Uma Chance para Duas
22 Capítulo 22
Notas iniciais
Emma
As palavras de Regina ecoavam, ecoavam, ecoavam e ecoavam... Cada vez sendo repetidas mais fortemente e quando eu fechava os olhos revivia tudo de novo. Minha cabeça parecia que ia explodir e as vezes as coisas perdiam o foco, eu não tinha mais condições alguma de permanecer no escritório, então pedi a secretária que remarcasse tudo, pois eu não estava me sentindo bem e iria para casa.
O trajeto até o apartamento pareceu durar o triplo, engarrafamento, sinais fechados, obras...
Quando cheguei no prédio o elevador tinha acabado de subir, então optei pelas as escadas, quanto mais tempo parada eu permanecia, mais os ecos aumentavam, era intenso, forte, aflito, profundo... Profundo, assim era o buraco no meu peito.
Quando entrei no apartamento a Grace brincava com Henry no chão da sala, assim que ele me viu veio ao meu encontro.
—Agora não amor.
—Está tudo bem, Emma? — A garota perguntou.
—Agora não!
Entrei no quarto e me despi rapidamente, evitando olhar para cama onde eu a tive, para cama onde ela foi minha, onde eu pensei em tirá-la da areia movediça que era a vida dela e levá-la comigo. Mas aquilo também não passou de uma mentira.
Sem me importar com a temperatura da água entrei embaixo do chuveiro, hoje sou incapaz de dizer quanto tempo exatamente fiquei lá. Uma hora ou duas, talvez mais, eu não sei.
Todo o pranto que evitei derramar veio à tona como uma enxurrada, as lágrimas quentes se misturavam com a água, eu já não respirava normalmente, arfava e ofegava. Na minha garganta havia um nó que não desatava.
Havia uma sujeira em mim que água alguma conseguiria tirar, mas eu tentava limpar, esfregava e arranhava a pele e nada, não saia, era por dentro. Eu me sentia usada, uma idiota que se deixou viver uma mentira. Se eu pudesse voltar atrás nunca teria pegado aquele caso, nunca teria conhecido Regina Mills, nunca teria me apaixonado.
Eu jamais poderia compreender a mente de alguém que planeja ou forja algo do tipo, fazer outra pessoa se apaixonar só para servir aos seus objetivos medonhos me dava nojo. Tudo que eu e a Regina tivemos pareceu tão verdadeiro, tudo ocorreu de forma ocasional, como ela pôde se aproveitar daquilo?
Quanto mais eu pensava menos as coisas faziam sentido, mais anuviado ficava, suspeitei que fosse a minha mente tentando fugir, se esconder da dor que me assolava. Então fechei os olhos e me entreguei. Não queria mais pensar em nada, para mim, nada fazia sentido, mas as suas palavras continuavam a ecoar.
Quando saí do banho apenas me joguei na cama, entre o choro e os soluços, eu apaguei.
Regina
Eu me sentia a pior pessoa do mundo e ao mesmo tempo procurava conforto em pensar que eu tinha agido certo, eu sentia sua falta, e isso doía.
Não havia um minuto sequer em que eu não pensasse na dor que causei a Emma, mas antes vê-la sofrer por um coração partido do que por a perda de um filho, perda que eu poderia evitar. Não houve um momento sequer em que eu não visualizasse suas expressões se alterarem a cada palavra que saia da minha boca.
Precisei de toda força que tinha para me manter firme e não fraquejar, Emma já havia feito muito mais por mim do que eu por ela, agora chegara a minha vez de retribuir. Eu conhecia a Marcela tempo suficiente para saber que se algo surge atrapalhando o seu caminho, ela derruba tal qual a uma bola de demolição.
Os afetados daquela guerra tinham deixado de ser apenas eu e ela, passou a atingir outros, pessoas as quais eu me importava. Se algo fosse acontecer com Emma e Henry e de alguma forma eu pudesse impedir e não o fizesse, eu jamais poderia me perdoar. Eles tinham passado a ter tamanha importância para mim, ao ponto de seu bem-estar estar à frente do meu.
Já faziam duas semanas que a Marcela tinha se mudado novamente para a minha casa, há duas semanas suas roupas dividiam o espaço do closet com as minhas, que seus sapatos dividiam a sapateira com os meus, que a minha cama era sua. No dia em que ela se mudou, pedia que a empregada preparasse para mim o quarto de hóspedes. Não haveria chantagem que me fizesse ser sua novamente.
Ela dizia que era uma questão de tempo para voltarmos a ser o casal de antes, que o meu encanto por Emma era passageiro e que não iria demorar muito para passar. Mal sabia ela que Emma ocupava os meus pensamentos desde os primeiros instantes do dia, até hora que o meu corpo sedia ao cansaço, todos os dias lembranças de Emma e Henry inundavam a minha mente. Me perguntava como ela e o Henry estavam, se ele já conseguia andar sem cair, se ela estava tendo paciência com ele pegando tudo que estivesse ao seu alcance... Mas eu sabia que não deveria esperar resposta para nada disso, a essa altura, tudo que Emma Swan deveria sentir por mim era ódio. Tentei convencer a mim mesma de que tinha feito o melhor para eles
Dentro das exigências da Marcela estava: Me afastar de Emma, aceitá-la de volta na minha casa e promover um jantar com as nossas famílias para anunciar a nossa “volta”. Para esse último, eu não tinha estômago.
Eu tinha parado de ir aos almoços com a Zelena e a minha mãe, eu ainda não tinha contados para elas sobre o meu reatamento com a Marcela, mas do almoço de hoje eu participaria, e mesmo não sabendo como, contaria a elas, pois a Marcela já me pressionava a fazer isso.
Quando cheguei a Zelena já estava lá, elas apenas me aguardavam para começarem a almoçar. Durante ao almoço o foco foi a gravidez de Zelena, a proximidade do parto e a escolha pelo parto normal/humanizado ou pela cesárea. Inconscientemente eu me agarrava nesse assunto e tentava fazer ele durar, até que a Zelena fez a seguinte pergunta: — Então Regina, como você a Emma estão? — Naquele momento a minha vontade foi contar tudo, tirar aquele peso do meu peito e dividir a minha angústia e o meu medo com a minha família, mas não foi isso que eu fiz.
—Não há nada entre eu e ela, Zelena! — Falei achando o meu prato muito interessante.
—Como não? Você tinha dito que com ela as coisas eram diferentes, estava estampado na sua testa!
—Eu também percebi algo entre vocês na saída do tribunal, e você sabe que quanto a isso eu não me engano. — Minha mãe falou.
—Nós não temos nada, vocês entenderam? — Falei soando ríspida demais. Eu sabia que se não tomasse a minha antiga postura elas não me levariam à sério. —Aliás, eu e a Marcela voltamos e gostaríamos muito que vocês comparecem a um jantar que nós daremos para comemorar isso — Falei de uma vez, da mesma forma que se tira um band-aid para evitar a dor ou que se engole um remédio para não sentir o gosto ruim. Por muito pouco não vi a minha mãe engasgar.
—Mas... Você o que Regina? — Zelena perguntou incrédula.
—Isso mesmo que você ouviu. Eu pensei muito sobre o que me falou, mãe, não valia mesmo apena jogar uma relação de anos fora só por causa de um deslize.
—Mas isso foi antes Regina! Eu não estou acreditando que isso seja verdade. Você passou por tudo aqui para quê? Para isso? Para voltar à estaca zero?
—Você me disse que não a amava mais, que não tinha mais condições da relação de vocês voltar a dar certo. Você disse que não queria mais alguém como ela na sua vida, Regina! —Zelena falou alterada.
—Calma, Zelena. — Cora pediu.
—Não mãe! Diz que você só está brincando, Regina.
—Não, eu não estou! A Marcela me ama e nós temos muitas coisas juntas para deixar que o nosso casamento acabasse assim. — Mentira, tudo mentira. Eu queria gritar e pedir socorro, mas eu não podia.
—O que aconteceu, Regina? De verdade? Eu olhei em seus olhos enquanto você dizia que não podia voltar para aquele casamento, vi o seu desespero. —Cora perguntou em um tom mais brando.
—Eu ouvi as suas palavras mãe, as suas primeiras palavras. Quero que meu casamento dure como o seu com o meu pai. Com toda certeza muitos problemas apareceram, mas vocês resolveram, hoje eu faço o mesmo.
—Você não fez tudo isso só para se vingar da Marcela, não foi? —Zelena perguntou.
—Foi exatamente isso que eu fiz, ela mereceu, ela me traiu!
—Você me disse que não queria mais ser como ela, que não queria mais agir assim!
—O que eu disse ou o que eu deixei de dizer não importa. Vocês estão esquecendo que a vida é minha, e que quem está nesse casamento sou eu! Mas ainda gostaria muito que vocês fossem ao jantar, independente de aceitarem o que eu fiz ou não.
—Eu quero deixar claro que não concordo com nada que você fez, Regina! — Minha mãe falou.
—Você não tem que concordar, só faça valer as últimas palavras do meu pai e me deixe fazer o que eu acho certo!
Era como se eu estive encenando um papel, o papel de quem eu costumava ser, alguém que hoje eu quero distância, mas que sou abrigada a ser novamente.
Eu sabia que naquele momento eu estava prestes a quebrar a frágil paz que nós tínhamos, mas eu precisava cumprir a minha parte do acordo.
Emma
Duas semanas tinham se passado e as palavras da Regina ainda ecoavam, na primeira semana quase entrei em modo vegetativo, todo banho que eu tomava era uma tentativa fracassada de me limpar, de me livrar de toda a sujeira que ela deixou em mim. O seu caso havia ficado congelado, estava tudo lá, os papeis, as anotações... Mas eu não ousava me aproximar. Entender o que tinha acontecido parecia está longe do meu alcance.
Depois desse tempo eu finalmente criei coragem em conversar com alguém.
—Então foi isso, Ruby. — Disse depois de contar tudo que tinha acontecido para ela.
—Eu sinto muito Emma, sinto muito mesmo.
— A forma como ela falou comigo, tão fria sem se importar com o teor das palavras...
— Essa gente é assim, fazem de tudo para conseguir o que quer e nem se importam em quem vai pisar.
—Mas eu ainda não entendo, não de verdade, eu vi tantas coisas nela, coisas que me pareceram reais. Ruby, ela não foi só uma cliente, nós vivemos coisas além do profissional, você sabe, eu te contei.
—Eu acho que você está tentando se proteger em vez de aceitar o fato como ele é. Além de professora e pesquisadora ela também deve ser uma ótima atriz e ... — Eu parei de ouvir a Ruby, lembrei de algo que eu já tinha pensado, mas que magoada, não consegui analisar como realmente deveria.
—A Marcela me procurou uma vez.
—A ex, quer dizer, a atual dela?
—É! E ela me falou que a Regina iria agir exatamente como ela agiu, me tratar como um lixo quando conseguisse o que queria.
—Ela falou isso porque talvez ela realmente conhece a Regina, e você não, você só achou que conhecia.
—Eu também pensei isso na hora, mas agora isso me parece coincidência demais.
—Emma, o que você está pensando? Cuidado para não se magoar ainda mais, essa mulher não é quem você pensa que é!
—Ruby, eu não nasci e nem comecei a trabalhar ontem. Tem alguma coisa errada.
—Emma...
—E eu não estou falando só como uma mulher magoada, estou falando como uma advogada. Eu sei que tem algo errado, algo não se encaixa, as peças não estão completas...Durante o caso, a Regina deixou claro que a Marcela era capaz de muita coisa, eu mesma vi o seu cinismo no tribunal.
— Ela não queria se separar da esposa, acho que era natural que ela tentasse fazer com que o casamento não fosse anulado.
—Sim, seria, mas você não viu o que eu vi. E se ela fosse realmente capaz de tudo?
—Você realmente se apaixonou por ela e você está se agarrando a algo para não aceitar a verdade.
—Sim, eu me apaixonei por ela, mas não é isso. Se a Regina queria mostrar a Marcela que poderia dissolver o casamento, porque ela ficou comigo depois do divórcio em vez de ir tripudiar sobre a Marcela? Porque ela esperou tanto tempo?
—Eu não sei Emma.
—Naquele dia ela me disse tanta coisa, e foi verdadeiro, eu sei que foi! Talvez eu esteja inconformada e buscando me apegar a algo, mas eu vou em busca disso, se eu estiver errada, eu vou seguir em frente de uma vez por todas, mas se não, eu preciso descobrir que está acontecendo. Eu vou procurar a Regina.
"That's what true love is. It's sacrifice"
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