O problema não era Edward.

Mas, na mente de Bella, ele tinha se tornado o antagonista.

Ele sorria demais.

Ele parecia forte demais.

Ele parecia inteiro demais.

E ela estava em pedaços.

Na cabeça dela, Edward era o homem perfeito vivendo a vida perfeita — enquanto ela afundava. Ele era o pai que a filha preferia. O marido que continuava eficiente, bonito, bem-sucedido. O advogado brilhante da Cullen & Cullen Advogados.

Ela, por outro lado, era a mãe que gritava.

A que jogava água no filho.

A que tinha pensamentos que não podia confessar.

E então veio o sonho.

Ela estava no banheiro. A banheira cheia.

Charlie dentro da água.

Não havia gritos. Não havia luta.

Só o silêncio.

E as mãos dela segurando a filha submersa.

Bella acordou com um grito que parecia ter rasgado sua garganta.

Charlie estava no berço, respirando.

Mas Bella não conseguiu respirar.

A culpa foi instantânea. Avassaladora. Física.

Ela se levantou ainda tremendo. Foi até o banheiro. Olhou para a banheira.

“Eu pensei nisso.”

Na mente dela, pensar era igual a fazer.

E se um dia ela perdesse o controle?

E se um dia o sonho virasse realidade?

Ela encheu a banheira.

Sentou na borda.

Chorava em silêncio.

Pegou a lâmina que ficava no armário. Não era um plano elaborado. Era desespero. Era fuga. Era a crença distorcida de que todos ficariam melhor sem ela.

A porta do quarto abriu.

Edward.

Ele estranhou o silêncio.

Estranhou o som da água.

Chamou.

— Bella?

Nenhuma resposta.

Ele bateu na porta do banheiro.

— Amor?

Algo na voz dele mudou. Um pressentimento. Um frio na espinha.

Ele forçou a maçaneta.

A cena que encontrou não foi de sangue espalhado ou dramaticidade cinematográfica.

Foi pior.

Foi a mulher que ele amava sentada na borda da banheira, tremendo, a lâmina caída no chão, os pulsos marcados superficialmente, chorando como alguém que não queria morrer… mas também não sabia como continuar viva.

Edward caiu de joelhos na frente dela.

— Bella… Bella… olha pra mim…

Ela não conseguia.

— Eu sonhei que eu matei ela… eu sonhei que eu afoguei a nossa filha… eu sou doente… eu sou um perigo…

Ele segurou o rosto dela com as duas mãos.

— Você não é um perigo. Você está doente. É diferente.

Ela começou a repetir:

— Eles ficariam melhor sem mim… você ficaria melhor sem mim…

Edward começou a chorar. Não silenciosamente. Não contido.

Chorou como homem desesperado.

— Nunca mais diga isso. Você é a nossa casa.

Ele a abraçou dentro daquele banheiro frio, com a água ainda correndo.

Naquela noite, ninguém dormiu na casa dos Cullen.

Renee foi chamada.

Esme foi chamada.

Carlisle assumiu a postura de médico, mas os olhos eram de pai.

Anthony foi levado para a casa de Alice.

Charlie dormiu no colo de Edward.

Bella foi levada para o hospital não por ferimentos físicos, mas por risco emocional.

E foi ali que surgiu o nome de Jacob Black.

Psicólogo. Especialista em depressão pós-parto.

Primeira sessão.

Bella estava vazia.

— Eu pensei em machucar minha filha — ela disse, olhando para o chão.

Jacob não arregalou os olhos. Não julgou.

— Pensamento intrusivo não é intenção. É sintoma.

Ela levantou o olhar pela primeira vez.

— Eu odeio meu marido.

— Você odeia ou você sente que ele representa tudo que você perdeu?

Silêncio.

Lágrimas.

— Eu deixei minha carreira. Eu deixei quem eu era. E ele continua sendo tudo.

Jacob assentiu.

— Você não odeia o Edward. Você odeia a Bella que desapareceu.

Enquanto isso, do lado de fora, Edward estava desmoronando.

Ele conversou com Renee no corredor do consultório.

— Eu falhei com ela?

Renee segurou o rosto do genro.

— Você amou ela. Mas amar não impede doença.

Mais tarde, Jacob pediu para conversar com Edward e Renee juntos.

— Bella está em depressão pós-parto severa com pensamentos intrusivos. Isso não é fraqueza, não é caráter, não é falta de amor pelos filhos.

Edward respirava com dificuldade.

— Eu posso consertar isso?

— Não sozinho. Ela vai precisar de terapia intensiva. Talvez medicação. E, principalmente, de uma rede que não minimize o que ela sente.

Jacob olhou firme para Edward.

— Ela está vendo você como vilão porque precisa colocar a culpa em alguém. É uma tentativa do cérebro de organizar o caos.

Edward assentiu, mas a dor nos olhos dele era quase insuportável.

Ele não queria ser o vilão.

Ele só queria salvar a esposa.

Naquela noite, Bella voltou para casa.

Mas algo tinha mudado.

Agora havia um nome para o que ela sentia.