Uma Canção para nos Dois.
2 Ossos do Oficio
Notas iniciais
Capitulo 02: Ossos do oficio.
As aulas como sempre foram se arrastando como se não fossem terminar nunca.
Eu queria sair dali, estar no mesmo lugar que ela me esmagava o coração sentia que de alguma forma a incomodava e isso me doía tremendamente.
Desde o dia em que tudo terminou em maio não troquei mais palavra alguma com ela e nem tampouco ela comigo... Agíamos como dois estranhos que não se importam com a existência um do outro desde então, finalmente a o sinal do fim da última aula tocou e senti um alivio reconfortante. “Salvo pelo gongo! Literalmente...”.
Sentava-me sempre duas cadeiras depois dela então, a esperei passar para evitar qualquer tipo de coisa bizarra que pudesse acontecer como um toque, esbarrões ou olhares indesejados, não queria incomodá-la.
Quando finalmente ela terminou de falar com as amigas passou na fileira, o seu cheiro ainda continuava o mesmo, um perfume doce e delicado a maquiagem também continuava simples e sem exageros afinal a beleza de uma garota não está na maquiagem e sim em quem ela é de verdade.
Quando ela saiu Martim levantou-se da cadeira da frente e botou a mão no meu ombro.
—Vamos, você sobreviveu mais um dia.
Falou ele rindo, fomos até o ponto de ônibus e para minha surpresa ela estava lá com as amigas, foi então que percebi o volume em suas costas, um violão talvez.
—E então seu violão está mesmo com defeito?
Perguntou uma das garotas Ana Paula se não me engano.
—Sim, as tarraxas não seguram as cordas direito então me irmão me recomendou uma loja nova que é especializada em instrumentos de corda que fica no centro.
Quando ouvi essas palavras senti um calafrio na espinha “Calma ai, existem centenas de lojas especializadas no centro não pode ser a nossa... Ou pode?”
—Cara você ouviu essa, parece que elas estão indo na sua...
Tive que interromper o idiota do Martim.
—Vamos ali na carrocinha de Hot-Dog Martim.
Falei puxando ele, onde será que esse maldito estava com a cabeça.
Olhei por cima dos ombros e pude ver que ela olhava em nossa direção porem odiei aquele olhar, eu conhecia muito bem aquele olhar de pena e pena é um sentimento vergonhoso.
—Pirou Martim?
Falei entre os dentes.
—Foi mal, não tive intenção.
Respondeu ele na verdade todo mundo já deu uma mancada certo?
—Como castigo vais pagar o meu.
Inqueri, mas a ideia de dar de cara com Alice na loja logo no meu primeiro dia era assustadora.
Terminamos o lanche e ao voltar ao ponto elas ainda esperavam o ônibus, que por sinal era o mesmo que eu esperava. “O dia das coincidências?”
Os ônibus para o centro costumavam demorar esperamos cerca de vinte minutos até que finalmente um deles chegou.
—Quer que eu vá contigo?
Perguntou Martim preocupado.
—Não, valeu pela preocupação mas uma hora terei de enfrentar essas coisas e enterrar o passado de uma vez.
Respondi a ele nos despedimos e depois que elas entraram embarquei havia um lugar vago no fim do veículo e foi lá que me sentei.
De onde estava pude escutar que antes de ir à loja ainda desceriam uma parada antes por que uma delas tinha que comprar algo.
E assim foi desceram uma parada antes e a minha seria a próxima pensei que seria somente uma suposição de que ela realmente iria na loja.
Finalmente sai do ônibus que parecia mais uma estufa caminhei um pouco e finalmente cheguei a loja, ela era simples não muito grande e nem tampouco pequena demais se enquadrava no que meu pai dizia ser o ideal.
A fachada era composta por uma vitrine grande onde a única divisão era a porta.
A direita belos violões e guitarra fantásticas se mostravam imponentes e no lado oposto poderosos Contrabaixos se impunham ainda mais acompanhados de um Baixolão verde com uma listra branca no centro.
Meu pai procurou deixar a estrutura da loja parecida com as americanas tanto é que quando abri a porta um sino tocou.
—Boa tarde.
Falou educadamente um homem gordo usando uma camisa do Guns N’ Roses, usava bermudas e um tênis all star preto bem surrado na cabeça estava um boné do Nirvana e pela abertura traseira do mesmo descia um poderoso rabo de cavalo.
—Querida, cheguei!
Exclamei enquanto Tonhão veio me abraçar.
—Até que enfim garoto! Estava a ponto de enlouquecer de tanto trampo.
Continuou ele mostrando que estava feliz em me ver, ao me mostrar cada parte da loja e todos os sistemas de venda levou-me a uma grande sala que havia na parte de trás.
Nela havia todo um maquinário para se trabalhar com madeira e uma diversidade incrível de ferramentas.
—Nossa esse lugar é incrível!
Exclamei maravilhado.
—Sim, está é a fábrica dos sonhos; Qual seu nível na Luthierria?
Perguntou ele me apontando a mesa que ainda estava nova e organizada.
—Hmm digamos que em termos de teoria baixo e em termos de pratica amador.
Respondi.
—Entendo, essa será sua mesa de trabalho.
Começou ele notei que haviam cadeiras próximas das mesas.
—Porque há tantas cadeiras?
Perguntei.
—Quando o reparo é pequeno os clientes gostam de acompanhar, é uma questão de confiança entende? Afinal instrumentos são algo de valor e eles querem ter certeza de que nada vai acontecer com eles, aqui na loja nós optamos pela transparência com o cliente então se ele quiser acompanhar o reparo quando possível não vejo razão para não permitir.
Explicou ele.
—Entendi.
—Seu pai me disse que você já sabe fazer reparos e que você mesmo cuida da manutenção dos seus instrumentos porém nunca fez uma reforma ou construção certo?
Continuou ele com sua entrevista.
—Sim, seu informante repassou meus dados com clareza.
Respondi o fazendo rir.
—Bom então o primeiro reparo que entrar aqui será seu teste.
Falou ele me chamando para irmos de volta a loja.
—Um passarinho me contou que você toca bem e ainda canta?
Continuou ele pegando uma guitarra e ligando-a em cubo.
—Você sabe muita coisa sobre mim cara, está interessado?
Continuei coma zoeira, fazia tempo que não me divertia.
—Só em aprimorar teus talentos fera.
Continuou ele plugando um violão e me entregando.
—hoje você fica com a viola, senta a bundinha no banquinho que eu vou ajustar o tripé do microfone pra você.
Continuou ele enquanto eu sentava e afinava o violão.
—Sabia que eu ia amar esse trabalho.
Continuei.
—Então qual vai ser?
Perguntou ele, sempre toco ou canto o que estou sentindo e pensando e agora havia uma música perfeita.
—Vamo de capital inicial então... Primeiros erros.
Falei esperando a resposta.
—Ho você tem bom gosto garoto, vamo que vamo então.
Começamos a música a cada frase sentia como se estivesse desabafando... Era como se toda aquela dor estivesse sendo arrancada de mim podia ver nos olhos do Tonhão que Eu era bem mais experiente do que ele pensava, sem termos ensaiado nada o som estava ótimo ele até fazia a segunda voz tranquilamente, percebi que o sino da porta havia tocado porém a música estava tão boa que não consegui parar Tonhão balançou a Cabeça em afirmativa que os clientes estavam gostando.
Quando terminamos ouvi as palmas e quando virei-me fiquei paralisado ao ver Alice ali, parada assim como eu talvez perdida em nossas lembranças? Senti certa umidade nos olhos e percebi que estava chorando.
Virei-me rapidamente enquanto o Tonhão foi atender nossas clientes.
—Boa tarde senhoritas, em que podemos ajudar?
Fui até o bebedouro tomar água. “O que você está sentindo agora Alice, saudades? Não está mais pra pena...”
Pensava ali naquele canto.
—João chega mais.
“Droga, o violão dela estava com problemas... não me diga que...”
—O problema no violão da moça são as tarraxas que estão gastas e carcomidas de ferrugem, ela já comprou um novo jogo de tarraxas e você vai instalar quero também que avalie a parte elétrica dele e regule o tensor, o braço está um pouco empenado.
Instruiu Tonhão me passando o violão do tipo jumbo.
—Senhorita pode ir com ele e acompanhar os reparos.
Continuou Tonhão, droga ficar com Alice sozinho que belo primeiro dia.
—Obrigada, o senhor é muito gentil.
Agradeceu ela.
—É só seguir o rapaz.
Seguimos no corredor sem dizer palavra alguma.
“É só continuarmos calados que tudo vai ficar bem.”
Ao entrarmos na sala posicionei o violão sobre a mesa e retirei as cordas que ainda estavam novas o braço realmente estava empenado mas não era nada problemático, quando retirei as tarraxas pude perceber que as engrenagens praticamente já haviam sumido.
—J... Já estava em tempo de trocar não é?
Perguntou ela nervosa senti gotas de suor se formarem na minha testa.
—S... Sim er... Elas já estavam bem detonadas.
Quando retirei o afinador percebi que o problema era somente um cabo solto e recoloquei o mesmo.
—A loja do seu pai é bem legal.
Continuou ela, porém não respondi e me concentrei no que estava fazendo.
Regulei o tensor e o braço voltou ao normal então, parti para a instalação das novas tarraxas.
Peguei uma flanela e um pouco de óleo para limpeza e poli o violão as tarraxas ficaram ótimas combinaram com ele, comecei então a recolocar as cordas.
—João... Porque deixamos de nos falar?
Perguntou ela olhando para o chão.
Aquela pergunta me pegou de surpresa.
—Por que você quis assim ... Digo eu estava atrapalhando seu desenvolvimento.
Respondi sem olhar para ela enquanto colocava a última corda.
Percebi que ela estremeceu um pouco e continuou.
—Não é bem assim eu...
Ela apertou as mãos.
—Você sabe que eu sempre sonhei em seguir carreira e quando ganhei aquela bolsa para estudar na Music Art’s... você nunca quis levar sua carreira a sério.
Continuou ela.
—O fato de não querer no momento não significa que eu não levo a sério, mas não estou entendendo onde quer chegar se eu era uma pedra na sua escada da fama não se preocupe, você já me removeu dela.
Retruquei enquanto afinava o instrumento dela, afinal de contas porque ela estava falando nisso de repente? Em seis meses não trocamos palavra alguma, agíamos como estranhos.
—Você não entende... Eu estava pensando no melhor pra nós dois.
Continuou ela.
—Então você acha que isso foi o melhor pra mim?
Perguntei entregando o violão.
—Eu achava... Mas, agora a pouco quando te ouvi tocar aquela música... percebi que talvez estivesse errada... será que te feri tanto que você quer ... me apagar do seu passado? Ou melhor dizendo me apagar da sua vida?
Perguntou ela me olhando nos olhos.
—Porque você está perguntando essas coisas? Se eu atrapalhava você não precisa se preocupar já não atrapalho mais, durante todo esse tempo tenho me certificado de manter minha distância e vou continuar mantendo... Não serei mais uma pedra no seu caminho Alice.
Respondi rispidamente.
—Me desculpe eu não... eu não queria te incomodar.
Respondeu ela com uma expressão triste.
—Por favor, teste o seu violão para ter certeza de que está tudo bem e se encontrar alguma irregularidade você tem uma semana para retornar aqui com a gente.
Falei friamente as normas da loja, ela então deu um sorriso e se dirigiu a porta.
—Não precisa, confio no seu trabalho e sei que não tem nada de errado... Até amanhã.
Essas foram suas últimas palavras antes de sair.
Sentei-me na cadeira, sentia meu corpo pesado outra vez falar com Alice e reviver as lembranças ruins trouxeram de volta tudo o que a música havia tirado e então as lagrimas vieram.
Tonhão bateu na porta.
—Tudo bem garoto?
Perguntou ele preocupado.
—Eu só... preciso de cinco minutos tudo bem?
Respondi coma voz embaçada.
—Tudo bem, você tem o tempo que precisar.
E ali na oficina chorei como uma criança debruçado sobre a mesa sentia um buraco no peito, um buraco que talvez não pudesse ser fechado nunca mais.
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