Uma Garota Especial
8 Desempregada
Notas iniciais
Holly nunca poderia imaginar, em toda sua vida, que desejaria comer salada de batatas no café da manhã, mas estava faminta, e aquela parecia ser a ocasião perfeita para começar.
Encheu a tigela de cereais que costumava usar na infância com salada de batatas, agradecendo à sorte por todos terem saído, com exceção de Thor.
Depois da noite que tivera, precisava de paz e silêncio para refletir sobre o significado do reencontro com Steve. Suas emoções se confundiam, oscilando entre a mais plena felicidade e o mais absoluto pânico.
Apanhou sua tigela e um garfo e foi para a sala, sentando-se diante da televisão. Depois de rodar os canais à procura de seus desenhos animados favoritos, decidiu escolher um entretenimento mais compatível com sua faixa etária. Deteve-se no noticiário nacional e ia levar uma porção de salada à boca quando ouviu uma notícia que a deixou com o garfo suspenso no ar: Elizabeth Turner confirma a separação com Frederick Tuner. O casal tem evitado os jornalistas e...
Não precisou acabar de ouvir para entender o que aquilo significava. Levou a tigela quase intocada para a cozinha e sentou-se à mesa, forçando-se a se alimentar.
Naquele momento, Althea chegou com pacotes de compras.
– O que aconteceu, querida? Você está pálida!
– Olá, tia Thea — saudou-a, desanimada demais para falar sobre o que a incomodava. — Quer um pouco de salada?
– A esta hora?! — Althea fitou-a, com ar preocupado. — Humm... Outra aura de tempestade, não é?
– Você viu meu pai?
– Ele foi ao clube para uma reunião com a Sociedade das Senhoras de Sandy Bend.
– O quê? — chocada, voltou-se para a prima. — Você quer dizer que ele tem ido tomar chá e conversar sobre futilidades com elas?
– É isso mesmo — afirmou, enquanto guardava as compras. — E, na verdade, eles tomam uísque, e não chá.
– Meu Deus! Acho que nada do que se refere a papai me surpreende mais! E a que horas ele deverá estar de volta?
– Perto da hora do almoço. Você gostaria de conversar sobre alguma coisa com relação a Steve? — indagou com cautela, e então acrescentou alarmada — Você usou proteção, espero!
Holly sentiu uma súbita e profunda necessidade de sair dali e ficar distante de toda sua família.
– Não e sim — respondeu, perdendo completamente o apetite. — Não acredito que você esteja me perguntando isto!
Lavou a louça que havia usado e apanhou as chaves do carro, avisando por sobre o ombro
– Vou até o salão de beleza.
– Espere! Leve isto! — Althea correu atrás dela, estendendo-lhe uma pedra azul. — Vai ajudá-la a se acalmar.
Holly escorregou a pedra para dentro do bolso e saiu. Não estava disposta a discutir sobre os efeitos mágicos dos cristais, já tinha problemas suficientes com que se ocupar...
Poucos minutos depois chegou ao salão e encontrou Dana tingindo os cabelos de uma adolescente.
– Olá, Dana. Espero não estar incomodando.
– De forma alguma! Você é sempre bem-vinda. — Sua mais recente amiga saudou-a com um sorriso acolhedor, espalhando uma generosa porção de tintura na longa mecha da jovem. — Estou cuidando de Sky, a princesa do verão deste ano.
– Parabéns, Sky. Vou vê-la sábado, no desfile.
A garota corou até a raiz dos cabelos, e abaixou os olhos. Holly voltou sua atenção para Dana.
– Você estava certa sobre aquela notícia de ontem...
Trocaram um olhar de cumplicidade através do espelho, sem que Dana interrompesse o trabalho.
– Puxa, sinto muito. Eu não disse? Nunca duvidei do News! E o que isso pode representar para seu trabalho?
– Tudo ou nada, não sei. Ao menos, vou continuar trabalhando meio período na galeria de arte.
– Mas isto representará um problema para seu orçamento.
– É verdade. O que eu ganho mal dá para combustível e estacionamento...
– Você precisa de um plano.
Dana cobriu a última mecha com a tintura, deixando a princesa do verão mais parecida com uma alienígena, com a cabeça envolta em papel alumínio.
– Que tal almoçarmos juntas? Depois que Sky terminar, não tenho outra cliente agendada até as duas horas da tarde. Talvez possamos pensar em algum plano.
– Será ótimo!
Depois do almoço, Holly sentia-se bem melhor, com nova disposição para enfrentar os desafios profissionais que teria pela frente.
Enquanto esperavam pela sobremesa, resolveu ligar para casa para avisar que chegaria mais tarde, e Althea informou-a que Steve ligara.
Era exatamente o que ela queria ouvir! Excitada, decidiu ir até a mansão em vez de ligar de volta.
Despediu-se de Dana e chegou na casa dele alguns minutos mais tarde.
Depois de pensar se seria melhor esperar do lado de fora, Holly bateu à porta.
– É você, Susan? — Kiara gritou do interior da casa.
Então, estavam à espera de Susan... Ela suspirou profundamente antes de responder.
– Não, é Holly Adams.
– O que você quer?
A hostilidade no tom de voz quase a fez desistir, mas o desejo de ver Steve foi mais forte.
– Preciso falar com seu irmão. Ele está em casa?
– Está bem, espere um minuto.
Ela poderia ter lido um livro inteiro enquanto esperava que Kiara abrisse a porta. Ao abrir, ostentava um enorme curativo sobre o olho, e Holly suspeitou que fora colocado às pressas apenas para impressioná-la.
– Suponho que queira entrar. — Com um gesto pouco convincente, indicou que entrasse.
– Obrigada. Prometo que não vou roubar a prataria.
Enquanto caminhavam para atravessar a cozinha, Holly notou que havia inúmeras embalagens de salada de batata sobre a mesa. Tinha que dar a Kiara o crédito por ser esperta o bastante para comprar a salada pronta no supermercado.
– Quer ajuda para guardar as compras?
– Que compras? Oh, a salada... Não se preocupe, posso tomar conta disso sozinha.
Ela continuou caminhando enquanto Kiara ficou na cozinha.
Na sala de estar, aproximou-se da imensa estante com livros, curiosa para ver o tipo de leitura que Steve gostava. Havia muitas biografias e livros policiais, além de livros técnicos sobre álgebra que a fizeram arrepiar. A única coisa que gostava relacionada a matemática era o professor...
Holly voltou-se para os porta-retratos dispostos ao longo da estante, com muitas fotografias de família, incluindo uma de Kiara de muitos anos atrás, na época em que ainda eram amigas.
– Você vai vasculhar a casa toda antes que meu irmão chegue? — ouviu atrás de si.
– Ouça, Kiara, não podemos ter uma trégua? Ficarei em Sandy Bend por apenas mais alguns dias, e gostaria de levar uma boa recordação de você.
Os olhos de Kiara se arregalaram por um instante, e então a usual máscara de frieza cobriu seu rosto.
– Uma trégua? Não estamos em guerra.
– É mesmo? — Dirigiu-se para uma confortável poltrona e se sentou.
Kiara permaneceu no centro da sala, parecendo confusa sobre o que deveria fazer a seguir. Finalmente, sentou-se no sofá diante de Holly.
Permaneceram em silêncio, cada qual esperando que a outra fizesse o primeiro movimento. Surpreendentemente, foi Kiara quem começou.
– Steve disse que você é uma espécie de artista.
– Trabalho com aquarelas, para ser mais precisa, embora ainda não consiga sobreviver somente da pintura. E você, o que tem feito?
– Nada de especial.
Holly percebeu como ela ficara embaraçada por admitir.
– Eu não preciso trabalhar para viver.
– Sorte sua. Mas eu gosto de trabalhar. Gosto de sentir-me útil, e da sensação de ser produtiva.
– Estive pensando em voltar para a escola — Kiara disse como se estivesse confessando um crime. — Ou, talvez, montar um bufê para festas.
– Ambas são ótimas opções.
– Tive um emprego em uma butique de Chicago, mas o salário era horrível. Não sei como as pessoas aceitam trabalhar por tão pouco! Queriam que eu trabalhasse nos finais de semana e que estivesse lá às nove e meia da manhã!
A conversa estava se tornando mais apavorante para Holly do que continuar a guerra que havia.
– Tenho certeza de que, quando encontrar algo que a inspire, vai levar em frente.
Naquele momento, Holly ouviu a porta da frente se abrir. Sorriu, aliviada, e ouviu a voz adorável ecoar pela sala. Steve dirigiu-se a ela com um sorriso, beijando-a na testa.
– Que surpresa agradável! — exclamou, estendendo-lhe a mão para ajudá-la a se levantar. — Venha, vamos até o deque.
Estavam chegando quando Kiara correu atrás deles.
– Espere, Steve, quase me esqueci. Posso usar sua casa amanhã para uma pequena reunião que planejo fazer para Susan?
– Você deve estar brincando! — ele respondeu, rindo com vontade. — Não há a menor chance!
– Não precisa ficar nervoso!
Ela girou nos calcanhares e correu para o interior da casa.
– Vamos logo, antes que ela me peça alguma coisa ainda mais extravagante.
Depois de tirar os sapatos, desceram para a praia que margeava o lago. Holly aspirou a brisa refrescante, feliz por estar ali.
– Isto é o paraíso! — murmurou.
Steve permaneceu em silêncio. Olhou-a de relance, observando que os lábios estavam apertados em um sinal evidente de tensão.
– Vamos caminhar um pouco?
Ela concordou, mergulhando os pés descalços na areia macia. Uma deliciosa sensação de liberdade a invadiu, e se pôs a refletir como pudera achar que poderia ser feliz em qualquer parte do mundo que não fosse em sua cidade natal. A vida em Sandy Bend era tudo que ela poderia querer.
Caminharam em silêncio por um longo tempo, perdidos nos próprios pensamentos.
– Como foi seu dia? — indagou ela, esperando quebrar silêncio sufocante.
– Na verdade, até agora tem sido péssimo! Tive uma reunião na universidade que durou a manhã toda. Não temos alunos suficientes para o próximo ano. — Ele fez uma pausa, e então as palavras vieram sem que pudesse controlar — Não quero ver a universidade fechar! Não quero que as crianças percam a oportunidade de construírem um futuro, não quero ver Sandy Bend perder o senso de comunidade...
Subitamente, os problemas de Holly pareceram insignificantes e egoístas.
– É tarde demais para impedir que isto aconteça?
– Não sei. Tudo que sei é que não temos como pagar as despesas. — Com um suspiro, ele se calou e seguiu em silêncio por alguns minutos. — Sinto muito por aborrecê-la com meus problemas.
– Oh, não me aborrece! E bom que você fale. As vezes, observar a perspectiva de outra pessoa pode ajudar. — Com interesse sincero, voltou-se para ele. — Corro o risco de assumir o estilo de tia Thea, mas eu diria que sua aura está pessimista demais. Talvez você precise abrir a mente para outras possibilidades, e pensar no ganho potencial desta perda.
Ele refletiu sobre o que ela acabara de dizer, surpreendendo-a com uma risada espontânea.
– Você tem razão. Enquanto conversávamos, pensei em algo que pode funcionar... Mas vamos esquecer esta confusão por um tempo, certo?
Ele tomou-a pela mão e subiu para o deque. Ajustou o encosto da cadeira de praia, transformando-a em um divã, e sentou-se.
– Venha, sente-se comigo.
Holly hesitou, e então decidiu aceitar o convite. Recostou-se no peito largo e foi envolvida pelos braços fortes.
Steve descansou o rosto no alto de sua cabeça, e permaneceram em silêncio, simplesmente usufruindo a companhia um do outro. Holly perdeu o olhar no magnífico céu azul, ouvindo ao longe o riso alegre das crianças na praia. Fechou os olhos e imaginou como seria bom se a vida fosse daquele jeito para sempre.
– Fico tentando encontrar alguma coisa para dizer sobre a noite passada, mas nada exprime o que realmente sinto — ele murmurou ao seu ouvido. — Queria que soubesse que, para mim, não foi apenas sexo.
Holly mergulhou no eco das palavras, guardando-as na memória como a mais linda melodia.
– Vou pedir que Kiara vá embora. Quero dormir com você nas duas noites que nos restam.
O pânico de ouvi-lo dizer que tinham apenas mais duas noites juntos provocou um frio intenso em Holly. Mesmo que estivesse a ponto de perder seu emprego, permanecer em Sandy Bend era a última das opções.
Estivera nos braços de Steve, e havia jurado para si mesma que não acreditaria em ilusões. Teria que viver o momento, seria a única forma de preservar o coração. Já passara a adolescência apaixonada por aquele homem. Sua dignidade e seu amor-próprio lhe diziam que não deveria se submeter à vontade dele.
Agradeceu por Steve não poder ver sua expressão. Sabia que perguntaria o motivo das lágrimas que desciam de seus olhos...
– Você não prefere o confortável sofá no celeiro? — perguntou, aliviada por sua voz não tremer.
– Com você, qualquer lugar se torna perfeito...
Holly não conseguiu dizer nada, sentindo-se inundar de felicidade.
– Quer me acompanhar no piquenique desta tarde? — Steve perguntou, acariciando os cabelos sedosos.
– Um encontro de verdade, e não um daqueles que fingimos nos ignorar, como fizemos no Truro's?
– Sim, um encontro de verdade.
Ela sorriu, com a paixão por aquele homem explodindo em seu peito, assumindo uma proporção incomensurável.
– Você não respondeu a minha pergunta. Será meu par no piquenique?
– Não é fácil dizer não para você, Steve Morettin.
Num ímpeto, ele cobriu a boca dele com a sua. Como não se apaixonar por aquele homem?, pensou ela, correspondendo ao beijo de corpo e alma.
Logo que chegou em casa, um telefonema da Califórnia pegou Holly de surpresa. A assistente pessoal de Elizabeth Turner, em seu tom frio e impessoal, comunicou-lhe que a casa de Carmel Highlands estava à venda e ela estava oficialmente sem seu emprego.
Lutando bravamente para não entrar em desespero, subiu para seu quarto. Tomou um banho, vestiu-se e foi para a cozinha. Enquanto passava a salada de batata para a travessa que levaria ao piquenique, repetia para si mesma que não havia motivo para pânico, ao menos não naquele momento.
Depois de tudo pronto, enfiou as mãos nos bolsos e acariciou os cristais que Althea havia lhe dado. Detestava a ideia de atribuir a eles a sorte que seu destino pudesse ter, mas estava tão desesperada que apegou-se à ideia de buscar energia positiva como se fosse uma tábua de salvação.
– Você está pronta?
A voz de Steve soou bem atrás de si. Ele acabara de chegar, e entrara na cozinha sem que ela percebesse.
Mesmo com sua vida desmoronando, decidiu que, naquela tarde, não faria nada além de sorrir e tentar se divertir. Ter Steve a seu lado faria qualquer esforço valer a pena.
– Sim, estou pronta — respondeu, fazendo um gesto indicando o buquê de flores que ele carregava. — São para mim?
– Não, são para Cal — ele brincou, estendendo-as para ela com um sorriso que a fez derreter.
– Oh, Steve! São lindas!
Imediatamente, todas as preocupações se dissiparam, e uma alegria sincera iluminou os olhos azuis. Como sinal de agradecimento, Holly beijou-o de leve no rosto, sentindo um arrepio ao tocar a pele bronzeada.
– Então, vamos andando. Kiara está a nossa espera. O noivo de Susan teve que voltar para Chicago, e ela emprestou seu carro.
Suspirando fundo, Holly engoliu o que estava por dizer. Resolveu tentar uma atitude pacífica e amigável, e apanhou a bolsa, enquanto Steve se incumbia da travessa de salada.
– Kiara, eu disse que era para ficar no banco de trás! — vociferou ele ao se aproximar do jipe.
Com um gesto decidido, abriu a porta e estendeu a mão para ajudar a irmã a descer.
– Steve, deixe-a ficar aí — Holly protestou, apressandose a entrar.
Mesmo com os joelhos espremidos, seria melhor não se indispor com Kiara. Encolheu as pernas e tentou se acomodar.
Chegaram ao estádio esportivo onde seria realizado o piquenique em poucos minutos. Steve deixou-as na entrada e seguiu para o estacionamento.
O campo de futebol fora ocupado por uma enorme tenda aberta dos lados, que abrigava duas fileiras de mesas cobertas por toalhas brancas. Um delicioso aroma de churrasco abriu o apetite de Holly. Ela procurou a mesa destinada às saladas, e colocou sua travessa em meio à inúmeras vasilhas que ocupavam a mesa. Kiara a seguiu, e fez o mesmo com a travessa que carregava, colocando-a ao lado da sua.
– Holly! Holly Adams! — A Sra. Talbet, uma das responsáveis pela organização da festa, chamou-a com um gesto frenético. — Temos que organizar melhor a mesa, para combinar com o resto da decoração.
Ela fez menção de se aproximar, mas mãos firmes a retiveram.
– Kiara é perfeita para decorar a mesa! — ele disse, puxando a irmã pelas mãos e empurrando-a na direção da sra. Talbet como quem joga uma presa na jaula dos leões. — Deixe tudo por conta dela!
Kiara fuzilou-o com o olhar, mas Steve não lhe deu atenção. Sem conter o sorriso, Holly se deixou levar enquanto acenava para ela, que estava a ponto de explodir.
O piquenique não estava sendo como ele havia planejado. Desolado, observava de longe enquanto a metade da população da cidade se concentrava ao redor de Holly.
Nunca poderia imaginar que Holly Desastrada se transformaria em uma mulher como aquela... Ela sorria para todos, e conversava com a naturalidade típica de quem havia conquistado seu lugar no mundo. Admitiu para si que não deveria se surpreender por estar sendo cortejada pela maioria dos rapazes. Holly sempre demonstrava interesse genuíno em ouvir, e sempre tinha a palavra certa para dizer.
Tentou se consolar, dizendo a si mesmo que o que importava era que ela estivesse se divertindo. Tentava esconder o ciúme de todas as pessoas que roubavam seu precioso tempo com Holly. Ela iria embora dali a dois dias...
Tal pensamento fez com que, subitamente, todas as nuvens cobrissem o sol.
– Você está me colocando em uma posição comprometedora.
Sem que notasse, Cal se colocara a sua frente, encobrindo o sol.
– O que você quer dizer com isto?
– Você é meu melhor amigo, Steve. E a pior coisa para mim seria ter que acertar o nariz do meu melhor amïgo.
– Fico aliviado em ouvir — Steve afastou-se para que Cal se sentasse a seu lado. Ambos eram da mesma altura e tinham a mesma constituição física, mas Cal praticava exercícios físicos diariamente, e possuía uma força descomunal.
– Você sabe que me preocupo com ela — indicou Holly, estendendo o queixo.
– Sim, eu sei — Cal concordou, enquanto brincava com a lata de cerveja passando-a de uma mão para outra. — Papai diz que estou exagerando, mas quero lembrá-lo de que Holly sempre foi muito vulnerável em tudo que diz respeito a você.
O outro lado daquela equação era igualmente verdadeiro, mas não era o tipo de informação que Steve pretendia compartilhar com o amigo.
– Não se preocupe, está tudo sob controle.
– Holly diz o mesmo. O que é surpreendente, porque nunca vi nada que envolvesse a necessidade de minha irmã estar sob controle... — Ele fez uma pausa e continuou, com ar preocupado — Apenas lembre-se disso, parceiro. Ela pode se ferir.
Era verdade, mas ele estava muito mais suscetível de ser ferido do que ela, refletiu para si ao ver o amigo se afastar. Holly observava-os de longe, e se aproximou logo que o viu sozinho.
– O que Cal queria?
– Nada de mais — balbuciou, evitando encará-la.
O longo silêncio que se seguiu revelava que havia mentido. As palavras de Cal ecoavam em sua cabeça, deixando-o tenso e pouco à vontade.
– O que aconteceu? Por que está preocupado?
Apreensiva, Holly tomou a súbita consciência de que ela era a responsável por aquele mal-estar.
– Steve, não quis mencionar nada, com todos os problemas que você está passando, mas perdi meu emprego. Elizabeth Turner e o marido estão se separando, e ela vai voltar para a Inglaterra. Ou seja: acabo de perder meu emprego.
– Por que não queria me contar? É isso que amigos fazem, conversam sobre seus problemas.
– Amigos? É isso que somos? — ecoou ela, chocada.
– Sim, somos amigos. Se você ficasse por mais tempo em Sandy Bend, talvez nós pudéssemos...
– ...ir ao Truro's juntos, e sermos vistos em público? — sugeriu ela, com um tom que o fez perceber no mesmo instante que ele era um homem morto. — Você deveria saber que a noite que passamos juntos não teria acontecido se eu não o amasse.
Ao ouvir a verdade saindo de seus próprios lábios, Holly sentiu um misto de alívio e pânico. Acabara de dizer que o amava, e não tivera como controlar as palavras, que pareciam sair de sua boca como se tivessem vida própria.
O primeiro impulso de Steve foi gritar para que o mundo todo ouvisse, dizendo que a amava e pedindo-a em casamento... Mas não queria forçá-la a uma decisão precipitada.
– Entenda, não estou pedindo nada a você — continuou ela, sentindo a tensão crescente endurecer todos os músculos de seu corpo. — Não quero promessas que não possam ser cumpridas, e nem palavras que não tenham sentido. Mas temos que ser realistas. Tenho que tomar algumas decisões pessoais que estão muito além do que sinto por você.
– Está muito além do que sente por mim... Bem, isso não soou muito amigável.
O tom de ironia com que ele pronunciou as palavras foi como um punhal cravado no coração de Holly.
– Você está me dizendo que está sem emprego e sem casa. Já que temos que ser realistas, serei sincero. — Ele fez uma pausa tensa. — Acho que você está com muitos problemas, Holly. Talvez seja melhor voltar para a proteção de sua família..
Holly não podia acreditar no que acabara de ouvir! Se julgava que ainda era a adolescente apavorada com o mundo, estava muito enganado! Não haveria como persuadi-la a voltar. Seria capaz de se mudar para Cingapura apenas para provar que ele estava errado.
– Por acaso, você acha que não consigo sobreviver sozinha? — Sem esperar pela resposta, ela prosseguiu, deixando-o com a boca aberta — Não sinta pena de mim. Durante toda minha infância, vivi rodeada de pessoas que sentiam pena de mim. E eu merecia, tenho que admitir.
Ela plantou as mãos na cintura, sentindo a fúria crescer em seu peito.
– Certo, eu não era a garota mais habilidosa da cidade, nem mesmo a mais bonita. Mas, quer saber? Eu já superei! E você, Steve Morettin, pode guardar sua piedade para alguém que realmente mereça!
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