Uma História
3 Uma História Sobre a Minha Missão
Notas iniciais
Então eu vim parar em outro mundo. Ok. Normal. Quem nunca, né? Bom, eu nunca...
— Não, você não tá entendendo — digo, após um longo tempo considerando o que o "rei" dissera. Tento explicar o que é que ele não estava entendendo, mas percebo que eu mesmo estou boiando legal aqui. O rei põe a mão em meu ombro e me conduz por um caminho entre os pinheiros e arbustos, de uma maneira muito paternal para quem acabou de me conhecer.
— Eu sei que será muito para você digerir, mas saiba que eu estive esperando a sua chegada por muito tempo.
— Como sabia que eu... Apareceria por aqui? — pergunto, porque isso não estava nem nos meus planos.
— Meu jovem...?
— Davi, Davi Belmonte.
— Meu jovem Davi Belmonte... — começa ele, limpando os galhos que se acumulam ao chão à nossa frente com o seu cetro de ouro. Ele se vira para a praça, à nossa esquerda, e faz um gesto abrangente: — Tudo isso que você vê é Murkan. E eu sou o rei de Murkan. Todo o rei de Murkan recebe o porte das escrituras proféticas ao assumir o trono. Elas prediziam a sua chegada. Há anos atrás, o primeiro cigano, guiado pelo toque do Destino, leu nas estrelas que um dia chegaria um garoto de outro mundo. Nós só não sabíamos ao certo quando você chegaria.
Ele estava certo: é muito pra digerir. Quase consigo ouvir meu cérebro trabalhando desesperadamente para achar outra explicação pra isso, porque não é todo dia que você desmaia e acorda em Murkan.
— Então todo mundo aqui estava me esperando, eh? Bom, seus guardas não pareceram muito receptivos, não.
— Bom, não todo mundo — admite o rei, um pouco desconcertado. — Como eu disse, somente eu possuo as escrituras. Eles saberem o que você está fazendo aqui certamente iria atrapalhar na sua missão.
— Missão? — paro de andar. Porque obviamente não basta você parar em um universo alternativo, não, você ainda precisa ter uma missão. — Agora eu tenho uma missão também?
O rei Geraark obviamente esperava que eu estivesse mais por dentro do assunto, pois me olha com um misto de irritação e dúvida. Dá um suspiro e então explica:
— Todo lugar tem uma bela história a ser contada. Não importa qual realidade seja. E todas as histórias são belas porque, de uma forma ou de outra, seus leitores sempre conseguem tirar uma lição daquilo. Toda a história precisa ser contada, meu jovem. E para cada escritor que existe há também um universo inteiro a ser explorado e relatado. Você é o escritor que estamos esperando, meu jovem. E Murkan é o seu universo.
Mesmo sentindo que ele já tenha dado uma boa resumida na história, isso já é o suficiente pra me deixar atônito por um ou dois minutos.
— Escritor? — murmuro, enfim.
— É, você é um escritor, certo?
Hesito antes de responder porque não sei o que sou. Gosto de escrever, claro. Mas não basta simplesmente escrever para ser um escritor, basta?
— Sou — respondo, porque tenho utilizado muito de um lema ultimamente: "na dúvida, minta". Mas também sinto que se eu negasse, simplesmente não haveria outra explicação para eu ter acordado naquela floresta. E eu seria apenas mais um por aqui, e não o esperado pelo rei (um título que me atrai, não vou negar).
— Então ótimo! — a majestade sorri com uma alegria tão imensa que acho que ele vai me abraçar. — Agora... Bem, tudo o que você precisa fazer é explorar. Aprender o máximo que puder sobre o lugar e relatar isso em um livro que levará para seu mundo assim que terminar. Você escreve e depois pode voltar. Até lá poderá ficar no meu castelo, eu direi que é um parente distante. Alguma dúvida?
Ele fala "alguma dúvida" do mesmo jeito que os professores fazem essa perguntinha inocente após explicarem aquela matéria difícil que sabem que ninguém está entendendo.
— É, tenho algumas — digo, e opto pela que mais está me incomodando no momento. — Aqui é mesmo outro mundo?
O rei pensa por um tempo.
— Sim, a menos que você esteja mentindo sobre nunca ter estado em Murkan antes.
Ele fala isso de uma maneira severa, de modo que fico bem aliviado quando ele dá um pequeno sorriso mostrando que está brincando.
— Ah... E... Ahn... Essa parada de escritor com seu universo, ela... Bem....?
— Sim, por mais confuso que possa lhe parecer agora — ele confirma, entendendo minha pergunta. — Mas como acha que as boas histórias surgem? O escritor é levado até sua história porque o Destino quer assim.
— Espera aí... — interrompo, assim que uma ideia começa a se formar em minha cabeça. — Está dizendo que tudo o que li nos livros... Quer dizer, todos os universos literários, eles... Existem mesmo?
— E por que não existiriam? — questiona o rei, como se eu estivesse perguntando uma coisa óbvia. — O seu mundo não existe? Bom, certamente, alguém já foi mandado para lá para relatar a história e levar para outros mundos.
Solto um assovio enquanto rio sozinho com a ideia de que Hogwarts, Nárnia e todos aqueles lugares incríveis realmente existam e que os escritores realmente estiveram lá. Antes que eu possa dar aquela surtadinha básica, no entanto, as pessoas na praça explodem em gritos de alegria e comemoram alguma coisa.
— O que está acontecendo? — tenho que gritar para que o rei possa me ouvir.
— Ah, acabou de amanhecer — ele diz, apontando para o céu que agora está ficando de uma tonalidade rosa. Obviamente ele se liga que "acabou de amanhecer" não esclarece muito minha dúvida, pois acrescenta: — Era ritual da Lua-Cheia, os luares estão comemorando pois acharam a mais nova Filha da Lua.
— Ritual? Filha da Lua?
— Ah, sim... O reino de Murkan nasceu do amor entre o Sol e a Lua — diz o rei, dando de ombros como se aquilo fosse uma coisa já banal.
— Sol e a lua?
O rei dá um tapa de leve nos meus ombros acompanhado de um risinho antes de dizer:
— Ah, jovem Davi, há tanto que você precisa saber sobre esse lugar...
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