Uma Chance para Duas
23 Capítulo 23
Notas iniciais
Regina
—Fiquei muito feliz por a sua mãe a sua irmã aceitarem jantar conosco, assim poderemos mostrar que não há nenhum desentendimento entre nós. — Marcela falou entrando no closet onde eu escolhia uma roupa para o jantar. —Sabe que eu não fiquei ressentida com sua mãe pelo que ela disse no tribunal. Afinal foi o certo, ela disse que você deveria fazer o que te fazia feliz, e aqui estamos nós.
—Você poderia ser menos cínica!
—Eu estou falando a verdade, eu sei que você vai perceber isso mais dia ou menos dia.
—Eu só estou compactuando com isso porque você encontrou um jeito de me prender.
—Prender não soa muito bem, eu prefiro a palavrar levar. Eu levei você a ver o que era melhor para nós.
Sempre que eu e ela estávamos no mesmo cômodo, eu prendia a minha atenção o máximo possível no que eu estive fazendo, e naquele momento, era a escolha de um vestido.
—Você deveria usar aquele vestido vermelho que eu gosto tanto. —Ela falou por trás de mim, perto demais do me ouvido ao ponto de eu poder sentir a sua respiração. Toda e qualquer aproximação dela me causava nojo e náuseas.
—Não, eu vou usar o roxo. Na verdade, o preto combinaria mais com a ocasião, por causa do luto. —Falei me afastando.
—Já disse que amo o seu senso de humor? Mas você vai usar pelo menos o batom vermelho, não vai? Ele é a sua marca registrada e contrasta perfeitamente com a sua cicatriz.
—Se você me der licença, eu vou me trocar. — Falei saindo do closet e indo para o quarto de hóspedes que agora era meu.
Fingir que eu tinha voltado com a Marcela por vontade própria sem que ela estivesse por perto era fácil, difícil seria fingir e demonstrar isso essa noite.
Quando a minha mãe, Zelena e Hades chegaram, nós os recepcionamos como se fossemos as pessoas mais felizes do mundo, como se o nosso amor fosse pleno e real.
—Fico tão feliz em tê-los aqui! —Ela falou ao recebê-los. — Como vai, Cora? — Falou beijando a face da minha mãe.
—Vou bem.
—E os futuros papais, como estão?
—Estamos todos bem. — Zelena respondeu com um sorriso educado estampado no rosto.
—Fiquem todos à vontade, o jantar daqui a pouco será servido, vou pedir para empregada servir bebidas para vocês. Esse conhaque aqui é especial, veio direto de Cognac na França, meu pai que me mandou. Uma bebida especial para um momento mais especial ainda, não é amor? —Ela dizia enquanto a empregada os servia.
—É sim. —Falei entrando no seu jogo. —Ah, pedi que fossem feitos drinks não alcóolicos para você, Zelena.
—Essa é a pior parte de estar grávida. —Zelena reclamou.
O clima ali estava longe de ser amistoso, qualquer um podia sentir a atmosfera tensa, menos a Marcela, para ela estava tudo no seu devido lugar.
Me perguntava se era cinismo e hipocrisia da parte dela ou se ela realmente acreditava naquilo, porque se sim, eram claros sinais de um transtorno mental. Pensar nessa possibilidade me fez estremecer, afinal, eu dividia a minha casa com ela.
—Você está bem, Regina? — A minha mãe perguntou, meu estremecimento não passou despercebido por ela, isso significava que ela estava de olho em mim, logo qualquer passo em falso e eu teria que dar uma série de explicações.
—Estou sim.
—Deve ser o frio. — A Marcela falou passando a mãos em meus ombros. — Li que o dia de hoje estava sendo o mais frio do mês registrado até agora.
—É, deve ser o frio. Vou pedir para ligarem o aquecedor. —Falei me desvencilhando de suas mãos.
Ela sorria e forçava contato comigo, segurava minha mão e a beijava e me abraçava por trás, e eu respondia a tudo isso com sorrisos.
—Como vão as coisas no hospital, Hades? —Marcela perguntou quando jantar finalmente foi servido.
—Todo final de semana um caos diferente, sempre ocorrem acidentes.
—Você já está de licença, Zel? —Perguntei.
— Vou entrar na semana que vem. —Eu sentia que ela e a minha mãe estavam distantes de mim, não só naquele momento em si, mas desde que eu contei sobre a minha volta com a Marcela. Mas ainda sim elas estavam ali.
—Daqui a pouco ele ou ela estará por aqui. — Falei com um sorriso singelo, mas sincero, nos lábios.
—É. — Foi que a Zelena se importou em dizer.
Tudo que eu comecei a construir na minha vida no momento em que Emma entrou nela havia começado a ruir, aos olhos dos outros eu tinha voltado a ser quem eu era, a prepotente e insensível Regina Mills. Minha relação com a minha mãe a minha irmã que eu tanto desejei internamente que se consolidasse, mal tinha se tornado sólida e suas estruturas já estavam abaladas.
Certo dia eu disse a Zelena que a Marcela era como uma tempestade, e que a Emma era uma brisa, hoje eu vejo mais claro, Marcela é puro caos e desordem, enquanto Emma é a ordem e a criação. Pensar assim só fazia com que eu sentisse ainda mais a sua falta.
—Eu queria pedir um minutinho, da atenção de vocês. Como vocês bem sabem, nós estamos aqui hoje para comemorar a minha reconciliação com a Regina. Eu cometi um erro e sofri muito por isso, a falta que a Regina me fez foi sem precedentes, demorou um pouco, mas ela compreendeu que não valia apena jogar tanta coisa fora por um erro tão pequeno considerando tudo que nós temos. Durante todo esse tempo vocês todos também foram a minha família, eu gostaria que os meus pais estivessem aqui também, mas infelizmente não puderam vir. Outra pessoa que eu gostaria que estivesse aqui era o sr. Henrique que eu adotei como um pai. Sei que a Regina senti muito a falta dele, aliás, todos nós sentimos. Mas esse é um momento feliz, então eu queria propor um brinde à mulher mais maravilhosa desse mundo, a minha esposa. — Disse erguendo a sua taça e todos a acompanhando no brinde. A cada palavra dita por ela o meu estômago se revirava, enquanto o nojo crescia dentro de mim, por fora o meu sorriso se alargava. —Você gostaria de dizer algo, meu amor?
—Não, eu acredito que você já tenha dito tudo.
—Ah Cora, minha querida Cora, você que me acolheu tão bem nessa família, que fez com eu me sentisse em casa, gostaria de pedir a sua benção para o nosso reatamento.
A minha mãe que tinha assistido a todo aquele circo impassível, finalmente iria se pronunciar.
—Primeiro que você que é uma querida, durante um tempo eu achei que sim, a Regina deveria esquecer essa bobagem de divórcio e voltar para você, afinal, como você bem disse, eu lhe acolhi nessa família, inclusive fiquei do seu lado enquanto a minha própria filha lutava para se afastar de você, mas isso foi antes. Eu ainda não entendo porque nós estamos aqui, nenhuma das minhas filhas costumam voltar atrás depois batalhar tanto para conseguir algo, mas ainda sim, estamos aqui.
—Mãe...
—O seu pai pediu que eu deixasse você ser feliz, isso aqui é felicidade para você? É viver com uma pessoa que até semanas atrás você não podia suportar nem a hipótese de tê-la mais na sua vida?
Zelena, Hades e eu apenas assistíamos como expectadores.
—Cora, acho que a Regina já está bem grandinha para escolher que atitudes ela vai tomar na vida dela. —Marcela falou. —E na verdade eu não entendo o porquê disso agora, você mesma que tinha se solicitado a ser a minha testemunha no processo de divórcio, disse que o seu testemunho poderia encerrar a questão, o que encerrou, mas não ao meu favor. Mas isso são apenas detalhes, não guardo rancor.
—Porque eu percebi o erro que eu estava cometendo.
—O que é isso sogrinha, você mesma falou que eu lembrava você.
—Marcela, por favor! — Tentei intervir.
—Exatamente, e por lembrara a mim, faz com que eu conheça que tipo de peça você é!
—Mãe, para! Acho melhor irmos embora. — Zelena falou.
—Você tem razão. — Hades disse.
—Nós vamos, mas antes eu gostaria de dizer que eu não me conformo e nem entendo essa sua atitude. Vocês se acham inteligentes e sagazes, mas eu sou raposa velha o suficiente para saber que tem algo que não cheira bem aqui.
E dito isso, os três se encaminharam para a porta, me despedi apenas de Zelena e de Hades, a minha mãe saiu da minha casa como um raio.
—Não imaginei que esse jantar seria tão animado. —A Marcela falou assim que entrei em casa.
—Qual é o seu problema?
—Nenhum, amor, apenas falei que foi animado. Vou subir para tomar um banho, você não quer vir comigo? —Falou em um tom insinuante.
—Nem morta. —Falei baixo.
—Não ouvi, Regina.
—Não, vou ficar mais um pouco aqui embaixo.
—Tudo bem, se você mudar de ideia sabe onde me encontrar.
Fiquei jogada no sofá da sala refletindo sobre o desastre que tinha sido aquele jantar, não que eu esperasse alguma coisa dele, ele por si só já era uma péssima ideia, mas achei que a minha mãe manteria as aparências como ela costumava fazer.
Distraída pensando nisso, não percebi quando a empregada entrou na sala.
—Regina? Regina!
—Oi?
—Tem uma mulher lá fora, aquela loira que você trouxe aqui um dia. — Ela falou baixo e se aproximando de mim. — E ela disse que se a sra. não quiser vê-la, não vai importar, porque ela não vai sair da frente da casa enquanto você não falar com ela.
—A loira... Emma! — Emma estava em frente à minha casa e não iria sair dali até que falasse com ela. Não, não, o que ela estava fazendo ali? Será que eu não tinha sido fria o suficiente para afastá-la de mim? Me odiei durante cada segundo daquele dia, não seria capaz de repetir nada daquilo, não podia olhar em seus olhos e dizer tudo aquilo de novo.
—A sra. vai recebe-la? Mando ela entrar?
—Não! Eu vou lá fora falar com ela.
—O que você está fazendo aqui? —Perguntei. Emma estava na passarela de entrada da minha casa.
—Vim para tentar encontrar em você aquela Regina que eu conheci.
—Você está falando bobagens Swan! O que eu tinha para tratar com você já foi resolvido.
—Não Regina. Essa situação não pode ficar simplesmente assim, não quando tanta coisa aconteceu entre nós! — A temperatura estava tão baixa, que o ar que saía dela tomava a forma de fumaça.
—Eu já expliquei para você, eu não tenho culpa se você se envolve tão facilmente com as pessoas! — Falei tentando ser o mais altiva possível.
—Para Regina! Porque você está agindo assim? Porque regressar tanto?
—Eu sou assim, Swan.
—Não, não é! Eu vi quem você realmente é. — Ela falou se aproximando de mim. Eu quis me afastar, eu precisava me afastar, mas não consegui.
—Emma... —Eu já não tinha mais forças para continuar com aquilo, para continuar menosprezando-a.
—E essa conversa sobre quem você é, nós já tivemos. Eu não posso acreditar que a Regina que eu vi, a Regina que eu tive nos meus braços poderia ser capaz de faz aquilo comigo, ou com qualquer outra pessoa.
—Eu acho melhor você ir embora. —Falei quase em tom de súplica.
—Eu não vou sair daqui enquanto eu não souber a verdade.
—Você já sabe da verdade!
—Não, aquilo não me convenceu.
—E o que eu preciso fazer para te convencer? Te espezinhar, te usar e te tratar como um lixo não foram o suficiente para você?
—Por ora foi, me magoou e doeu muito, você nem pode imaginar o quanto, mas só até eu me atentar a alguns detalhes. E eu tenho mais do que motivação pessoal suficiente para achar que tem algo errado.
—Você só não quer aceitar.
—Você só faltou usar a palavra monstro para descrever aquela mulher, ela te expôs e ainda tentou jogar a sua mãe contra você, ela não respeitou nem o seu momento de luto! E você quer que eu aceite?
—Você não deveria se meter nisso. —Eu não tinha mais argumentos porque eles simplesmente não existiam. Eu não tinha mais forças para tentar afastá-la, mas eu ainda precisava protegê-la.
—Você mesma me disse que não foi feliz ao lado dela, então porque voltar para essa vida quando você não é feliz? Logo você que ficou tão afetada por as últimas palavras do seu pai! Aliás, não acho que ele ficaria feliz vendo o que você tem feito da sua vida.
—Para Emma! Para, por favor. —Todas, as coisas ditas por ela eram verdade, e iam caindo como pedras no meu estômago, mas falar sobre o meu pai tinha sido a maior delas. Em muitos momentos me perguntei que conselho ele me daria ou que ele diria se não soubesse da verdade. Eu nunca estive tão longe de fazer valer as suas últimas palavras como estava agora.
—Então quer dizer que a sua relação com o meu filho também foi uma cartada do seu jogo? Porque para ele não foi, ele é só uma criança e foi envolvida nisso tudo.
—Não! Meu afeto por o Henry é real. — Afinal, era por ele que eu fazia aquilo.
—Viu, ela ainda está aí, a minha Regina ainda está aí.
— Você deveria ir, Emma.
—Não, eu sinto que tem algo errado aí, e a menos que você mesma me explique, eu não vou sossegar!
—Emma, se você for agora, eu posso... posso tentar conversar com você depois. Mas você não deve me procurar, em hipótese alguma.
—Ham? Você diz que vai conversar comigo, mas que eu não devo procurar você, qual a lógica e o sentido disso?!
—Eu prometo que faço, mas vai embora agora! — Eu não sabia o que contaria, mas pelo menos ganharia tempo.
—Como você pode me assegurar is...
—Ora, vejamos só quem temos aqui, a advogada Emma Swan! — A Marcela falou me abraçando por trás e interrompendo Emma. —Você não gostaria de entrar para conversamos lá dentro, aqui está tão frio. — Falou me apertando contra o seu corpo.
—Não Marcela, ela já estava indo, não é Swan?! —Mas Emma não respondeu nem a Marcela e nem a mim, ela tinha a face corada e eu suspeitava que o frio não era o causador disso. — Ela veio apenas me falar sobre os papéis do divórcio, a ação foi cancelada.
—Que bom, não consigo me imaginar sem você. — Ela disse beijando a minha bochecha. Nojo, não havia melhor palavra para descrever o que eu sentia do que nojo. —Swan, se você tivesse chegado algumas horinhas antes, teria participado do jantar especial que demos para comemorar a nossa volta.
—Está tarde e a Emma tem obrigações com o filho dela, não vamos mais aluga-la, Marcela. Tchau Swan. — Falei me livrando dos braços da Marcela e voltando para a casa.
—Até mais Swan, os seus serviços foram de grande utilidade para minha esposa, com toda certeza recomendaremos você para os nossos a amigos.
Quando entrei em casa pretendia subir direto para o quarto que agora era meu, mas quando estava no topo das escadas fui detida por as palavras da Marcela.
—Insistente essa Emma Swan, não é mesmo?!
—Eu já disse sobre o que ela veio falar. — Falei sem me virar.
—Ela poderia ter ligado. Acho que o que você me disse que fez não foi o suficiente, meu amor. —Não, eu não ouviria calada, não dessa vez.
—Você pediu, quer dizer, pediu não, me chantageou para que eu me afastasse dela sem que houvesse a menor chance de ela vir atrás de mim, e assim eu fiz. Eu a tratei como um lixo, não, pior que um lixo, sem me importar com os seus sentimentos, fiz com que ela pensasse que foi usada para atingir você, e tudo isso depois de ter sido próxima dela. Ela tem amor próprio, é inteligente e sensata, você acha mesmo que ela viria aqui depois de tudo isso se não fosse por uma questão profissional? — Falei me virando. Ela não poderia saber o real motivo do aparecimento da Emma.
—Você tem razão, só alguém muito idiota mesmo para vir atrás de você depois do que você disse. —Falou tentando passar a mão no meu rosto quando chegou no mesmo nível que eu, que foi evitado com um tapa.
—Agora se você der licença, e vou subir e me recuperar do fiasco que foi esse jantar.
Quando entrei no quarto tranquei a porta e me sentei na cama respirando fundo e pensando em toda a surrealidade daquela noite, eu estava mentindo ao ponto de algumas vezes acreditar na minha própria mentira, e as únicas pessoas que eu precisava que acreditassem insistiam em não acreditar e ver o melhor em mim, em outra situação ter pessoas acreditando na minha mudança e confiando em mim seria incrível, mas não agora.
Depois de tudo que a minha mãe jogou na cara da Marcela, ter a Emma na minha porta me desmontou inteira.
Como ela podia estar ali depois de tudo que disse? Eu esperava que ela estivesse me odiando e desejando nunca mais me ver, o que até seria melhor, pois a Marcela tiraria de vez a sua atenção sobre ela e o Henry, mas não, em vez disso ela apareceu na minha porta tentando entender o que tinha acontecido. Porque ela não podia facilitar as coisas para mim?
No dia em que fui sua, ela me disse que poderia ver quem eu era e hoje ela repetiu isso. Como ela poderia ver se nem eu mesma via? Mas eu sempre tive a impressão de que aqueles olhos poderiam enxergar muito além, que podiam ver além de mim.
Tudo isso me fez pensar sobre a intensidade dos seus e dos meus sentimentos.
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