedi-lo de avançar contra Emma.
— Esse desgraçado empurrou mamãe! Se ela tiver se machucado, eu juro que mato você! — Emma falou, enquanto Ruby lhe agarrava pela cintura.
— Vocês dois, parem de brigar! Não estão vendo que só pioram a situação? — disse Granny, enquanto conduzia Ingrid até o sofá.
— Mamãe, está tudo bem? Se machucou? — Emma perguntou, acariciando-lhe o rosto com ambas as mãos.
— Está tudo bem, querida… — ela disse, e em seguida, direcionou seu olhar a David — Filho, por favor…
— Eu não tive a intenção, me desculpe… — ele murmurou, interrompendo-lhe a fala.
— Vem aqui, David. Por favor… — disse Ingrid, e mesmo hesitante, ele se aproximou. — Esta é sua casa, sua família. O que conversamos não mudou absolutamente nada. Você continua sendo meu filho — ela dizia, claramente emocionada.
— Me perdoe, mamãe…eu não queria machucá-la — ele disse, sua voz estava embargada e os olhos cheios de lágrimas.
— Prometa que não vai embora…que ficará com sua família — ela pediu, envolvendo-o em seus braços.
— Eu prometo…
Quando finalmente os ânimos se acalmaram, Anna tornou a questionar sobre o motivo de todo aquele tumulto, e antes que Ingrid pudesse se manifestar, David tomou a vez e relatou a verdade sobre o real parentesco entre eles.
Assim como ele próprio, todos que ouviram o relato se mostraram perplexos com tal revelação, afinal de contas, o falecido David e Ingrid nunca deixaram transparecer qualquer vestígio desse fato.
— Mãe não é aquela que simplesmente dá a luz, mas a que cuida. Mamãe te cuidou da mesma forma que cuidou de Emma e de mim. Portanto, não deixe que isso mexa com a sua cabeça, David. Somos família do mesmo jeito — disse Anna.
— Você tem razão… — ele falou. — Estou muito envergonhado pela forma como reagi e não me perdoaria nunca se a tivesse machucado.
— Sei que não fez por mal, filho. Está tudo bem, não se preocupe.
— David… me desculpe por… — Emma tentou dizer alguma coisa, mas David ergueu a mão, silenciando-a.
— Eu quem te devo um pedido de desculpas, Emma. Então…desculpa por tudo, por implicar com você, por…
— Está tudo bem, esqueça isso.
— Não há nada que eu mais deseje nesse mundo do que vê-los unidos…sem brigas, sem disputas, sem pensamentos equivocados sobre preferências. Embora não pareça, não faço distinção ou favoritismo, amo todos do mesmo modo. O que acontece é que planejei tudo diferente para cada um.
— Nós compreendemos, mamãe…não se preocupe — disse Anna.
— Obrigada, meu amor. Bom, vou para meu quarto deitar um pouco — disse Ingrid.
— Se sente bem? — Emma perguntou.
— Estou com dor de cabeça, nada demais.
— Eu acompanho a senhora até seu quarto — disse David. — Emma, podemos conversar a sós daqui a pouco? — ele perguntou.
— Claro…eu te espero na biblioteca — ela disse.
Ao lado de David, Anna acompanhou sua mãe até o quarto, enquanto Granny retomava os afazeres na mansão, restando na sala apenas Emma e Ruby.
— Está explicado o caráter do seu irmão — comentou Ruby.
— Isso não tem nada a ver, Ruby.
— É claro que tem! Mas enfim, ia te convidar para conhecer o apartamento que comprei essa manhã, mas com esse clima na sua casa…
— Ruby, tenho algo para te contar. Espera-me no meu quarto que depois que eu falar com David, vou ao seu encontro, está bem?
— Hum gostei do “vou ao seu encontro”! — ela exclamou, mordendo o lábio inferior.
— Depois a palhaça sou eu… — Emma murmurou, se dirigindo até a biblioteca.
Enquanto pensava a respeito daquela revelação, Emma se perguntava o motivo de só agora Ingrid ter contado a verdade, afinal de contas, esse fato poderia implicar numa relação ainda pior entre ela e David. Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta se abriu e ele entrou, aparentemente mais tranquilo.
— Emma, antes de tudo eu quero te pedir desculpas… — ele disse. — Desculpa por tudo…pelas desavenças, implicâncias…
— Tudo bem, isso acontece nas melhores famílias — ela tentou soar divertida, mas David manteve-se impassível.
— Bom, eu quero dizer que amanhã mesmo falarei com um advogado para resolver a questão do divórcio — ele falou, e por alguns instantes, Emma se flagrou sem reação. — Depois de tudo o que Ingrid fez por mim, não quero desapontá-la, tampouco magoá-la com assuntos que podemos resolver civilizadamente. Sei que Regina te ama e eu não quero continuar entre vocês.
— Obrigada, David…e desculpe pelo soco — ela disse.
— Você chama aquilo de soco? Nem chegou a fazer cócegas! — ele exclamou, de forma divertida.
— Ah, é? Ok, vou fingir que acredito!
— Amigos? — ele perguntou, abrindo os braços em seguida.
— Amigos e irmãos, não esqueça! — ela falou, e então os dois se abraçaram.
— É isso mesmo…não pode com o inimigo, junte-se a ele… — David falou, em pensamento.
[…]
— O quê? Você vai reatar com Regina? — indagou Ruby, incrédula.
— Não tenho como fugir do que sinto por ela.
— Ter, tem! Mas não quer.
— Ruby…
— Tudo bem, Emma. Já vi que você gosta de sofrer então que sofra.
— A, dá um tempo! Eu nunca escondi de você que a amava…
— Eu sei…mas, vem cá…o que foi que você viu naquela mulher, hein?
— Tudo de maravilhoso.
— Idiota! — ela exclamou, não contendo o riso. — Você é a criatura mais idiota que eu já conheci.
— Obrigada pela parte que me toca.
— Bom, acho que terei que inaugurar meu apartamento sozinha mesmo.
— Não seja dramática. Mais tarde te ligo e combinamos alguma coisa.
— Continue me iludindo.
— Depois a idiota sou eu.
— É claro que é você. Eu já vou, tenho que voltar ao trabalho…
— Está bem. Acompanho-te até a porta.
Já passava de meio dia quando Granny pediu permissão para servir o almoço. Embora alegasse estar sem fome, Ingrid sentou-se à mesa ao lado dos três filhos. Foi então que David contou sobre sua decisão em dar o divórcio a Regina, bem como entregar o cargo de diretor executivo à Emma. Mesmo pedindo para que as coisas continuassem como estavam, a insistência de David acabou por vencê-la.
Após a refeição, Ingrid se dirigiu à estufa como geralmente fazia, e dessa vez, David fez questão de acompanhá-la. Anna, por outro lado, retornou para o escritório, enquanto Emma, ligou para Regina marcando um encontro dentro de uma hora na casa da praia.
— David não é filho de Ingrid? Nossa, por essa eu não esperava… — Regina falou, aconchegando-se entre as pernas de Emma, enquanto acariciava-lhe os braços em volta de sua cintura.
— Mamãe disse que ele tinha poucos meses quando ela e meu pai se casaram — Emma falou, beijando-lhe o ombro entre uma palavra e outra.
— Está explicado o caráter dele…
— Ruby disse a mesma coisa.
— Ruby? Ela estava com você? — Regina perguntou, virando-se para encará-la.
— Ela chegou no momento da discussão.
— Vocês já namoraram, tiveram alguma coisa?
— Bom…ficamos algumas vezes, mas faz muito tempo.
— Ela não vai sossegar enquanto você não levá-la para cama.
— Acontece que eu quero outra pessoa em minha cama, não ela.
— Hum e posso saber quem seria essa outra pessoa?
— Uma certa morena muito chata e mandona.
— Nossa, quantos elogios…fiquei até com ciúmes! — ela exclamou, ameaçando beijá-la.
— Ele disse que te dará o divórcio sem problemas…então…acho que podemos… — dizia Emma, excitada mediante as insinuações dos lábios de Regina sobre os seus.
— O que quer dizer com…podemos, hum? — ela perguntou, beijando-lhe demoradamente os lábios.
— Quero dizer que não suporto mais um minuto sem tocar o seu corpo, sem provar o seu gosto… — ela disse, enquanto suas mãos começaram uma lenta descida pelas costas até lhe alcançar a bunda.
— Eu também quero — Regina falou, afastando as mãos que repousavam sobre o seu traseiro. — Mas não seria muito atraente sermos tachadas de cretinas…é melhor esperarmos o divórcio sair — acrescentou, levantando-se em seguida.
— Tem razão…acho que amanhã mesmo, essa questão será resolvida — disse Emma.
— E então eu quero passar o final de semana inteiro só com você, aqui, fazendo amor nos quatro cantos dessa casa.
— Espera…vai, fala isso de novo — Emma pediu, retirando o telefone celular do bolso. — Fala, Regina.
— O que está fazendo?
— Quero gravar o que você disse porque aí, quando eu for cobrar, você não terá como escapar.
— Emma, você é muito idiota.
— Porque todo mundo acha que sou idiota?
— Porque você é, meu amor. Agora vem, vamos dar uma volta na praia?
— É melhor mesmo…caso contrário, não resistirei.
A areia parcialmente molhada pelas ondas que ali quebravam, e o vento frio daquele final de tarde, proporcionavam a elas uma sensação de tranquilidade que por tanto tempo desejaram sentir. Tudo parecia voltar a ser como antes e com esse pensamento, Emma e Regina deram continuidade à caminhada entre beijos e sorrisos, sem perceber que alguém nas proximidades, fotografava cada carinho trocado por elas.
— Sabe o que me deixa preocupada? — Regina falou.
— O que, meu amor? — disse Emma.
— Essa súbita mudança de David…tenho medo que no final das contas, ele só esteja fingindo, não sei.
— Não quero que fique se preocupando…quero você tranquila.
— Emma…de repente ele aceitou dar o divórcio, renunciou ao cargo de diretor executivo dos negócios de sua mãe e ainda se transformou nesse amor de filho…é de se estranhar, não acha?
— Acontece que ele foi estúpido com mamãe e se deu conta de que não fazia sentido ficar revoltado quando ele teve os mesmos cuidados e benefícios que Anna e eu tivemos mesmo sem ser filho dela.
— De qualquer forma, tenha cuidado meu amor — disse Regina.
— Regina, estamos falando do meu irmão, não de um delinquente qualquer.
— Tudo bem, desculpa.
— Não precisa se desculpar, amor. Só quero que fique tranquila, está bem?
Passava das dezessete horas quando Emma deixou Regina em casa, e então retornou para a mansão. O jantar em família transcorreu normalmente, e o assunto relacionado a David não foi tocado em momento algum.
Na manhã seguinte, não apenas Ingrid Swan, mas toda a família e os leitores de jornais e revistas foram surpreendidos pelas manchetes que destacavam a relação extraconjugal de Regina Mills, diretora da Mills Export, com sua até então cunhada, Emma Swan.
— O que significa isso, Emma? — Ingrid perguntou, entregando-lhe o jornal onde na primeira página, uma imagem dela e Regina se beijando era o destaque do dia.
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