Notas iniciais
Obrigada a todos os comentários e favoritos! Boa leitura!

— Você está falando sério, David? Emma está viva? — indagou Regina.

— Sim, meu amor! Não é um milagre? — ele falou, fingindo não perceber seu embaraço. — Está tudo bem?

— Sim, David…está tudo bem. Mas…como a encontraram?

— Parece que um pescador a encontrou desmemoriada…mamãe não entrou muito em detalhes, mas pelo que entendi, está tudo bem agora. Ela já lembra de tudo e já está sã e salva em casa. Bom, vou encerrar nossa estadia aqui. Amanhã retornaremos para Storybrooke — ele disse, se retirando em seguida.

Assim que David saiu, Regina se sentou sobre a cama. Respirando fundo, ela fechou os olhos e sentiu o chão embaixo dela se abrir. Seu coração continuava acelerado e suas mãos trêmulas, frias, deslizando por entre seus cabelos curtos e molhados.

— Emma está viva… — ela ofegava mais do que respirava. Um manto de alegria e tristeza a invadia. Daquele momento em diante, Regina passou a temer um encontro entre elas. Foram tantas noites insones desejando seu retorno, e agora, como num passe de mágica, Emma estava de volta. — Meu Deus…o que ela dirá quando souber que me casei com o irmão dela? Maldito destino…mil vezes maldito…

[…]

— Emma! Quase não acreditei quando me disseram que você estava viva! Na verdade, eu não acreditei! Tive que vir aqui comprovar e, meu Deus, você está novamente conosco! — dizia Ruby, ao mesmo tempo em que a puxava para um abraço.

— Você está parecendo a minha irmã tagarelando desse jeito — disse Emma, envolvendo-a entre seus braços.

— Como está? Como se sente?

— Estou bem…feliz por estar em casa outra vez.

— Onde esteve todo esse tempo? — indagou Ruby, segurando-lhe ambas as mãos.

Mais uma vez, Emma relatou os fatos que se encontravam claros em sua memória, desde o momento em que sentiu a pancada na cabeça, até sua recuperação na casa do pescador.

— Porque só retornou quando recuperou a memória?

— Porque eu estava gostando de viver lá. Mas, de repente, senti um vazio, senti falta das lembranças que eu nem sabia quais eram.

— Eu compreendo…mas está na hora de deixar tudo isso para trás. O que importa é que você está de volta!

— Ruby…quero te perguntar uma coisa que eu não tive coragem de perguntar a minha mãe — disse Emma.

— Que coisa?

— Você…sabe algo sobre Regina? Onde está, como está…?

— Tem certeza que quer falar sobre essa mulher?

— Tenho.

— Regina se casou, Emma.

Sem palavras, Emma sentiu o coração se quebrar mais um pouco. Ela abaixou a cabeça com a derrota e soltou as mãos de Ruby, incapaz de segurá-las por mais tempo.

— Casou? Você tem certeza do que está dizendo?

— Absoluta.

— E com quem ela casou?

— Com seu irmão. David.

A notícia a abalou até o âmago. Ela procurou por algo a dizer, alguma forma de reagir, mas não tinha nada.

— Você está brincando, não está?

— Bem que eu queria que fosse brincadeira só pra não te ver sofrer por essa…mulher.

Ruby a observou empalidecer. Viu aqueles lindos olhos verdes se encherem de lágrimas. A desolação substituindo o sorriso de minutos atrás. Por um segundo, sua voz ficou presa na garganta e o coração afundou no peito ao ver a amiga desmoronar.

— Emma…

— Ruby…eu gostaria de ficar sozinha agora.

— Emma, eu não acho que…

— Por favor, Ruby. Deixe-me sozinha.

Emma esperou o momento em que Ruby deixou o quarto e então chorou com soluços intensos, abafados pelo travesseiro que a deixava ofegante. As lágrimas não eram apenas por Regina. Ela era a causa inicial. Voltar para casa deveria tê-la livrado do sofrimento e do vazio, pensou. Mas seu retorno se transformou em algo cruel, quase violento, e ela se sentia que estava prestes a se quebrar.

[…]

Algumas horas se passaram até que Emma despertou. Levantando-se da cama, ela observou o próprio reflexo no espelho e quase chegou a sentir perna de si mesma: os olhos estavam inchados e vermelhos, os cabelos desarrumados e a boca ressacada devido ao longo período em que passara na praia. Soltando a respiração, ela se livrou das roupas e ligou o chuveiro decidida a recomeçar.

Uma maquiagem discreta pareceu o bastante para esconder as marcas do seu sofrimento. Os óculos de lentes transparentes que ela se recusava a usar mesmo necessitando, agora enfeitavam o seu rosto, não por aceitar que sua visão precisava do descanso que aquele acessório oferecia, mas para tentar esconder a tristeza refletida em seus olhos mortiços e cansados.

— Emma? — Ruby bateu à porta do quarto insistentemente.

— Já vou sair… — ela disse, e minutos depois, a porta se abriu. — Você ainda está aqui?

— Você me pediu para sair do seu quarto, não da sua casa. E eu não quero deixar você sozinha num momento como esse.

— O que você está pensando, Ruby? Acha mesmo que eu tentei me suicidar por causa dela?

— Emma, o que eu acho é que você está linda e vai superar tudo de ruim que aconteceu na sua vida.

— Obrigada.

— Mas prometa que não cometerá nenhuma loucura por causa daquela mulher — disse Ruby, e antes que Emma pudesse responder, batidas se fizeram presentes e Ingrid pediu permissão para entrar.

— Oi, mãe.

— Você está linda, querida!

— Bom, eu já vou indo. Mas em breve estarei aqui de novo para te encher! — disse Ruby, beijando-lhe o rosto. — Até mais, senhora Swan.

— Até mais, Ruby.

— Vou acompanhá-la até a porta — disse Emma, e juntas, caminharam sob o olhar atento de Ingrid.

Assim que Emma retornou, Ingrid a segurou pela mão conduzindo-a até o jardim. Enquanto se acomodavam, Granny servia um café para elas.

— Você estava dormindo e eu não quis te acordar. Quer comer alguma coisa?

— Estou sem fome, mamãe. Além disso, daqui a pouco vamos almoçar.

— Tudo bem, querida… — ela disse, inquieta e hesitante. — Filha, tem algo que eu preciso falar…apenas gostaria que…

— Se é sobre o casamento do meu irmão com Regina, eu já estou sabendo.

Ainda que Emma não apresentasse nada além de tranquilidade, Ingrid notou as pálpebras dela tremerem sobre o olhar perdido.

— Posso imaginar o quanto deve ter sido difícil para você receber essa notícia…

— Regina seguiu com a vida dela e fez o correto. O tempo não para, mamãe…e agora eu devo fazer o mesmo sem me lamentar.

— Eu só não quero que você sofra mais do que já vem sofrendo…me parte o coração.

— Fique tranquila, mãe. O que está feito, está feito, e não serei eu quem tentará desfazer tudo isso.

O restante do dia se passou de forma tranquila, e na manhã seguinte, a imagem de Emma estava estampada em diversas páginas de jornais e revistas. Alguns titularam a notícia com O retorno da herdeira, outros preferiram modificar o título para O retorno da suicida, o que gerou uma série de críticas e revoltas, uma vez que parte da imprensa repudiou tal reportagem ressaltando o desrespeito para com a família.

Ao tomar conhecimento desse fato, Ingrid entrou com um processo contra a revista que pela segunda vez, apontava sua filha como suicida, e embora Emma tenha insistido para que ela não se importasse com isso, a matriarca da família não voltou atrás em sua decisão.

[…]

Já era noite, Ingrid se encontrava à mesa ao lado de Anna, Emma e Ruby, quando a campainha tocou e minutos depois, David acompanhado de sua esposa adentrou à sala. Emma manteve suas mãos coladas às próprias coxas para que nenhum deles percebessem o quão trêmula ela se encontrava. Seus olhos verdes parcialmente escondidos por trás das lentes dos óculos, se fixaram nos castanhos brilhantes à sua frente. Não houve silêncio mais constrangedor do que aquele.

— Emma, minha irmã! — disse David, aproximando-se rapidamente. Sem muita segurança, Emma ficou de pé para receber o abraço do irmão. — Você não sabe o quanto eu fiquei feliz com a notícia…nós te procuramos tanto…

— Está tudo bem agora, David — ela disse, esboçando um meio sorriso.

— Assim que eu soube, resolvi voltar com… — ele fez uma pausa antes de concluir: — Minha esposa.

— Não precisava ter adiantado a viagem… — ela falou, tentando se mostrar impassível, mas mal conseguia suportar sua dor.

— Granny, coloque mais dois lugares à mesa… — Ingrid falou.

— Não precisa, Ingrid. Eu comi no avião e…estou com dor de cabeça, vou deitar um pouco — Regina se pronunciou, claramente desconsertada procurando forças onde não tinha para conseguir manter os joelhos firmes, ao mesmo tempo em que temia que a qualquer momento, seu coração saltasse de seu peito. — Bem-vinda de volta, Emma… — acrescentou, e sem esperar uma resposta, pediu licença e se dirigiu ao quarto.

Assim que adentrou o cômodo, Regina se trancou no banheiro e se deixou desabar em um pranto compulsivo e incontrolável. Emma estava ali, tão perto e ao mesmo tempo tão longe, certamente imaginando mil e uma coisas a seu respeito, duvidando do seu amor e de tudo o que viveram juntas. Enquanto Regina se martirizava trancada no banheiro, David usava sua melhor máscara para justificar o seu casamento com a mulher que um dia pertencera à sua irmã.

— Emma, agora que estamos a sós, eu queria dizer que…bom, Regina e eu buscamos apoio um no outro e acabamos…

— Você não precisa me dar explicações, David. Entre Regina e eu não existia mais nada.

— Então você não está chateada conosco?

— De jeito nenhum.

— Obrigado, minha irmã. Hoje mesmo falarei com mamãe para que você volte a ocupar o seu cargo no escritório e…

— Não precisa. Eu não quero cargo nenhum.

— Tem certeza? Mamãe sempre disse que pertencia a você e lamento muito se fui incompreensível quando…

— David, está tudo bem.

— Bom…tudo bem então. Eu vou me deitar, estou cansado da viagem — ele falou, levantando-se em seguida.

— Boa noite — Emma disse.

— Boa noite, irmã…você é uma vencedora — dito isso, ele se retirou.

Emma permaneceu na sala, perdida em pensamentos. Minutos depois, Ingrid se juntou a ela, assim como Anna, e após uma longa conversa, cada uma se dirigiu para o seu respectivo quarto, exceto Emma que permaneceu onde estava, sem sono, confusa, sentindo-se enganada.

Passava das vinte e três horas quando ela se dirigiu à cozinha. Estava escuro e silencioso, mas isso não importava, embora tornasse sua alma ainda mais solitária. Enquanto bebericava um pouco de água, seu coração disparou e o copo quase escapou de sua mão quando Regina apareceu na cozinha, assustando-se com a sua presença.

— Por Deus, que susto! — Regina falou. Assim que ela acendeu a luz, desejou poder apagá-la de volta. Mas suas mãos trêmulas se agarraram à bancada da pia, e ela recuou, incapaz de reagir.

Emma a observou por alguns instantes em silêncio, e ao fazer menção de se retirar, foi impedida pela voz de Regina chamando o seu nome.

— Emma… — ela murmurou.

— Sim? — ela respondeu, virando-se para encará-la.

— Eu fiquei feliz ao saber que você estava viva…que estava de volta…

— Obrigada — ela disse, virando-se para se retirar, no entanto, a voz de Regina a deteve mais uma vez.

— Emma…

— Diga.

— Se eu pelo menos imaginasse que você voltaria…eu teria…

— Você seguiu com a sua vida. Agora eu devo fazer o mesmo com a minha. Com licença — dito isso, ela se retirou, deixando Regina para trás perdida em pensamentos.

Na manhã seguinte, Emma levantou mais cedo do que de costume e para não encontrar Regina ou David, ela mesma preparou seu café da manhã e em seguida deixou a mansão para fazer uma caminhada, retornando horas mais tarde.

— Emma, onde você estava? — Ingrid perguntou, levantando-se rapidamente da cadeira e caminhando apressadamente ao seu encontro.

— Eu fui correr um pouco, mamãe. Aconteceu alguma coisa?

— Fiquei preocupada… Por favor, não saia de casa sem dizer para onde vai — ela falou, e do lugar onde se encontrava sentado, David soltou a respiração com força, aborrecido com o cuidado excessivo de Ingrid em relação a Emma.

— Desculpe, mamãe… — ela disse, e embora tentasse evitar, seu olhar procurou Regina e a encontrou ao lado do seu irmão. Esse fato provocou uma dor dilacerante por dentro, mas ela jurou suportar. — Eu vou tomar um banho e depois podemos conversar?

— Claro, meu amor.

David terminou seu café e em seguida se dirigiu à piscina para tomar sol sozinho, uma vez que Regina se recusara a acompanhá-lo. Era sexta-feira, verão, e se não fosse pela aparição de Emma, sua jornada de trabalho só voltaria ao normal dentro de uma semana. Mas agora, de volta a Storybrooke, ele teria que retomar os assuntos no escritório o mais rápido possível, assim como Regina, já que ela continuava ocupando o posto de presidente da Mills Export.

Num momento impensado onde o coração falou mais alto que a razão, Regina se flagrou diante da porta do quarto de Emma, e após três pequenas batidas que não tiveram resposta, ela girou a maçaneta e adentrou o cômodo. Seus passos lentos e hesitantes guiaram-na até a cama e instintivamente, suas mãos capturaram o cobertor desarrumado. Erguendo-o, ela aspirou o perfume da mulher amada que dele emanava. Seu coração disparou e de súbito, ela soltou a peça quando a porta do banheiro se abriu e Emma apareceu.

— O que faz aqui?

— Eu…bati e como ninguém respondeu…

— Não foi isso que eu perguntei.

— Bom…eu vim devolver isso — Regina falou, entregando-lhe um aparelho de telefone celular. — Eu o guardei…de lembrança — acrescentou, o fôlego roubado como sempre.

— Obrigada — disse Emma, e ao segurar o objeto, seus dedos roçaram suavemente nos dedos de Regina, e como uma corrente elétrica, ela sentiu seu corpo inteiro tremer.

Foi como se o tempo tivesse parado. Nada e nem ninguém as prepararam para um reencontro. As duas pareciam imersas na tristeza provocada pelo ponto final dado ao relacionamento. Elas não souberam ao certo quanto tempo ficaram ali de pé, uma olhando para a outra, mas, de repente, Emma se afastou e rompeu o contato.

— Com licença — ela disse, caminhando em direção à porta.

— Emma… — Regina a chamou. Mas ela não respondeu. Ela nem se virou.