Uma Estrela Para Cada Um
2 Sirens - Pearl Jam
Notas iniciais
Acordei no corredor do ônibus. Me levantei do chao com dificuldade. Meu corpo estava todo dolorido. Assim que me levantei olhei para o local onde estava deitada. Eu ainda estava deitada. Aquilo não fazia sentido. Era como se eu estivesse vendo uma imagem minha, mas não era uma imagem. Era incrivelmente real. Olhei em volta. Outras pessoas estavam acordando. Elas também estavam olhando para seus corpos, na sua frente e se perguntando o que havia acontecido.
Tudo no ônibus estava destruído. Malas caídas, bancos quebrados, cacos de vidro e sangue para todos os lados. Olhei para Gabi. Ela respirava. Olhei para eu mesma, de novo. Não respirava. Eu estava com vários cortes no rosto e eu devia ter quebrado o pescoço, mas aquilo não era possível, por que eu estava ali, bem na frente dele, viva. Escutei sirenes tocando, e vi que os outros que haviam acordado estavam saindo do ônibus. Eu os segui. Ninguém falou com ninguém. Seguimos em linha reta para fora do ônibus e vimos a destruição toda. O caminhão havia acertado a lateral do ônibus, bem aonde eu estava na janela. O ônibus havia sido empurrado contra a barricada de proteção da estrada e esmagado. Era uma cena horrível. O motorista estava debruçado sobre o volante. Olhei para o meu lado e vi que ele também estava ali. Ele parecia estar chorando, olhando para uma foto de uma mulher e uma garotinha em suas mãos. Me perguntei como aquela mulher ia sustentar a família agora.
Do outro lado da rua, carros estavam parados e pessoas saiam deles, aterrorizados. Algumas pessoas até vomitaram quando os paramédicos retiravam algumas das vítimas mortas.
Gabi foi carregada para fora, junto com varias outras pessoas que também estavam respirando. Me aproximei para ver o que os paramédicos estavam falando.
– Que sorte a dessa menina! — disse um paramédico. Ele parecia estar cansado e levava pendurado no pescoço um crucifixo. — Se não fosse a passageira do lado dela, ela teria morrido. Parece que o corpo da outra menina praticamente encobriu ela e recebeu a maior parte dos impactos e ferimentos!
– Mas e a menina que a protegeu? Como ela esta? — perguntou uma enfermeira que estava saindo da ambulância e ainda não havia visto quase nada do acidente.
– Ela não suportou. Foi um grande acidente. Ela deve ter morrido na hora. — disse, diminuindo o tom da voz assim que viu que Gabi estava acordando. Ela tinha poucos ferimentos, alguns cortes nos braços e uma torção no pé.
Ela se levantou, bruscamente e começou a olhar em volta. Eu fiquei na sua frente, mas ela não conseguia me ver.
– Gabi! Gabi voce esta bem? — gritei, em meio a todo o barulho da situação.
Seus olhos se encheram de lágrimas, quando viu meu corpo no asfalto. Ela saiu da maca, mesmo com os médicos pedindo que ela ficasse deitada, e foi mancando em direção ao meu corpo. Segurou minha cabeça e a colocou em seu colo. De alguma forma, a posição que a minha cabeça estava era um pouco estranha.
Ela passou a mão nos meus cabelos e os afastou do meu rosto. Então ela deu um beijo em minha testa e segurou a minha mão.
– Mel..? Me diz que voce só ta fingindo... Mel? — ela começara a gaguejar. Estava tremendo e parecia estar se sufocando com o próprio choro. — Mel! Não brinca comigo!! — ela estava gritando e sacudindo meu corpo.
Os paramédicos vieram correndo em sua direção para tentar a acalmar mas ela gritava para eles se afastarem. Eles se aproximaram com uma agulha e injetaram o liquido transparente em seu braço. Aos poucos ela foi se acalmando.
– Meu Deus! Por que? MEL!!!!!! Por favor... Meu Deus... — ela foi gritando até apagar de vez. Meu corpo foi retirado de onde estava e foi levado a uma van preta. Gabi foi levada de volta para a ambulância e amarrada a maca.
Eu não podia mais ficar vendo aquela cena triste, então me virei para o grupo que saira do ônibus comigo. Eles estavam se dirigindo ao outro lado da estrada, onde as pessoas estavam paradas, assistindo a cena. Haviam varias famílias, crianças, adultos, pessoas de todas as idades. Mas havia alguém que não se encaixava a imagem. Uma mulher vestida toda de preto com olhos sem órbitas. Ela sorriu para mim, me convidando a me aproximar.
Eu e o resto do grupo a seguimos pela estrada e parecia que ninguém nos notava. De repente, a mulher parou e se virou para o grupo. Ela foi em direção ao caminhoneiro que ainda estava chorando e lhe tocou a face. Imediatamente, ele desapareceu.
Ela foi tocando na face de cada pessoa do nosso pequeno grupo, deixando-me por último. Ela parou na minha frente e antes de tocar na minha face, disse, com uma voz macia e delicada.
– Tem um trabalho muito bonito para você, Melody.
– Quem é você? — perguntei. Ela colocou suas mãos sobre os meus cabelos, tomando cuidado para não tocar meu rosto e disse calmamente.
– Meu nome é Eva. Mas as pessoas tem um péssimo habito de me chamar de Morte.
Ela deslizou sua mão vagarosamente para o meu rosto e depois disso, tudo o que vi foi a escuridão. Mas eu ainda escutava as sirenes.
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