Uma Balada para Lionor

2 De Passos Sobre Cinzas Fumegantes


Notas iniciais
Finalmente começando a história para valer! Lembro-me de que essa história fluía com bastante facilidade, e eu costumava escrever mais de um capítulo por dia. E agora, revisando, acabei não mudando muita coisa. Espero que gostem de conhecer Lionor e Nigel, e principalmente Hermes, que confesso ser meu personagem favorito. Boa Leitura a todos!

Montados em seus cavalos, com faixas de tecido enroladas no rosto, logo abaixo dos olhos, os dois observavam o vilarejo arder em chamas. As maiores e mais impressionantes labaredas já diminuíam aos poucos, e muitas casas e estábulos haviam sido reduzidos a grandes pedaços de carvão, com tufos de fumaça subindo na direção do céu enegrecido. Onde o fogo ainda queimava, a madeira estalava, desabava aos poucos, reduzindo a ruínas o que já havia sido um próspero e colorido conjunto de moradias.

– Vamos embora – ele disse, e a voz saiu abafada, pois o tecido tentava entrar em sua boca enquanto falava. O cavalo deu meia volta.

– Não – ela falou, com as labaredas refletidas em seus olhos azuis – eu quero ver tudo queimar...

Nunca havia visto algo como aquilo. E pensar que ela mesma atirara a primeira tocha no monte de feno, e sentira o calor em seu rosto quando a primeira chama se erguera, quase tão alta quanto ela mesma. Nigel a puxara para trás, com medo que o encanto a paralisasse de tal forma que as labaredas viessem beijar-lhe os pés e incendiar suas roupas.

–Vamos embora, Lionor – ele se afastou, e ela não teve opção a não ser segui-lo.

Cavalgaram pela estrada deserta. O principal vilarejo de Curvavento assemelhava-se a uma cidade fantasma; quem não havia sido vitimado pela peste havia partido para longe, deixando para trás amigos e parentes doentes que haviam sido impedidos de deixar a cidade, para que a doença não se espalhasse pelas outras regiões do reino. Havia quem gritasse e implorasse, afirmando que não estava doente, mas ainda sim havia sido deixado para morrer sozinho entre as pilhas de cadáveres que já não tinham quem os enterrasse. Bastava um único sintoma da peste, e não era permitido que a pessoa deixasse o vilarejo. Alguns amaldiçoavam o Duque, chamando-o de demônio, por ter convivido de perto com enfermos e ter sobrevivido ainda que houvesse compartilhado a casa com a mulher e três filhos infectados. Hermes enterrara os quatro, e ajudara mais outros tantos, mas estranhamente jamais havia manifestado qualquer sintoma.

Lionor Braga e Nigel Klein partiam ao encontro do Duque, que os aguardava em um pequeno vilarejo adiante. A estrada era estreita e sinuosa, e a grama a invadia, crescida e ressecada, diminuindo ainda mais a sua largura. Os cavalos pareceram não se importar, e seguiam velozes e incansáveis, mas não se podia dizer o mesmo dos jovens que carregavam no lombo. Tinham a garganta seca, e fome. Mas nenhum dos dois reclamou.

– Acha que havia alguém... vivo? – Lionor tirou o pano que cobria seu rosto; já estavam distantes demais do vilarejo para continuarem com medo de serem contaminados ou sufocados pela fumaça.

– Se houvesse alguém, ouviríamos gritos. – lembrou Nigel – ou gemidos, ou o que quer que fosse. Incendiamos apenas casas e cadáveres. Não fique com dor na consciência.

– Não estou – ela retrucou, com uma expressão reflexiva em seu rosto.

Um burrico cinzento que carregava lentamente duas pessoas no lombo vinha na direção contrária. Pareciam camponeses, um menino e uma menina; ele cobria com um gorro os cabelos ruivos, e vestia-se com andrajos, e ela estava igualmente maltrapilha, usando um véu encardido que lhe cobria os cabelos e a maior parte da face. A garota carregava uma trouxa nas costas. A estrada só tinha uma direção: Curvavento. Nigel achou gentil alertá-los.

– Esperem um instante – ele atravessou o cavalo na estrada, e o burrico foi obrigado a parar – Não há nada nesta direção, a não ser a doença e a destruição.

– A nossa casa fica nesta direção – disse o rapaz. Não devia ter mais de quinze anos, e seu gorro encardido estava enterrado até a altura das orelhas.

– Deixe que vão – recomendou Lionor, demonstrando impaciência – Temos pressa.

Fez um gesto para que Nigel saísse do caminho, e ele o fez. Cavalgaram em silêncio por algum tempo, sem olhar para trás, até que ouviram um agudo e lancinante grito de dor e desespero cortando o silêncio que os rodeava. Era uma voz feminina, desesperada, distante o suficiente para supor-se que estava próxima do amontoado de cinzas e tições que o vilarejo se tornara. Lionor e Nigel se entreolharam.

– Eles devem acabado de chegar em Curvavento – sentenciou a menina, olhando por cima do ombro a fim de ver a coluna de fumaça ascendendo aos céus.

– Odiaria ter de dizer-lhes “eu avisei”... – Nigel suspirou – Mas Hermes disse que reconstruirá tudo, assim que a peste for expurgada. O fogo purificará os focos da doença.

Encontraram o Duque no Água de Carpas, uma estalagem muito bem frequentada, à beira do rio de mesmo nome. Atravessaram a extensa ponte no fim do tarde, chegando à estalagem quando o homem acabava de chegar à porta, como se houvesse adivinhado que eles estavam se aproximando. Normalmente, Hermes tinha a curiosa mania de aparecer de repente, furtivamente. O hábito havia sido aprendido em suas caçadas, dada a necessidade de se aproximar dos animais sem ser notado. Mas, naquele momento, ele veio caminhando devagar, e era impossível não notá-lo: alto, bem apessoado, apesar das roupas escuras levemente desbotadas e envelhecidas, e braços musculosos com pequenas cicatrizes – as do braço esquerdo era uma série de riscos finíssimos em sua pele, no local onde um falcão costumava se empoleirar durante todo o dia, até quando o caçador não estava ao ar livre. Tinha trinta e poucos anos, mas parecia até mesmo mais jovem do que quando Nigel o conhecera, no palácio, quando o duque acabava de enviuvar.

– Saudações – Nigel desceu do cavalo com um pulo – Está feito.

– Ótimo – Hermes cumprimentou-o com um aceno de cabeça, e fez o mesmo com Lionor — A reconstrução não será imediata. Ainda precisamos mandar homens para a limpeza dos escombros, mas somente quando todas as cinzas esfriarem.

– Eu não estou interessado em conversa – resmungou o rapaz, apressado. – Preciso urinar.

Desapareceu atrás da estalagem. Hermes ajudou Lionor a descer do cavalo, mas ela o teria feito sozinha; era uma ótima amazona, de reflexos rápidos e bastante observadora. Tinha fuligem nas mãos, e o longo cabelo castanho claro cheirava a fumaça. Tudo que mais desejava era um banho, mas antes de adentrar a estalagem, confessou.

– Hermes... – ela falou, hesitante – Eu tive vontade de entrar lá... ver os mortos. Nunca vi uma pessoa morta na vida.

– Eu já vi tantas, e tão queridas... queria não tê-las visto – Hermes pôs a mão na cabeça da menina. Olhou-a como se a achasse muito tola, e ela se envergonhou de ter tocado em um assunto que ainda parecia feri-lo.

– Desculpe-me, Duque...

A garota correu para dentro, e subiu as escadas até o quarto que havia sido reservado para ela. E, imersa em uma tina de madeira, enquanto esfregava do corpo toda a poeira e fuligem, fechou os olhos e encostou a cabeça na borda de madeira, pensativa. Sua mente era devaneio, passado e presente se misturando em desejos e lembranças. Pensava em Nigel e em seus beijos, e mal podia esperar pelo momento em que ele a tomaria nos braços novamente. Entendia perfeitamente que ele a respeitasse como uma donzela, mas havia momentos em que ela gostaria que ele a tornasse mulher. Ele falava de honra, de respeito, mas não fazia a menor diferença para ela, já que dormiam no mesmo quarto e tocavam-se com intimidades, e havia momentos em que ele parecia que iria despi-la e desistir de esperar, mas ele tinha um autocontrole tão louvável que ela, por vezes, sentia raiva. Pousou a ponta dos dedos sobre os lábios carnudos e corados que ele sempre elogiara, deslizou-os sobre o pescoço e os seios, e por todos os lugares que ele sempre a beijara e tocara, e quando abriu os olhos, ele estava lá, encarando-a. Lionor afundou na água, sobressaltada, envergonhada.

– Não se esconda – ele se aproximou dela e puxou-a para cima, com um beijo na testa. – Também preciso de um banho. Posso entrar com você?

Ela quis dizer que sim, quis desesperadamente puxá-lo para dentro da água e tirar-lhe a roupa, peça por peça, e esfregar-lhe as costas e todo o corpo, mas quando se deu conta do tamanho da tina de madeira, percebeu que ele caçoava dela, e sentiu raiva.

– Espere que eu termine, peça para os criados jogarem a água fora, e ordene-os que tragam água morna na chaleira e encham a tina novamente... meia hora, no mínimo.

– Ah – ele fez uma careta – e você vai demorar muito?

– Não sei. Já pareço limpa o suficiente?

Se levantou bruscamente, a água escorrendo pelo seu corpo magro. Era reta, sem cintura e nem quadris, e seios pequenos como se tivesse somente doze anos em vez de dezesseis. Os cabelos estavam mais ralos do que de costume, pois a água os grudara em seu corpo. Nigel olhou primeiro para o rosto da menina, mas quase instintivamente fitou o meio de suas pernas, e pareceu ficar sem fala por alguns instantes.

– Lionor – ele falou, e não conseguiu dizer mais nada, além de – Volto mais tarde.

Maldito autocontrole.

Notas finais
Aguardem o próximo capítulo, apresentarei novos personagens.