Uma Chance para Duas
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Regina
—Eu nunca disse isso. —Falei indignada.
—Como se precisasse. —Ela falou focada na estrada sem olhar para mim.
Minutos de silêncio se seguiram, até que eu o quebrei.
—Você disse que iria me ligar para informar qualquer progresso no caso.
—Acontece que não houve progresso. —Ela falou sem ainda me olhar.
—Oi?
—Eu liguei para sua ex, quando eu expliquei do que se tratava ela desligou, e claro que não me atendeu mais. —Finalmente me olhando ela disse. —Acho que será um processo difícil, ela não vai te dar esse divórcio tão facilmente.
Suspirei e encostei a cabeça na janela do carro. A noite realmente tinha sido cheia de surpresas como Zelena havia prometido.
—Você disse que tinha um filho Emma, mas eu não o vi.
—Eu deixei ele com uma amiga da família, ali não era lugar para criança, pelo menos não naquele horário. —Falou com um tom risonho.
Concordei com a cabeça. Quando olhada daquele ângulo e sob a luz da lua cheia, Emma parecia ser uma mulher muito bonita, seu esposo tinha sorte. Na verdade, eu também não tinha visto ele no Grany’s, pensando bem eu só percebi que a Emma estava ali porque veio falar comigo.
—Regina? —Emma chamou me tirando do transe.
—O que foi?
—Por acaso a sua casa é aquela ali?
—É sim, pode parar em frente.
—É uma bela casa!
—Obrigado. —Falei sem ânimo. —Na verdade, obrigado por me trazer. — Falei olhando em seus olhos.
—Não foi nada. Tchau—Falou quando parou o carro.
—Tchau, Emma. —Falei descendo do carro.
A luz da sala de estar estava acesa, desejei com todas as minhas forças que não fosse a minha mãe que estive lá.
—Regina, fiquei preocupado com a sua demora. —Meu pai falou fazendo sinal para que eu sentasse ao seu lado no sofá.
—Não quis preocupar você, pai. —Falei sentando ao seu lado.
—Onde você foi? Imaginei que estivesse nos estábulos, mas você não estava lá.
—Fui caminhar um pouco. Você deveria estar lá em cima com a Zelena.
—Ela está bem, está com o Hades e a sua mãe.
—Eu não fiz por mal. —Falei pondo a cabeça em seu colo. —Eu não queria estragar as coisas entre mim e a Zelena, não depois de termos começado a nos entender.
—Eu sei Regina, e eu sei que a Zelena também sabe. —Falou mexendo nos meus cabelos. —Mas ela perdeu o controle hoje à noite, não devia ter te dito aquilo.
—Acho melhor eu subir para o meu quarto agora.
Domingo
No café da manhã esperei que todos tomassem seu café e fossem para o jardim para que eu finalmente pudesse descer, não me importava muito com os outros, só não queria mais confusão com a Zelena.
Pensei em voltar para a minha casa antes do almoço, mas devido a insistência do meu pai, almocei à mesa com todos. Ele me lembrou que eu ainda não tinha montado Rocinante.
À tarde, o clima estava frio e o céu nublado, vesti a minha calça e bota de montaria e desci para os estábulos, selei Rocinante e cavalguei pôr as estradas mais afastadas da cidade, do solo de terra batida, levantava poeira sob os galopes do cavalo. Fazia muito tempo que eu não vinha a cidade, mas eu conhecia aquelas estradas como a palma da minha mão.
Correr com Rocinante e sentir a brisa no meu rosto me trazia muitas lembranças, mas mais do que isso, fazia com que me sentisse livre, como se nada pudesse me alcançar.
Não eram nem 17hrs, e o céu estava escuro devido ao tempo cada vez mais fechado e eu já podia sentir as primeiras gotas de chuva.
Cavalgando de volta para casa, porém ainda suficientemente longe, senti o corpo do cavalo ceder sob o meu, caímos derrapando sobre a estrada de terra e senti a minha cabeça ir de encontro ao solo.
Quando levantei, além de estar imunda, sentia uma tremenda dor de cabeça, e devido a pingos de sangue na minha camisa, percebi que também tinha cortado o supercílio. Mas nada se comparava ao estado de Rocinante, devido ao seu peso, sua queda foi muito maior.
Meu cavalo tinha a face ferida, cortes nos flancos e a pata esquerda traseira quebrada em um ângulo esquisito. Eu não era veterinária, mas tinha conhecimento suficiente para saber que aquele osso dificilmente iria ser colocado no lugar.
Ao me levantar para acolher meu cavalo, percebi que mais alguma coisa estava errada comigo, eu também havia deslocado o braço direito, tentei colocá-lo no lugar, mas não consegui.
Rocinante precisava de um veterinário imediatamente, mas eu não seria capaz de deixá-lo na estrada para ir em busca de um, poderiam aparecer outros animais silvestres para importuná-lo, ou até mesmo algum motorista que poderia acabar sacrificando ele.
—Maldita hora que saí sem o celular.
Praguejando, me sentei junto ao cavalo, e com a mão do braço não machucado, fiz carinho em Rocinante. Tinha esperança de que algum carro passasse por ali em algum momento e nos prestasse ajuda.
A essa hora tudo a nossa volta já tinha virado breu, e os pingos de chuva já haviam se transformado um uma chuva torrencial nos castigando. Rocinante relinchava cada vez mais baixo, tinha certeza que se fosse uma pessoa já estaria pedindo pela morte, e o meu braço deslocado também não melhorava. Assim como a água escorria pela a estrada, as minhas esperanças também iam junto.
Tinha consciência de que estava entrando em um quadro de hipotermia, tudo que eu meu corpo queria era ceder, por um momento pensei que aquela seria a minha libertação, mas se eu deixasse isso acontecer, sem sombra de dúvidas seria meu fim.
A chuva ofuscava a minha visão, mas me deixou perceber o suficiente que mais adiante, na estrada, vinha um carro em minha direção, tentei levantar, mas foi em vão.
Emma
Na tarde nublada de domingo, meu pai e eu decidimos fazer a patrulha da cidade juntos. Quando eu era criança, esse era um dos meus passatempos favoritos, andar na viatura com o meu pai e fingir ser a sheriff da cidade.
Hoje com a promessa de chuva forte, aproveitamos para ver se todos na cidade estavam abrigados. Já estávamos terminando nossa ronda quando começou a chover forte. Tínhamos acabado de pegar a estrada por trás do bosque quando avistei algo volumoso no acostamento mais afrente, e meu pai também pareceu ter visto.
—Tem algo ali, Emma. —Com a chuva, mal podíamos ver cinco metros afrente. —Parece ser um animal.
—Mas tem algo a mais, algo com cor, parece uma camisa. Tem alguém ali, pai.
Meu pai parou o carro logo atrás do que parecia ser um cavalo e descemos do carro enxergando apenas o que os faróis permitiam.
—Ei! —Meu pai chamou.
Parecia uma mulher. Parecia com alguém que eu conhecia.
—Regina! —Chamei. —O que você está fazendo aqui? —Perguntei me agachando ao seu lado.
—Vamos levá-la para o carro. —Meu pai falou.
—Vem Regina, vamos. —Continuei chamando.
—O meu cavalo tá machucado, quebrou a pata. —Falou tirando o cabelo do rosto, que a chuva insistia em deixar ali.
—Vem Regina, vamos para o carro. —Falei pegando-a pelo braço.
—Ai! —Regina gritou e se contorceu de dor. —Eu desloquei esse braço. —Mesmo debaixo de chuva seus olhos me fulminavam.
—Vamos para o carro, você não pode ficar nessa chuva. —David disse preocupado
—Ele tá muito machucado, não vou deixar ele sozinho aqui.
—É só um cavalo, Regina. —Ela batia os dentes de frio, não podíamos deixar ela ali.
—É o meu cavalo!
—Pois morrerão os dois.
—Emma, calma. —Meu pai falou pondo a mão em meu ombro. —Regina seu nome, não é? Posso ligar para o haras da cidade, eles podem vir pegar o cavalo depois.
—Depois não, agora! —A essa altura Regina parecia um picolé reclamão.
—Ok, como Sheriff posso mandá-los vir buscar o cavalo, mas me deixe tirar você daqui.
Regina olhou para mim como se procurasse saber se ele estava dizendo realmente a verdade, que iria mandar alguém vir buscar o cavalo. Como que respondendo que “sim”, me posicionei ao seu lado esquerdo para que ela pudesse usar meu corpo como apoio para se levantar. Ela estava visivelmente debilitada.
Coloquei Regina no banco de trás do carro e entrei junto, como que respondendo o olhar do meu pai falei: —Ela deslocou o braço, vou tentar colocar no lugar.
Regina tremia tanto que me assustava. Ao pegar em seu braço a ouvi gemer.
—Está doendo muito? —Como resposta só recebi um aceno de cabeça. —Tentarei ser rápida, ok? —Regina fechou os olhos se preparando. Quando coloquei se braço no lugar seu corpo inteiro se retraiu.
—Onde ela mora, Emma? — Perguntou meu pai.
—Um pouco longe daqui, é melhor levar ela para nossa casa, é mais perto.
—O cavalo. —Ouvi Regina balbuciar.
—Pai, liga logo para esse haras ou ela não vai ficar em paz.
—O número está no meu celular, pode ligar. Não posso me descuidar do volante debaixo dessa chuva.
Liguei para o haras, óbvio que houve relutância, quem em sã consciência, além de Regina, é claro, se arriscaria a ficar debaixo dessa chuva. Mas insisti, ressaltei a importância do cavalo e falei que era um pedido do sheriff, com esse último argumento ninguém jamais negaria nada.
—Expliquei a situação do cavalo e eles disseram que virão pegá-lo. —Falei e ouvi Regina murmurar um obrigado.
Não havia uma parte de seu corpo que não estivesse ensopado, o que me dizia que ela já deveria estar naquela chuva há um bom tempo. Por estarem molhadas, suas roupas grudavam em cada centímetro do seu corpo. Sob a camisa molhada eu podia ver os seus seios marcados, Regina tinha seios volumosos, barriga esguia e coxas grossas.
Com esse pensamento institivamente me aproximei dela, passando uma das minhas mãos por sua cintura lhe puxando para mais perto de mim, e com a outra completei esse “abraço de lado” na vã tentativa de tentar esquentá-la. Regina não me rejeitou, pelo contrário, se aninhou ainda mais em meus braços e deitou a cabeça na curva do meu pescoço.
—Não durma, fique comigo. —Sussurrei para ela, mas ela não me respondeu. —Não ceda à vontade e de fechar os olhos, converse comigo, o que você estava fazendo naquela chuva?
Com muita dificuldade Regina começou a falar. —Cavalgando.
—E o que aconteceu com o cavalo? —Tinha que mantê-la pelo menos falando para que não perdesse a consciência.
—Acho... Acho que ele pisou em falso. —Falou tremendo.
—Por isso quebrou a perna? —Ela respondeu com o um aceno de cabeça. —E porque você não foi pedir ajuda?
—Eu não ia deixar ele so-sozinho. —Respondeu batendo os dentes.
Ao chegar na casa dos meus pais, Regina não conseguia carregar o próprio peso, então meu pai carregou ela nos braços para dentro de casa e deitou ela no meu quarto que ficava no primeiro andar.
—Emma, precisamos trocar as roupas dela, se ela continuar com essas roupas molhadas só irá piorar. —Minha mãe falou.
—Vou procurar algo para ela vestir.
—Não, fique aqui e comesse a tirar as roupas dela. Vou pegar roupas secas e cobertores.
De repente o meu pulso ficou mais forte e senti minha face queimar
Tirei suas botas e desabotoei os botões da calça e tirei-a também, Regina usava uma peça intina cor creme.
“Por deus, Regina estava tendo hipotermia e eu pensava na cor da sua calcinha, que é o meu problema?”, pensei.
Desabotoei os botões da camisa e também tirei ela.
—Aqui Emma, vista esse moletom nela, e enrole ela com essas cobertas. Não deixe que nenhuma parte dela fique descoberta. Vou preparar algo quente par ela tomar.
—Regina, não durma ok? Me ajude a lhe vesti. —Pedi, e obtive um murmuro como resposta.
Vesti a calça e o blusão do moletom com o um pouco de dificuldade nela, mas sempre a instigando a falar comigo, enrolei ela nos cobertores fazendo uma espécie de “pacotinho de Regina”, depois que ela estivesse devidamente aquecida poderia dormir.
Regina balbuciava algumas coisas, ela parecia estar subconsciente.
—Fique acorda ok? Seja forte como eu sei que você é. —Eu dizia para ela.
Absorta nessa minha “conversa” com Regina, não percebi quando minha mãe chegou com prato de sopa fumegante.
—Emma, desça e dê de mamar o Henry, ele também está faminto. Eu cuido dela. —Ela era a minha mãe e eu sabia que cuidaria muito bem de Regina, mas algo me impedia de sair. —Emma desça antes que o Henry comece a chorar. —Com esse argumento infalível desci.
No andar de baixo meu pai estava brincando com o Neal e tentando acalmar o Henry.
—Você a conhece, Emma? —Perguntou ele me entregando o Henry.
—Sim, ela é uma das minhas clientes. —Respondi já amamentando o meu filho.
—Você está representando ela em que?
—Um divórcio.
—Humm... O que está ela estava fazendo por aqui? Ela não é daqui e nem dos arredores.
—Tem razão, ela não é. Ela estava passando o um final de semana em família aqui.
—Vou colocar o seu irmão na cama porque já passa dá hora de criança dormir. —Disse levando no Neal no braço.
Henry também já tinha se dado por vencido, dormiu sem que nem eu percebesse. Estava agasalhando melhor o Henry quando percebi que a minha mãe descia do quarto.
—Como ela está? —Perguntei ansiosa.
—Está bem, ela dormiu e a temperatura do corpo dela já começou a subir, a hipotermia não é mais ameaça.
—Que bom. —Falei aliviada.
—Ouvi a sua conversa com o David, você conhece alguém da família dela, alguém para quem possamos ligar?
—Não, eu não conheço ninguém. Mas é melhor ela ficar o resto da noite conosco mesmo, pode ser que ela piore, sei lá.
—Claro Emma, mas é que se eu fosse a mãe dela, eu estaria preocupada. Vou ver se o seu pai já colocou o Neal na cama, boa noite. —Me deu um beijo na testa e se retirou.
Subi imediatamente para o quarto em que Regina estava, coloquei um Henry adormecido no carrinho e sentei na cama ao lado dela. Ela dormia profundo, não parecia sentir mais firo ou dor. Qual é o problema dessa mulher com lugares quentes e seguros? Ela parecia tão serena dormindo, hoje ao fazer questão pela vida daquele animal vi um lado dela que eu jamais imaginei que uma mulher como ela pudesse ter.
Regina estava bem, mas eu agora tinha um problema, Regina.
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