Notas iniciais
"O futuro é construído pelas nossas decisões diárias, inconstantes e mutáveis, e cada evento influencia todos os outros." - Alvin Tofller

Holly decidiu que o melhor a fazer era fugir do pânico. Não podia acreditar que Steve a via como uma criança perdida. Ficar desempregada não era o que mais queria, mas saberia como resolver a situação. E, se alguma vez na vida havia considerado voltar para Sandy Bend, não seria para correr para a proteção de sua família!

Estava tão indignada que cruzou o campo sem olhar para o lado, quando Dana surgiu a sua frente.

– Aonde você vai com tanta pressa?

– Não sei. Vou apenas caminhar um pouco.

– Posso caminhar com você?

Ela olhou de relance para sua nova amiga.

– Sim, desde que não diga nada.

– Nem mesmo sobre o salão de beleza? — Dana arriscou timidamente. — Você teve alguma ideia para a decoração?

Holly não conteve o riso. Na certa, aquela mulher sabia como afastar seu pensamento de Steve.

– Bem, já que você mencionou, pensei que se pintasse a parede de azul e fizesse um caminho de pedregulhos no jar­dim, com a varanda azul-clara salpicada de estrelas...

– Parece ótimo! Está contratada! Só que não poderei pa­gar muito, você sabe.

– Ora, Dana, não vou cobrar.

– É por isto que nunca vai ficar rica! Faço questão de pagar pelo trabalho. Agora que já falamos de negócios, quer me contar por que está aborrecida? — Diante do silêncio de Holly, ergueu as mãos e sorriu. — Bem, se não quer falar a respeito, vamos comer! Os quilinhos extras que adquiri são meu orgulho.

Quando estavam perto das mesas com a comida, Holly percebeu que havia chegado tarde demais. Tigelas quase va­zias cobriam as mesas, e não havia restado quase nada. Ser­viram-se das entradas, evitando a área das sobremesas. Do­ces não seriam permitidos em nenhuma hipótese.

Enquanto fazia seu prato, Holly ouvia o tom antipático de Kiara acima do burburinho das vozes.

– Provem mais um pouco! — ela dizia, rodeada por um pequeno grupo. — Eu mesma fiz o creme de maionese. Ele dá um toque especial, não acham?

– Meu Deus, não é possível! — sussurrou, perplexa. — Kiara está levando os créditos pela minha salada!

Sem conter a indignação, puxou Dana para longe dali.

– Devemos informar seus admiradores sobre a verdade?

– Não vale a pena. Venha, vamos comer a sobremesa. Eu mereço uma boa dose de calorias depois disso!

Serviram-se de musse de maracujá e torta de limão, e saíram da tenda. Holly reduziu o passo, observado as últi­mas novidades nos cabelos de Dana. Não estava prestando atenção no caminho, até se deparar com Steve ao lado de seu pai.

– Eu, Dana Devine, sua devota criada, trouxe-lhe ali­mentos para o corpo e para a alma — ela disse, estendendo o prato para ele, que o aceitou com sorriso divertido. — Esta é a porção que deve alimentar o corpo, e aqui está Holly, para alimentar sua alma!

Desejando que o chão se abrisse e a tragasse para as pro­fundezas da terra, ela baixou os olhos para que ele não visse seu constrangimento.

– Chefe Bud, se não se importa, gostaria de conversar sobre Cal — Dana sugeriu, puxando-o pelo braço. — Estou preocupada com ele. Sabe que outro dia ele foi ao salão e...

Observaram enquanto eles se afastavam, e então Steve olhou para o prato repleto de doces que Dana lhe entregara. A última coisa que queria era comer. Desejava apenas ter um pouco de privacidade em algum lugar distante de todos.

Precisava colocar os pensamentos em ordem, decidir o que fazer sobre Holly, e ficar ali não estava ajudando em nada.

– Você realmente quer comer tudo isso? – perguntou-­lhe, apontando para seu prato igualmente cheio.

– Acho que não...

Retirando o prato das mãos dela, colocou-o ao lado do seu sobre um banco ao lado deles.

– Ouça, Holly, quero que saiba que sinto muitas coisas a seu respeito, mas pena não é uma delas.

Holly relaxou a expressão tensa, e só então percebeu co­mo seus músculos estavam doloridos.

– Certo, vamos esquecer a piedade. O que você sente a meu respeito?

Steve recrutou as emoções como se estivesse diante de um tribunal.

– São sentimentos bons ou maus? — estimulou ela, ten­tando dar um tom bem-humorado à voz.

– Sentimentos bons... Os melhores! — ele replicou em uma voz baixa o suficiente para que ela tivesse que adivi­nhar as palavras.

Movendo-se para mais perto, ela sussurrou em seu ouvido.

– Quer ir para sua casa e demonstrá-los para mim?

Em segredo, Steve murmurou um agradecimento aos céus. Estava pronto para viver mais um dia com Holly Adams.

Na manhã seguinte, Steve acordou com o toque do tele­fone. Em vez de atendê-lo imediatamente, aconchegou-se ao corpo macio e suave a seu lado. Os lençóis estavam amontoados a seus pés, testemunhas silenciosas da noite de amor selvagem e apaixonado.

Sem se conter, beijou-a de leve no pescoço, e então apa­nhou o aparelho.

– Alô?

– Steve, é você? — murmurou uma voz feminina do outro lado da linha.

– Sim, sou eu, Mercy.

Mercy Cooper era presidente da Associação de Pais e Mes­tres da universidade, e tão puritana quanto uma mulher poderia ser.

– Você está estranho... Está doente?

– Não, eu estava dormindo.

Holly abriu os olhos e se espreguiçou. Só então percebeu o que estava acontecendo. Steve afastara o telefone do ou­vido para que ela ouvisse a voz esganiçada do outro lado da linha.

– Bem, fico feliz por ter repousado. Quase ninguém con­seguiu dormir nesta noite. Alguém serviu salada de batatas estragada no piquenique. Não quero ser injusta por acusar alguém, mas estavam dizendo que foi a salada de Holly Adams.

– Holly?

– Se for verdade, não é surpresa para mim. Lembra-se das trapalhadas que fazia quando morava aqui?

Ela se ergueu de um pulo, tapando a boca para conter o grito de surpresa.

– Steve, há alguém com você?

– Não importa. Suponho que esteja ligando para dizer que a reunião foi cancelada.

– Oh, Holly está aí com você?

– Sinto muito, tenho que desligar.

Steve colocou o aparelho no gancho antes que Holly pu­desse retirá-lo de suas mãos.

– O que está acontecendo?

Ele aninhou-a nos braços e abraçou-a com ternura.

– Ninguém nunca lhe disse que não é saudável ficar es­tressada tão cedo? Uma vez, li um estudo sobre...

– Por favor, Steve!

Irritada, ela se levantou e apanhou suas roupas espalha­das pelo chão.

– Aonde você vai?

– Você não vai querer saber! — ela disse em um tom que provocou um arrepio em sua espinha.

Discrição era a melhor qualidade para o momento, con­cluiu para si enquanto a via sair.

Holly não passou mal por causa da salada de batata, mas quando estava a caminho da delegacia, mais tarde naquela manhã, sentiu o estômago revirar.

A sra. Hopkins fora a primeira, mas não a única, a detê-la no caminho para contar as más notícias. Segundo os mexe­ricos, só não havia passado mal quem comera a salada que Kiara havia preparado.

Holly suspirou, com a terrível sensação de que a cidade inteira a recriminava por ter oferecido comida estragada.

Quando insistiu que havia feito a salada em sua própria casa, tudo que teve como resposta foi uma lista de outros desastres que havia cometido. Mesmo sabendo que não ha­via feito nada de errado, ouviu calada, sentindo-se cada vez pior.

Enquanto explicava a Cal e Mitch sua versão da história, eles a fitavam como se já tivessem uma opinião formada.

– A salada que Kiara levou estava na cozinha na manhã do piquenique. Talvez tenha ficado fora da geladeira a noite toda.

Cal consentiu, trocando um olhar cúmplice com o irmão.

– Ouça, tenho tantas dúvidas sobre a sinceridade de Kiara Morettin quanto você, mas acho que não temos base para uma investigação criminal.

– Então, qual é a vantagem de ter dois irmãos policiais?

– As rosquinhas de creme que você poderá comer? — Mitch provocou, oferecendo-lhe a bandeja repleta com os doces.

– Muito engraçado!

– Sei que está passando por um momento difícil. Se isto a alivia, hoje de manhã fomos testemunhas veementes de que comemos sua salada e não passamos mal. Mitch e eu comemos uma boa porção antes do piquenique. O problema é o que você tem um currículo razoável no que diz respeito a desastres...

– Lembra-se de quando ficou responsável pela pipoca do piquenique e colocou tanto sal que ninguém conseguia co­mer? E quando quis dar um tempero especial ao churrasco e despejou um vidro de pimenta sobre a carne? E quando...

Holly saiu antes que Mitch continuasse. Quando estava do lado de fora, caminhou com a cabeça erguida e, evitou o contato visual com quem cruzassem pelo caminho, certa de que as velhas lendas sobre Holly Desastrada estavam sendo revividas.

Não tinha ideia de como resolver aquele problema. Já havia tentado conseguir que Kiara fosse interrogada, e fra­cassara. Só lhe restava dignificar sua saída da cidade antes da parada do dia seguinte.

Parou em um banco na praça da igreja e sentou-se, pen­sando em fazer as malas e ir embora. Estava tranquila com relação à saúde de seu pai, embora ainda não entendesse a estranha mudança de comportamento dele. Enfim, parecia estar muito melhor que ela.

Havia apenas um laço que a prendia a Sandy Bend: Steve Withman. Se ao menos soubesse o que ele sentia... Sabia que ele era um amante maravilhoso, mas nunca havia de­monstrado o mesmo sentimento profundo com exceção de quando faziam amor. E naquele momento, quando a maioria das pessoas da cidade a acusava de um novo desastre, so­mente a certeza de que ele a amava poderia fazer com que superasse a decepção por ter voltado.

Sim, o melhor seria partir o quanto antes, refletiu. A dor por esconder seus sentimentos por ele tornara-se física. Na noite anterior, havia se reprimido para não dizer palavras de amor, esforçando-se para encarar o tempo que passavam juntos com naturalidade, como se fosse passageiro e fugaz.

Mergulhada em seus pensamentos, não percebeu o peque­no grupo de garotos se aproximar.

– Ei, aquela é Holly Terror?

Os meninos a encararam como se ela fosse um espécime raro, e então correram para o outro lado da rua.

Ótimo! Sua reputação tornara-se ainda pior, e atingira mais uma geração em Sandy Bend. Não havia escolha senão partir.

Porém, antes de ir, precisava cumprir uma promessa. Com um esboço de projeto em mente, levantou-se e caminhou pa­ra a rua principal. Frustrados pela falta de resposta, os me­ninos começaram a segui-la. Quando ela entrou na casa de material de construção, eles ficaram na porta, observando-a.

– Olá, sr. Brogan. Preciso de tinta e pincéis.

– Tenho que atender a outros clientes, Holly. Estou so­zinho hoje. Os funcionários estão em casa, passando mal, e você sabe por quê.

– Mas não há outros clientes aqui! — exclamou, olhando ao redor.

Depois de uma longa espera e muita resistência, ele fi­nalmente se dispôs a atendê-la. Vinte torturantes minutos depois, observou a amostra de tinta que ele havia preparado.

– Melhorou, mas ainda não é o que quero. Preciso de um azul com mais luz, como o do amanhecer. Acrescente uma gota de branco e vamos ver o resultado.

– Bem, nesse caso, você deve esperar por Maeve. Eu ape­nas atendo os clientes.

– Que tal se tentássemos? — insistiu, não se deixando abater pela pouca disposição do vendedor. — Melhor ainda: deixe-me tentar. Creio que posso conseguir a cor ideal.

– Não sei... Depois da salada de batatas, tenha medo de não estar a salvo com você.

Naquele momento, o último vestígio de paciência de Holly se evaporou.

– Por acaso está pensando em comer a tinta? Porque se estiver, sr. Brogan, lembre-me de colocar um pouco de sal. E, se não for comê-la, deixe-me fazer o trabalho para que possa ir embora desta cidade!

Sem dizer uma palavra, ele saiu às pressas, antes que ela explodisse.

Steve encontrou Holly no salão de beleza de Dana, pin­tando as paredes com uma disposição irreconhecível.

Acabara de sair de uma reunião de duas horas com o corpo docente da universidade. A única pessoa com quem queria estar era Holly. A simples visão da silhueta esguia, concentrada no trabalho, o fez sorrir, mesmo que fosse um sorriso cansado.

– Obrigado — murmurou.

Ela estava de costas para ele, e não se voltou para res­ponder.

– Pelo quê?

Ele hesitou, sentindo-se acariciado pelo som daquela voz, imaginando a pele macia sob a camiseta manchada de tinta.

– Por salvar a universidade. Não tenho uma pirâmide como Althea, mas tive pensamentos positivos.

– E?

– Talvez ainda seja cedo para comemorar, mas acho que tudo vai dar certo.

– O que aconteceu?

– Obrigado por ter me alertado. Depois de conversar com você, comecei a pensar sobre onde eu estava falhando. — Então, começou a enumerar os itens: — Temos uma vasta população de terceira idade em Sandy Bend, e não há ne­nhuma programação para eles. Em Sandy Bend, há casais jovens que têm de trabalhar, mas não há creches ou escolas especializadas para cuidar dos filhos. Temos muito espaço vazio na universidade, e se eu preenchê-lo com uma progra­mação que atenda as necessidades locais, todos sairemos ganhando.

Ele fez uma pausa para respirar, mal contendo o entu­siasmo.

– Propus um programa onde estudantes interessados po­deriam se capacitar para dirigir uma creche e atuar como estagiários em um centro de artes para a terceira idade. Já elaborei um relatório e enviei às empresas da região. Du­rante o próximo ano, centrarei forças em conseguir fundos para o projeto.

Com um sorriso de triunfo, ele retirou o pincel da mão de Holly e segurou-a pelos ombros.

– Pela primeira vez na minha vida, posso ver vantagem em ser um Morettin. Está na hora de usar os recursos de minha família.

Ela concordou, sentindo que lágrimas brotavam de seus olhos.

– Estou muito feliz por você, Steve!

Encarou-o com os olhos marejados, e o que Steve viu tocou seu coração de uma forma mágica e perigosa.

– Você está chorando?

– Claro que não!

Com o dedo, ele limpou uma lágrima e, sem querer, es­palhou ainda mais uma mancha azul sobre a pele alva.

– Certo, você não está chorando. Então, o que está acon­tecendo?

– Para começar, Kiara espalhou para a cidade toda que eu fiz a salada de batata estragada, quando não foi que aconteceu.

– Sei o que ela fez. Prometo que vou cuidar disto — prometeu ele, cerrando os punhos.

– Esqueça. Não tem importância. Não é a salada. Para a população de Sandy Bend, continuo sendo o desastre em forma de gente! Todos, nesta estúpida cidade, acreditam que ela é a rainha Kiara, e eu sou Holly, a bruxa! Depois de tudo que fiz, são capazes apenas de lembrar dos acidentes!

– Eles também sabem que você fez coisas boas. Lembre-­se da forma como todos vinham falar com você no piqueni­que, ontem.

– E veja no que me tornaram hoje. Tudo que eu ouvi foram as terríveis histórias de minha infância, e a maioria delas não é nem mesmo verdade!

– Bem, você adquiriu o status de lenda. Não é de todo mau.

– Não vou mais chorar por isto! — Ela o fitou com um brilho de determinação nos olhos. — Sandy Bend não vale mais nenhuma lágrima que eu possa derramar. Vou embora amanhã à tarde, e nunca mais quero pensar neste lugar!

Holly não fazia ideia de como suas palavras o machuca­ram. Na noite anterior, enquanto ela dormia, Steve perma­necera acordado durante horas, tentando encontrar a forma ideal de convencê-la a ficar por mais tempo.

– Holly, não leve tudo isto muito a sério — começou, tentando manter o tom calmo e relaxado.

Porém, seu desespero fazia com que quase gritasse. Pre­cisava de mais tempo com ela. Precisava que Holly come­çasse a amar Sandy Bend.

– Estou farta desta cidade! Para falar a verdade, eu odeio este lugar!

Sentindo-se derrotado como nunca se sentira antes, ele deu-lhe as costas e saiu.

Engolindo a esperança e as lágrimas, Holly terminou de pintar a parede e o teto da varanda do salão de beleza, e entrou para descansar. Sentia-se péssima por descontar seus problemas e seu mau humor em Steve. Mas talvez fosse melhor daquela forma. Seria mais fácil despedir-se dele.

Limpou as manchas de tinta o melhor que pôde e seguiu para a fazenda. Acabava de estacionar o carro quando Mitch a chamou da varanda, com um gesto aflito.

– Venha logo! Elizabeth Turner está ao telefone. Papai está falando com ela.

– Tem certeza de que é Elizabeth? — gritou, enquanto corria para o interior da casa.

– Claro! Quem mais poderia ter aquela voz? Puxa, eu pagaria dez meses de salário para estar com ela em uma ilha deserta!

Ela entrou correndo na cozinha e apanhou o telefone das mãos do pai.

– Alô?

– Holly, sei que você recebeu um telefonema de minha assistente ontem.

– Sim, e compreendo perfeitamente que...

– Na verdade, receio que Pamela tenha se precipitado. A casa está à venda, e não posso lhe oferecer nada na Ca­lifórnia. Mas você estaria disposta a se mudar?

– M... mudar-me?

– Sim. Tenho uma mansão em Londres, mas passo a maior parte do tempo em Cornwall. Seria maravilhoso se pudesse cuidar de minha casa. Devo avisá-la que não é tão excitante quanto a Califórnia. A vista não é tão bonita, e neva na maior parte do ano.

Holly tentou absorver tudo que ela estava dizendo, mas não conseguia pensar em nada além de uma palavra: Lon­dres. Seu coração disparou no peito. Catherine Lassinter, sua supervisora de arte do último ano da universidade, mo­rava em Londres, e qualquer lugar que ela estivesse, seria maravilhoso. Era tudo que podia desejar!

Além de não ter despesas com moradia, Elizabeth sempre lhe pagara um bom salário. Porém, para sua surpresa, ouviu sua voz respondendo ao convite como se viesse de um lugar muito distante:

– Preciso de uma semana para pensar.

Ao desligar o telefone, um misto de excitação e pânico a invadiu. Seu pai a fitava com os olhos cheios de expectativa, mas ela não conseguiu dizer uma só palavra.

– E então?

– Preciso pensar, papai.

– Filha, precisamos conversar.

– Não quero mais falar sobre a salada de batata!

– Não é nada com a salada. Vamos até a varanda comigo.

As palavras soaram mais como uma ordem do que um pedido. Quando era criança, seu pai costumava levá-la para a varanda quando o assunto era sério. Nostalgia e uma pon­ta de constrangimento a invadiram quando se lembrou da­quelas conversas.

– Já sei de onde vêm os bebês, papai — informou com bom humor, enquanto acomodava-se na cadeira de balanço.

– Filha, esta é uma conversa que não quero que se es­queça. Há certas coisas que um pai nunca está pronto para falar com a filha, não importa o quanto esteja preparado.

Fitou-a com olhar terno, hesitante antes de prosseguir:

– Decidi sair de Sandy Bend. Fiz todos os exames, e estou muito bem de saúde. Já realizei tudo que quis em minha vida, cumpri minha missão por criá-los e hoje vocês estão adultos e são responsáveis pela própria vida. Fiz o que pude por esta cidade, e está na hora de cuidar de mim. Vou me mudar para Sedona.

– Sedona?! Mas, papai, é no Arizona!

– Exatamente.

– Por que vai fazer esta loucura?

– Porque finalmente me ocorreu que posso. Não me en­tenda mal, eu amo Sandy Bend, mas sempre pareceu vazia demais para mim depois que sua mãe morreu.

– Mas faz mais de vinte anos!

– Eu sei muito bem como o dia pode ser longo. E agora, que já sabe o que decidi sobre meu futuro, fale-me sobre o seu. Está pensando em ir para Londres?

– Eu seria louca se não aceitasse a oferta de Elizabeth Turner.

– Então, por que pediu uma semana para pensar?

Ela sabia a razão pela qual seu pai lhe fazia aquela per­gunta. Não precisava dizer muito mais para que entendesse que ele a conhecia como ninguém.

– Holly, tenho feito o possível para não interferir no relacionamento de você e Steve, mas não vou aguentar me conter por muito tempo.

Ela o fitou apreensiva.

– Steve é um bom homem, Holly. Eu ficaria orgulhoso se pudesse dizer que ele é meu filho. Talvez esteja um pouco inseguro em assumir um relacionamento, depois da decep­ção que teve, mas é digno e honrado como poucos.

– Sei disso, papai.

– Então, vou direto ao assunto. Steve tem alguma relação com o prazo que pediu para Elizabeth?

– Suponho que sim, mas não porque ele esteja me fazen­do mal. Sempre amei Steve e sei que ele sente alguma coisa por mim, mas não sei se é o mesmo que eu. Além disso, não sou exatamente o tipo de mulher para se casar com ele.

– O que quer dizer com isto?

– Não estou à altura da família Morettin.

Com uma gostosa gargalhada, o Chefe Bud jogou a cabeça para trás e bateu a palma da mão nos joelhos.

– Filha, deixe-me dizer uma coisa: acho que eles não es­tão a sua altura! Agora, não importa o diagnóstico que os médicos têm para minha saúde, meu velho coração não aguen­ta ouvir os detalhes sobre o que está acontecendo entre você e ele, mas sei que alguma coisa aconteceu. Você precisa dizer a ele o que sente.

– Não posso, não sem que ele me dê alguma pista.

– Steve nunca expôs o que sente. Terá que aprender a aceitá-lo como ele é.

– Sei disso.

– Então, como explica tanta contradição? Você o ama, e está indo embora?

Ela concordou com um meneio de cabeça, enquanto gros­sas lágrimas caíam de seus olhos.

– Eu lhe disse quando você chegou, e faço questão de repetir hoje: a vida é curta, minha querida. Não deixe o orgulho atrapalhar sua felicidade. Antes de partir, resolva tudo que tiver que resolver por aqui.

Sem conter o impulso, abraçou o pai e deixou que o pranto fluísse livremente, acalentado pelo aconchego de seu abraço.

Notas finais
Oi meus amores, como foi de ano novo? O meu foi maravilhoso!!! Desculpe a demora para publicar novamente um novo capítulo mas é que eu tive tanta coisa para resolver depois do retorno da viagem que mal deu tempo para entrar e publicar mas espero que tenham gostado e bom comente sobre o que acharam. aaaah e um feliz 2015. Mil beijos amores .