Uma Jornada Ao Resgate
9 Uma Nova Armadilha
Notas iniciais
Cercados pelas bestas e costas contra costas, o trio formado por Tavius, Valery e Samira estava realmente em uma situação desfavorável. Seis bestas contra três pessoas. Era uma bela desvantagem numérica.
Tavius e Valery já estavam se cansando facilmente, por ainda não estarem em plenas condições de batalha. A que menos sentia os efeitos do combate era Samira. Ela foi a primeira a retomar o ataque, pegando duas flechas de uma vez e acertando a primeira besta. Com esse ataque, as demais se dispersaram, e Tavius e Valery aproveitaram pra atacar também.
Valery mais uma vez usou sua magia cortante, porém desta vez as bestas foram mais rápidas e escaparam das rajadas cortantes de vento, bem como se esquivaram de Tavius, que perdia mais velocidade devido ao cansaço.
Samira abatera a primeira besta com três flechas envenenadas, porém a segunda a atacara novamente, fazendo com que ela deixasse cair o arco, ficando apenas com a aljava que continha as flechas.
Enquanto isso, as outras quatro bestas tornaram a cercar Tavius e Valery. Ambos ainda estavam ofegantes, mas pensavam em uma estratégia para sair de mais aquela enrascada.
– Tavius – Valery disse. – Já que não estamos tão inteiros, o que acha de juntarmos nossas forças... Literalmente?
– Como assim?
– Vamos aliar a sua força física e sua habilidade de espadachim com a minha magia. Topa?
– Qualquer coisa pra gente sair dessa.
– Certo. Pegue a espada que está embainhada nas minhas costas. Sabe manejar duas espadas ao mesmo tempo?
– Nunca fiz isso. Mas posso tentar.
– Ótimo! Segure as duas, uma em cada mão.
– Pronto. – Tavius disse ainda de costas para Valery e segurando as duas espadas. – O que faço agora?
– Nada. Só canalize sua energia para as espadas. O resto é por minha conta.
– Ok.
– Fortojde lumo,tiujklingojfariguinstrumentokontraulamallumo!*
No mesmo instante, as duas lâminas ficaram luminosas, para espanto de Tavius.
– Digamos que a minha espada pegou sua mão emprestada, já que a minha está sem condições. Agora é só ir ao ataque com as duas!
– E você?
– Como vão prestar atenção só em você, vão se esquecer de mim e da Samira. As bestas que escaparem de você, nós derrotamos.
– Não sabia que você era estrategista.
– Acredite, nem eu!
Tavius saiu ao ataque com as duas espadas em punho. Passou entre duas bestas, e as cortou cada uma com uma espada, gerando cortes profundos que as derrubaram no chão. Samira finalizou cravando as flechas envenenadas no peito, onde o veneno fez efeito imediato e paralisou os corações das criaturas.
Ao ir nas outras duas, Tavius fez o mesmo, porém uma das espadas escapou de sua mão enquanto cortava uma das bestas. A outra acertou suas garras afiadas no ombro do espadachim, que acabou se desequilibrando e caindo.
O ferimento de Tavius fora profundo e doía sem parar. E nisso a besta que o ferira aproximava-se do espadachim agora indefeso. Seu braço não se movia direito sem doer. Cravou a outra espada no chão, para poder se levantar, mas como vencer a essa altura?
Ainda havia mais duas criaturas para derrotar, e ele era o único que tinha condições de surpreendê-las ao correr com as duas espadas em punho. E a besta levantou as garras para dilacerá-lo rapidamente.
“TAVIUS...! NÃO MORRA, POR FAVOR!!”
– Tabita...? Não, não posso morrer agora...! NÃO VAI SER AQUI QUE VOU MORRER!
Tavius conseguiu ser rápido o suficiente para rolar e escapar do ataque iminente. Levantou-se e saiu correndo, enquanto Samira cravava mais uma flecha no peito de outra besta parcialmente abatida. Alcançou a outra espada caída e com uma mão fez um corte em uma besta e com a outra, perfurou sua cabeça, fazendo com que caísse inerte no chão. A última foi abatida por mais um corte, mas duplo, e Samira, já com o arco recuperado, lançou uma flecha envenenada certeira em sua cabeça. A morte da última besta foi instantânea.
O espadachim contemplou os últimos corpos derrubados pelo trabalho em equipe do trio. Não acreditava que fora capaz de contribuir para tudo aquilo. Só de ouvir sua irmã, fora capaz de conseguir força extra para terminar com aquilo!
Era surpreendente o laço que os unia a esse ponto.
– Vamos ter que procurar um local pra nos recuperarmos... Senão morreremos antes de encontrar a Tabita. – Samira disse.
Valery e Tavius concordaram. Seus corpos imploravam por algum descanso de verdade.
***
Em seu cativeiro, Tabita continua a chorar, acabara de sentir algo muito forte em seu coração, que lhe dizia que Tavius estava em perigo, não aguentou e, mesmo sabendo que era inútil, gritou por ele, com toda força que ainda possuía...
– Tavius...! Será que você tá bem...? Não morra...! Eu imploro...! Eu preciso de você...!
Neste momento a porta de seu cativeiro se abre e Servia surge, e, pela primeira vez, não estava sorrindo. Involuntariamente Tabita exibe um tímido sorriso... Se aquela mulher estava de mau humor, isto só podia significar uma coisa... Que Tavius esta bem... Que seu amado irmão está vivo...
A raiva de Servia aumenta ainda mais ao ver aquela criatura sorrindo. Pelo visto, toda a tortura ainda era pouco para aquela mimada inútil.
– Muito bem, inútil. – diz ela, dando um sorriso cruel – O traste do seu irmão pode ter sobrevivido, mas, eu vou descontar toda a minha raiva em você!
E dizendo isto, Servia faz aparecer um chicote em suas mãos, e, com ele, começa a acoitar sua vítima. Tabita começa a gritar e a chorar de dor, mas em seu coração, o alívio de saber que seu amado irmão está vivo.
***
Tavius, Samira e Valery encontram outro lugar para se esconderem e recuperar um pouco das forças. Samira, por ser a que tem melhores condições físicas, começa a cuidar do braço machucado de Tavius.
– Tavius, vou te falar...! Teve um momento que eu achei, sinceramente que você ia morrer, amigo!
– Também achei que seria meu fim, Samira. Mas naquela hora, a Tabita chamou por mim... Eu ouvi ela me chamando... E então eu recuperei minhas forças para contra atacar.
– Seu laço de amor com a Tabita é algo de dar inveja, Tavius. – diz Valery – O amor e a união de vocês é sublime...!
– Eu não consigo parar de pensar um minuto sequer nela. – completa Tavius – E a culpa ainda corrói a minha alma... Se a Tabita está sofrendo deste jeito, é porque eu fui fraco e não consegui protege-la... A imagem dela, refém daquelas três mulheres, eu totalmente humilhado e sem poder fazer nada por ela... Aquela cena me perturba quando fecho os olhos.
– Nós vamos salva-la! – diz Valery, recuperando seu otimismo após a dura batalha. – E, vou tentar aprender alguma magia de cura, nem que seja pequena, pra nós dois recuperarmos pelo menos um pouco de nossa força, amigo!
***
Mabel, Soraya e Servia estão sentadas no sofá daquela pequena cozinha, sem se importarem com os gritos desesperados de socorro de Tabita. Mabel, a líder das três, exibe um sorriso confiante e sinistro em sua face.
– Pelo seu sorriso, presumo que você está com alguma ideia em mente, Mabel. – diz Soraya, olhando para sua amiga.
– Não é exatamente uma ideia, “ainda”. – diz a líder – É apenas um pensamento que acaba de passar pela minha cabeça.
– E que pensamento seria esse? – pergunta Servia.
– Dos três idiotas que estão por aqui tentando encontrar e resgatar a insuportável, já demos uma merecida lição em dois, Tavius e Valery. A única que continua sem receber o castigo que merece é a Samira.
– Sim, esta continua sem sentir a amarga dor da derrota. – continua Servia.
– TAVIUS...! TAVIUS...! VEM ME BUSCAR...! SOCORRO...! EU QUERO SAIR DAQUI...! SOCORRO...! TAVIUS...!
As três bruxas ouvem os gritos desesperados de Tabita, que implora por socorro em seu cativeiro. Os gritos de Tabita, pela primeira vez, incomodam Mabel, que tenta voltar sua atenção para a conversa. Porém...
– ME TIREM DAQUI...! POR FAVOR...! EU IMPLORO...! EU QUERO SAIR DAQUI...! SOCORRO...! ME DEIXEM SAIR...! TAVIUS...! TAVIUS...!
– Servia, vá até lá e dê um jeito de calar a boca daquela mimada. – ordena Mabel – Mas não demore, quero terminar este assunto depressa para nos livrarmos de Samira.
E dizendo isto, Mabel entrega para Servia um grosso pano branco.
–Use isto e volte pra cá. Você pode brincar de torturar a mimadinha mais tarde. Acabar com Tavius, Samira e Valery é mais importante no momento.
Servia se dirige para a porta do cativeiro de Tabita e destranca o cadeado, e, ao adentrar o minúsculo quarto, já dá um forte chute na indefesa refém.
– Você está com sorte hoje, traste inútil! – diz Servia de modo cruel – Sua tortura só acontecerá mais tarde.
Tabita olha assustada para aquela mulher, os olhos brilhavam em um tom diferente. Inconscientemente lágrimas desesperadas banham sua face.
– Por favor...! Me tira daqui...! Vocês já me fizeram sofrer bastante...! Já chega...! Por favor...!
– Sabe, “princesinha”, é por esses gritos que vou ter que calar sua boca beste exato momento. Esse seu mesmo discurso de perdedora e de pessoa fraca está atrapalhando nossa reunião.
E, dizendo estas palavras, Servia se aproxima de Tabita e a segura pega pescoço para sem seguida pendurá-la na parede, sob as correntes do pulso, uma posição muito desconfortável de modo que a frágil refém não consegue ao menos se mexer.
– Por favor...! Eu imploro...! Não faz isso comigo...! Por favor...!
Servia usa o pano dando por Mabel para amordaçar a já debilitada Tabita com muita força, fazendo sangrar os lábios da refém.
– Vamos ver se assim você aprende a ficar em silêncio! – diz a malvada antes de sair, deixando Tabita sozinha com suas lágrimas de desespero.
Servia volta para junto de suas companheiras.
– Acabo de calar a inútil. – ela diz.
– Ótimo, irmã. – diz Soraya – Mabel, agora que aquele traste não irá incomodar com os gritos, continue de onde havia parado.
– Como eu estava dizendo. – diz Mabel – Dos três idiotas que estão atrás da mimadinha, só Samira não recebeu a lição merecida.
– Sim. – diz Soraya.
– Não podemos deixar que isso continue assim por muito tempo. – diz Mabel com um sorriso repleto de maldade e, eu sei como fazer para com que ela fique tão perturbada, que perca a batalha.
– Não mesmo. – completa Servia, com um sorriso igualmente cruel.
– E, já tenho tudo planejado. – completa a líder das três.
– Conte-nos exatamente no que pensou, Mabel. – pede Soraya.
***
Dependurada e amordaçada, lágrimas e mais lágrimas não param de escorrer sobre a face da sofrida Tabita. Seu coração bate forte... Seu corpo já não aguenta aquela posição... Enquanto vê gotas de seu sangue caindo no chão... Até quando? Até quando sofrerá nas mãos daquelas três mulheres? Parece que elas nunca se dão por satisfeitas...
“Tavius... Onde você tá que não vem logo me salvar...?”
Seu pensamento não sai de seu irmão... E, a esperança de que ele realmente aparecerá para salva-la é a única coisa que lhe dá forças para resistir a tanta tortura.
“Tavius...! Tavius...!”
***
“Tavius...! Tavius...!”
A voz de Tabita vinha em sua mente como se sua amada irmã estivesse a seu lado. E em seu coração, a certeza de que neste exato momento ela está sofrendo.
– Tabita... – o jovem espadachim sussurra.
– Anime-se, Tavius! – diz Samira, sorrindo – Sabe de uma coisa, agora eu tenho a mais absoluta certeza de que nós estamos cada vez mais perto da Tabita.
– Se estivéssemos longe dela aquelas três bruxas não teriam enviado aquelas doze bestas para nos atacar. – completa Valery. – E, mesmo em uma desvantagem absurda, nós conseguimos vencer.
– Algo me diz que não demoraremos muito para ver a Tabita. E, quando isso acontecer, eu vou querer dar pelo menos um soco em uma daquelas três bruxas... – diz Samira, sorrindo ao se imaginar dando um soco bem no olho de uma daquelas três.
– Samira você não tem jeito! – brinca Valery – Sempre querendo uma desculpa para bater em um!
– Fazer o que, eu sou assim! E além do mais, eu só bato em quem merece! – brinca Samira, enquanto termina de enfaixar o braço ferido de Tavius. – Dói menos assim?
– Bem menos, obrigado, Samira.
– Não me agradeça ainda. Vou até o rio aqui perto buscar um pouco de água e volto logo! Não saiam daí.
***
Presa e totalmente indefesa, Tabita sente seu coração doer um pouco menos... Tavius estaria bem? Aquelas três mulheres teriam preparado outra armadilha? E Samira e Valery? Queria tanto saber... Mas, seu coração estava lhe dizendo que Tavius estava bem e, com isso, sentiu lágrimas de alívio caírem por seu rosto ensanguentado.
“Tavius...! Tavius... Vem logo...! To te esperando...! Vem me salvar...!
***
– Samira finalmente está sozinha. – diz Soraya, com um sorriso cruel em seus lábios – Hora de darmos a ela a tão esperada lição.
– Está pronta, Servia? – pergunta Mabel, com seus olhos brilhando de tanta crueldade.
Os olhos de Servia assumem uma coloração roxa, e em seguida, a bruxa começa a murmurar palavras em um idioma desconhecido, todo seu corpo é envolvido por uma densa aura negra e, em seguida, o corpo da bruxa se divide em dois.
– Meu clone está pronto. – diz Servia.
Mabel tira a chave do cativeiro de Tabita de seu pescoço e entrega ao clone de Servia, que sorri em antecipação a seção de tortura que se aproxima.
– Torture-a lentamente, e faça-a gritar bastante. – ordena Mabel – Não dê tempo a ela nem de respirar.
E dizendo estas palavras, as três bruxas saem de casa. O clone de Servia abre a porta do cativeiro e, aproxima-se da jovem dependurada por correntes e amordaçada. Sorri de forma muito cruel ao fazer aparecer em uma das mãos um chicote e, em outra, uma bola de chamas das trevas.
Tabita olha para aquela mulher sorrindo cruelmente para ela e mais lágrimas vem a seus olhos, pelo visto, iria ser torturada novamente.
O clone de Servia se aproxima da refém e, arranca-lhe a mordaça, sem deixar de sorrir um instante sequer.
– E então, traste inútil, pronta para gritar mais um pouco? Grite o mais alto que sua garganta permitir, porque hoje quero me divertir com você!
***
Na beira do rio, Samira aproveita para lavar seu rosto, molhado de suor, e se refrescar um pouco. Nesta perigosa jornada, quase não tinham tempo para isso. Há dias estavam procurando por Tabita e, infelizmente, nenhuma pista do paradeiro dela. A única coisa que sabiam é que, Tabita está em algum lugar ali, tiveram esta prova quando a irmã de Tavius tentou uma fuga que culminou na derrota de Valery...
A arqueira termina de encher seus cantis de água e, neste momento, ela sente uma forte brisa de vento e, algo no ar faz sua pele se arrepiar. Ela vira-se e, para sua total surpresa, dá de cara com Mabel, Servia e Soraya.
– Ora, ora, ora, Samira, sozinha, nesta floresta perigosa. – diz Mabel, sorrindo de forma sinistra – Sabe de uma coisa, acho que você está parecendo um rato encurralado.
– Eu não sou rato! – diz Samira – E, foi bom vocês terem aparecido, estou mesmo muito a fim de dar umas porradas em vocês! Bater em alguém indefesa como a Tabita é fácil.
– E você vai continuar defendendo aquele traste inútil? – pergunta Sérvia de forma cruel.
– Vou! – responde Samira com convicção – Eu jamais deixarei a Tabita! Jamais a abandonarei! E vou junto com Tavius e Valery até o fim do mundo para salvá-la!
– Lute conosco. – diz Mabel – E veja se pode salva-la!
Samira prepara seu arco e tira de sua aljava uma flecha, seria divertido... E, ao contrário de Valery e Tavius, não tinha Tabita ali para se preocupar. Estava em um terreno livre, tinha tudo a seu favor.
Mas, para sua surpresa, Soraya evoca uma magia negra, dizendo palavras em um idioma para ela, desconhecido e, bem a sua frente, ela vê uma imagem perturbadora: Tabita dependurada por correntes em um lugar horrível e, Servia a açoitando violentamente com um chicote.
– Mas... Como isso é possível...? Você está aqui...! Como pode...? – Samira pergunta, totalmente confusa.
– Eu dupliquei meu corpo, criatura patética. – diz Servia, sem nenhuma piedade – A imagem que Soraya projetou é o que está acontecendo a mimadinha neste exato momento! E, tanto a Servia que está com ela como eu somos reais.
“- Para...! Para de machucar...! Eu imploro...! Não aguento mais...!”
Os gritos desesperados de Tabita sendo açoitada perturbam Samira, de modo que ela fica estática, sem conseguir se mexer.
– Ta... Tabita...!
Servia sorri maliciosamente ao mesmo tempo em que seu clone começa a queimar Tabita com uma bola de chamas das trevas. Samira assiste à amiga gritar e chorar totalmente imóvel, esquecendo-se por um segundo de suas inimigas.
– E agora... – diz Mabel ironicamente – Você vai brincar conosco enquanto assiste a inútil da Tabita sendo torturada pela duplicata da Sérvia.
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