Uma Canção para nos Dois.
1 Recomeço?
Notas iniciais
Prologo:
Talvez as coisas tivessem de acontecer assim, talvez ela e eu estivéssemos destinados a isso...
Porém para mim é difícil entender não me entra na cabeça a ideia de estarmos no mesmo ambiente e fingirmos que não aconteceu nada, de termos de fingir não termos vivido momentos tão intensos e únicos juntos.
Nosso único contato com o que chamamos de passado juntos é a música e muitas das vezes essa mesma música é o nosso meio de comunicação, uma ponte de palavras e gestos quando tocamos juntos que nos conecta ao mais profundo de nossos devaneios!
Sim a música que pulsa em nossos corações gélidos e consumidos pelo amargor do fim do amor, os versos e estrofes que muitas das vezes servem como uma mensagem codificada que só nos dois entendemos.
Sim a música... A música.
Capitulo:01 Recomeço?
Levantei cedo naquela manhã de outubro me arrumei e coloquei os livros na mochila com uma agressividade sem motivo.
—Talvez se vocês pudessem falar diriam Não desconte em nós maldito!
Com uma cara de poucos amigos entrei na cozinha e sentei-me a mesa para o café.
—Aconteceu alguma coisa?
Perguntou minha irmã mais nova, mesmo estando no mais profundo inferno aquele sorriso inocente me fazia sentir o céu.
—Nada meu anjo, só estou cansado.
Respondi acariciando seus cabelos enquanto ela me abraçava.
—Você ainda está com saudade da Alice?
Mesmo Sarah sendo ótima companhia, não tinha noção do que aquele nome fazia com meu íntimo.
—Não querida, não mais só estou cansado por causa das provas.
Respondi forçando um sorriso quando na verdade chorava por dentro.
—Vamos Sarah, deixe João em paz.
Minha mãe como qualquer mãe sempre estava a postos para salvar seu filho de uma possível crise de choro ou tristeza repentina.
Ela começou a servir o café dispondo os itens daquela farta mesa graças a Deus e a loja de música que meu pai abriu recentemente.
—Então a loja está progredindo além do esperado?
Indaguei tentando afastar as mas lembranças e concentrar-me em algo que poderia ser a solução para as mesmas.
—Sim está, até mesmo o Tonhão está entulhado de serviços de reparos, personalizações e até mesmo construções do zero!
Respondeu ela entusiasmada, confesso que sabia do sucesso da loja porém não imaginava algo dessa magnitude.
A loja de meu pai vende instrumentos prontos, acessórios e também oferece serviços de reparos, construções de instrumentos e coisas do tipo. Aprendeu a tocar quando tinha doze anos e não parou mais quando completou quinze conheceu o Tonhão que tinha a mesma idade e era filho de um talentoso *Luthier com quem os dois aprenderão o oficio. Porém quando meu pai constituiu família acabou se tornando assalariado enquanto que o Tonhão prosseguiu e se tornou bastante conhecido na cidade.
—A Proposito rapazinho, não te ensinei a tocar e nem tampouco o que aprendi de Luthierria pra que você enterre tudo.
Inqueriu meu pai colocando as mãos no meu ombro, já fazem dois meses que a loja abriu e eu não me apresentei a meu posto de meio expediente.
—É verdade, e também eu já estava pensando em ir à loja bater meu ponto, antes que seja demitido por vadiagem.
Trocamos alguns tapinhas, coisa de homens e começamos a tomar o café.
—Hmm a proposito filho, já te repassei qual vai ser sua função?
Perguntou ele, na verdade estava tão perdido em meus devaneios que não me recordava qual era meu cargo.
—Não, qual é?
—Você vai, na verdade, exercer o mesmo que Tonhão e eu atendendo os clientes, efetuando as vendas, recebendo os instrumentos que serão encaminhados para reparos etc. E também um extra que nós fizemos questão de te dar.
—Qual? Perguntei ansioso para que meus desejos mais íntimos pudessem tornar-se reais.
—Você vai ser auxiliar direto do Tonhão, já que eu não posso ajuda-lo devido as funções administrativas.
—Que massa! Serio mesmo?
Explodi em entusiasmo, fazia tempo que não sentia essa alegria pulsar em mim afinal a música é minha maior paixão! E com certeza auxiliar o Tonhão que era um monstro tanto de musico como de luthier era tudo o que alguém como eu poderia querer.
—Valeu mesmo pai! Você é o cara! Continuei enquanto abraçava-o era incrível como a música me deixava feliz, na verdade ela foi tudo o que sobrou.
Continuamos acertando alguns detalhes então sai para o colégio botei os fones e pela manhã nada melhor que um bom rock pra começar o dia.
Já no ônibus a letra da canção me fez lembrar de coisas que eu não queria, na verdade já fazem seis meses mas a ferida ainda está bem aberta... Quando dei por mim já estava cantarolando a música baixinho lembrando do dia em que nos conhecemos eu estava tocando e ela na plateia do festival da escola então cantei o refrão olhando nos olhos daquela garota tentando dizer: Essa é pra você!
—Shine, shine down on me... Shine on this life that's burnin' out
Cantarolava enquanto deixei uma lagrima rolar.
—Por que você tinha que entender o meu recado?
Quando cruzei o portão da escola encontrei com Martim, ele era alto e forte diferente de mim que, embora alto, era um magricela seus cabelos loiros combinavam com os olhos verdes.
—Fala ai João, bom dia.
Começou ele enquanto apertávamos as mãos um do outro.
—Tudo tranquilo e contigo?
Perguntei de volta ao que ele sorriu.
—Passei no teste da banda!
Exclamou ele me lançando uma piscadela.
—Nossa Martim isso é ótimo! Você se esforçou muito pra conseguir isso.
Respondi de volta partilhando daquela alegria, Martim era um baixista experiente e a duas semanas atrás surgiu uma banda no colégio que estava selecionando somente músicos bons até vieram uns convites porem não me atrevi.
— Ainda não conseguiram um guitarrista base.
Continuou ele me olhando como quem espera algo.
—Bom existem muitos caras bons na escola, não entendo por que a vaga continua aberta.
Respondi com um ar de arrogância, sabia muito bem onde ele queria chegar.
—Porque eles querem você!
Continuou ele enquanto entravamos no corredor da nossa sala.
—Você sabe muito bem que não estou afim de entrar em uma banda por enquanto... sabe meus motivos.
Respondi abaixando-me para amarrar o sapato.
Martim então ficou sério, parecia até minha mãe quando ia me dar uma bronca.
—Sabe João... Entendo o fato de você estar mal por ela mas, não entendo o fato de você deixar de viver por isso.
Falou ele coçando a cabeça.
—Ela decidiu viver a vida dela, não entendo porque você desistiu da sua.
Completou ele enquanto me levantava.
—Bem você sabe melhor que ninguém que eu não pensava em me aprofundar na carreira musical, pelo menos não como integrante de um novo Capital inicial...
Comecei em tom de brincadeira, não havia razão para acabar com a alegria do meu melhor amigo havia?
—E bem... você sabe que quando toco me vem lembranças ruins, mas...
Senti um nó se formando em minha garganta por um momento achei que ia sufocar.
—Eu estou voltando a viver.
Sorri meio que forçadamente ao dizer isso Martim viu que não conseguiria me convencer por hora, sim por hora, Martim não desistia fácil das coisas.
Preparei-me antes de entrar na sala de aula pois sabia quem estaria lá.
Sabia que quando botasse os pés no limiar os primeiros olhos que veria seriam os dela.
Respirei fundo quando entrei e lá estava ela sentada próxima a janela os cabelos curtos esvoaçados na brisa fraca, os óculos discretos em seu rosto a boca pequena que tanto tocou a minha... Lábios rosados que levaram-me tantas vezes ao paraíso e que agora por sua falta me levam ao mais profundo inferno.
Sim, lá estava a garota que eu amava mais que a mim mesmo...
Alice Albuquerque.
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