Uma Nova Amizade
18 Missão Impossível
Notas iniciais
LEO
Leo escolheu cair na areia. Era isso ou as rochas, então a areia foi um pouco mais favorável. Só um pouco.
Escalou as rochas úmidas de lodo com facilidade e analisou o espaço a sua volta. Se estava sozinho. Confere. Se conseguiria se esconder ali. Confere. E se teria uma boa visão da ilha. Com certeza confere. Annabeth estava certa (só para variar), as rochas proporcionavam uma visão totalmente panorâmica da ilha. Do cinto de utilidades tirou seu binóculo profissional, do bolso, uma barrinha de cereais e iniciou a tocaia enquanto mastigava, em cima das rochas. Á sua esquerda estava o spa, uma grande construção retangular em mármore branco
Muito chique.
Á sua frente, ocupando todo o horizonte até a direita, Leo podia ver a praia e, ás suas costas o começo de uma trilha de pedregulhos, aparentemente bem cuidada, que seguia até a densa floresta da ilha.
Maneiro. Leo sorriu. Que os jogos comecem.
Alcançou a lanterna no cinto e enviou a primeira mensagem para o navio. Não precisou esperar muito até identificar um movimento estranho no céu.
Jason. Sempre caindo com estilo.
Estilo? A queda livre de Jason era fichinha comparada ao voo de Frank. Caramba. Leo observou cada movimento de boca aberta enquanto Frank pousava graciosamente na areia da praia. Pelo menos dessa vez, teve que admitir: Frank era foda.
Logo, os quatro semideuses estavam reunidos. Ao longe, uma garota se aproximava aos tropeços em direção a eles. Houve um dialogo rápido e todos seguiram para dentro do prédio.
...
Passou-se meia hora. Uma hora. Duas... E nenhum sinal vinha de dentro do spa. Será que todos haviam se esquecido de Leo? Se o plano estivesse dando certo, alguém o deveria informar a respeito do que estava acontecendo no spa, mas a quietude do ambiente estava deixando Leo desconfortável.
Tudo bem. Pensou. Talvez estejam ocupados demais.
O dia se passou e à tarde agradável começou a cair sobre a ilha. O sol já estava baixo e a brisa batia fresca nas arvores. Leo sentia-se como se estivesse de férias, tamanha era a tranquilidade do lugar. Ele escutava o som das folhas se chocando nas árvores e a água do mar formando ondas na praia. Estava quase cochilando quando se obrigou a levantar e explorar a ilha, já que a demora dos amigos estava o matando de tédio e seus meios de distração estavam se esgotando.
Mandou um relatório para o navio, onde Percy e Annabeth estavam, jogou dentro do cinto tudo o que tinha montado durante a espera, sacodiu a poeira da roupa e, com cuidado, desceu as rochas.
Vamos nessa.
Com entusiasmo e determinação, Leo caminhou pela trilha de pedregulhos que levava até a floresta fechada. Provavelmente aquela trilha era muito utilizada pelas criadas de Circe, porque logo no início dela estava um belo jardim de cerca baixa, o qual continuava até a entrada principal do prédio, que da posição a que Leo estava agora, levava uma longa distância para alcançar. No jardim, estava a combinação de flores mais belas que Leo já vira. Tão belas que até brilhavam. Literalmente brilhavam.
Eram lindas. Mas Leo não podia perder seu tempo com flores e seguiu caminhando pela trilha.
Aproximadamente a meio caminho andado ela se dividiu. A esquerda seguia para um bosque, em direção á floresta. A direita ia direto para o grande prédio de Circe. Leo não pensou duas vezes, seguiu pela direita e continuou caminhando, atento a todos os sons a seu redor.
Ele parou de caminhar. Não havia mais trilha para frente. Na verdade, não havia mais nada, apenas a enorme parede lateral do spa.
Por que diabos um spa tão grande no meio do nada? Leo resmungou e passou a seguir a parede do prédio, já que não havia mais trilha.
A caminhada parecia não terminar nunca. Leo estava cansado, com sede e, lógico, faminto. Além de tudo estava entediado, precisava de algo para se distrair. Então ele olhou ao redor para certificar-se de que estava mesmo sozinho, sacou a lanterna do cinto, encostou as costas e os braços na parede do prédio e, em posição de alerta, começou a andar se arrastando pela parede, empunhando a lanterna como arma e cantarolando a música tema de “Missão Impossível”.
“tan tan, tan tan tan tan, tan tan tan...”
Assim Leo estava quando algo chamou sua atenção na copa de uma árvore próxima. Pousada num dos galhos, estava uma enorme harpia branca olhando para ele fixamente, com uma expressão que parecia “mas que porra você está fazendo?”.
Ainda bem que é apenas uma ave... ele ia dizendo quando se assustou e ficou paralisado na parede igual a um caranguejo, enquanto aquela harpia branca pousava no chão e se transformava em...
– Frank!? – Leo gaguejou.
– O que você estava fazendo, imbecil? – Frank franziu o cenho, removendo uma ultima pena branca do ombro.
Leo se afastou da parede rapidamente, guardou a lanterna de forma desajeitada e arrumou a postura.
– Eu? Oras... É claro que eu estava... – Gaguejou, gesticulando a seu redor para despistar a atenção de Frank, mas ele fitava Leo de braços cruzados e com um sorriso irônico, esperando por uma resposta – Eu estava procurando o spa, é claro.
– Bem, você estava se esfregando nele um minuto atrás.
Leo suspirou.
– Tudo bem, você venceu. Podemos esquecer isso agora e continuar com o plano?
– Primeiro: eu nunca vou me esquecer disso. Segundo: o plano já era.
– Como assim o plano já era?
“E como assim não vai se esquecer disso?”.
– Jason bebeu a poção. Agora ele é um porquinho-da-índia prisioneiro de Circe.
Leo segurou uma gargalhada, o que o fez emitir um som estranho, que ele tentou disfarçar com uma tosse forçada. Mas, vamos admitir, ouvir as palavras “Jason” “Prisioneiro” e “porquinho-da-índia” na mesma frase, é impossível conter uma risada. Ainda mais quando Frank está tentando ser sério com uma notícia dessas. Apesar desses fatos, Leo apenas respondeu:
– Que azar.
Então eles seguiram caminhando enquanto Frank contava detalhadamente a Leo tudo o que havia ocorrido durante sua ausência.
–... Então Circe nos levou para um estábulo com centenas de porquinhos-da-índia, que fica em uma sala bem afastada e fedorenta. Eu consegui fugir da gaiola em forma de pardal, segui até aqui como harpia e agora pouco vi um retardado fingindo ser Tom Cruise.
– EI! – Leo pestanejou, mas acabou sorrindo com Frank pela raridade de ter sido vítima de uma piada, não o contrário. – Tudo bem. Vamos encontrar as garotas.
A sorte era que Frank já havia descoberto onde ficavam os quartos. Pelo contrário eles ficariam procurando eternamente. E depois de caminhar bastante, os dois chegaram até as grandes janelas de vidro (a muitos metros do chão e eram em um número surpreendentemente grande).
– Eu só não sei em qual deles elas estão – Disse Frank.
– Ótimo. Vamos descobrir.
–Como?
– Pie.
– Piar? Como ave?
– Não, como peixe.
Frank fez uma expressão de desgosto.
– Cale a boca – ele disse e se transformou em harpia novamente. Subiu nos galhos da árvore mais próxima e começou a piar, enquanto Leo se escondia atrás da mesma, para o caso de alguém indesejável atender aos pios.
Frank não precisou piar muito e eles identificaram cabelos cacheados e volumosos balançando em umas das janelas. Era Hazel (e era óbvio que ela reconhecera os pios do namorado).
– Frank, você fica aqui de guarda – Leo disse e saiu correndo em direção á janela. Frank piou e bateu as asas em protesto, mas, relutante, continuou no galho em que estava – Sem reclamações, ein?
...
Leo chegou até onde Hazel estava, ele só não sabia como subir até lá. Pendurada na janela estava Hazel, e Leo se conteve para não gritar “Hazel, jogue suas tranças!”. Realmente esse não era momento pra piada, nem mesmo para Leo.
– Ei! Leo, cadê o Frank? – Hazel sussurrou com as mãos na boca em forma de concha.
– Ele tá de guarda na árvore. Eu vou subir aí – Leo sussurrou de volta, repetindo o gesto.
– Tá ficando louco, Leo? É alto demais! – Hazel sussurrou com um tom mais gritante. Mas Leo ao menos ouviu o que ela disse.
Quando se deu por conta, Leo já havia escalado metade da parede de mármore, pendurado por ventosas nas mãos e nos joelhos. Ele movia uma de cada vez, sempre com rapidez e facilidade, primeiro os braços e em seguida as pernas. Após alguns minutos ele alcançou a janela, ofegante e o suor escorrendo pela testa.
– Você não podia simplesmente ter pedido uma ajuda pro Frank? – Hazel perguntou, puxando Leo para dentro do cômodo.
Ele caiu de costas no chão, respirando com dificuldade e disse em palavras cortadas:
– Gata... Foi... Moleza...
– Estou vendo – Hazel estendeu a mão e o ajudou a levantar.
Leo removeu as ventosas e as guardou no cinto, apoiou as mãos nos joelhos a fim de se recuperar do esforço que fizera e analisou o quarto. A mobília era toda de madeira branca impecável, as paredes pintadas com tinta óleo eram todas detalhadas á mão com desenhos relacionados á magia em tinta prata e dourada, as cortinas eram de seda branca, bordadas com fios de ouro, assim como a roupa das duas camas posicionadas paralelamente a uma cômoda entalhada no mesmo estilo das cabeceiras das camas e maçanetas de ouro branco. No centro do quarto, um grande tapete redondo felpudo aquecia o piso gelado de mármore.
Leo só conseguiu voltar á realidade quando viu Piper sair do banheiro do quarto. Ela estava com os cabelos presos numa toalha branca, vestia apenas um roupão felpudo de algodão e pantufas. Foi só então que Leo percebeu que Hazel também estava de roupão.
– Piper! – Leo sorriu – Tinha até me esquecido de como você fica bonita acordada.
– Bom te ver também, Leo – Piper sorriu e se direcionou para um abraço, mas hesitou – Hã, melhor abraçar quando você tomar um banho.
– Concordo. Uma banheira de hidromassagem seria uma boa, não acha?
– Não – Hazel brigou – Você não pode ficar aqui, a qualquer momento alguém virá nos chamar para o spa – ela bufou.
– Precisamos de um novo plano para o resgate de Jason. Leo precisa ficar pelo menos até decidirmos o que fazer – Piper retrucou.
– Na verdade, o Leo precisa de água e comida – Leo interrompeu a discussão das garotas.
Dito isso, a porta se escancarou e revelou uma garota assustada e confusa segurando uma bandeja de prata nas mãos, fitando Leo como se ele fosse um monstro. Provavelmente os três não a ouviram bater a porta por estarem discutindo e, agora, estavam se entreolhando, com dúvida sobre o que fazer. A menina ameaçou correr, mas não teve tempo para nenhum movimento. Antes de se mover, Piper correu até a porta e a agarrou, segurando firme sua boca. Com um movimento rápido, Piper puxou a garota para dentro do quarto e fechou a porta com um dos pés. A bandeja já havia caído com o impacto e todo seu conteúdo foi esparramado, causando um estrondo ao colidir com o chão. A garota estava em estado de choque e permaneceu imóvel, com a mão de Piper cobrindo sua boca e segurando-a pelos ombros.
– Eu vou te soltar, mas você vai ficar quieta, certo? – Piper disse devagar, para que a garota entendesse bem. Já que ela não podia falar, apenas assentiu com a cabeça e Piper a soltou lentamente.
Como dito, a garota não se moveu e não disse ao menos uma palavra, apenas fitava os pés, assustada.
– Não vamos machucar você – Piper colocou a mão no ombro dela – Qual o seu nome?
– Emily – a garota disse baixinho.
– Emily? – Hazel perguntou – Circe falou sobre estar treinando uma Emily.
– Sim, sou eu – Emily respondeu.
– Você recebeu todos na praia! Agora me lembro – Hazel sorriu e Emily assentiu discretamente.
– Eu sinto muito. – Emily deixou escapar um soluço – Ela enfeitiçou seus amigos.
– Só um deles – Piper respondeu – E daremos um jeito de resgatar o outro. Você pode nos ajudar?
– Eu não sei...
– Pelo menos você pode fingir que não me viu aqui – Disse Leo.
Emily pareceu refletir por alguns segundos e respondeu:
– Tudo bem. Eu vou ajudar.
Dito isso, todos se sentaram em circulo no tapete felpudo e saborearam o banquete vindo da cornucópia de Piper (já que todo o jantar da bandeja trazida por Emily havia se perdido). Os semideuses explicaram para Emily porque vieram parar na ilha de Circe, qual era o plano inicial (que deu errado) e o que precisavam fazer agora. Emily explicou para os semideuses o plano de resgate que mais tinha chances de dar certo.
“Bem, o spa funciona 24h, então o hall de entrada e o salão principal sempre estão cheios. Mas de madrugada, Circe está dormindo, o que facilita tudo. Vocês precisarão entrar por fora do prédio, na sala em que os porquinhos ficam. É tudo em que eu posso ajudar.”
Emily explicou os pontos fracos do prédio, enquanto os outros pensavam em todo o resto. Quando a noite caiu, o plano já estava traçado e seria posto em prática durante a madrugada.
– Ótimo – Piper se levantou e começou a perambular pelo quarto enquanto falava – Vamos dividir o plano em partes. Primeiro: Leo sai daqui e avisa Percy e Annabeth sobre a situação. Lembre-se de se esconder bem até a hora do resgate. Frank deve voltar para a gaiola e encontrar Jason em meio a centenas de porquinhos da índia, enquanto eu e Hazel estaremos no spa esperando o sinal. Certo? – Todos assentiram e Leo acrescentou:
– Simples assim. Mas vocês têm mesmo que estar no spa?
– Temos. Ordens de Circe – Hazel revirou os olhos.
– Então está combinado – Piper bateu palmas rápidas e empolgadas – Agora, Leo, saia daqui rápido.
– Ei, subir essa parede com ventosas é uma coisa, descer é completamente diferente.
– Eu posso ajudar – Emily falou e se dirigiu até a janela.
Ela respirou fundo, fechou os olhos e começou a mover os dedos ritmicamente de forma controlada e calma, até que algumas raízes começaram a brotar do chão de terra e subir pela parede do prédio. As raízes entrelaçavam-se entre si, formando grossos cabos que se uniam e, num piscar de olhos, uma escada de raízes estava formada, indo da janela até o chão úmido do lado de fora.
– Prontinho – Emily bateu uma mão na outra e um pouco de terra seca caiu no chão do quarto.
Os semideuses, admirados, não sabiam o que dizer.
– Mas, como...?
– Sou aprendiz de Circe, lembram? Meu dom é com a natureza – Ela disse e caminhou até a porta – Até logo – E bateu a porta atrás de si.
– Isso foi... Maneiro. – Leo comentou e se preparou para descer pela escada de raízes e adentrar a escuridão da noite.
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