"Mais um dia acordo às seis horas da manhã e fico imaginando o “porque” de ainda estar me sentindo tão só na maior parte do tempo, confesso que não posso reclamar, pois não sou a primeira nem a última adolescente em plenos dezesseis anos a se sentir assim, a minha vida virou de cabeça para baixo no instante em que perdi uma pessoa importante, ou seja, outra coisa meio clichê que adolescentes com hormônios a flor da pele tendem fazer ao ficarem tristes com uma morte, e mediocremente pensar que vai morrer de tristeza, confundindo com depressão, sendo pretensiosamente egoísta ao ponto de não se importar como os outros estão levando a vida, mas quando é o seu pai, a coisa muda drasticamente, porque você sempre pensou que aquilo nunca iria acontecer com você, mas alguma coisa ou outra sempre acontece, por enquanto estou na jovialidade dos meus dezesseis anos, mas muitas pessoas dizem que tenho mentalidade do dobro da minha idade, sim, isso realmente me faz sentir muito melhor, obrigada Tia Elô, tenho que lembrar a ela depois de terminar isso aqui, na verdade achei você ontem, já não aguentava mais ficar ouvindo “Meus Pêsames, Condolências” ou um “tanto faz” que as pessoas não tinham coragem de dizer, mas que eu conseguia processar só pelo olhar direcionado a mim, sei que meu pai não era grande coisa, ele poderia ser o alcoólico mais mal resolvido em relacionamentos amorosos do Rio Grande do Sul, mas ainda sim era meu pai, que simplesmente morreu. Ele e minha mãe sempre foram separados praticamente a minha vida inteira, mas isso não quer dizer que ele não era um pai presente, pelo menos para mim. Ele nunca teve uma relação muito boa com as outras duas filhas dele e já que eu era a caçula, era a que mais sofria com apego fraternal, ambos os lados tem filhos de outra pessoa, um maltratava o outro, já ouvi histórias de que a minha mãe um dia achou uma arma no criado mudo ao lado da cama, e só não havia matado o meu pai por falta de balas. Ou seja, eu nunca fui ou serei uma pessoa normal ou de uma família normal, mas no decorrer dos dias você vai ficar sabendo do que eu estou falando"

Dia 05 de agosto, Roniara Maia, Uma segunda feira revigorante.

Assim que terminei de escrever umas poucas linhas do diário de segunda mão que achei num tipo de sótão mal intencionado totalmente limpo e vazio, exceto pelo caderno de couro desgastado, fui tomar um banho que demorei um pouco devido ao novo chuveiro de água quente, coloquei uma calça Jeans e a farda razoável da escola, adicionei os livros de biologia, português, história e matemática na mochila, desci rápido, estava com fome e minha mãe estava dormindo como sempre, pensando bem, não converso com ela um bom tempo. Tratei de eu mesma preparar o meu café, fiz um ovo frito, peguei o achocolatado e o pão, comi rápido, pois quando olhei para o repulsivo relógio, já eram sete e meia da manhã. Sai de casa correndo como se estivesse em uma maratona, mas o meu ônibus já havia ido embora, perdi a hora mais uma vez e teria de ir andando para a escola, o sedentarismo das férias não ajudou muito, e as horas chorando não foi muito atrativo para a minha aparência.

Depois de mais de dezoito minutos andando e subindo uma ladeira sem fim cheguei na faixada horrenda daquela escola, estava precisando de uma boa reforma, mas fazer o que se é uma escola pública, entrei e sabe aquela sensação de todos estarem olhando pra você, pois é, não era sensação, era certeza, a metade daquelas pessoas mandaram mensagens pelo facebook suas intermináveis condolências e pêsames que nem tive paciência para responder a todas, mas durou pouco tempo, os olhares de pena era de se esperar, mas eu não iria suportar, procurei desesperadamente o meu horário na bolsa e depois de longos três minutos eu achei e vi que a minha primeira aula iria ser de matemática, o que era péssimo já que detestava a matéria, o difícil é você entender o resto só é duas vezes mais complicado, mas é claro que há aqueles que dominam a matéria, deve ser um dom o qual não possuo, cortando a minha linha de raciocínio o sinal tocou e fui na secretária, me disseram que continham armários novos no corredor L, e isso foi impactante, nunca houve armários nessa escola, fui direto para a sala e assim que cheguei vi o homem de 27 anos, alto e de cabelos castanhos, o professor, mas sinceramente na primeira em que o vi esperava que fosse um aluno, mas fazer o que, a ética não permite esse tipo de relacionamento educativo, então o que restou foi me sentar no fundão. Gosto de ser invisível, mas infelizmente isso é uma coisa que eu não consigo ser, por minhas notas altas, menos em matemática, ter o único cabelo cacheado da sala e olhos cor de mel, e acreditem não estou me gabando, mas ser bonita e inteligente, menos em matemática, não é tão legal quanto parece se você quer ficar sozinha e todo mundo te conhece, às vezes fico pensando em como vim parar aqui.

Levanto minha cabeça para examinar a sala toda, e todos tinham voltado a seus respectivos lugares, mas tinha um problema que não gostei, havia um garoto, eu não o conhecia até agora, já que seus olhos azuis e cabelos ruivos eram bem chamativos, na verdade ele estava me encarando, mas assim que ele percebeu que eu o peguei no flagra continuou encarando por uns três segundos e lentamente voltou a sua cabeça para o professor Simon Costa sorrindo.

Finalmente o sinal tocou, desesperadamente tive de assistir três aulas de matemática o que é um castigo, fui direto pra fila pegar o lanche e hoje tinha sanduíche de atum, eu gosto e faz tempo que eu não como um desses, peguei a bandeja, esperei colocarem o lanche segurando o riso do tio da cantina porque ele parecia mais um presidiário aposentado do que um distribuidor de lanches, fui em direção a uma mesa olhando para os meus pés, assim que levantei a cabeça e quando eu menos esperava um garoto loiro estava correndo desesperado, sabe aquele momento em que você tem um Deja vu e tudo acontece em câmera lenta? Sim isso aconteceu por minha demência e falta de bom reflexo, o garoto esbarrou em mim, cai no chão com minha bandeja, assustada e frustrada olhei para cima, encontrei os olhos do tal garoto, eram bem parecidos com os olhos do garoto de mais cedo à diferença era que este era loiro, logo depois da sensação da humilhação por ter atum da cabeça aos pés levantei-me agora com raiva. Olhei para a cara do imprestável:

- Seu retardado, olha o que você fez – falei praticamente gritando o fulminando com os olhos.

– Calma ai, que bicho te mordeu garota? Pode baixar essa bola? – ele falou pondo as mãos para o alto, mas a falta de paciência era explícita da minha parte.

– Baixar o que? Se enxerga garoto, antes de se dirigir a mim, tenha um resquício de dignidade e peça desculpas.

– Olha aqui baixinha, sou o filho do diretor dessa escola, e acho melhor você se acalmar esquentadinha. – aquilo me fez rir descontroladamente atraindo olhares de todos do pátio.

– Primeiro não te perguntei de quem você é filho, isso não tem a mínima importância. — ele ia falar mais alguma coisa, mas não me dei o trabalho de esperar e sai em disparada ao banheiro e quando eu menos esperava o tapado veio atrás de mim, e logo estava na minha frente — Saia da minha frente, você é um retardado mental?

– Você por gentileza poderia me desculpar?

– Não sua alteza, você acha mesmo que desculparia você agora?

– Por que não?

– Porque você é um idiota, simples, agora quer fazer o favor de sair da minha frente?

Ele saiu dando espaço e sai extremamente rápido ao banheiro, ignorei totalmente meu sanduíche de atum no percurso porque agora era o enfeite da minha roupa. Entrei no banheiro e minha farda estava toda suja, que raiva daquele garoto, tentei me lavar como pude, então do nada lembrei que tinha um casaco preto na bolsa, o peguei e coloquei, deu até pra disfarçar a blusa manchada, sai do banheiro ainda bufando e esbarrei em alguém, sinceramente esbarrar nas pessoas esta virando a rotina de hoje, quando olhei para a cara da criatura na minha frente preferi voltar de imediato para o banheiro porque era o loirinho desastrado da cantina, mas não fiz isso esperei ele dizer logo o que ele queria, mas o novato estava com a turminha atrás dele o que era bem esquisito.

– Perdeu alguma coisa?

– Eh... Não. – falou como se não tivesse acontecido nada, acho seriamente que estou de TPM.

– Então com licença. — sai andando e quando dei uma olhada para trás coisa que eu não deveria ter deito, o garoto estava me seguindo.

– O que você quer? Já não basta ter me melado inteira de atum justo no primeiro dia de aula, e ter se gabado de seu lindo papai, achando que poderia me fazer baixar a bola, sinto muito lhe informar, mas você não sabe com quem está se metendo, então dá para me deixar em paz, porque a minha TPM está extremamente irritante nesse momento. Então pare de me seguir.

–Tudo bem...

Dei o sorriso mais falso que poderia transmitir e fui embora com todo mundo presente no local olhando para mim, pelo visto hoje eu iria ser o comentário doa escola, as pessoas amavam uma bela de uma fofoca e com a consciência de que estava sendo muito infantil, mas aquele garoto me deixou irritada demais. Fui para a minha próxima aula, e nem entendi muito do assunto, de novo, o professor de biologia falava de prófase, anáfase, telófase ou algo do gênero, me senti incluída no crepúsculo por causa dessas divisões de células que aparece no filme. Depois de um tempo querendo que um milagre acontecesse, foi concedido, o sinal tocou e fui à última a ficar na sala, querendo ou não, tinha que revisar aquilo em casa.

Estava terminando de copiar, mas logo percebi que havia mais alguém na sala, levantei a cabeça e o mesmo garoto de olhos verdes que havia visto mais cedo me encarando, estava na sala me encarando de novo de uma forma mais discreta, cansada do dia desgastante de hoje consegui ignorar por um curto período de tempo.

– Se vai ficar me olhando o dia inteiro é melhor falar logo o que você quer ou quem sabe tirar uma foto para você ficar admirando quando chegar em casa.

– Bom, nada em particular, só achei legal o que você fez na cantina, Jonathan estava merecendo um sermão.

– Se você está tentando puxar conversa começou com o pé esquerdo se você está falando do filho metido do diretor, estou cansada do assunto.

– Queria mesmo é agradecer por ter feito baixar a bola dele, está aqui há um dia e já conquistou a escola inteira, mas não se preocupe o colégio interno nunca foi boa coisa, mas Jonathan fez um bom trabalho para nos fazer sermos expulsos.

– Nossa que recíproco. – agora sabia dos olhos idênticos, eles eram irmãos gêmeos, sabia disso porque todos sempre souberam que o diretor tinha filhos gêmeos, mas saírem de lá e virem para uma escola pública? Quero nem imaginar o que eles aprontaram.

– Você é sempre assim? – seus olhos me analisavam, puxando o assunto de repente.

– Assim como?

– Sempre na defensiva?

– Não, eu só quero ficar sozinha, porque mal acompanhada está ficando estressante. – guardei meu caderno, estojo e me dirigi a porta sem nem olhar para o garoto de cabelos ruivos de novo.

–Prazer também, sou Peter Saantos Sullivan. – olhei para trás quando estava chegando à porta, a curiosidade falou mais alto.

– Por que falou seu nome completo?

- Porque é assim que me apresento às pessoas, digamos que seja uma marca registrada particularmente minha.

- Adeus Peter Saantos Sullivan da marca particularmente registrada.

Sai deixando-o sozinho na sala, sai pelo corredor e desci a rampa escorregadia quando olhei para o céu e tudo estava nublado, estava perto do portão da escola e começou a chover, ótimo, isso era tudo o que eu precisava neste agora, resolvi ir para casa na chuva mesmo, comecei a andar sentindo cada gota incessante de água caindo, me fazendo pigarrear por molhar o livro que deixei na mochila desde a semana passada “Morte Súbita” da J.K Rowling, de repente uma picape nada modesta parou do meu lado, meu instinto de correr me alertou, mas só comecei a andar um pouco mais rápido, alguém buzinou e levei um susto, no mesmo instante o vidro fumê abaixou e uma cabeleira ruiva e molhada parou do meu lado.

– Está querendo me sequestrar agora? Porque isso assusta.

– Quer carona?

– Não, obrigada marca registrada. – recomecei a andar.

– É sério, entra.

- Me dê um motivo. – falei arqueando as sobrancelhas e tremendo de frio.

– Você, está horrível, vai molhar seus livros, vai pegar uma baita gripe.

– Ah muito obrigada, conseguiu aumentar a minha autoestima. –fiquei dez segundos me segurando e o tudo bem saiu de forma involuntária.

Corri para o carona e entrei no carro, sem dizer uma palavra.

Ele deu a partida no carro, fui indicando silenciosamente as ruas que ele deveria seguir para chegar à minha casa, chegamos rápido, minha casa não era tão longe, e até agora estava me perguntando o que ele estava fazendo com um carro, com certeza ele tinha 18, mas parecia mais novo, ele parou o carro na fachada vermelha com branca do meu bloco, quando estou abrindo a porta do carona para correr para casa ele me puxou de volta me fazendo fechar a porta e encarar ele, um segundou depois percebi que estava tão perto dele que podia sentir seu hálito de morando refrescante.

– Não quer levar o guarda chuva? – disse olhando fixamente para meus lábios o que me fez afastar-me dele.

–Você tem um guarda chuva?

–Tenho.

–E porque não me disse antes? – incrédula me descrevia no momento

–Porque se dissesse você não iria vir comigo.

–Nossa que sedutor.

Falei bufando pegando o guarda chuva e saindo do carro, assim que pus os pés no meu “apertacasa” fui ao meu quarto e nesse momento voltei a minha realidade, a minha mãe ainda não tinha chegado, e a pontada da dor no meu coração ao lembrar do meu luto foi menor hoje, e agradeci imensamente por isso, talvez o cotidiano me fizesse voltar a ter algo de interessante na minha vida de agora em diante.

Notas finais
Música:
Worth It (feat. Kid Ink) - Fifth Harmony