Uma Balada para Lionor

31 De uma nova sentença


Notas iniciais
Estou de volta, dessa vez com Lionor, Nigel, Hermes e Vicente. Estão todos procurando por Claire e Wilhem; vamos procurá-los também! Boa leitura.

A mulher gorda não lhe dava o mínimo de atenção. Trazia nos braços uma bacia de lavagem, e no rosto uma expressão amuada de quem não desejava conversar. As roupas tinham manchas de gordura e molho de carne, e as barras das saias estavam encardidas de lama. Passou pela garota duas ou três vezes, sem dizer qualquer palavra; atirou a lavagem ao chão, e uma dezena de porcos correu e se amontoou em volta da comida. Somente após lavar a bacia e atirar a água suja na beira da estrada é que voltou a atenção para a menina magra e despenteada que dizia ser uma senhora a serviço do rei.

— Senhora Klein, o que dizia mesmo?

— Estou à procura de dois condenados à execução. Os dois têm cerca de quinze ou dezesseis anos, cabelos ruivos, e estão usando armas de fogo e também possuem punhal e espada — as palavras saíram atropeladas, pois já as repetia pela segunda vez — São acusados de várias mortes e duas tentativas de assassinato. Qualquer um que lhes der fuga ou acobertá-los será considerado cúmplice.

— E por que pensa que o fato de eu morar na beira da estrada faz com que eu fique o dia inteiro vigiando quem passa por ela? — a mulher tinha uma expressão de desdém no rosto. — Vocês, enviados do rei, parecem um bando de gatos caçando ratos em um milharal.

Lionor agradeceu, e se afastou. Já havia percorrido todas as aldeias próximas, e em nenhuma delas alguém soube informar o que quer que fosse. Nas primeiras, as populosas Um Coração, Dois Corações e Três Corações, as informações desencontradas tinham um tempero de realidade fantástica. Inventavam soluções mágicas para o sumiço dos dois, enquanto uns diziam tê-los visto partir para o norte, outros para o leste. A maioria concordava que nenhum dos dois condenados aparecera em qualquer um dos vilarejos após a noite da confusão na Taverna da Lua; mas, se não haviam tomado a estrada, como conseguiam viajar por dentro do matagal? Hermes não considerava aquela hipótese, e mandou que Lionor e Nigel interrogassem aqueles que moravam ou trabalhavam na beira da estrada, o que estava se mostrando igualmente infrutífero. Pelo menos na beira da estrada não tratavam Lionor como uma bruxa ressuscitada dos mortos, ou como alguém que sobrevivera após ser cravejada de balas, como se dizia nos vilarejos.

Reencontrou Nigel parado ao lado de Vicente, alguns metros adiante, olhando a estrada com ar desolado.

— Parece que desapareceram no ar. Não acredito que possam ter vindo pela estrada e conseguido ficar fora do nosso alcance. Vincent disse que não tinham cavalos.

— Estavam a pé — o escudeiro já não corrigia Nigel quando o rapaz errava seu nome. Parecia ter adotado aquilo como um apelido — A não ser que tenham mentido ou que tenham comprado cavalos depois...

— Bem, o casamento nos atrasou em um dia... — lembrou Lionor. — Mas foi por uma boa causa.

E sorriu, com a lembrança. O velho sacerdote da igreja do vilarejo parecia jamais ter visto uma noiva tão malvestida, usando roupas de montar pouco femininas e gastas, um noivo quase tão desarrumado quanto ela, e tão poucos convidados, estando metade deles com ataduras cobrindo ferimentos, mas não se opôs quando Hermes lhe ofereceu um saco de moedas, dizendo que tinham pressa por estar no meio de um trabalho importante. A comemoração havia sido igualmente divertida e, pela manhã, estavam todos cansados e bêbados demais para continuar. Aquilo devia ter dado tempo suficiente para que Claire e Wilhem desaparecessem na imensidão do reino, mas Hermes jamais se contentaria em continuar a marcha com Nigel tratando Lionor como uma concubina — usando as próprias palavras que ele usara. Embora o duque se orgulhasse em repetir que os problemas pessoais estavam abaixo das missões designadas pelo rei, precisava daquela pausa para que se recuperasse dos ferimentos.

Recusou a ajuda de Vicente para montar em seu cavalo, e galopou à frente do grupo. Nigel e Vicente apressaram-se em segui-la.

— Essa senhora minha esposa — Nigel seguia a garota com o olhar — é bastante graciosa, não é mesmo?

Vicente estreitou o olhar. Tudo que via era uma menina magricela, com seios muito pequenos e quadris estreitos, cabelos ralos, amassados e muito longos.

— Ela é bonita, sim — fez o escudeiro, educado. Graciosa, com certeza, não era; talvez Nigel não soubesse o significado daquela palavra.

— Ainda está triste por causa de Claire?

— Não, senhor — mas a expressão em seu rosto parecia dizer o contrário.

— Eu o recompensarei, não se preocupe quanto a isso. Se for valoroso como escudeiro, posso coloca-lo na guarda. Ou, se não desejar esta carreira, posso pedir ao rei que lhe conceda um título qualquer. Ele não se incomoda em conceder títulos a pessoas de baixo nascimento, para recompensá-las por algum feito. Veja o meu exemplo... ele me tornou “Condestável”, mas a maioria das pessoas nem sabe para que serve essa merda de nome, já que tenho que baixar a cabeça diante de Hermes...

Saíram da estrada e pegaram um atalho para o vilarejo, ainda seguindo Lionor a uma distância suficiente para que a garota não os escutasse.

— E qual foi o seu feito? — indagou Vicente, a curiosidade vencendo a timidez.

— Bem, eu... espero que jamais conte isso a ninguém — Nigel pareceu embaraçado, quase envergonhado ao explicar — Matei uma feiticeira. A feiticeira que deu a Hermes este estranho poder de não morrer.

Mas Vicente ainda o fitava, aguardado o fim da história. Não parecia achar que matar uma mulher idosa era um feito merecedor de um título de “Condestável”, seja lá o que era o significado daquela palavra. Impaciente, Nigel não quis dar detalhes ao escudeiro.

— Bem, todos os amigos próximos de Miguel tem títulos: o primo dele é Conde das Terras do Sul, e Hermes já era duque, por que o pai dele era duque antes dele. Títulos não servem para nada nesse reino, a não ser para fazer você ser importante. Bem, decida o que você quer, uma vaga na guarda real ou um título.

O garoto nada disse, erguendo os ombros. Era como se nada pudesse recompensá-lo por ter perdido a garota que estava cortejando. Nigel suspirou, impaciente.

— Eu, em seu lugar, trataria de ser mais ambicioso.

Quando retornaram para a casa, Hermes caminhava de um lado para outro com um papel pardo na mão. No verso, estava gravado o selo real. Curiosa, Lionor tentou espiar o que estava escrito.

— O que é?

— As sentenças foram reescritas — contou o duque, com a testa franzida — Foi acrescentado aos crimes de Wilhem Surrfolk “Tentativa de assassinato do Duque Hermes de Curvavento” e “Tentativa de assassinato de Lionor Klein”. E, para a garota que o acompanha, Claire Diaz... bem, ela será presa e interrogada pela sua participação nos crimes do irmão de criação, e sua sentença será decretada somente após julgamento. Não posso negar que seja justo... mas não compreendo o motivo que o levou a revogar a decapitação de Claire.

E lançou um olhar interrogativo a Nigel. Lionor fez o mesmo, e o rapaz se sentiu encurralado, erguendo as duas mãos em um gesto de defesa.

— Não pedia ao rei para fazer isso, se é o que estão pensando. Na realidade, para uma donzela, é mais cruel a prisão do que uma morte rápida e limpa. A única coisa que pedi foi autorização para trazer o corpo dos dois, caso não seja possível trazê-los vivos, mas Miguel nos disse para te obedecer como se a decisão fosse do próprio rei, portanto, que seja feito como você ordenar.

— Não quero corpos. A execução deve ser feita em praça pública para servir de exemplo. De nada nos serve dois corpos de jovens... quase crianças...

Ninguém pareceu reparar que Vicente se encolhera ao fundo da sala, com ar pensativo, escutando tudo com os olhos pregados no chão. Quando o viu, Lionor fechou o punho. Um clube de admiradores de Claire, todos evitando a sua morte a todo custo.

— Quase crianças que mataram seis guardas e um pirata, todos adultos, e quase mataram um homem cuja idade é maior que a idade dos dois, somadas — ela apontou para as ataduras em volta dos ferimentos de Hermes — é muito curioso que eles possam transformar homens em cadáveres mas nós não podemos transformá-los no mesmo.

Imaginava que aquilo só poderia ser obra da jovem esposa do duque, a princesa Oriana, e da rainha Anna Thereza. As duas pareciam fortemente inclinadas a acreditar na inocência da garota, por acreditarem ser ela somente uma vítima. Lionor teve vontade de dizer a Hermes “diga a Sua Alteza sua esposa Oriana que pare de se meter em assuntos que não lhe dizem respeito”, mas não desejava iniciar uma discussão. Agora todo mundo quer ser autoridade em julgar crimes, pensou, cruzando os braços.

Hermes não deu a menor atenção à reflexão da garota, e sacudiu a mão que segurava o papel, com o ar de quem não admitia discussões.

— Faremos como o rei publicou, e não mais conversaremos sobre este assunto.

Havia outro papel sobre a mesa, uma carta pessoal. Hermes não a leu na íntegra, mas comentou que contara ao rei sobre a atitude irresponsável de Lionor e Nigel, e que Miguel quase se sentira inclinado a retirar os dois da empreitada por indisciplina, e manda-los de volta à corte, caso continuassem desobedecendo ao duque e saindo em perseguição dos acusados sem a devida proteção e preparo. Lionor sentiu-se envergonhada e arrependida, e temeu que o rei a dispensasse do serviço das armas e a colocasse no meio das damas da rainha ou da princesa, arrastando-se em vestido de seda bufante, bordando e costurando entre risinhos forçados.

— Diga a Sua Majestade que sinto muito, e que farei tudo que estiver ao meu alcance para mostrar que sou merecedora da confiança que me foi depositada, com obediência e cautela.

— E ele falou alguma coisa sobre o casamento? — indagou Nigel, curioso.

Hermes correu os olhos pela carta.

— Ah, sim, Nigel. Como pude esquecer? Ele o chama de ingrato, insensível, e mais algumas coisas menos elegantes e majestosas; mas diz que, ainda que você tenha cometido o disparate de não convidá-lo para o casamento, e já que sempre se mostrou um amigo leal e valoroso, e dedicado, e outros elogios que também são pouco elegantes...enfim, para resumir, o Palácio da Colina ficará sendo seu de agora em diante, como presente de casamento, para que lá resida com Lionor quando não estiverem no palácio.

O Palácio da Colina ficava próximo do castelo, e era possível ir ou voltar cavalgando por apenas metade de uma hora. Não era muito grande, e o jardim era menor ainda, mas era muito elegante e bem frequentado. Ninguém residia lá além de uma governanta e criados que tomavam conta dos quartos e salas ricamente decoradas.

— Palácio? — Lionor pensou que havia ouvido errado — Um palácio? Não, não posso aceitar isso...

— Está louca? — Nigel a interrompeu — Como ousa interromper e questionar um presente de Sua Majestade? Hermes, faça-nos o favor de escrever-lhe que aceitamos de bom grado o presente que nos foi dado, e que o recompensaremos com nossa eterna gratidão e enfim, escreva o que quiser, sou péssimo com agradecimentos.

— Eterna gratidão não é recompensa à altura de um palácio — observou Lionor. Nigel podia estar acostumado a receber presentes caros, mas ela se sentia envergonhada em aceitar aquele tipo de coisa — Diga-lhe que agradecemos imensamente a benevolência de Sua Majestade, e que não temos palavras para descrever nossa alegria, mas que nos sentiremos muito mais gratos em termos aposentos para nós no próprio castelo, a fim de que possamos estar fisicamente próximos daqueles que nos estimam e sempre a postos para o serviço de Sua Majestade.

Hermes olhou para a garota, com ar reflexivo, e depois para Nigel, que parecia indignado e prestes a protestar. Com um suspiro, o duque pegou uma folha de papel pardo vazia, uma caneta e um tinteiro, e depositou-os sobre a mesa.

— Escrevam vocês, quando decidirem. E não demorem, o mensageiro ainda aguarda à nossa porta para levar a mensagem de volta.

Notas finais
Gostaria muito de ter colocado um trecho da carta com o rei xingando Nigel de todos os nomes possíveis e imagináveis, mas acho que não conheço xingamentos suficientes para tal. Bem, imaginem alguns insultos absurdos, e saberão mais ou menos o que ele escreveu. Ao menos o presenteou com um lugar para morar. Nem posso criticar Lionor por ter recusado, já que todos nós já sabemos mais ou menos por que o rei dá presentes tão caros a Nigel... No próximo capítulo, voltaremos a acompanhar Claire e Wilhem. Não percam, a história já está na reta final.