Uma Canção para nos Dois.
3 Lembranças do abandono.
Notas iniciais
Depois daquele episodio consegui me recompor e levar o resto do dia de trabalho muito bem.
Tonhão não tocou no assunto e me ensinou muitas coisas sobre guitarras solidas.
—Se você quer fazer barulho não existe guitarra melhor que a Les Paul!
Exclamou ele apontando para uma parte da parede onde havia três guitarras penduradas em fileira.
—Concordo, mas a SG também é ótima.
Continuei apontando para a guitarra solitária que estava amparada por um tripé.
—Você sabia que a Gibson SG Foi originalmente concebida para ser uma espécie de melhoramento da Les Paul?
Continuou ele olhando para a guitarra solitária.
— Porém o Les Paul não gostou nenhum pouco da ideia.
Respondi rindo sem vontade.
Ainda trocamos mais algumas ideias sobre instrumentos e bandas, tínhamos gostos parecidos quase que concordando em tudo porem, claro, tínhamos nossas discordâncias.
Meu pai havia saído para resolver alguns assuntos da loja, consegui efetuar minha primeira venda e depois fechamos.
Quando cheguei em casa não comi, apenas tomei um banho e deitei-me na cama.
Senti o celular vibrar quando o peguei vi que Martim enviara uma mensagem.
Martim: E ai?
João: E ai o que?
Martim: Ela foi mesmo à loja?
João: sim...
Martim: Nossa, mas e ai vocês conversaram?
João: Sim, mas não quero tocar no assunto... Deixa quieto.
Martim: Como queira... O pessoal da banda quer fazer um teste com você, já falei que você não está interessado, mas eles estão insistindo.
João: Amanhã não pretendo ir à escola... E vou fazer um trato com você.
Martim: Qual?
João: Se eu fizer este maldito teste você me deixa em paz?
Martim: Só se você tocar com a gente caso passe.
João: Vou pensar a respeito... Amanhã te dou a resposta.
Martim: Beleza, então até amanhã você deve estar com a cabeça a mil.
João: agradeço pela sua compreensão cara... Boa noite e beijo na bundinha.
Martim: A mãe!
Lembrei-me por um momento no que Martim me disse pela manhã e realmente eu havia parado a minha vida, se Alice não pensou duas vezes em me chutar pra seguir seu sonho porque eu não poderia fazer o mesmo? Deixar tudo isso pra trás e finalmente seguir um caminho que me permitisse viver.
Naquela noite algo me impedia de dormir, era como se aquele quarto me esmagasse olhei então o relógio, 20:30, foi ai que tomei uma decisão.
Precisava tomar um ar fresco peguei a primeira camisa que vi no armário, nós havíamos ganhado algumas gorjetas então poderia muito bem comer algo na rua caso a fome viesse.
Por um instante pensei no que meus pais iriam dizer afinal já fazia tempo que não metia a cara pra fora de casa que talvez eles entrassem em choque.
Desci as escadas a tempo de ver minha mãe levando algumas xicaras para cozinha.
—Mãe vou dar uma saidinha... hmm Preciso tomar um ar, tem algum problema eu ir?
Perguntei, a expressão dela era de surpresa como eu esperava.
—C... Claro que não, só não volte tarde à cidade anda perigosa.
Falou ela me encarando ainda assustada.
—Eu vou à livraria, preciso comprar um livro que o Tonhão me indicou espero poder encontrar lá.
Falei enquanto beijava sua testa.
—Vai precisar de dinheiro filho?
Perguntou meu pai da sala.
—Não, eu tenho algum aqui comigo não demoro.
A noite estava perfeita, clima bom comecei a andar mais rápido meu corpo estava realmente daquilo.
—Me tranquei naquele quarto por tempo demais.
Achei mais plausível ir a livraria do shopping, ela era bem maior e mais completa e com certeza um lugar movimentado seria ótimo.
O ônibus havia chegado rápido, então cheguei antes do esperado ao shopping. Enquanto caminhava olhando as vitrines, encontrava alguns conhecidos que manifestavam a mesma reação que minha mãe.
“Será que me isolei tanto assim?”
Questionava-me ao chegar à livraria, se tinha mesmo certeza de queria entrar ali.
—Eu decidi viver não foi?
Falei comigo mesmo, como havia dito antes a Livraria era bem grande e até contava com uma cafeteria. Alice e eu íamos ali quase que o tempo inteiro, passamos varias tardes ali fosse comprando livros ou tomando um café juntos enquanto examinávamos cifras e letras de canções que estávamos aprendendo.
Aquelas lembranças estavam tão vividas que pude até mesmo ver nos dois sentados na mesa de sempre próximo ao vidro.
“Parece que estou mesmo condenado” pensei enquanto procurava o livro de luthierria que Tonhão indicou e consegui encontrar o ultimo exemplar disponível do mesmo.
Decidi então sentar e tomar um café com uma bela fatia de bolo, quando já estava terminando comecei há recordar aquele dia.
Por um momento pude ver Alice na cadeira da frente olhando para mim com uma expressão que naquele momento eu não sabia explicar.
“preciso te dizer uma coisa”
Começou ela em um tom de voz serio.
“Sou todo ouvidos amor, aconteceu alguma coisa”?
Perguntei preocupado.
“Lembra que eu fiz uma prova do concurso de bolsas da escola Music Art’s”?
Continuou ela me olhando.
“Sim lembro, não me diga que...”
Comecei entusiasmado, ela balançou a cabeça em afirmativa.
“Eu ganhei uma bolsa integral” continuou ela sorrindo, mas eu ainda não havia compreendido onde ela queria chegar.
“Você sabe que o meu sonho e seguir carreira não é... Você sempre soube”.
“Não estou entendendo o que você quer dizer Alice”
Ela então respirou fundo.
“Bom, eu estou pensando em me dedicar mais e agora que ganhei essa bolsa... Bom não vai sobrar muito tempo para passarmos juntos.”
Continuou ela.
“Bom eu sei disso, e essa escola é a melhor que temos aqui na cidade ela realmente é bem puxada. Nós podemos nos ver a os fins de semana e...”
“João”
Começou ela me cortando.
“Não vou continuar com rodeios... Vou direto ao ponto.” Continuou ela.
“Eu pretendo me dedicar exclusivamente a minha carreira e estudos, tenho que conciliar a escola com o curso de música e...” ela respirou fundo “Não vai sobrar.... Muito tempo pra gente e... “
“Espera, deixa eu ver se entendi... Você quer terminar é isso?”
Perguntei desnorteado.
“Não pense que está sendo fácil pra mim.” Continuou ela. “João, você é... Especial pra mim.”
Falou ela segurando minha mão.
“Estou vendo o quanto.” Respondi soltando as mãos dela “sendo assim, não há nada que eu possa fazer, você já está decidida” continuei falando com uma voz engasgada.
“João não faz assim, a gente pode...” levantei-me abruptamente da mesa e deixei uma nota na mesma “aqui, pra pagar a conta” naquele momento eu só queria sair dali e encontrar um lugar pra absorver tudo aquilo.
O choro de uma criança da mesa vizinha me trouxe de volta daquela viagem ao passado olhei o relógio eram 21:30 já aviam se passado uma hora desde que sai de casa, pedi a conta e antes de sair passei no caixa para pagar o livro sem perceber refiz o percurso daquele dia lembro-me perfeitamente que ao sair do shopping quase fui atropelado minha cabeça girava e eu precisava ficar sozinho em algum lugar para colocar ela em ordem.
Continuei andando até chegar a uma praça que havia próxima ao shopping e ali me sentei e chorei, sentia como se o mundo desabasse sobre mim.
Agora institivamente refiz o mesmo caminho ate a praça, ela continuava a mesma porem não havia quase ninguém nela, sentei-me no mesmo banco e comecei a analisar tudo o que havia acontecido hoje, aquele encontro, às palavras que ela me disse e principalmente a sua pergunta: quer me apagar do seu passado? Ou da sua vida?
—Afinal de contas o que você está pensando Alice?
Meus pensamentos foram interrompidos quando uma garota pediu licença para sentar-se no banco onde estava. Ela usava jeans e tênis um casaco de algodão e uma boina de tricô na cabeça.
— Noite difícil?
Perguntou ela me olhando, percebi que os olhos dela estavam inchados.
—Sim, muito difícil.
Respondi me recostando no banco a jogando a cabeça para trás.
Ela continuava me olhando.
—Você estuda no Colégio Alfa?
Indagou enxugando os olhos.
—Sim, no terceiro ano... Você também não me é estranha.
Respondi olhando aquela garota que parecia sofrer bem mais que eu.
—Estudo no segundo ano do mesmo colégio... Nossa sala e colada na sua.
Respondeu ela fungando.
—Não querendo ser intrometido, mas você está bem?
Perguntei, ela estava tremendo e eu tinha certeza que não era de frio.
—N... Não é nada eu só...
Ela levantou-se exasperada e tropeçou nos próprios pés institivamente a segurei para evitar a queda.
—Hei cuidado. Você realmente não está legal está pálida e gelada.
Falei preocupado enquanto a ajudava a sentar no banco, porém me surpreendendo ela me abraçou forte aos prantos.
—Não pense nada errado a meu respeito, mas eu preciso muito desse abraço...
Continuou ela, institivamente abracei a garota. “Diabos o que está havendo?”
—Como você se chama?
Perguntei aquele choro estava me cortando o coração.
—L.. Lyah...
Respondeu ela com o rosto enterrado em meu peito.
—Prazer Lyah, eu me chamo João está bem?- Apresentei-me na esperança de poder entender a situação- Você pode me dizer o que está havendo?
Perguntei preocupado, essas coisas estranhas só aconteciam comigo?
Ela agora estava mais recomposta e me soltou.
—Me desculpe por isso- começou ela ainda soluçando- Mas eu não sei o que fazer... Não sei entende?
Continuou ela chorando.
—Escute com atenção Lyah, me diga o que aconteceu pra que eu possa te ajudar.
Falei ajoelhando-me na frente dela que havia sentado com a cabeça entre os joelhos.
—Foi minha mãe... Ela... Ela...
As lagrimas começaram a encher suas pálpebras de novo e ela atirou-se outra vez no meu ombro.
—Minha mãe acabou de morrer!
Gritou ela enquanto o seu choro se tornava convulsivo.
—Santo Deus. – disse enquanto tentava amparar a garota de alguma forma.
“Onde vim me meter?” pensei enquanto Lyah, uma garota que acabará de conhecer desmoronava em meus braços.
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