Uma Canção para nos Dois.
4 Severa realidade.
Notas iniciais
Acordei tarde na manhã seguinte, a imagem de Lyah chorando a morte da mãe ficou gravada na minha cabeça.
Depois daquilo me dispus a leva-la em casa afinal ela não estava em condições de andar sozinha por ai.
Para minha surpresa Lyah morava no final da minha rua em uma bela casa amarela logo de longe pude ver várias pessoas na porta e foi ai que um homem que aparentava ter uns quarenta anos nos avistou e veio correndo.
—Lyah!
Gritou ele abraçando a garota.
—Meu amor onde esteve? Está bem?
Falou ele examinando.
—Sim... na medida do possível...
Respondeu ela percebi que ela ainda segurava minha mão.
—Você é algum amigo dela rapaz?
Perguntou ele com uma voz falha, realmente eles estavam passando por um momento difícil.
—Mais ou menos... estudamos na mesma escola e eu a encontrei em uma praça próxima do centro fiquei preocupado e resolvi acompanhar ela até aqui.
Respondi, então ele apertou minha mão e apresentou-se.
—Me chamo Guilherme... sou o pai de Lyah.
Falou ele educadamente.
—Prazer senhor, me chamo João.
Respondi.
—Espere, você é filho do Eduardo?
Perguntou ele.
—Sim sou eu mesmo, moro logo ali em cima.
Respondi apontando.
—Muito obrigado por ter cuidado da Lyah. – agradeceu-me ele botando a mão no meu ombro – Foi uma atitude muito nobre da sua parte.
—Não foi nada.
Respondi.
—A proposito seu pai é um grande amigo e por acaso ele está aqui.
“Realmente hoje foi a noite das coincidências” pensei.
Guilherme levou Lyah para dentro porém continuei preocupado com ela, meu pai então me avistou.
—O que você está fazendo aqui?
Perguntou ele surpreso.
—Estou me fazendo a mesma pergunta.
Respondi depois de mais alguns minutos fomos para casa, no caminho meu pai me contou sobre a causa da morte da mãe de Lyah.
—Ela estava com um câncer no cérebro em estado terminal, porem continuou lutando bravamente.
Começou meu pai.
—Faziam duas semanas que estava internada e para o azar de Lyah hoje no momento em que foi visitar a mãe tudo isso aconteceu, a garota saiu correndo do hospital e ainda bem que foi você quem a encontrou.
Explicou meu pai.
—Que grande herói que ela arranjou...
Falei meio pra baixo o rosto de Lyah de alguns minutos atrás era sem vida e aquilo me deixou estranho.
—Filho, nem todos teriam tido essa atitude. – Começou papai. – Alguns teriam se aproveitado dela, outros não teriam dado a mínima mas, você mesmo com todos os seus demônios interiores sentiu compaixão por ela e isso mostra que você é o herói que ela precisava naquele momento.
Falou ele botando a mão em meu ombro.
— O senhor vai ao funeral amanhã?
Perguntei.
—Sim eu vou, Guilherme é um amigo querido meu e da sua mãe assim como Joana era.
Falou ele.
—Teria problema eu ir?
Perguntei “O que está dando em você? Até uns minutos nem conhecia essas pessoas.”
—Claro que não filho, e também acho que será bom para Lyah, neste momento ela vai precisar de alguém pra conversar.
Uma batida na porta me trouxe de volta.
—Filho, está acordado?
Perguntou minha mãe do outro lado.
—Sim estou, e também já tomei banho só estou vestindo uma camisa.
Respondi.
—Tem uma visita pra você.
Falou ela.
“Quem será?”
Terminei de me vestir e desci, quando entrei na sala reconheci a mesma boina de tricô da noite passada.
—Lyah.
Ela então me olhou, o rosto estava melhor agora porem haviam olheiras terríveis em seus olhos, seus cabelos negros desciam pelas costas.
—Oi.
Disse ela.
—Está se sentindo melhor? – Pergunta idiota – Digo...
—Entendi o que você quis dizer.
Respondeu ela me dando um meio sorriso.
—A resposta plausível para sua pergunta é: hoje estou estabilizada.
Continuou ela.
—Que bom, eu sinto muito por sua mãe.
Continuei.
—Obrigada, na verdade eu vim aqui justamente pra dizer isso.
Falou ela.
—Vim agradecer por ter cuidado de mim na noite passada.
Continuou ela com a voz fraca, pelo que soube o corpo da mãe dela chegaria pela manhã e isso com certeza explicaria o fato dela estar aqui tão cedo.
—Aceito seu agradecimento com uma condição.
Comecei.
—Qual seria?
Indagou ela surpresa.
—Tome café da manhã comigo.
Falei enfim, com certeza ela ainda não havia comido nada.
—Eu estou sem fome... – O estomago dela então roncou.
—Não é isso que seu estomago está dizendo.
—Você venceu.
Respondeu ela, minha mãe então serviu um café bem básico no seu estilo com pães torradas e bolo, Lyah comeu bastante o que confirmou minha teoria sobre ela estar faminta.
—Você tocava numa banda da escola certo?
Perguntou ela.
—Sim no ano passado.
Respondi.
—Porque parou?
Continuou ela.
—Aconteceram muitas coisas e também a banda terminou.
Depois de terminarmos ela disse que precisava voltar para casa pois o funeral sairia em meia-hora.
—Eu vou com você.
Ela olhou-me surpresa.
—Meu pai também vai.
Enquanto caminhávamos ela parou de repente.
—Porque... Você está aqui?
Perguntou ela sem virar-se. “A pergunta de um milhão se dólares!”
—Hmm, eu costumo ser bem direto. – Comecei. – Estou preocupado com você, de uma forma que eu mesmo desconheço.
Respondi sem pestanejar.
—Sabe. – Começou ela ao se virar. – Você é um cara legal.
Falou ela dando um sorriso.
— Que bom que você pensa dessas forma.
Respondi.
Ela então começou a chorar de novo.
—Não quero que minha mãe vá embora... Estou com medo... Estou morrendo de medo...
Disse ela em meio as lagrimas.
Me aproximei dela devagar.
—Minha mãe diz que, quando alguém que amamos morre. – Comecei enxugando o rosto dela. – Essa pessoa não vai embora... ela fica guardada bem aqui.
Falei apontando para o peito.
—Sua mãe não vai embora porque ela vai ficar imortalizada em seu coração.
Falei olhando em seus olhos castanhos.
—Se importa se... eu segurar sua mão?
Perguntou ela.
—Se isso de alguma forma te fizer sentir melhor.
E assim ela fez, sua mão se entrelaçou a minha, quando entramos na casa pude ver o caixão branco no centro da sala e aquilo me fez pensar seriamente em tudo que havia feito até agora ela então ficou ali vivendo aqueles últimos minutos perto da mãe.
Lembrei do que meu falecido avô me ensinou certa vez.
Ele disse:
“Por mais que suas feridas sejam profundas e dolorosas, por mais que pareça escuro lá fora lembre-se de duas coisas, a primeira: Deus está cuidando de você e a segunda: Lembre-se sempre que existe alguém em uma situação pior que a sua.”
Quando o cortejo saiu Lyah segurou outra vez minha mão, sentia seu corpo estremecer a medida que nos aproximávamos do cemitério e sabia que a pior hora se aproximava para ela.
Os ritos então se iniciaram ao que ela apertava ainda mais minha mão, o caixão então começou a descer de repente Lyah correu cemitério a dentro institivamente eu corri atrás dela. Pude ouvir o pai dela gritar por ela e o meu dizendo que eu ia traze-la de volta.
—Lyah! – Gritei correndo entre as lapides. – espere!
—Me deixa em paz! – Gritou ela. – Me deixa sozinha!
Pulei por cima de uma lapide e contornei a garota que corria em linha reta e consegui segura-la.
—Me solta!
Gritou ela se debatendo.
—Não vou soltar. – falei abraçado a ela. – Você pode se machucar!
Ela continuava se debatendo.
—João... não deixa por favor, não deixa botarem ela naquele maldito buraco!
Gritou ela desesperada.
—Ela vai ficar sozinha, vai ficar com frio... Ela tem medo do escuro!
Continuava ela agora me implorando por ajuda.
Começou a cair uma chuva forte naquele momento.
—Por favor João... Por favor...
Continuou ela chorando.
—Lyah... Você precisa deixar ela descansar. – Comecei enquanto ela enterrava o rosto em meu peito. – Ela merece esse repouso depois de toda essa agonia...
Continuei enquanto a chuva tornava-se torrencial.
—Porque... Porque João... Porque ela?
Perguntou-me ela entre soluços.
—Sinto muito... Não tenho as respostas.
Respondi a abraçando forte, e assim ficamos ali debaixo daquela chuva de outubro.
Não pude conter as lagrimas ao ouvir os lamentos de Lyah, naquela manhã o céu parecia chorar também.
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