Notas iniciais
Muito obrigada a raffa pela linda recomendação, tanto para a história, quanto para a "autora". Adorei! Agradeço também por todos os comentários e favoritos. Boa leitura!

— Emma? O que é que você está fazendo aqui a essa hora? — Cora perguntou.

— Boa noite, senhora Mills. Gostaria de falar com Regina, se for possível — disse ela.

— Não acho que seja o melhor momento.

— Por favor. Não me negue isso.

— Regina já está dormindo, Emma — do topo da escada, Zelena deu o aviso.

— Prometo que não vou acordá-la. Eu só preciso vê-la.

— Está bem — disse Cora. — Vou acompanhá-la até o quarto.

Com passos lentos e cuidadosos, Emma se aproximou e sentou-se na beirada da cama onde suas mãos pudessem alcançar os cabelos curtos e negros, espalhados pelo travesseiro. Instintivamente, seus olhos se encheram de lágrimas ao constatar o pequeno hematoma ao lado do lábio inferior, e sem pensar duas vezes, ela o acariciou com a ponta do dedo indicador.

— Emma? — murmurou Regina, ao abrir os olhos e dar de cara com ela. — Não pode ser um sonho…você parece tão real… — acrescentou, tocando-lhe o rosto com a palma da mão.

— Não é um sonho…eu estou aqui com você — Emma falou, os lábios se curvando num sorriso amargo.

Sentando-se na cama, ela olhou para Emma por um longo tempo, parecia desorientada demais para compreender o motivo da presença repentina dela.

— Por que está aqui? — Regina perguntou.

— O que aconteceu?

— Eu perguntei primeiro.

— Quero saber o que aconteceu…

— Não aconteceu nada.

— Há um hematoma em seu lábio.

— Eu bati contra a porta e…

— Não minta, Regina. Por favor — Emma murmurou, tocando-lhe o rosto gentilmente. — Foi David, não foi?

Emma se retraiu quando chorando, Regina confirmou o que ela já sabia. Imersa em seus pensamentos, Emma trincou os dentes até doer, e então a abraçou. Por longos minutos, elas permaneceram em silêncio como se não soubessem o que dizer. Quando o pranto de Regina diminuiu a ponto de se transformar num murmúrio suave e sua respiração voltou ao ritmo normal, Emma recuou para que pudesse olhar em seus olhos.

— Nunca mais ele tocará em você. Eu não vou permitir…

Emma respirou fundo, tentando diminuir a tensão do corpo e arrancar os maus pensamentos contra David da cabeça. Ela engoliu as lágrimas, pois queria transmitir segurança e autocontrole a Regina.

— Estou tão cansada… — a voz de Regina lhe arrancou de seus devaneios. — Cansada de chorar, de errar, de arrependimentos…cansada de tudo à minha volta… — acrescentou, e mais uma vez, as lágrimas começavam a se formar em seus olhos. — Não há nada que eu deseje tanto quanto a morte nesse momento.

— Não diga isso…por favor, nunca mais diga isso — Emma murmurou, segurando-lhe o rosto com ambas as mãos.

— David se recusa a me dar o divórcio, você está aqui porque sente pena de mim. Minha vida se transformou num verdadeiro inferno, e se é para viver no inferno, que seja longe dos seus olhos…

Naquele momento, a única coisa que passava pela cabeça de Emma era colocar outra marca naqueles lindos lábios. E então ela a puxou e a beijou com delicadeza. Regina soltou um suave gemido quando as línguas se encontraram, quentes e molhadas.

— Quem me dera fosse pena o sentimento que me atormenta noite e dia… — Emma murmurou, roçando a ponta do nariz sobre a face dela. — Eu amo você, Regina. E a única coisa que eu vou fazer é venerar esses lábios...

Regina a puxou para mais perto e a beijou com ainda mais intensidade. As palavras de Emma se gravaram em seu coração.

— Eu te amo, Emma… — Regina sussurrou… — E preciso de você, ainda que eu não mereça seu amor… Eu imploro…vamos resgatar tudo o que não conseguimos dar uma a outra…tudo o que não vivemos por nossa própria inconsequência…

Naquele momento, razão e coração disputavam espaço em sua decisão, enquanto fragmentos do passado invadiam sua mente sem licença, incitando os pensamentos a buscarem todas as recordações boas e más vividas por elas. Nessa ótica, Emma chegou a conclusão de que as boas lembranças eram superiores às más, e que ao lado de Regina, ela havia passado os melhores momentos de sua vida adulta.

— Dane-se David, dane-se tudo. Eu não vou renunciar ao que sinto por você — Emma disse. — Quero te entregar o que restou de mim depois de tantos tropeços, de tantas lutas, buscas, lágrimas… — dizia Emma, envolvendo-lhe o corpo num abraço apertado.

— Obrigada, meu amor…obrigada — balbuciou Regina, os lábios trêmulos de desespero e felicidade.

— Já passou…não chore mais, por favor — enxugando as lágrimas dela com seus beijos, Emma recuou quando Cora abriu a porta e entrou no quarto.

— Já está um pouco tarde, Emma…acho que está na hora de você voltar para sua casa — Cora falou.

— Mamãe! — Regina a repreendeu.

— Sua mãe tem razão. Está tarde mesmo e você precisa descansar — ela falou, acariciando-lhe o rosto com delicadeza.

— Eu gostaria de te ver amanhã.

— Eu venho te visitar amanhã então.

— Te amo — Regina sussurrou, num tom quase inaudível.

— Eu também te amo — Emma respondeu no mesmo tom, e após um rápido beijo, ela se retirou ao lado de Cora.

Enquanto desciam as escadas, Cora analisava a figura de Emma e por um instante, ela se arrependeu da forma que lhe tratara a primeira vez em que a recebera na sua casa.

— Eu nunca lhe agradeci por você ter ajudado a reerguer o patrimônio dessa família… Embora os seus meios não tenham sido os mais adequados, porém, foi compreensível. Obrigada — disse Cora.

— De nada, senhora Mills — Emma falou.

— Emma…

— Sim?

— Não sei se você e minha filha se entenderam ou se pretendem se entender…só queria dizer que sem qualquer vestígio de dúvidas, Regina te ama e sofreu muito com a sua ausência — ela falou. — Sei que muitas pessoas a julgaram pelo casamento com seu irmão, mas nenhuma delas estavam aqui para ver o sofrimento da minha filha, mas o seu irmão estava e se aproveitou disso. Não quero isentar Regina da sua parcela de culpa, no entanto, David não poupou esforços para mostrar a ela uma face completamente diferente daquela que ele realmente tem. E fragilizada como estava, ela acreditou que ele poderia ocupar pelo menos um pedacinho do espaço vazio que você deixou.

— Eu compreendo — Emma limitou-se a dizer.

— Que bom…você errou quando fez aquele contrato, ela errou ao se casar com seu irmão. Acho que seria mais proveitoso passar uma borracha nesses erros e recomeçarem do zero.

— Há muitos problemas para se resolver....o divórcio de Regina é um deles — Emma falou.

— Tudo se resolverá.

— É o que queremos. Bom, obrigada senhora Mills.

— Disponha…e perdão pela forma como lhe recebi em minha casa a primeira vez — Cora falou, todavia, Emma se retirou em silêncio.

Enquanto dirigia de volta para casa, Emma refletia sobre a conversa com Regina. Estava claro que sua decisão de recomeçar com ela lhe traria inúmeros problemas, principalmente com seu irmão, mas naquele momento, os problemas pouco importavam. Sua real preocupação estava voltada a segurança de Regina e ao bem-estar de sua mãe.

— Filha! Graças a Deus você voltou…estava preocupada — disse Ingrid, tão logo Emma adentrou a sala.

— Desculpe, mãe. Acabei perdendo a noção da hora.

— Tudo bem, o importante é que já está aqui. Agora me diga, como está Regina?

— Abatida, envergonhada…o desgraçado a agrediu como um covarde miserável — ela murmurou por entredentes.

— Filha, por favor não perca a cabeça…apesar de tudo, David é seu irmão.

— Mamãe…Regina e eu decidimos recomeçar do zero assim que David lhe der o divórcio — ela revelou.

— Emma, vá com calma. Eu não quero que você e…

— Mamãe, já está decidido. Regina quer o divórcio e David vai ter que aceitar isso. Agora venha, vamos dormir porque já está tarde.

No dia seguinte, Emma modificou sua rotina e optou por não sair para correr como geralmente fazia pela manhã bem cedo. Encostada no carro de David, ela esperou que seu irmão se aproximasse para que pudessem conversar sem a interferência de ninguém.

— Irmãzinha! Bom dia! — ele exclamou, esboçando um cínico sorriso.

— Foi a primeira e última vez que você encostou um dedo em Regina. E a partir de agora, você a deixará em paz ou juro que se arrependerá, David.

— Nossa! Estou tremendo de medo! Mas…deixe-me lembrá-la de uma coisa muito importante: Regina é minha esposa, e dela cuido eu.

— Está avisado.

— Olha, Emma…não queira bancar o “macho” defensor de uma fêmea que nem é sua! Porque esquecerei que você é minha irmã e te meto a mão na cara!

— Tente, David…

— Não me provoque, Emma…

— Você não passa de um covarde — ela falou.

— Vai se foder, sua imbecil! — ele exclamou.

— Trouxa.

— Lésbica nojenta.

— Corno.

— Repita e eu juro que quebro a sua cara! — ele gritou.

— Não se atreva, David! Não se atreva porque desta vez, eu não vou perdoá-lo — Ingrid falou, aproximando-se dos dois.

— Essa imbecil veio aqui me provocar!

— Imbecil é você, seu covarde!

— Basta! — exclamou Ingrid. — Vá para o escritório, David.

Mesmo contrariado, ele entrou em seu carro e deu partida.

— Mamãe…

— Eu não quero esse tipo de discussão entre vocês — Ingrid a interrompeu. — Mais tarde falarei com o seu irmão sobre essa questão do divórcio, mas por favor, não o provoque.

— Está bem, mamãe…desculpe. Bom…eu vou fazer uma visita a Regina, está bem?

— Porque não esperam esse divórcio sair?

— Não está acontecendo nada do que a senhora deve estar imaginando.

— Juízo, Emma… — ela disse, suspirando em seguida.

Alguns minutos depois, Emma chegou à casa da família Mills. Segundo Cora, Regina ainda estava dormindo mas esse fato não a impediu de conduzi-la até o quarto de sua filha.

Assim que fechou a porta atrás de si, Emma se aproximou em passos lentos na tentativa de provocar o mínimo ruído possível. Embora sua vontade fosse se deitar ao lado de sua amada, ela optou pela poltrona de frente para a cama que lhe proporcionava uma visão privilegiada da figura adormecida.

— Emma? — murmurou Regina, esboçando um largo sorriso ao despertar e encontrá-la tão perto. — Por que não me acordou? — ela questionou, sentando-se em seguida.

— Não tive coragem…você estava tão linda dormindo.

— Não estou mais?

— Você sempre está linda.

— As vezes ainda penso que estou sonhando… — ela disse, e no mesmo instante, Emma se juntou a ela na cama.

— Então estamos vivendo o mesmo sonho.

— Eu te amo — Regina falou, envolvendo-a com seus braços.

— Gostaria que viesse comigo para conhecer meu segundo refúgio, porque o primeiro são os seus braços… — Emma falou, e imediatamente, Regina sorriu.

— Claro, meu amor…vou tomar um banho rápido.

Alguns minutos se passaram e Regina finalmente terminou o banho. Embora tivesse contemplado aquele corpo despido por diversas vezes, Emma preferiu esperar na sala temendo perder o controle dos seus desejos reprimidos por todo esse tempo. Ainda que pretendessem recomeçar uma ao lado da outra, Regina até então continuava casada.

— Estou pronta! — ela disse.

— Vão sair? — Cora perguntou.

— Prometo que não vamos demorar muito — Emma falou.

— Tenham cuidado e juízo.

— Ingrid me falou que é aqui que você pretende morar… — Regina comentou, enquanto Emma lhe mostrava os cômodos da casa.

— A princípio, foi o que encontrei para escapar da sua presença — ela confessou. — Mas agora, quero que seja um lugar nosso, só nosso — acrescentou, tomando-lhe os lábios com os seus.

— Não quero te perder nunca mais…

— Isso não acontecerá…agora vem, deixa eu te mostrar o restante da casa.

Depois de conhecer todos os cômodos do imóvel, Emma e Regina se acomodaram no sofá da sala, e embora já passasse das onze da manhã, nenhuma delas parecia preocupada com o horário.

— Estava com tanta saudade disso… — Emma murmurou, deslizando a ponta do nariz sobre o pescoço de Regina. — Saudade do seu cheiro, da maciez de sua pele… — acrescentou, arrepiando-se com os movimentos que os dedos de Regina faziam por entre seus cabelos.

— Eu quero fazer amor com você… — sussurrou a morena.

— Eu também quero…mas acho que devemos esperar — disse Emma, e mesmo a contragosto, Regina assentiu.

Pouco tempo depois elas resolveram ir embora. Emma a deixou em casa com um sorriso e a promessa de que mais tarde se encontrariam outra vez.

— Onde está mamãe, Granny? — Emma perguntou, ao verificar que ela não se encontrava na estufa.

— Está na biblioteca conversando com seu irmão.

— David está em casa?

— Sim, chegou tem quase meia hora e desde então, estão lá trancados.

[…]

— A senhora só está fazendo isso porque se trata da felicidade de Emma! Mas e a minha felicidade? — David questionou.

— Você não é feliz com Regina e nem ela é feliz com você! Para que se prender a um casamento desses, David? Deixe-a livre, deixa-a ser feliz com quem ela quiser e faça o mesmo!

— Não vou dar esse prazer a Emma.

— Por que você a odeia tanto? Vocês são irmãos e ela nunca te fez nada. Isso não é normal.

— E por que a senhora é mais por ela do que por mim? — ele perguntou, num tom exaltado.

— Porque você não é meu filho.