A escola de Direito da University of Washington em Seattle não estava no topo da lista das melhores, como Yale, Stanford ou Harvard, mas Santana sabia muito bem que, para conseguir uma bolsa de estudos que desse um desconto suficiente para que sua família tivesse condições de cobrir todas as despesas, ela precisaria melhorar suas notas e participar de algum programa extracurricular mais relacionado com a profissão de advogado do que o clube do coral ou a esquadra de líderes de torcida.

Março já havia avançado bastante, e as inscrições para a maior parte das faculdades se encerrariam no final daquele mês ou no início do próximo, por isso ela precisava fazer alguma coisa logo. Então, durante uma pesquisa na Internet, a latina descobriu aquela que pareceu ser a solução dos seus problemas: uma competição municipal de oratória da qual ela se tornou candidata imediatamente.

A partir do dia em que colocou seu nome e dados em um formulário no website do concurso, Santie começou a treinar sem parar. A simples participação já contaria como atividade extra, mas ficar em uma boa posição certamente seria um plus, então ela precisava aperfeiçoar suas habilidades de discursar na frente de pessoas, e foi por isso que alguns almoços de Rachel na escola foram substituídos por lanches, para que ela revezasse com Quinn e Brittany na tarefa de ajudar a amiga a se preparar.

"Está ótimo, amiga!" Rachel elogiou, quando Santana acabou de fazer o mesmo discurso pela terceira vez.

"Você tem certeza, né, Rach? Eu quero ter condições de ganhar. É uma baboseira esse lance de que o importante é competir." As duas riram.

"Eu tenho certeza, sim. Você tá perfeita."

"Você devia participar também, Rach. Devia se escrever nesse concurso e mandar os documentos para UW, pra ir comigo pra Seattle e nós continuarmos fazendo tudo juntas, como sempre foi. Depois, a gente podia abrir um escritório juntas... nós com certeza iríamos ser as melhores!"

"Quem sabe, não é?" Rachel deu um risinho, mas ele não se refletia em seus olhos. "Eu ainda não resolvi pra que curso e faculdades eu vou aplicar."

"Mas você sabe que precisa, não é?"

"Eu sei... eu... eu to pensando, tá? Eu tenho uns quinze dias..." Afirmou, incomodada. "Ser advogada é o seu sonho, não o meu."

"Mas... eu não queria ir sem você... eu não sei se posso. Eu sou louca pela Britt, mas... você é minha melhor amiga!"

"Você pode fazer tudo sem mim... sempre pode, Santie."

"Mas, se você for comigo, a cidade grande não vai parecer tão... assustadora."

"Assustadora?" Rachel não conteve o riso. "Nada te assusta, bobona." Disse, cutucando a latina. "Você quase conseguiu provocar uma greve de alunos, no nosso primeiro ano aqui, por causa da comida... e falou na cara do diretor que tudo que a cantina servia tinha gosto de plástico com molho de tomate. Sério, você vai conquistar aquele lugar rapidinho!"

"Se você não vai comigo, com a Quinn ou o Finn, o que vai fazer?"

"Eu ainda não sei." Reafirmou, frustrada, um pouco irritada.

"Me faz só um favor?" Pediu Santana e Rachel a olhou com expectativa. "Quando encontrar seu sonho, Rach, faça ele ser grande como você é... eu quero dizer... por dentro, claro." Riu de si mesma. "Eu não sei de muita coisa, mas eu sei disso... que você deve isso a si mesma. E agora você deve a mim também, ok?" Dito isso, se despediu, porque um sinal já havia anunciado o final do almoço e, consequentemente, o começo de mais um tempo de aula.

Rachel começou, então, a sentir-se pressionada pela passagem do tempo, pelas palavras de Santana, por ver todos a sua volta falando no envio de formulários e currículos para as mais diversas faculdades do país. A escolha de uma carreira era praticamente o único assunto em que ela pensava, com o qual tinha sonhos e, principalmente, pesadelos, à noite. Seus únicos momentos de paz eram quando estava nos ensaios do coral ou sozinha com Finn, que já tinha tentado conversar sobre o assunto com ela umas três vezes, mas era facilmente distraído pelos beijos e carícias dela.

Às vezes até durante os encontros do glee surgiam os assuntos formatura e futuro, afinal de contas não havia muita coisa relevante acontecendo no McKinley naquele momento. Porém, para sorte de Rachel, um poucos dias depois da conversa dela com Santana, surgiram duas novidades de uma única vez, modificando o conteúdo das conversas, pelo menos por algum tempo.

"Eu confesso que eu fiquei com um pouco de medo de que ele estivesse usando a garota e desse um belo chute nela, quando ele voltasse a andar." Rachel escutou Sam falar, quando entrou na sala do coral com Quinn e Mercedes. O rapaz conversava com Finn, Puck, Mike e Kurt.

"Eu não acreditava nem um pouco que ele tinha mudado." Afirmou Kurt. "Ele tentou me pedir desculpas por tudo que tinha feito comigo, mas eu nem levei a sério."

"Do que vocês tão falando, meninos?" Perguntou a baixinha, segurando a mão do namorado, que sorriu para ela.

"Do Jesse." Foi Puck quem respondeu. "Depois que ele se livrou das muletas, ele resolveu virar um tipo de herói."

"Parece que tudo começou com ele se enfiando na frente da Cecily e levando uma raspadinha na cara, no lugar dela." Kurt explicou. "Depois, ele já levou mais umas duas ou três, defendendo outros alunos."

"E ontem eu e o Matt chegamos quando ele tava brigando com o Karofsky e o Azimio, tentando impedir que eles jogassem o Jacob na lixeira lá fora. A gente foi ajudar e conseguiu livrar o moleque... pelo menos por ontem." Mike contou.

"Eu acho que vou falar com ele e aceitar, finalmente, aquelas desculpas." Kurt falou, mais para si mesmo do que para os amigos.

"Pessoal, pessoal. Eu já cheguei." O Sr. Schue falou alto, chamando a atenção deles. Todos se calaram e tomaram suas posições para ouvir o professor. "Eu tenho que conversar seriamente com vocês, porque tem uma pessoa querendo se juntar a nós para as Nacionais." Todo mundo começou a falar ao mesmo tempo, achando impossível receber um novo membro tão tarde. "Calma, gente, por favor! Vocês precisam me deixar falar."

"Desculpa, Sr. Schue." Quinn falou e todo mundo ficou, de novo, em silêncio.

"Ok, gente. O caso é bem atípico e eu acho que precisamos considerar com carinho. O rapaz é aluno novo... nem a escola queria aceitá-lo, mas, como a situação era séria, o diretor permitiu que ele fizesse os últimos meses do ano letivo aqui. Ele estava sofrendo um bullying bem pesado na escola onde estudava... e continuou sendo maltratado em outra escola da cidade dele, por isso resolveu vir morar com parentes aqui em Lima."

"E ele sabe cantar, pelo menos?" Finn perguntou, incrédulo. Ele achava que o rapaz merecia apoio, mas não necessariamente tinha que entrar no coral.

"Sim, ele era do coral da escola dele. Os problemas começaram justamente no coral. Na verdade, Finn, pelo que ele me contou vocês já se conhecem. Ele defendeu o Kurt do líder do coral dele nas Regionais."

"Blaine!?" Kurt falou, com um pouco mais de entusiasmo do que gostaria de ter demonstrado. Ele já tinha quase perdido as esperanças de reencontrar seu salvador, em quem não parava de pensar, mesmo assim, e ele agora estava ali, prestes a ser colega dele no clube.

"Sim, o nome dele é Blaine e ele está esperando na secretaria, para vir fazer uma audição, se vocês concordarem."

O falatório começou de novo, mas dessa vez Will deixou que o pessoal trocasse ideias por um tempo. Depois de alguns minutos, quem pediu silêncio foram Rachel e Finn, que perguntaram se alguém se opunha a que Blaine viesse à sala de ensaios e cantasse algo, para eles poderem avaliar o que deveriam fazer. Não tendo recebido nenhuma resposta afirmativa, o casal se ofereceu para ir buscar o rapaz, ao que o professor não se opôs, e, depois de se apresentar e dizer que gostaria muito de poder fazer parte do grupo, o moreno combinou algo com os músicos e começou a cantar.

Todos ficaram surpresos positivamente com a voz e a desenvoltura de Anderson, e não demorou para que a maioria dos presentes estivesse dançando com ele ao som de Friday Night, da Katy Perry. Quando a música acabou, Rachel, Finn e Will já sabiam que ele faria parte do grupo, mas, mesmo assim, pediram que ele aguardasse no corredor e fizeram uma votação, que foi quase unânime.

O resto do encontro serviu apenas para que os integrantes antigos se apresentassem ao novo e ele contasse também um pouco mais sobre ele. Rachel ficou feliz porque não teve como não reparar nos olhares trocados entre o novato e o cunhado dela. Também adorou a distração que era a chegada de alguém novo no grupo, pois aquela constante preocupação com a escolha de uma carreira a estava matando.

Por um tempo, Rachel pode se enganar um pouco e fingir que era possível apenas viver um dia de cada vez, com todas as pessoas que amava perto dela, na cidade onde nascera e vivera por dezoito anos, e dentro de uma grande bolha de proteção.

Notas finais
Gente, comenta alguma coisa, por favor... to me sentindo muito só por aqui...