Notas iniciais
Estreando uma nova história! Espero que gostem. Foi escrita em abril de 2012 e terminada, provavelmente, pouco tempo depois, como uma sequência do meu primeiro livro ainda não lançado! Caso alguma coisa necessite de explicação adicional, escreverei aqui nas notas mesmo. Gosto muito destes personagens, especialmente de Hermes, e espero que vocês gostem deles também, e possam ler as outras histórias que postarei.

O corpo de Lionor Klein jazia entre dezenas, centenas de flores, tão frio quanto o mármore branco onde havia sido depositado para as últimas homenagens. Usava um vestido de finíssima seda branca, cuidadosamente bordado com delicados fios de um suave azul celeste e detalhes dourados que davam à garota um ar principesco, totalmente diferente dos trajes escuros e andróginos que usara em seus últimos momentos de vida. Em lugar da sua espada, um pequenino buquê de rosas havia sido colocado entre seus dedos enrijecidos. Pareceria uma boneca, não fosse o tom azulado em sua face e os hematomas e arranhões mal disfarçados por baixo da maquiagem.

Mesmo aqueles que jamais a haviam conhecido em vida comoveram-se ao ouvir os primeiros acordes da “Balada para Lionor”. A jovem Condessa das Terras do Sul dedilhava a harpa com lágrimas nos olhos, e cada nota parecia traduzir, sem palavras, tudo que desejava dizer à irmã mais nova em seu leito de morte. Nenhum dos presentes ousava pronunciar qualquer palavra, enquanto a música era executada. Nina era uma excelente harpista, mas jamais ousara apresentar uma composição tão longa, tão bela e criada em tão pouco tempo quanto aquela canção.

As portas do salão se abriram de par em par, e o rei em pessoa adentrou o velório. Atrás dele, vinha um rapaz ferido, com os dois braços enfaixados e um pequeno curativo fechando um corte acima da sobrancelha. Era amparado pelo seu amigo, Conde das Terras do Sul e primo do rei. Assim que a musicista viu os convidados abrirem caminho para que Sua Majestade passasse, a música cessou repentinamente.

– Este homem – ela apontou na direção do pequeno grupo, insolente, sem fazer qualquer tipo de reverência ao rei – É o responsável pela morte de minha irmã.

Não havia sequer um par de olhos que não se voltasse na direção dos três, no momento em que as palavras foram proferidas. O rapaz ferido mordeu o lábio, enquanto mancava ao dar mais alguns passos, amparado pelo amigo.

– Essa mulher é um doce – resmungou o jovem rei, entredentes. E, virando-se para o Conde, com ar irônico – Não consigo imaginar por que você e ela não mais casados, Alonzo...

– Nem eu – ele suspirou. Parou de caminhar, forçando o rapaz ferido a fazer o mesmo – Nina está dizendo que você matou Lionor... Não vai se defender, Nigel?

Mal conseguia dar mais um passo sequer, sem que as ataduras começassem a exibir marcas vermelhas entre o linho branco. Estava cansado, desanimado demais para dizer-lhe que fizera de tudo para salvar a garota, e que talvez teria preferido morrer em seu lugar se isso a mantivesse viva, mas não havia sido sua escolha. No entanto, havia tirado de casa a delicada e doce menininha e a havia transformado em uma guerreira. Ensinara-a a cavalgar, a manejar uma espada, e depois duas, uma em cada mão; ensinara a ela a justiça e a injustiça, a dor e o sangue frio. Ensinara-a a amar e a fazer amor, e também a matar, incendiar, e caminhar por cima das cinzas fumegantes como se percorresse qualquer relva verdejante no jardim do castelo. Não iria se defender. Considerava-se culpado.