Notas iniciais
Obrigada a todos os comentários e favoritos! Boa leitura!

— O que foi que você disse?

— Eu disse que juro pela deusa coroada. Por quê? Algum problema?

— Esse nome…me parece familiar.

— Deusa coroada? Claro que é familiar! É assim que meu avô chama a rainha do mar — Ariel explicou, e embora continuasse pensativa, Emma não disse mais nada.

Quase uma hora depois as duas retornaram para casa e com a ajuda de Leopold, prepararam o jantar. Após a refeição, o velho homem acendeu a lareira para esquentar o ambiente naquela noite fria ainda que fosse verão. Algumas horas depois, as luzes foram apagadas e Leopold se dirigiu ao seu quarto, deixando-as sozinhas na sala.

— Você está muito esquisita hoje. Está distante, distraída… — Ariel comentou.

— De repente, senti um vazio — ela disse, abaixando o olhar. — Não tenho lembranças, não sei quem sou, não sei sequer a minha idade…é como se eu não fosse desse mundo. Hoje me sinto como uma delinquente condenada ao riso eterno, mas incapaz de sorrir.

— Se não está mais feliz aqui, amanhã mesmo iremos a cidade ou a polícia para que procurem sua família — ela disse, o olhar se abrandando enquanto a puxava para um abraço.

— Do que adiantaria encontrá-los se não lembro de nada?

— Talvez não lembre justamente porque não os viu.

— Pode ser que tenha razão.

— Vem, vamos dormir…amanhã iremos bem cedo a polícia.

Naquela noite de inquietação, Emma teve seu sono atormentado por uma série de pesadelos dos quais ela não soube explicar o quê significavam. Quando finalmente os primeiros raios solares atravessaram as frestas da janela, Ariel acordou e ao notar que Emma ainda dormia, resolveu preparar o café da manhã e contar ao seu avô sobre a decisão tomada na noite anterior.

— Não entendo porque ela levou tanto tempo para tomar essa decisão, mas fico feliz que ela queira encontrar a família — disse Leopold.

— Uma parte de mim quer que ela encontre a família. Outra parte não quer que ela continue aqui. Sentirei muita falta dela.

— Estão falando de mim?

— Minha neta estava me contando que sentirá saudades se você encontrar sua família.

— Se isso acontecer, prometo que virei visitá-los.

— Sente, meu bem…venha tomar o café da manhã que eu vou acompanhá-las até a polícia.

Após o café, os três se preparavam para sair quando Leopold recuou. Por uma fração de segundos, ele analisou a figura loira à sua frente, dando-se conta de que seria mais fácil a polícia identificá-la se ela estivesse vestida da forma como havia sido encontrada.

— Vovô, a polícia vai olhar o rosto dela, não as roupas.

— Talvez o seu avô tenha razão — Emma disse, se dirigindo até o quarto. Sem demoras, ela vestiu a calça jeans rasgada que usava no dia do acidente e a camiseta branca. Ao pegar a jaqueta de couro vermelha, ela sentiu um pequeno volume no bolso interno. Enquanto caminhava ao encontro de Ariel e Leopold que a esperavam na sala, Emma abriu o zíper da jaqueta e instintivamente, seus olhos se estreitaram quando se depararam com uma pequena caixa de veludo para joias.

— O que é isso? — Ariel perguntou.

— Não sei. Estava no bolso interno da minha jaqueta — ela disse, balançando o objeto. — Não tem nada dentro — acrescentou ao abri-la.

— Não tem mais nada no bolso? — indagou Leopold.

— Parece que não…quer dizer, tem um cartão… — ela falou, e no mesmo instante, Ariel o puxou de sua mão.

— Deixa que eu leio! — ela exclamou, pigarreando em seguida. — Não esqueça que eu não preciso te ver para te amar. Não esqueça que você mudou a minha vida para melhor. Com amor, sua… Deusa coroada? — acrescentou, proferindo as duas últimas palavras num tom surpreso e quase inaudível.

— Minha deusa coroada… — Emma repetiu, e novamente o seu coração disparou, mas, desta vez, os batimentos acelerados estavam acompanhados por imagens e vozes do passado. As lembranças surgiam confusas em sua mente: Olhos castanhos, lábios cobertos pelo batom de tonalidade escura onde o destaque estava voltado a uma cicatriz no lábio superior. — Regina… — ela murmurou, esboçando uma expressão assustada ao mesmo tempo em que sua respiração se apresentava de forma descompassada, enquanto outras imagens em conjunto com outras vozes e cores invadiam sua cabeça: O azul dos olhos de Ingrid, o som das palavras desenfreadas de Anna, as expressões debochadas de David…

— Allison? Allison! — Ariel exclamou, segurando-a pelos braços, tirando-a do choque temporário em que ela se encontrava.

— Eu lembro… — ela murmurou, e instintivamente, seus olhos se encheram de lágrimas.

[…]

— Beba essa água com açúcar para se acalmar um pouco… — Leopold falou.

— Allison…

— Emma. Meu nome é Emma. Emma Swan — ela disse, sorvendo um pouco do líquido.

— É um bonito nome, mas eu prefiro Allison — disse Ariel, e as duas sorriram.

— Minha mãe se chama Ingrid, e eu tenho dois irmãos: Anna e David — ela falou.

— E quem é Regina? — Leopold perguntou. — Ouvimos quando murmurou esse nome.

— É alguém muito importante para mim… — Emma disse, entregando-lhe o copo.

— É ela a sua deusa coroada? — questionou Ariel, assim que seu avô se dirigiu à cozinha.

— Sim, é ela — Emma disse, e o silêncio tomou conta do ambiente até que Leopold retornou.

— Vai agora, menina? — ele perguntou.

— Sim, Leopold — ela disse.

— Então, deixe-me dizer que sentiremos sua falta — ele falou.

— Eu sei…eu também sentirei, bastante. Obrigada por tudo — disse Emma, envolvendo o velho pescador num abraço apertado. — Se o senhor e sua neta não tivessem me encontrado e cuidado de mim, eu não estaria viva hoje — acrescentou, não contendo a emoção.

— Desculpe…sou um velho bobo que não sabe lidar com despedidas — ele falou, claramente emocionando. — Vou esperar lá fora para que vocês possam conversar à vontade — dito isso, ele se retirou.

Mais uma vez o silêncio se fez presente entre elas. Ariel manteve a cabeça baixa, o olhar mirando o chão numa tentativa inútil de esconder a tristeza consequente da despedida. Emma, por sua vez, esboçou um meio sorriso e ao se aproximar, ergueu-lhe o rosto com ambas as mãos para logo em seguida, beijar-lhe a testa.

— Não estou gostando de te ver triste — Emma disse.

— Eu não queria que você fosse embora — disse Ariel.

— Prometo que a visitarei sempre que puder.

— Vou sentir sua falta, todos os dias…

— Também sentirei sua falta. Agora para de chorar e me dá um abraço — ela falou, e por longos minutos, elas permaneceram abraçadas. — Desejo um dia poder pagar tudo que você e o seu avô fizeram por mim…obrigada, muito obrigada, de verdade.

— Eu quem agradeço por ter conhecido você…

Encerrado o abraço, as duas seguiram ao encontro de Leopold que já aguardava numa caminhonete emprestada por Sidney. Embora Emma insistisse para que ele não se incomodasse, Leopold e sua neta fizeram questão de levá-la até Storybrooke. Chegando lá, Emma informou o caminho até sua casa, os surpreendendo quando os dois adentraram as muralhas da imponente mansão.

— Uau, isso sim é um palácio — Ariel comentou.

— Senhorita Emma? — balbuciou o porteiro, pálido e nervoso diante dela.

— Meu Deus! É você mesmo, menina? Ou estamos diante de um fantasma? — indagou Granny, tão assustada quanto o porteiro.

— Sim, Granny…sou eu em carne e osso. E essas pessoas me ajudaram a sobreviver — ela disse, recebendo um abraço apertado da governanta. — Onde está minha mãe?

— Na estufa, menina…vá encontrá-la!

— Eu irei agora mesmo. Granny, sirva um café, um suco ou o que os meus convidados desejarem — Emma falou. — Vou encontrar mamãe e já volto — acrescentou, caminhando em direção à estufa do outro lado do jardim.

Emma não conteve a emoção quando seus olhos avistaram sua mãe de costas. Os cabelos loiros e compridos tão parecidos com os seus, estavam presos num coque desarrumado. As mãos estavam cobertas por luvas sujas de terra devido ao manuseio que ela fazia numa plantação de rosas brancas. Porém, o que mais lhe surpreendeu, foi notar o porta-retratos ao seu lado com uma fotografia sua.

— Mãe… — ela murmurou, e ao levantar a cabeça, Ingrid soltou o vaso que mantinha nas mãos quando a imagem de Emma refletida nos vidros à sua frente, foi capturada por seus olhos.

A expressão surpresa e assustada em suas feições denotavam a incredulidade mediante aquele fato que ao longo de todo esse tempo ela acreditou ser impossível. Em choque, Ingrid se virou lentamente dando-se conta de que não se tratava de uma ilusão.

— Não pode ser… Meu Deus…eu devo estar em um sonho… — ela murmurou, suas mãos trêmulas e o rosto pálido mostravam claramente a perplexidade que ela sentia.

— A senhora não está sonhando…sou eu, Emma — ela disse, aproximando-se lentamente, e de forma suave, lhe acariciou o rosto.

— Emma…filha! — ela exclamou, envolvendo-a num abraço apertado. — Meu Deus, obrigada! Obrigada por devolver minha filha… — ela dizia, a voz embargada enquanto uma série de emoções transbordavam por seus olhos.

— Está tudo bem, mãe. Eu estou aqui — disse Emma, tão emocionada quanto ela.

— Eu não acredito, eu não acredito… — Ingrid murmurava, livrando-se das luvas e enroscando os dedos longos nos cabelos de Emma. — Eu não estou louca…é você mesmo, meu amor, minha vida — ela falava, enquanto as lágrimas escorriam de forma desenfreada pela sua face.

— Sim, mamãe…sou eu… — Emma dizia, entre soluços e sorrisos.

— Como…onde esteve todo esse tempo? O que aconteceu? Eu te procurei tanto…eu…

— Mamãe, por favor…acalme-se. Vamos para casa e eu conto tudo. Mas antes, a senhora vai se acalmar, certo? — Emma falou, e Ingrid assentiu sem hesitar.

Granny preparou um chá calmante para Ingrid enquanto Emma relatava todo o ocorrido, ou pelo menos tudo aquilo que ela conseguia se lembrar.

— Eu só lembro que mergulhei e senti uma pancada na cabeça e quando acordei, estava na casa do senhor Leopold e não lembrava de nada.

— Graças a Deus te encontraram com vida! — exclamou Ingrid. — Granny, ligue para o Dr. Victor…você precisa ser examinada. Uma pancada na cabeça pode gerar sérios problemas — acrescentou, acariciando-lhe o rosto.

— Eu estou bem, mamãe…graças a Deus e graças ao senhor Leopold e sua neta Ariel.

— Não sei como poderei pagar pelo que fizeram pela minha filha…

— Não precisa pagar nada, senhora. Fizemos de coração — ele disse. — Agora nós temos que ir…a estrada é longa e o carro é emprestado — acrescentou, levantando-se junto com a neta.

— O que precisarem, qualquer coisa…não hesitem em dizer. Estou em dívida com vocês — ela disse, os cumprimentando com um aperto de mão.

— Vou acompanhá-los até o portão, mamãe.

— Eu vou também…não quero desgrudar de você um só minuto! — Ingrid falou, e todos sorriram comovidos com seu contentamento.

Após mais uma despedida, Ariel e Leopold voltaram para casa com a promessa de que em breve receberiam uma visita de Emma e sua mãe. Minutos depois, o Dr. Victor apareceu, surpreendendo-se com a notícia. Após examiná-la da forma que podia, Victor informou que o mais indicado seria Emma comparecer ao consultório para fazer exames mais precisos, principalmente na cabeça. Sem qualquer sinal de hesitação, ela se comprometeu a realizar os exames no dia seguinte se fosse preciso.

— Vou tomar um banho, mamãe…

— Eu mesma vou preparar um lanche para você, meu amor. Agora vá tomar seu banho e trocar de roupa.

Algum tempo depois, Anna apareceu e mais uma sessão de choro fora iniciada. Enquanto conversavam, Ingrid se dirigiu a biblioteca para dar a notícia ao seu filho mais velho, David.

— O quê? Emma está viva? — ele perguntou, perplexo.

— Sim, filho! Está viva, está novamente em casa! — exclamou Ingrid.

— Mas como é possível, mamãe? Como foi isso?

— Um pescador a encontrou e cuidou dela por todo esse tempo. Ela estava sem memória, não lembrava de nós, não lembrava de nada — ela explicou.

— Estava? Significa que agora ela lembra de tudo?

— Sim filho, ela lembrou da família e voltou para casa. Está tudo bem? Você não parece contente com a notícia…

— É que…é um milagre, mamãe. E eu não acreditava em milagres, mas agora…Deus ouviu as nossas preces — ele falou, tentando disfarçar seu enfado.

— Onde está Regina?

— No banho…mas não se preocupe, mãe. Eu darei a grande notícia a ela.

— Quando vocês voltam?

— Dentro de uma semana. Mamãe, eu tenho que desligar…bom dia, beijo, te amo — ele disse, e sem esperar uma resposta, encerrou a ligação. — Você realmente tem sete vidas, irmãzinha…mas seu retorno não fará diferença alguma para mim. Regina é minha, o cargo principal é meu…pode ficar com o orgulho de mamãe só para você — ele murmurou consigo mesmo.

— Com quem falava? — Regina perguntou, ao abrir a porta do banheiro.

— Com mamãe. Algo inacreditável aconteceu — ele disse.

— O que foi? Alguma coisa aconteceu com Ingrid?

— Minha irmã apareceu… Emma está viva, viva Regina! — ele exclamou, numa falsa alegria, envolvendo-a num abraço apertado. Instintivamente os olhos de Regina se arregalaram e seu coração acelerou de uma forma tão assustadora, que ela temeu que por um momento, David pudesse senti-lo batendo forte contra seu peito.