Uma História

2 Uma História Sobre Como Voltei a Ser Escritor


Notas iniciais
"Os guardas me olham de cima a baixo como se eu tivesse cometido algum crime." — Uma História, capítulo 2

Sabe quando você tropeça, cai, e então uma manada de elefantes passa por cima de você? Não sabe? Bem, de qualquer jeito, é exatamente assim que estou me sentindo quando abro os olhos. E fico surpreso e confuso ao notar que (felizmente) não é um elefante que está em cima de mim. É uma criança.

— Ei — exclamo, tentando levantar. — O que... Quem é você, garota?

— Mãe Tóquite — diz o bebê, com certa dificuldade. Não deve ter mais que três anos e pelo jeito que tenta mastigar um galho sujo do chão, eu diria que está com fome.

— Não come isso não, garota! — arranco a madeira de suas mãos. Me arrependo no instante que faço isso, pois "Mãe Tóquite" abre o berreiro.

Consigo me levantar e pego a bebê aos prantos no colo. Estou no meio de uma floresta, e é noite, mas não está exatamente escuro, pois a lua está curiosamente grande e ilumina as copas das árvores ao meu redor, com um brilho tão denso que chega a doer os olhos se você olhar diretamente.

— Aqui está — pego uma maçã de uma árvore e a entrego para a menina que a agarra e começa a baba-la numa tentativa de arrancar um pedaço, está realmente faminta.

Aproveito que ela para de chorar e a deposito de volta ao chão, onde eu mesmo sento e tento recapitular os últimos acontecimentos. Cheguei da escola por volta de meio-dia e tive uma briga com Miguel. Ele surtou e veio pra cima de mim. Desmaiei. É de noite e vim parar em uma floresta. Pode ser que seja a batida na minha cabeça, mas não consigo achar a ligação entre esses fatos.

No entanto, antes que eu possa tirar qualquer conclusão, uma forte luz ilumina meu rosto, quase cegando minhas córneas.

— O que diabos você tá fazendo aí?! É Lua-Cheia!

Levanto aos tropeços e consigo identificar um garoto se esgueirando pelos arbustos. Deve ser só uns anos mais velho que eu. Ele segura uma lanterna e parece estar muito irritado.

— Que lugar é esse? — pergunto, tentando não parecer muito perdido (embora esteja).

— Como assim que lugar é esse, é a orla da floresta e v... — ele se aproxima o suficiente para ver a menina e agora parece tão chocado quanto eu por ter um bebê no meio do mato.

— Eu achei ela aqui... — explico, ocultando a parte do "acordei aqui do nada".

— Deu comida a ela? — exclama ele, correndo para tirar a maçã do bebê, mas para no último minuto, como se tivesse medo de toca-la. — Cara... O que deu em você? É Lua-Cheia!

Encaro o garoto e, mesmo sem entender a parte da Lua-Cheia, tento me explicar (porque ele já deve estar estranhando bastante o fato de eu estar aqui a essa hora da noite com um bebê):

— Ela estava com fome, é só uma maçã... Ahn, pode me dizer onde é que eu estou...?

— Vou dizer pra onde é que você vai, e é pra fora daqui! — ele agarra meu braço e começa a me puxar com uma força que não parece lhe pertencer.

— Ei, onde estamos indo? Não podemos deixar ela aqui! Onde você tá me levando?

— Ela vai ficar bem, não está sozinha... Agora anda!

Embora eu o encha de perguntas, ele simplesmente responde com um "shhh" enquanto me arrasta por entre as árvores. Estou atordoado demais para insistir ou pensar sobre a bebê, então depois de um tempo eu simplesmente me deixo levar.

Antes mesmo de sairmos da floresta já começo a estranhar a algazarra de vozes, mas só quando saio posso concluir que entrei em uma espécie de coma e acordei no ano novo, pois tenho certeza que é madrugada e mesmo assim tem um bando de gente comemorando. Uma espécie de música escocesa está tocando e crianças correm animadas pela praça. Todo mundo aqui está usando umas roupas estranhas, uma mistura de período feudal com deuses do Olimpo, o que me faz imaginar que talvez seja uma festa fantasia.

— Qual é seu nome mesmo? — ele diz, largando meu braço.

— Davi — balbucio, tentando reconhecer o lugar. Parece com a praça de uma favela ou algo assim. Não lembro de já ter visto antes.

— Wakende, sou um anuviado.

Ele estende sua mão e eu aperto, mesmo achando que Wakende soa mais com um espirro do que com um nome.

— Que lugar é esse? — pergunto outra vez.

— Olha, se você não tivesse interferido — começa Wakende, me ignorando completamente. Ele olha para os lados, um pouco preocupado e então se vira para mim. — Se não tivesse alimentado a menina eu poderia simplesmente o deixar ir, mas você a alimentou. E eles saberão. Então terei que te entregar, ok?

Não faço ideia do que ele está falando, mas a palavra "entregar" certamente não me soa nada bem. Antes que eu possa concordar, no entanto, Wakende já está gritando para um grupo de guardas:

— Intruso! Intruso! Interferindo na noite de Lua-Cheia, intruso!

De repente uma cambada de soldados vestindo roupas de cavaleiros da idade-média, montado em cavalos, brotam na nossa direção, todos muito irritados comigo.

— Mas você disse... — olho assustado para Wakende. — O que eles...?

— Shhh, confia em mim — ele murmura com o canto da boca. Depois me pega pelo cangote e se volta para os guardas: — Peguei esse rapazinho aqui perambulando pela floresta. Graças ao Destino cheguei antes que pudesse fazer alguma coisa!

Os guardas me olharam de cima a baixo como se eu tivesse cometido algum crime.

— Olha, deve ter acontecido um engano — me adianto, antes que eu seja preso ou algo do tipo. — Eu não sei que lugar é esse, mas podem me levar pra casa? Eu moro no bairro dos Castelos, fica logo depois do grande mercado e...

— Ele andou bebendo o suco dos ciganos? — um guarda pergunta a Wakende.

— Talvez, fica falando essas coisas estranhas — responde ele, observando meu rosto.

Ciganos. Coisas Estranhas. Talvez eu realmente tenha bebido e não lembro.

— Escuta aqui, seu arruaceiro, não vai se safar dessa, vamos avisar seus pais! — um guarda ameaça.

— Não é pra tanto, ele só devia estar curioso — contesta o outro.

— Diz isso porque não atrapalhou um dos seus rituais né, Astro Rei?!

Os guardas continuam tendo uma discussão particular e, quando acho que já esqueceram da minha presença ali, digo para Wakende que não sou daqui, momento onde um dos guardas então solta essa:

— Levem o garoto para o rei.

— Rei?! — exclamo. — Ah sim, me deixem falar com o Bobo-da-Corte também.

— Ele está ali — aponta um guarda, e posso ver um aglomerado de gente em volta de um... Palhaço.

O guarda que sugeriu que eu visse o rei provavelmente deve ser o chefe dos outros, pois dessa vez eles não questionam. Dois deles desceram do cavalo e me guiaram pela praça. Suas lanças pareciam bem reais pra uma fantasia, de modo que eu também não questionei.

Prestei bastante atenção no caminho, vendo se conseguia identificar que lugar era esse. Certamente não era minha cidade, pois eu lembraria de ter um chafariz em forma de jacaré gigante no meio da praça. Lembraria de tendas vendendo malhas coloridas e até mesmo algumas especiarias. E definitivamente lembraria do enorme castelo que estava na minha frente. Não era de papelão ou papel machê, era um castelo. De verdade. Com pedras antigas e coberto de limo. E, sentado em um enorme trono logo à frente dos grandes portões, cercado de guardas, só podia ser o rei. Deduzi pela coroa.

— Senhor — saudou um dos soldados, e então todos os outros fizeram uma mesura (quase fiz também, porque não queria ficar sobrando ali). — Desculpe interromper, mas este é um intruso, quase interferiu no ritual da Lua-Cheia.

— Na verdade... — o chefe dos soldados interrompeu, descendo do cavalo. Ele cochichou alguma coisa no ouvido do rei, e este pousou o seu olhar mais atentamente sobre mim.

Os guardas se entreolharam e pude perceber que estavam entendendo tanto quanto eu.

— Pois bem — concluiu o rei, levantando de seu trono. Ele vestia um manto vermelho e também carregava um cetro de ouro que usava como bengala. Se dirigiu aos guardas: — Vocês estão dispensados. Eu vou ter uma conversa com o garoto.

Os soldados fazem outra mesura e saem rumo à praça, me deixando sozinho com a vossa alteza. Este, por sua vez, me observa por um bom tempo, antes de me dirigir a palavra:

— Meu jovem, queira me desculpar pelo modo que meus soldados o trataram — diz ele, estendendo a mão. — Sou o rei Geraak Em africâner: influenciado. Você deve estar confuso, meu jovem.

— Estou! — concordo, feliz que alguém me entenda. — Acontece que eu não sou daqui... Sou do bairro dos Castelos... E esse lugar...

— Não é o bairro dos Castelos — concordou o rei, colocando a mão em meu ombro e me conduzindo por um jardim de arbustos floridos. — Receio dizer que está, na verdade, bem longe de lá.

— Mas que lugar é esse? Olha, eu preciso voltar pra casa, não lembro o que...

— Aqui é Murkan— explicou o rei, fazendo um gesto amplo para toda a praça. — E você foi enviado a este mundo para cumprir sua missão. Você é o Escritor.

Notas finais
O que acharam? Reviews ainda são bem vindos viu, gente :)