Uma Família Feliz...
6 Uma péssima mãe
O parto começou numa madrugada silenciosa.
Bella acordou com uma contração que parecia diferente das outras. Não era o desconforto constante dos últimos dias. Era profunda. Firme. Inevitável.
Edward acordou no segundo gemido.
— É agora? — perguntou, já se levantando.
Ela apenas assentiu.
Horas depois, sob luzes brancas demais e vozes médicas que soavam distantes, Charlote veio ao mundo.
Rosada. Pequena. Chorando forte.
— É perfeita — Edward disse, emocionado, os olhos marejados enquanto segurava a filha pela primeira vez.
Bella estava exausta demais para reagir.
Quando colocaram a bebê sobre seu peito, ela sentiu o peso quente e frágil daquele corpo minúsculo.
Esperou o amor avassalador que todos descreviam.
Ele não veio.
Veio alívio.
Veio cansaço.
Veio silêncio.
As primeiras noites
A casa nunca tinha sido tão barulhenta.
Charlie chorava como se o mundo fosse grande demais para ela. Um choro agudo, insistente, que atravessava paredes e pele.
Bella andava pelo quarto no escuro, tentando amamentar, tentando acalmar, tentando não sentir que estava falhando.
Mas a bebê parecia rejeitá-la.
Chorava em seus braços.
Se contorcia.
E então Edward entrava.
— Deixa comigo um pouco — dizia, gentil.
E Charlie… parava.
O silêncio que vinha depois era pior que o choro.
Bella observava o marido balançando a filha com naturalidade. Ela encaixada no peito dele, tranquila, quase satisfeita.
“Ela prefere ele.”
O pensamento começou pequeno.
Depois começou a crescer.
A confissão
Numa tarde, sentada na cozinha com Renee e Esme enquanto Alice dobrava roupinhas na sala, Bella falou algo que estava preso na garganta.
— Eu acho que ela me odeia.
Renee ergueu o olhar imediatamente.
— Não diga isso.
— Ela só para de chorar com Edward. Parece que… parece que ela me sente insegura.
Esme se aproximou, tocando sua mão.
— Bebês não odeiam, Bella. Eles respondem ao ambiente. Talvez você esteja cansada demais.
Bella riu, mas foi um riso sem humor.
— Talvez eu só não tenha nascido pra isso.
Alice, da sala, congelou por um segundo ao ouvir.
Mas ninguém disse nada.
Porque ninguém queria acreditar que aquilo era mais do que cansaço.
O leite
A dor começou nos seios.
Inchados. Sensíveis. Ardendo.
Charlie mamava, mas continuava chorando pouco depois.
Numa manhã particularmente difícil, Bella tentou amamentar novamente. A bebê sugava com força, irritada, chorando entre tentativas.
Bella pressionou o peito levemente.
Quase nada.
Desespero.
— Edward! — chamou, já com a voz trêmula.
Ele entrou no quarto apressado.
— O que foi?
— Eu não tenho leite suficiente.
A frase saiu como derrota.
Edward tentou manter calma.
— Podemos complementar com fórmula, não tem problema.
Mas para Bella havia problema.
Ela já se sentia insuficiente.
Agora tinha confirmação.
A casa cheia
Renee estava ali.
Esme também.
Alice ajudava com Anthony.
A casa parecia organizada demais. Funcional demais.
Edward parecia… feliz.
Cansado, sim. Mas feliz.
Ele falava da filha com orgulho. Enviava fotos para os irmãos. Sorria ao vê-la dormir.
Bella começou a sentir irritação ao vê-lo radiante.
Como ele podia viver aquilo como um conto de fadas enquanto ela estava se afogando?
O estopim
Anthony não estava lidando bem.
A atenção estava dividida. A casa cheia. Regras diferentes.
Na hora do almoço, ele empurrou o prato.
— Eu não quero isso!
Renee tentou intervir.
— Anthony, querido, a vovó só está tentando ajudar.
Ele ficou vermelho.
E então, num impulso infantil e descontrolado, jogou a comida quente na direção dela.
O prato caiu, espalhando molho na blusa de Renee.
Silêncio.
Bella se levantou rápido demais.
— O QUE VOCÊ FEZ?!
Anthony arregalou os olhos.
Mas antes que qualquer adulto pudesse reagir, Bella pegou o copo de água gelada da mesa e jogou no filho.
A água escorreu pelo rosto dele.
O choque foi instantâneo.
Anthony começou a chorar.
Renee levou a mão à boca.
Alice ficou paralisada.
Esme murmurou:
— Bella…
Edward se levantou bruscamente.
— O que foi isso?!
Bella respirava ofegante.
— Ele poderia ter queimado minha mãe!
— Ele é uma criança! — Edward respondeu, firme.
— E eu sou o quê?! — ela gritou.
Charlie começou a chorar no quarto.
O choro alto. Desesperado.
A discussão continuou ali, na frente de todos.
— Você está fora de controle — Edward disse, tentando manter a voz baixa.
— Fora de controle?! — Bella riu, quase histérica. — Você está vivendo um sonho enquanto eu estou tentando sobreviver!
O choro de Charlie aumentava.
Mais alto.
Mais urgente.
Bella levou as mãos à cabeça.
— Faz ela parar!
Edward correu para o quarto.
Mas o som parecia ecoar dentro do crânio dela.
Ela saiu correndo.
Subiu as escadas.
Entrou no banheiro.
Trancou a porta.
E então deslizou até o chão.
O choro dela finalmente veio.
Não era delicado.
Era cru.
Era quebrado.
Era o som de alguém que já não sabia onde terminava o cansaço e começava o desespero.
Do outro lado da porta, Edward batia suavemente.
— Bella… abre a porta.
Ela não respondeu.
Apenas chorava.
Lá embaixo, a casa estava em silêncio constrangido.
Renee abraçava Anthony.
Esme segurava a pequena Charlie, tentando acalmá-la.
Alice olhava para Jasper, preocupada.
E Edward, pela primeira vez, sentiu medo.
Não medo de perder a paciência.
Medo de perder a esposa.
Porque aquilo não era mais apenas tristeza.
Era algo maior.
Algo que precisava de nome.
E de ajuda.
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