Uma Nova Vida
8 Uma nova perspectiva
Hoje não teria treino pois a noite teria jogo, então nós fomos embora logo após o fim da aula. Minha mãe não gostou da idéia de eu arrumar uma desculpa esfarrapada pra furar meu castigo, mas não se opôs que eu fosse a casa de Milla pois considerava a menina uma excelente companhia pra mim.
— Ei Caius, que horas é o jogo hoje? — Milla perguntou quando entramos no ônibus que levava pro bairro da garota.
— Às 19:00, como sempre. Você vai lá assistir né? — Eu perguntei quando nos sentamos lado a lado dentro do ônibus. Milla usava um perfume único, tinha um cheiro suave e amadeirado. Ficar ali tão próximo dela sentindo aquele cheiro maravilhoso me deixava nas nuvens, meu coração disparado, como se tentando fugir do meu corpo.
— Vou sim. Você vai direto lá de casa pro jogo? Se for assim eu venho direto com você logo.
— Vou sim.
— De qualquer forma eu tinha prometido do Mike que ia lá assistir ele jogar mesmo. — Ela disse olhando pela janela enquanto falava. Ouvir ela mencionar aquele nome fez o monstro dentro de mim acordar.
— Sabe, eu não gosto do Mike, ele não é uma boa companhia pra você Milla. O cara alem de chato é um tremendo babaca. — Eu falei com o ciúme tomando conta de mim.
— Você também com essa historia? Ate mês passado você era amiguinho dele. — Ela disse em tom acusatório. — Que te deu pra detestar ele assim do nada, hein?
— Eu não era amiguinho dele, eu só aturo o cara porque ele é meu veterano e joga bem pra caramba. Isso não quer dizer que eu aprove as atitudes dele fora de campo.
— Na hora de ir pra casa dele encher a cara com os outros ele era o cara mais gente boa do mundo né? — Ela disse em tom ofendido. Era bom eu mudar aquele assunto ou ia acabar fazendo ela ficar com raiva de mim.
— Ta bom então, vamos parar de falar do Mike, é melhor assim. — Eu disse mudando de assunto. Nós passamos o resto da viagem conversando amenidades, Milla ainda um pouco emburrada comigo.
Nós levamos aproximadamente quarenta minutos pra chegar a casa de Milla. O bairro era um pouco pobre, vários prédios pequenos amontoados uns nos outros. O apartamento de Milla ficava no ultimo andar de um prédio de 7 andares, sem elevador.
— Milla, é você filhinha? — Eu ouvi uma voz feminina chamar pela garota.
— Sou eu sim mãe, eu trouxe um amigo comigo. — Nós fomos entrando no pequeno apartamento. O lugar devia ter a metade do tamanho do meu apartamento, varias estantes cheias de livros compunham o que eu supus ser a sala de estar.
— Prazer, meu nome é Caius. — Eu me apresentei pra senhora sentada no sofá da sala, uma haste com uma bolsa que devia conter algum remédio estava ao lado da mãe de Milla.
— Oh, você é o famoso Caius de quem a Milla tanto fala. Meu nome é Joan, mas pode me chamar de tia Jô como todos os amigos da Milla chamam. Então, agora você vai se sentar aqui enquanto a Milla prepara o nosso almoço e vai me contar porque um jovem bonito como você não chamou a minha filhinha querida pra ir ao baile. Não que eu não goste do Mike, eu conheço aquele menino desde quando ele usava fraudas, mas ele é muito velho pra Milla. — A garota já tinha desaparecido quando eu notei, fiquei ali conversando com a mãe dela que a cada instante da conversa tentava me deixar mais embaraçado. Eu descobri o porque de Milla ser do jeito que era, ela e a mãe tinham personalidades parecidas.
Quando o almoço ficou pronto nós comemos ali mesmo no sofá da sala. Depois do almoço a mãe de Milla acabou cochilando e eu fui ajudar a garota a lavar a louça.
— Gostei da sua mãe, você são muito parecidas sabia?
— Eu sei, eu puxei a mamãe em quase tudo. Ela vai dormir um bom tempo agora a tarde, é sempre assim. Que tal a gente treinar um pouco de violão lá no quarto? Eu posso te mostrar minha guitarra. — Ela disse toda animada.
— Ótimo, é bom que você me passa exercícios novos, eu já to enjoado de repetir os antigos.
Nós terminamos de lavar a louça e guardar as coisas na cozinha e fomos para o quarto de Milla. Assim como todo o restante da casa o quarto da menina tinha uma grande quantidade de livros, a maioria empilhada em fileiras junto as paredes do quarto. Ela tinha um suporte onde três instrumentos estavam pendurados: Uma guitarra verde florescente, um baixo branco e um violão preto.
— Nossa, são todos seus? — Eu apontei pros livros.
— Não, aqui em casa os livros são de todo mundo. O acervo é coletivo e não individual.
— E os instrumentos musicais?
— A sim, a guitarra é minha, o violão e o baixo são do meu irmão. Eu prefiro tocar o baixo, eu aprendi logo depois do violão com o meu irmão mais velho.
— Que irado! — Eu falei empolgado. — Eu queria ter coisas legais assim.
Eu fiquei abismado assistindo a garota tocando a guitarra, ela era muito boa naquilo. Ela me deu algumas aulas na guitarra, não era tão diferente do violão. Depois de muito tempo ali a mãe de dela nos chamou.
— Cadê aquele filme que você tinha me prometido hein japinha?
— Ah-h ta aqui tia. — Eu disse tirando da mochila o filme que eu e Milla tínhamos pegado na locadora no caminho.
Passamos o resto da tarde ali assistindo o filme e conversando. Eu tinha realmente simpatizado com a mãe de Milla. E aparentemente ela também tinha gostado de mim, apesar de todas as brincadeiras com a minha timidez. Nos despedimos quando deu a hora de ir pro jogo, eu não podia chegar atrasado ou o coach arrancaria meus olhos com as próprias mão.
— Volte mais vezes Caius, você é um rapaz tão atencioso. — Ela disse, ela tinha a aparência extremamente abatida, fico me perguntando como ela devia ficar quando piorava.
— Volto sim tia, assim que der eu dou uma passada aqui. — Eu disse sorrindo quando a senhora me abraçou se despedindo.
Eu e Milla voltamos pra escola, onde ocorreria o jogo, a garota mais quieta do que o costume durante todo o percurso.
— Ta tudo bem Milla? Você ta quieta desde que saímos da sua casa. — Eu perguntei preocupado.
— Nada não, só pensando na vida. — Ela disse forçando um sorriso.
Eu fiquei ali observando a expressão dela enquanto olhava o sol se por ali no horizonte.
— Como está se sentindo? – Perguntou subitamente me surpreendendo enquanto ainda a observava.
— Estou bem. – Respondi desviando o olhar momentaneamente constrangido por imaginar que havia sido flagrado em minha contemplação.
— Mesmo? – O tom utilizado por ela era absolutamente tranqüilo.
— Mesmo. — Eu sorri. — Eu não pareço bem?
— Não é isso. Eu... só estava checando. — Ela disse se virando pra janela novamente.
— Okay.
— Okay. — Ela repetiu e depois riu.
Uma gargalhada gostosa deixando sua garganta e alcançando meus ouvidos como uma bela melodia. Meu coração se aqueceu naquele momento e senti tanta vontade de abraçá-la, tanta que meus braços formigaram numa reação que eu sequer conseguia compreender.
— É irônico, não? Você tem um grande jogo agora e fica ai preocupado comigo e a minha família. — Ela disse com um sorriso triste na face.
— A sua mãe... Ela ta muito mal não é? — Eu perguntei, olhando pra parte de trás de sua cabeça.
— Ta sim, eu não sei mais quanto tempo ela vai agüentar. O meu pai diz que isso tudo vai passar, mas eu não tenho certeza disso mais. Ela tem estado tão fraca ultimamente que eu não sei.
— Não fica assim, mesmo que sua mãe se vá, e eu espero sinceramente que isso demore muito pra acontecer, eu vou ta aqui ainda pra você se apoiar. Eu realmente não me importo que você me use pra se reerguer Milla. — Eu disse tocando em seu ombro.
— Obrigado por tudo Caius, você não tem noção do quanto eu sou grata a você e a July por me apoiarem tanto nessa hora. — Ela disse se virando em minha direção, algumas lagrimas descendo por sua bela face.
Eu não resisti ao impulso e abracei ali mesmo dentro do ônibus. Nós ficamos em silencio o resto da viagem, apenas contemplando a escuridão que caia sobre a cidade. Chegamos quarenta minutos antes do jogo começar, eu tendo me dirigido pro vestiário e Milla pras arquibancadas, onde ela se encontraria com July e Jess.
Encontrei quase todos já prontos pro jogo, apenas se aquecendo por ali. Fui me trocar o mais rápido que consegui. Conversei um pouco com alguns caras do time, ignorando completamente a existência de Mike ali do lado.
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