Uma Nova Chance
8 Coisas do Passado part 2
Notas iniciais
Com as mãos na cintura, Ana esperou por uma explicação de Christian, que parecia chocado diante da situação.
—Mas o que acabou de acontecer aqui? — ela perguntou.
— Me desculpe Ana, mas outra hora conversarmos. Agora preciso ir — Christian falou apressado, cruzando a porta. —Tchau, Ana. — ele parecia nervoso.
—Tchau. — ela respondeu, ainda confusa.
Sem acredita no que acabara de acontecer, observou o carro de Christian ir embora. Balançando a cabeça negativamente, descrença, decidiu ir à casa de sua vizinha. No entanto, após bater várias vezes na porta e não obter nenhuma resposta desistiu. Já era quase hora de começar seu turno no trabalho. Ana tinha que se arrumar, ou chegaria atrasada. Voltou a sua casa, tomou um rápido banho, vestiu seu uniforme, ao terminar trancou sua casa e saiu. Deu uma última olhada a casa de Kate e tudo estava fechado, inclusive as janelas da frente, suspirando, seguiu andando em passos apressados pelo caminho de cascalho.
◦◦◦
Ana percebeu o olhar que Paul, seu gerente, lançara. Ela reparou o relógio na parede que apontava seus dez minutos de atrasado, e o restaurante estava lotado. Ela deu um sorriso sem graça. Estava nervosa, se recriminou por ter insistido tanto, era obvio que Kate não abriria a porta para ela, nem mesmo Ana sabia por que ela insistira tanto. Para não perder mais tempo, pegou seu bloquinho e começou a andar entre as mesas, anotando os pedidos. Depois de anotar alguns, Ana caminhou em direção à cozinha para entrega-los a José, mas antes de chegar ao seu destino, seu chefe a parou entrando no meio do caminho, lhe cercando.
Achando que iria levar uma bronca, nem esperou que Paul dissesse algo.
— Sr. Paul, me desculpe pelo o atraso, aconteceu um imprevisto, mas isso não vai se repetir. Eu prometo — disse sem parar, Paul apenas olhou-a, com um “meio-sorriso” a respondeu:
— Não se preocupe com isso, você é minha funcionária preferida. — Ana o olhou, intrigada. — Pessoas prestativas ao meu lado são as que eu mais aprecio. — ela sentiu-se desconfortável diante de Paul.
Sua voz soava em tom meio sedutor, o qual ele não havia usando antes, talvez fosse coisa de sua cabeça, mas a maneira como ele a olhava a fizera querer passar por ele mais rápido possível.
— Tenho que entregar os pedidos ao José. — falou séria, antes de lhe dar as costas.
— Mas que cara é essa? — José perguntou, assim que Ana chegou até ele. —Aliás, boa tarde, senhorita atrasadinha. Parece que viu um fantasma. — Riu José.
Ele terminava de montar mais um prato, olhou para Ana e, ela o olhava, ele continuou a falar. — O chefe perguntava por você de cinco em cinco minutos. Acha saco pra aturar esse homem! Eu juro que, quando arrumar um emprego melhor, me mando daqui!
Ana pensou o mesmo. No começo, ela adorava o emprego, no entanto, às vezes sentia-se sufocada por Paul. Quando ela fora contratada, Paul não falava muito com ela, mas de uns dias, ele mudara. Concordava com José, mas infelizmente ela não poderia fazer o mesmo. Pois ali era o seu refúgio.
— Mais pedidos. — Ela suspirou — Hoje será um dia daqueles, está lotado.
— Nem me fale! Minha cabeça está fervendo nessa cozinha. — Jose mexia algumas panelas. —Ana, você me parece uma boa garota e, bem, não sei como te dizer isso, mas sabe que já trabalho aqui e um tempo. Não quero te assustar, mas já vi umas coisas acontecerem aqui.
— Como assim?! — Ana arregalou os olhos, mas tratou de disfarçar enquanto fitava José.
— Se o Paul começar a te dar muita atenção, saia fora. Não entra na conversar dele e a cidade é pequena sabe como é. Todo mundo vai comentar. — Ele arqueou as sobrancelhas, e Ana entendeu o que José a tentava alertar.
— Ele é um homem casado. Já vi a esposa dele algumas vezes por aqui.
— No entanto, é só fachada, todo mundo sabe que o casamento deles está indo por água abaixo. E o chefinho tem procurado diversão fora de casa, me entende?
— Sim. Eu entendi, José. Agradeço por me alertar. — ela falou, antes de sair.
Depois de um longo e cansativo dia de trabalho, chegava ao fim. José já havia fechado a cozinha e ido embora. Ana terminava de limpar, algumas mesas, apressadamente. Quando sentiu o calor atrás de sua nuca, ela sobressaltou e ouviu a voz de Paul.
— Deixe isso que os outros terminam. Já trabalhou muito por hoje, apesar de seu atraso. — Ana se afastou um pouco. — A clientela continua a elogiando. E fico muito satisfeito com você, Srta. Roberts.
— Gosto de fazer o meu trabalho direito. E quanto as mesas, só falta mais uma. Pode deixar que eu faço.
— Certo. Isso é pra você. — Paul a entregou um pequeno envelope carimbado com o slogan do restaurante.
— Pra mim?
Ana pegou e abriu desconfia, se surpreendeu com o conteúdo que tinha dentro: era dinheiro.
— Sua gorjeta, — Paul sorriu pra ela que se mantinha séria. — uma cortesia dos clientes, por seu bom atendimento.
◦◦◦
Ao se aproximar de sua casa, Ana percebeu a luz de fora da casa de Kate acesa e, então, decidiu bater na porta, seria sua última tentativa. Ana podia não admitir, mas de certa forma, se importava com a Katherine.
— Kate, sou eu Ana — falou, depois de bater algumas vezes na porta sem obter respostas. — Sei que está aí dentro. E não vou embora até você abrir, vamos abra. Estou sozinha.
O silêncio permaneceu e, aos poucos, a porta foi sendo aberta.
— Posso entrar? — indagou, assim que a porta foi aberta por completa.
— Sim. — ela respondeu rouca,
Seus olhos estavam inchados, Kate havia chorado. E muito.
—Ana, me desculpe por sair daquele jeito. Não pense que sou uma louca, mas eu tenho os meus motivos.
Ana balançou a cabeça, concordando com ela. — Deu pra perceber que você e o Christian se conhecem, não que seja da minha conta, mas é ele o pai do seu bebê? — Ana perguntou, sem graça. — Ou ele te fez alguma coisa?
— Olhe, não estou muito bem. Tive muitas emoções por hoje — Kate dizia. Ela sentou no sofá, Ana ficou em pé, observando-a. — Que tal, como já está bem tarde, amanhã eu ir pra sua casa?
— Amanhã eu trabalho — respondeu, calmamente.
— De manhã ou à tarde?
— Tarde, assim como hoje. Mas sexta eu irei trabalhar de manhã. Acho que volto depois das cinco da tarde.
— Então, eu vou para lá quando voltar e respondo todas as suas perguntas. Eu preciso desabafar, às vezes isso ajuda bastante
◦◦◦
Os dias se passaram e, logo já era sexta-feira. O movimento do restaurante havia aumentado de uma forma perceptível. E isso significava que o dinheiro reserva guardado na lata, também cresceu de uma forma proporcional e reconfortante. Isso deixava Ana mais feliz e, não sentia mais a angustia do pânico se caso precisasse sair de casa.
Depois de pagar o aluguel, as contas e as despesas com comida, percebeu que, surpreendentemente depois de anos, sobrara dinheiro. Não era muito. Mas o suficiente para se sentir livre e leve. No entanto, sem a ajuda do gerente. Depois de pensar muito sobre o assunto, Ana resolveu que devolveria o dinheiro. Ela sabia que não era dinheiro de clientes, quando ganhava gorjeta, era os clientes que lhe davam.
Paul, claro, insistiu em dizer que eram gorjetas, mas no fim, acabou aceitando o dinheiro. Ana sabia que aquele era o certo a se fazer. Ainda mais, ao receber um “Tome cuidado com o Paul” de Jessye, uma das garçonetes. Mas isso não serviu para que Paul parasse de pegar em seu pé.
Pela manhã, ela fora trabalhar e, como previra, chegou depois das cinco. Era o dia em que havia combinado de Kate ir a sua casa. Ela havia encontrado com elas outras vezes, mas não tocaram no assunto, mesmo que a curiosidade de Ana gritava querendo respostas, não falou sobre a reação que Christian e ela tiveram ao se encontrarem.
Ela estava na cozinha enquanto terminava de corta o queijo branco em cubinhos, mordiscando alguns dele. Em um prato de plástico havia alguns biscoitos, e fatias de presunto cru e salaminho, mesmo que ela não tivesse conseguido arrumá-los do jeito que havia imaginado, estava satisfeita. Já tinha se conformado, nada saia como imaginava. Na casa em que ela morava antes de vir a Hagersburg, Ana tinha uma tábua de frios e uma faca de prata para queijos, mencionando ao seu amado conjunto completo de taças de vinho. Tinha também uma mesa de vidro e cortinas de renda nas janelas, suas favoritas eram as brancas; porém, aqui, sua mesa era bamba e as cadeiras eram diferentes umas das outras. Por mais horrível que sua outra vida fosse, ela gostava de organizar as peças que arrumavam seu lar.
Ana apenas despertou de seus pensamentos quando ouviu batidas em sua porta, só soube que era Kate quando viu que as luzes da casa ao lado estavam apagadas. Ela caminhou até a porta e abriu-a. Como previra, era Kate, ela exibia um sorriso e carregava uma garrafa de vinho.
— Entre — disse, dando passagem para que Kate entrasse, mas seus olhos não saiam da garrafa. Perguntava-se se ela pretendia beber o vinho.
Kate pareceu perceber o olhar e disse: — Ah, você está pensando que eu vou beber o vinho? — ela perguntou, com humor, enquanto observando Ana fechar a porta, ela balançou a cabeça positivamente. — Ana, eu posso ser maluca, mas não aponto de beber algo alcoólico grávida — falou, rindo ao ver a cara de alivio de Ana. — Na verdade, eu comprei para você.
Estendeu a garrafa e Ana a pegou, um tanto surpresa.
— Não precisava.
— Ah, que nada. Achei que iria gostar, é um dos meus vinhos favoritos. — Ana apenas sorriu e caminhou em direção à cozinha, sendo acompanhada por Kate. — Esses petiscos parecem deliciosos.
— Pode pegar se quiser, sinta-se a vontade.
Kate sentou em uma das cadeiras e pegou um dos queijos. — Obrigada por me receber em sua casa. Você não imagina o quanto eu estava ansiosa por hoje.
— Sério?
Katherine balançou a cabeça positivamente. — Você pode estar pensando que estou aqui apenas para te dar explicações por aquele episodio, mas eu não penso assim, desabafar com um amigo sempre é bom. E no momento, preciso disso.
Ana apenas assentiu, enquanto mexia na geladeira com uma mão, na outra, segurava duas xícaras. Retirou uma jarra de suco, Kate a acompanhava com o olhar, fechando a porta da geladeira com o pé, olhou para a loira sentada em sua cozinha, com um sorriso torto.
— Fiz essa limonada para gente. Irei te acompanhar.
— Adoro limonada, mas não precisa me acompanhar, se quiser, pode tomar o vinho que lhe trouxe. — Kate sorriu.
— Como preferir.
◦◦◦
Katherine respirou fundo, enquanto beliscava o salame. Estava a uns dois minutos tentando tomar coragem e contar tudo para Ana, ela parecia tão confiante quando chegara. Mas era difícil falar de algo que a magoou muito. Desde que acontecera, há meses atrás, ela nunca falara nada pra ninguém. Nem mesmo para sua mãe, que ajudara muito.
— Kate, se não quiser, não precisa me contar. Vou entender. — Ana dissera, com um sorriso reconfortante.
— Não, eu preciso disso. — Ela ficou mais alguns minutos em silencio, quando voltou a falar.
— Eu só conheço o Christian por que ele já foi o meu cunhado. — fez uma breve pausa e voltou a falar. — Conheci Elliot, o irmão de Christian e meu ex-namorado, há cinco anos e namorávamos a três, na minha cabeça, ele era o tipo de namorado perfeito. Nós combinávamos em tudo, Ana. Eu achava que tudo estava indo perfeito, mas então, ele começou a ficar estranho. Ele fazia o máximo para me evitar e, quando me via, era estranho comigo. Eu não sei explicar como, mas via a culpa no seu olhar.
Kate sentia as lágrimas caírem escorrerem pelo seu rosto, Ana apertou a mão de Kate sobre a mesa, como se quisesse transmitir segurança. Kate continuou a falar, mas com o olhar para baixo.
— E em um infeliz dia, eu fui ao seu apartamento, queria saber o que ele estava me escondendo. Eu tinha prometido a mim mesma que não sairia dali sem uma resposta para aquela merda toda. Mas a última coisa que eu esperava encontrar era uma mulher histérica — Katherine parou por um momento, ela lembrava exatamente do que acontecera. A dor continuava a mesma. —, ela alegava que tinha seus direitos e, que se ele não assumisse, ela acabaria com a vida dele. Quando eu ouvi aquilo, eu não consegui acreditar.
Ela havia prometido a si mesmo que não iria chorar mais por aquilo, mas não podia evitar. — Eu juro, eu tentei acreditar no que ele me disse, mas a verdade, é que nada se aplicava. Ele engravidara outra mulher. Eu não acreditava como ele fora capaz de dar para outra pessoa, que era insignificante, a mesma coisa que ele me deu e prometeu. Eu amei ele mais do que minha própria vida, mas depois que eu descobri isso, eu apenas resolvi seguir em frente e esquecer.
— E então você descobriu que estava grávida? — depois de três minutos de silêncio, Ana resolveu perguntar.
— Não. Depois de quatro meses, se não me engano, Elliot apareceu no meu apartamento. E, eu não consigo acreditar como eu fui burra, uma idiota, mas acabei que dormi com ele. Na manhã seguinte, o expulsei do meu apartamento. Já que eu havia lembrado tudo, deixei-me envolver por um momento. Ele estava de casamento marcado, tinha uma noiva em casa e, por mais que eu odeio admitir, eu havia me transformado na outra, naquilo que eu mais abomino. Só depois desse episodio eu descobri que estava grávida. Por mais que eu em partes eu me arrependo do que fiz, aquela noite me deu o meu presente mais precioso, meu filho é tudo o que tenho. Mesmo ainda estando em minha barriga, eu já o amo.
— Kate, eu entendo o que você passou e não foi fácil. Mas agora, você tem um motivo, lindo pra sorrir: o seu bebê que tanto já ama. Seu amor por ele é bem maior que essa dor. E o dele por você acredito que também será.
Katherine sorriu pelas palavras de Ana. No entanto, uma pontada de medo se fez presente. Christian havia lhe visto, ele sabia que o Elliot fora procurá-la.
— Ana, eu temo que o Christian, agora que me viu, ligue para Elliot e conte onde eu estou e que diga que estou grávida. E se o Elliot vir?
— Sinto em te dizer, mas é uma reação esperada da parte dele, Kate, não acha? Já que o bebê é sobrinho dele.
— Mas eu não lhe disse que o filho é do Elliot — falou Kate.
— Não, eu não acho que ele vá dizer que o filho é teu, principalmente porque não dize de quantos meses está. Mas eu acho que ele vá ligar — se explicou, deixando Kate, um pouco pensativa.
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