— Emma, precisamos conversar…

— Agora não, mamãe. Por favor — ela respondeu, e ao fazer menção de abrir a porta do quarto, Ingrid lhe segurou o braço.

— Temos muito o que conversar! Você está se comportando como uma garota imatura e inconsequente!

— A forma como me comporto é problema meu, mamãe! Agora, por favor, deixe-me sozinha — ela disse, e em seguida bateu a porta do quarto.

Seus passos pesados dentro do cômodo denotavam a inquietação atormentando-a sem que ela pudesse evitar. Sua vontade naquele momento era procurar Regina e pela milésima vez lhe pedir perdão. No entanto, se sua entrada havia sido bloqueada na Mills Export, certamente o mesmo aconteceria na mansão. Naquele momento, ela desejou que o disparo efetuado por Zelena tivesse lhe acertado o coração ou em qualquer outra parte fatal de seu corpo. Seria menos doloroso. Depois de vestir sua jaqueta de couro vermelha, Emma desceu as escadarias apressadamente, montou em sua motocicleta esportiva, e saiu em disparada sem destino.

O trânsito daquela manhã perturbada parecia ter aumentado o dobro do que de costume, mas, isso não a impediu de executar manobras e ultrapassagens arriscadas, tampouco de diminuir a velocidade, principalmente por não usar o capacete. Felizmente, ela conseguiu se livrar do tráfego sem grandes estragos, e após algum tempo pilotando sem destino, Emma deixou sua motocicleta num canto qualquer da praia e caminhou sem pressa em direção aos arrecifes à flor da água. E ali ela permaneceu por incontáveis horas, sentada sobre os rochedos onde as ondas quebravam violentamente.

[…]

— Alô? Regina?

— Senhora Swan? Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, na outra linha.

— Emma está com você?

— Emma? Não, eu não a vi depois que deixei sua casa.

— Se ela te procurar ou te ligar, por favor, avise-me, sim?

— Claro, Ingrid. Faz tempo que ela saiu?

— Passava de meio dia e já são vinte e duas horas e nenhum sinal dela. Já liguei várias vezes, mas ela não atende…

— Ela deve estar com algum amigo ou só quer ficar sozinha…não se preocupe, ela logo aparecerá.

— Tomara que sim. De qualquer forma, não deixe de me avisar se souber alguma coisa. Boa noite, Regina.

— Eu aviso, não se preocupe. Boa noite, senhora Swan — ela disse, encerrando a ligação.

— Aconteceu alguma coisa, Regina? — Zelena perguntou.

— Emma saiu já tem um bom tempo e ainda não deu notícias. A mãe dela está preocupada.

— Por que essa cara? O contrato não existe mais, você se livrou de Emma e Ingrid Swan fez questão de emprestar o dinheiro… — Cora comentou.

— Em momento algum eu disse que queria me livrar dela, mamãe! Apenas não gostei da forma que ela usou para conseguir o que queria! — disse Regina.

— Você deveria era ter ficado orgulhosa. Aquela menina tola seria capaz de entregar toda a fortuna da família por você.

— Eu vou para o meu quarto, com licença! — dito isso, Regina se retirou.

À medida em que as horas passavam, a angustia que Ingrid sentia aumentava cada vez que os seus olhos capturavam os ponteiros do seu relógio de pulso, e só piorou quando ela ligou para August e Ruby, onde ambos disseram não ter tido qualquer contato com Emma.

— Acalme-se, mamãe. A essa hora ela deve estar por aí bebendo para esquecer tudo o que aconteceu — David falou, enquanto folheava uma revista.

— É quase meia-noite e não temos notícias! Como quer que eu me acalme?

— Bem que eu desconfiei que uma mulher como Regina não poderia se interessar assim pela minha irmã…

— David, não comece com seus comentários estúpidos! — Ingrid o repreendeu.

— Mamãe, o celular de Emma está na biblioteca. Por isso ela não atende — Anna falou.

— Eu vou à polícia…não aguento mais essa angustia.

— Eu vou com a senhora, mamãe — disse Anna.

— É melhor você ficar em casa para o caso de ela aparecer. David vem comigo — disse Ingrid, e todos concordaram.

Chegando à polícia, Ingrid informou sobre o desaparecimento de sua filha, e embora fizesse apenas doze horas que ela não dava notícias, o delegado não se recusou a disponibilizar uma equipe para procurá-la.

— Aconselho que a senhora vá para casa. É tarde da noite e qualquer notícia, entrarei em contato — disse o delegado.

— Por favor, delegado…avise-me assim que tiver notícias. Eu imploro… — ela suplicou.

— Não se preocupe, senhora Swan. Eu mesmo ligarei para avisar.

Após entregar uma fotografia de Emma e relatar todas as informações possíveis, Ingrid retornou para casa ao lado de David.

Na manhã seguinte, por volta das oito horas em ponto, Regina apareceu na mansão da família Swan após mais uma ligação de Ingrid em busca de notícias sobre Emma. A essa altura, todos já começavam a se angustiar diante daquele sumiço inesperado.

— Sei que é difícil manter a calma numa hora dessas, mas por favor, ela vai aparecer… — dizia Regina, sentada ao lado de Ingrid.

— Estou com medo que ela tenha sofrido algum acidente naquela droga de motocicleta.

— Se isso tivesse acontecido, já estaríamos sabendo, mamãe… — Anna se pronunciou.

— Senhora, o delegado está aí… — Granny falou, tão angustiada quanto ela.

— Deixe-o entrar.

— Senhora Swan, bom dia — ele disse. — Senhoritas… — acrescentou, direcionando o olhar à Regina e Anna.

— Alguma notícia de minha filha, delegado? O senhor a encontrou? — Ingrid perguntou, levantando-se rapidamente.

— Bom…nós encontramos a motocicleta da sua filha, mas ela não — ele disse.

— Como? Não compreendo…onde encontraram a motocicleta?

— Estava jogada na areia da praia.

— Se a motocicleta estava lá, minha filha também está! Vocês não a procuraram direito! — ela exclamou, num tom exaltado.

— Senhora Swan, o que eu tenho para dizer é uma suposição, mas peço que por favor, acalme-se — ele disse, pigarreando em seguida. — Um pescador nos contou que viu uma pessoa com as características de sua filha caminhando sobre os arrecifes e… — ele fez uma pausa, e mesmo hesitante continuou. — Bom…uma fração de segundos se passou quando ele se abaixou para apanhar um cigarro, e ao levantar a vista, ela já não estava mais.

— O que o senhor está querendo dizer com isso? — Ingrid perguntou.

— Bom, sua filha pode ter caído acidentalmente do outro lado dos arrecifes ou…cometido suicídio.

— Suicídio? — indagou Ingrid, perplexa.

— A senhora disse ontem que tiveram uma discussão e seu estado de ânimo estava abalado, mas como eu disse, são apenas suposições.

— Está fazendo suposições baseadas no que um pescador disse? — Ingrid questionou, num tom exaltado.

— Calma, mamãe…

— Eu só posso me basear no que está ao meu alcance, senhora. A guarda costeira está nos ajudando a procurá-la por aquela região — ele falou, suspirando em seguida. — Bom, eu tenho que ir. Qualquer coisa, avisarei rapidamente.

— Granny, acompanhe o delegado até a porta, por favor — disse Anna, e a governanta consentiu.

— Meu Deus…isso só pode ser um pesadelo… — Ingrid murmurou, não contendo o pranto.

— Emma nunca cometeria suicídio…ela é forte, decidida! Ela está bem e logo entrará por aquela porta — Regina falou, esforçando-se ao máximo para segurar as lágrimas, entretanto, ao pensar na possibilidade de nunca mais voltar a ver sua amada, seu esforço foi por água abaixo e ela compartilhou seu pranto junto com Anna e Ingrid.

A manhã seguinte não foi muito diferente das outras. À medida em que as horas se passavam, a angustia crescia de forma desenfreada por aquela terrível falta de notícias por parte de Emma. Ingrid dividia seu tempo entre rezar e chorar, martirizando-se com o peso da culpa em suas costas.

— Emma se suicidou? Eu não acredito nisso… — David comentou.

— Foi o que o delegado disse. Mamãe está angustiada demais, David… — Anna falou.

— Todos nós estamos, Anna.

— Mas…ela sofreu muito quando papai morreu e tenho medo que ela entre em depressão se Emma não aparecer.

— Ela vai aparecer. Bom, fique em casa que eu cuido do escritório…não deixe mamãe sozinha — dito isso, David se retirou.

Na mansão da família Mills não era muito diferente. Regina quase não dormia esperando que de um momento para o outro, Emma aparecesse em sua casa ou no jardim do vizinho procurando uma forma de chamar sua atenção. A visão dessa cena já vivida lhe arrancou um sorriso, e muitas lágrimas também.

— Regina? Posso entrar? — Zelena perguntou.

— Sim… — ela respondeu, enxugando as lágrimas rapidamente.

— Teve notícias de Emma?

— Nada ainda. Estou com medo de… — ela murmurou, e antes que pudesse prosseguir, sua voz foi silenciada pelos soluços consequentes do pranto.

— Calma, Regina…ela vai aparecer. Tenha fé e tudo dará certo…

Segundos, minutos e horas se passavam assim como os dias, e com eles, vieram a dor de mais uma perda. Fazia aproximadamente um mês que a polícia havia iniciado as buscas, e mesmo com o apoio da guarda costeira, Emma não foi encontrada.

Era uma manhã de sábado, o dia em que o delegado daria por encerrada as buscas quando um dos mergulhadores da guarda costeira encontrou um objeto no fundo do mar. Tratava-se de um relógio de pulso do qual Ingrid, com muito pesar, confirmou tristemente que pertencia a sua filha Emma. A revelação desse fato foi o bastante para que o delegado chegasse a conclusão de que era pouco provável encontrá-la com vida, e talvez, devido ao tempo que havia se passado, nem mesmo seu corpo pudesse ser recuperado.

A guarda costeira se comprometeu a procurar o corpo nas proximidades onde o relógio fora encontrado, todavia, mais sete dias se passaram e como não obtiveram êxito, deram por encerradas as buscas.

— Eu sinto muito, senhora. Não podemos mais continuar procurando… — o delegado falou, acompanhado de um oficial da guarda costeira.

— Se vocês não podem procurar, quem poderá? É o trabalho de vocês, é obrigação de vocês! — ela exclamou, o tom de voz exaltado e magoado.

— Nós compreendemos sua dor, senhora. Mas, infelizmente, não podemos fazer nada — disse o oficial. — Se ela caiu ou se atirou no mar, o corpo já deve ter sido devorado por…

— Cale-se, seu maldito! Não está vendo o estado da minha mãe? — David interveio, e ao fazer menção de se aproximar do oficial, Anna o impediu.

— David, por favor…não piore as coisas — ela disse.

— Bom…lamentamos muito por tudo isso. Mas, o que temos aqui é uma morte presumida.

— Infelizmente, tudo indica que a senhorita Emma Swan está morta — afirmou o oficial.

— Não é verdade! Saiam da minha casa, seus incompetentes! — dizia Ingrid, amparada pelos braços de Regina.

— Nós sentimos muito… Com licença — dito isso, o delegado ao lado do oficial deixou a mansão.

Aquilo o que Ingrid tanto temia, aconteceu. Assim como David, seu falecido marido, Emma lhe havia deixado uma dor incurável, e um vazio no peito que jamais seria preenchido.

— Não terei sequer o consolo de colocá-la ao lado do pai… — Ingrid murmurou. Seus olhos inchados e vermelhos quase não suportavam mais o ardor causado pelas lágrimas.

Algumas horas depois, Regina se despediu da família e David se comprometeu em levá-la para casa. O estado fragilizado em que ela adentrou a sala causou comoção em sua mãe e em sua irmã que aguardavam por notícias, mas não foi preciso questionar a respeito. Bastava olhar em seus olhos para saber que o pior havia acontecido.

— Suicídio? Meu Deus… — murmurou Zelena.

— É o que a polícia diz, mas eu não acredito. Emma era forte, jamais faria isso…

— Ela parecia meio fora de controle…e depois que a mãe descobriu sobre o contrato…

— Contrato que a senhora contribuiu para que fosse feito! — rosnou Regina.

— Só falta agora você me culpar pela morte dela! — esbravejou Cora.

— Todos nós temos culpa! Mas eu garanto que se a senhora não tivesse aceitado a proposta dela, muitas coisas teriam sido evitadas!

— Regina, acalme-se, por favor… — Zelena pediu, envolvendo-a num abraço apertado.

Na manhã seguinte, os jornais de todo o país estampavam a fatalidade na primeira página. Alguns deles relataram o fato como um acidente, outros preferiram levar em conta alguns relatos da polícia e apontaram a tragédia como suicídio. Daquele dia em diante, Ingrid se fechou para o mundo, escondendo-se por trás das grandes muralhas de sua mansão, e apenas aos domingos, ela saía cedo para visitar o túmulo do falecido marido onde na lápide fora acrescentado o nome de Emma.

[…]

— Leopold, como tem passado? — Sidney, um pescador da vizinhança perguntou.

— Muito bem! Essa semana a pescaria foi ótima! — ele disse.

— Ouvi falar. Pena que eu não estava na cidade para ganhar um extra. Ah, eu encontrei sua neta Ariel agora a pouco. Quem é aquela moça que está com ela?

— Não sei… — ele falou, e ao notar o desconserto no olhar inquisitivo à sua frente, prosseguiu. — Pouco mais de um mês, minha filha e eu voltávamos da pescaria de manhã cedo quando a encontramos boiando aqui perto com um ferimento muito feio na cabeça. Foi um milagre ela ter sobrevivido.

— Mas ela não disse como se chama ou de onde veio?

— Ela não lembra. Deve ter perdido a memória devido a pancada na cabeça…