Uma Nova Amizade
17 Plano em Ação
Notas iniciais
FRANK
Foi uma freada brusca e repentina. Mais alguns metros e eles teriam batido no pico de uma montanha. Estavam acima (bem acima) da ilha de Circe. A nebrina e as nuvens encobriam suas visões abaixo, então Leo examinou o local com um binóculo recém-tirado de seu cinto de utilidades.
– Não dá pra ver muito, estamos atrás da ilha e essa montanha atrapalha muito a visão.
– Não vamos conseguir nos comunicar daqui – Jason comentou e seus amigos olharam para ele como quem diz “ah, sério mesmo?”.
– Vamos dar a volta – Disse Percy – Sem barulho, de preferencia.
– Como quiser — Leo dirigiu-se ao leme – Mover um navio voador silenciosamente é só para os fortes.
Alguns minutos depois o navio estava estacionado na lateral da ilha, o que era um problema, já que a neblina ali não estava tão expeça quanto perto da montanha. Mas a altura e posição que estavam dificultava a visão vinda de baixo.
Annabeth soltou um longo suspiro de ansiedade e pergutou:
– Todos prontos? – recebendo um ‘sim’ em uníssono, como um exercito em formação – Leo, você vai primeiro, como o combinado.
Leo respondeu com um “ok” forçado e Jason se preparou para descê-lo com os ventos, o que foi o menor de seus problemas, já que Leo o ajudou com uma corda amarrada na lateral do navio e em sua cintura, e começou a descida. Em poucos minutos visualizaram uma luz repetida e fraca, mas nítida o suficiente, vindo da ilha, passando pela névoa. Annabeth anotava em um papel conforme os feixes de luz surgiam, e em poucos segundos havia rabiscado “.-.. .. -- .--. ---”. A mensagem em Código Morse dizia: limpo.
– Está na hora.
– Vou busca-la – Jason declarou e correu para o andar inferior do navio, onde Piper estava.
Com Piper no colo, seria uma descida extremamente exaustiva, mas Jason estava certo de que conseguiria carrega-la. Posicionou Piper (que estava praticamente desmaiada) nas costas, tomou impulso e pulou.
Agora só faltavam Frank e Hazel a pular do navio.
Na noite anterior, enquanto Annabeth explicava o plano, ela deixou bem claro que Frank precisava pensar sobre qual ave suportaria o peso de Hazel até a Ilha. Ele passou a noite toda pensando sobre o assunto e nada lhe ocorreu, até porque, o conhecimento de Frank sobre aves era relativamente debilitado. Mal sabia ele que a resposta para o problema viria em seus sonhos, os quais foram visitados por Ella.
Os três semideuses olhavam para Frank, cheios de expectativa. Ele fechou os olhos e se concentrou ao máximo, até que seus braços se alongaram, alcançando um metro e meio de comprimento e encheram-se de longas penas brancas e pretas. No lugar de seu cabelo, cresceu uma charmosa coroa de penas negras; no lugar de sua boca, um longo bico envergado e, em alguns segundos, o que era um Frank se transformou em uma estimável harpia branca. Hazel, Percy e Annabeth se entreolharam, maravilhados com a escolha de Frank.
– Brilhante – proferiu Annabeth.
Frank começou a piar. Um som agudo e longo, com uma rápida pausa rouca e outro pio, som característico das harpias. Eles entenderam que isso significava “pressa” e logo Hazel se ajeitou nas costas da linda ave.
...
Hazel pensou que cavalgar era a melhor coisa do mundo, mas agora voar no dorso de uma harpia estava empatado.
Frank movimentava as longas asas com perfeição, como se ele tivesse nascido para isso. Hazel podia ouvir o vento batendo entre as penas, entoando um som quase musical. As aves que voavam por perto se afastavam deles, obrigadas a abrir caminho para a ave maior e respeitável que era Frank. Ele parecia não estar carregando nada além de si mesmo, de forma que não demonstrava esforço em carregar Hazel nas costas.
Hazel já estava se esquecendo da missão, tamanha era a beleza do céu por onde passavam e a paz que sentia agora, voando entre as nuvens e seus cabelos acompanhando a direção do vento. Ela queria aproveitar esse momento o máximo possível, pena que esse “máximo” durara tão pouco tempo. Metros abaixo avistaram a praia.
JASON
Jason quase não conseguiu sustentar tanto peso. Estavam a alguns metros de virarem patê de semideus quando ele retomou o controle, conseguiu desviar o percurso e cair na água, perto da praia.
– Piper, está tudo bem? – Perguntou depois da queda.
Piper não respondeu, acabou desmaiando de vez com o impacto e Jason a arrastou até a praia.
A ilha estava deserta. Não havia muitos navios no porto e todos eles estavam abandonados. Na praia de areias claras e macias só havia rochas (onde Leo estaria escondido) e bem ao longe Jason pôde ver uma grande construção em mármore branco, de onde vinha alguma conversação. Mais atrás do monumento, muitas árvores e a grande montanha no centro da ilha. Jason escutou um pio sutil e vislumbrou pelo canto do olho algo pousando na areia a alguns metros. Logo, Hazel e Frank se juntaram a eles.
Estavam analisando o local quando viram uma garota correndo em sua direção. Ela se aproximou aos tropeços, com uma prancheta na mão e a expressão de assustada. Parou na frente deles, respirou, arrumou a saia, pigarreou e disse:
– B-bem vindos... – Pigarreou novamente, tentando parar de gaguejar – bem vindos ao spa de C. C.
– Hã, obrigada – Disse Hazel, de forma sugestiva para que os meninos repetissem.
A garota não sabia mais o que dizer, era obvio, porque ficou olhando para os lados, distraída.
– Então? Onde é o spa? – Frank quebrou o silêncio.
– Ah, sim. Claro. Acompanhem-me.
Caminharam por alguns minutos até o prédio, exercício que estava esgotando as energias de Jason. Piper era magra, mas muito dotada de corpo, o que a tornava consideravelmente pesada. Além do mais, uma pessoa desmaiada pesa o dobro de seu peso original e Jason não aguentaria carregá-la muito tempo mais.
Chegaram a uma trilha de pedras brancas que levavam a entrada do lugar. Subiram alguns degraus até uma varanda ampla que dava a volta em toda a construção. As janelas eram de vidro impecavelmente limpo e cortinas impecavelmente brancas impediam a visão de dentro do salão. A garota guia parou bruscamente.
– É aqui. Vou chamar Srta. C. C. – Ela disse, olhando para os lados a procura de algo ameaçador – Não saiam daqui.
Jason permitiu-se descansar um pouco. Colocou Piper no chão e os três sentaram ao lado dela. Assim ficaram por alguns minutos, até que ouviram passos dentro da casa e uma conversa rápida. A porta se abriu e dela apareceu uma mulher espantosamente bela. Ela usava um sofisticado vestido longo roxo escuro, que refletia a claridade conforme ela andava, balançando os quadris de forma delicada. Seus cabelos eram tão pretos quanto petróleo e estavam presos em uma trança elaborada com fios de ouro. O contraste de cores escuras fazia sua pele parecer ainda mais clara e delicada. Ela aproximou-se dos semideuses, sorrindo com os dentes perfeitos, os lábios pintados de vermelho marcante e disse:
– Bem vindos ao spa! Meu nome é C. C. – esticou a mão para Hazel, para ela se levantar. Hazel não se atreveu colocar seu peso na mão daquela mulher de classe, então apenas pegou na mão dela e apoiou-se com a outra para se levantar. – E você é...?
– Hazel, senhora. Quer dizer... Dona. Quer dizer... Senhorita.
Circe soltou uma risada, passou as mãos nos cabelos de Hazel e ela logo percebeu que usar a Névoa com essa mulher seria uma tarefa árdua.
– Prazer em conhecê-la, querida. E seus amigos?
Hazel ficou tão encantada com os grandes olhos delineados de Circe que demorou alguns momentos para respondê-la.
– Ah sim. Esse é Frank e Jason – Frank estava de pé ao lado dela, mas Jason ainda estava ajoelhado segurando Piper então Hazel apontou para ele – E nossa amiga Piper.
– Ela está com algum problema?
– Sim. Precisamos da sua ajuda, senhorita C.C.
– Pode apostar que eu vou ajudar todos vocês – Ela sorriu – E dar um trato nesse seu cabelo desalinhado. Vamos entrando, queridos.
Se o prédio era esplêndido visto de fora, de dentro era tão magnifico quanto o Olimpo. O salão principal era amplo, oval e mobilhado com classe. Circe os conduziu para uma porta enorme na parede oposta a que entraram, e os levou a um local que era impossível prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. Havia várias mulheres vestidas com uniformes branquíssimos, andando de um lado a outro carregando toalhas, cremes e outros apetrechos. O que os chamou mais atenção foram os animais passeado pelo pátio tranquilamente, enquanto as clientes eram tratadas e relaxavam nas hidromassagens.
– Este é o salão principal, crianças – Circe apresentou – Aqui atentemos as clientes 24h por dia. Mas vocês merecem minha atenção especial, então serão atendidos no andar de cima.
Dito isso atravessou o corredor do cômodo em direção a uma escadaria de mármore e os outros a seguiram. Não foi nada fácil subir as escadas com Piper jogada no colo, mas Jason não demonstrou o desconforto e apenas o suor escorrendo pela sua testa denunciava o esforço que estava fazendo. Circe ia virando pelos corredores em labirinto até que parou diante de uma porta branca com acabamentos em ouro e os fez entrar.
– O atendimento especial de Afrodite é feito neste cômodo. Mas hoje ela não tem hora marcada, portanto fiquem a vontade.
– Apenas Afrodite? – Frank murmurou.
– O que disse querido?
– Nada, senhorita.
– Foi o que eu pensei – Ela sorriu – Podem se sentar. Ah e coloque a garota naquela maca ao lado.
Jason atravessou o quarto e repousou Piper em uma maca confortável, colocada ao lado de uma janela arejada, mas não saiu do lado dela. Frank e Hazel sentaram-se em um dos muitos sofás que a sala continha. Enquanto isso Circe andava graciosamente pelo cômodo preparando uma bebida e cantarolando.
– Sabe, crianças, meu spa já foi mais famoso um dia. Mas aconteceu uma catástrofe por aqui e as coisas mudaram um pouco. Reformei, contratei novas assistentes... Falando nisso, como a pequena Emily se saiu como recepcionista? Espero que bem, já que dei ótimo treinamento para aquela garota.
Frank e Hazel se entreolharam, com dúvida se deviam responder, mas não precisaram pensar demais e Circe voltou a falar.
– Ela é a mais nova daqui, as outras já tem alguma experiência com o spa. Mesmo assim, preciso de aprendizes e gostaria de aproveitar essa oportunidade.
– Você quer dizer, aproveitar nossa chegada? – Frank perguntou.
– Não, querido. Vocês, garotos, têm outras funções aqui. Refiro-me a Hazel.
Hazel sabia que essa era a hora certa de começar com a Névoa e concentrou-se em fazê-lo.
– E que tipo de serviços temos que fazer?
– Para você, tenho algo especial, Hazel. Algo que poucas aprendizes sabem fazer.
– Mas e Piper?
– Sua amiguinha pode trabalhar para mim caso sobreviva, o que acho pouco provável – Desdenhou Circe.
– Senhorita C.C... – Jason interferiu a conversa, mas Circe o interrompeu.
– Seremos grandes parceiras juntas, Hazel. Você sabe disso, ótimas feiticeiras.
– ...A senhora disse que iria ajuda-la...
– É só você dizer sim...
Jason era uma granada pronta para explodir. Odiava ser ignorado e certamente Circe sabia disso e o estava provocando. Seu rosto ficou vermelho de raiva e ele gritou:
– Circe!
Finalmente, conseguiu chamar sua atenção e ela se desviou da conversa com Hazel.
– Do que me chamou? – Circe perguntou entredentes.
– Isso mesmo que você ouviu senhorita Circe.
Hazel aproveitou que Circe estava de costas para ela e repreendeu Jason, iniciando um diálogo por olhares: “Cala a boca, Jason” “Não” “confie em mim” “Não” “siga o plano” “foda-se o plano”.
– Você precisa curá-la – Ele ignorou Hazel e continuou.
Circe o fitava, com os olhos negros raivosos. Sem proferir palavra, virou-se e caminhou até uma mesa lateral superlotada de frascos dos diversos conteúdos e tamanhos. Separou dois copos vazios e iniciou a tarefa de misturar alguns líquidos neles.
– Por favor, não temos muito tempo. Ela está morrendo...
Circe não se virou em momento algum, movendo os frascos e movimentando as mãos rapidamente.
– Você a ama muito, não é? – finalmente respondeu – Aposto que faria qualquer coisa por ela.
– Faria, sim.
– Veremos – Circe virou-se com um copo cheio de algo parecido com Milk-shake de morango.
Jason não saiu de sua posição, olhando fixo para Circe.
– Não! – Frank exclamou e levantou-se rápido, com a intenção de seguir o plano – Eu bebo.
– olha só o que temos aqui – Circe debochou – um cavalheiro. Você também beberia veneno pela amiguinha?
Frank ficou calado, então Circe continuou.
– Báh! São todos iguais. Homens inúteis e covardes – Gargalhou – Você, minha querida Hazel, ah, você sim deve ser tradada como princesa. E se não quiser terminar como sua amiguinha ali, morta de uma gravidez causada por esse fedelho, sugiro que fique comigo – Ela estendeu a mão livre para Hazel, como na primeira vez em que se viram.
– Ela não está morta! – Jason rosnou – E você vai curá-la.
– Estou vendo que você parece mais corajoso do que a maioria dos homens. Pois bem. Não faz nada mais que sua obrigação se sacrificar por ela, já que é culpado por deixa-la assim.
Circe tocou na ferida de Jason com essas palavras. Ele se sentia culpado desde o principio e ela sabia disso.
– Quer mesmo salva-la? – Ela estendeu o copo para Jason, ele esticou o braço para pegar e ela recuou – Não, não. Vocês dois devem sacrificar-se. – olhou para Frank e voltou à mesa, pegando o outro copo igualmente cheio – Como vai ser?
Jason e Frank se entreolharam para saber o que seria feito e Frank assentiu. Agora que haviam saído do plano, deixariam as coisas como estavam.
– Viemos aqui para salvar Piper e vamos salvar Piper – Frank disse para Jason, que agradeceu com um aceno de cabeça.
Não tinham ideia se aquela poção era a que deveria ser. É claro que podia ser veneno, mediante essa situação. Porém, juntos os dois beberam todo o conteúdo do copo e começaram a se contorcer enquanto Circe sorria. Em segundos encolheram rapidamente, até restarem somente suas roupas.
– O que fez com eles? – Hazel perguntou, tentando continuar com a Névoa a todo instante.
– Foi para o seu bem, querida Hazel – Circe agachou e vasculhou as roupas, erguendo um porquinho-da-índia em cada mão – Agora você tem algo muito melhor que garotos. Porquinhos-da-índia não causarão sofrimento á você.
Hazel conseguiu conter toda sua raiva e respondeu:
– Sim, é claro. Mas Piper ainda está morrendo... Pode mesmo curá-la?
– Quer mesmo dividir a glória com ela? Tem certeza disso?
– Sim, senhora – Hazel manipulou as palavras – Ficarei satisfeita em viver na ilha, desde que com a companhia de Piper.
– Pois bem. Como quiser.
Circe deixou os dois porquinhos em uma jaula ao lado e retornou até a Piper deitada. Hazel já estava ao seu lado, segurando a mão da amiga desmaiada. Então Circe estalou os dedos, levantou a camiseta de Piper na altura dos seios e apertou forte a barriga dela com as duas mãos, fazendo Piper acordar do desmaio e soltar um grito desesperado. Hazel se assustou e quase largou a mão da garota, mas esforçou-se a permanecer ao lado dela enquanto era exposta á Magia. Circe respirou profundamente, seus olhos ficaram totalmente pretos e uma Névoa escura emanava deles e de suas mãos. Piper agora estava com a respiração acelerada e apertava forte a mão de Hazel. Circe sussurrou algumas palavras sem nexo que parecia ser grego antigo, e Piper teve convulsões violentas, fazendo Hazel se afastar da maca em um pulo. Após essa sequencia repetir-se algumas vezes, Circe finalmente se afastou ofegante e sentou-se com um copo d’agua nas mãos.
Receosa, Hazel se aproximou da maca, onde Piper estava imóvel e com a testa suada.
– Piper? – Ela chamou, não obtendo resposta – Piper!?
Só quando Hazel ia ficando desesperada que Piper respirou tão profundamente quanto alguém que encontra ar depois de muito tempo em baixo d’agua.
– Graças aos deuses! – Ela abraçou Piper com força, o que fez ela quase perder o ar que acabara de recuperar.
– Onde estamos? – Piper perguntou sussurrando.
– Longa história.
– Ora, ora. Garota resistente, ein? – Circe se aproximou. Agora estava revigorada.
– Hã, o que?
– O feitiço pode curar, sim, mas só faz efeito em quem consegue resistir a ele, e esses são poucos – Circe olhou para Piper, sorridente e apertou sua mão – Prazer, sou C.C.
– Hum, Piper... – Ela respondeu sonolenta e pegou no sono.
– Ela vai ficar bem – Circe explicou para Hazel – Vai dormir por bastante tempo.
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