Uma Balada para Lionor

32 de Fofocas e flechas


Notas iniciais
Capítulo novo na área, e estou sentindo que eu devia ter postado antes. Gosto quando deixo um monte de capítulos agendados, porque sempre sou surpreendida quando a internet começa a se fazer de difícil e tenho dificuldades de postar. Estou ansiosa para postar a história até o final, mas é claro que não posso largá-la aqui de vez! Gostaria de ter aproveitado esses dias para revisar o restante, a fim de deixar todas as postagens agendadas até o fim, mas não esperava que estivessem faltando quase cinquenta páginas para serem revisadas! É muita coisa para mim, mas farei um esforço, pois sempre que deixo para revisar na hora de postar acabo demorando muito... Há um trecho, nessa história, que é somente um link para as outras. Não vejo sentido em excluir esse trecho, embora não saiba se os leitores dessa história lerão as outras... explico nas notas.

Claire gostava de estender a mão para fora do barco e tocar a água fria com a ponta de seus dedos. A embarcação deslizava suavemente pelo rio, a favor da correnteza. Em alguns momentos, os peixes corriam em volta do barco, e a garota se debruçava para vê-los melhor. Sempre pensava que adoraria ter um daqueles para o jantar.

— Cuidado para não cair — recomendou Wilhem, preocupado.

— Não cairei — ela lhe respondeu, apática.

— Gosta da água, Claire? Acha que irá gostar mais do mar que do rio?

Ela sacudiu os ombros. Mar, rio, não lhe importava. A água era somente um meio de transporte, não um local para viver.

— Claire... — o garoto rastejou pelo barco até ela — Provou ser uma ótima comerciante. E eu não sou um mau estrategista, tampouco um navegador medíocre. Poderíamos ter o nosso próprio navio.

— Pretende ganhar um navio em uma aposta de cartas? — ela ironizou.

— Não seja infantil, Claire — Wilhem fitou a água, com ar pensativo — Pela primeira vez na vida, acho que ser descendente de corsários vai me servir para alguma coisa. Podemos começar como tripulação, e com o tempo...

Mas Claire não queria mais escutar, e balançou a cabeça, com ar desolado.

— Um navio de piratas não é lugar para uma mulher, Wilhem. Por favor... não me peça uma coisa dessas.

Sentia-se indignada com a proposta. Sempre que ia aos portos de Curvavento com os pais, para que eles comprassem ou vendessem algo, Claire imaginava como seria passar mais da metade da sua vida em um barco sobre as águas, sentindo o chão balançar sob seus pés. Suas viagens de barco ou navio haviam sido relativamente curtas e, ainda que não houvesse sentido enjoos, não se sentira totalmente confortável até estar novamente em terra firme. E o irmão de criação sabia disso muito bem.

— É uma escolha, Claire — ele insistiu — Se teme ser molestada em um navio cheio de homens, mesmo sabendo que estarei ao seu lado te defendendo, o que diremos sobre o risco de ser violada na masmorra do castelo, quando eu já estarei uma cabeça mais baixo? A escolha não é entre o mar e a terra, é entre o mar e a morte, para mim, e entre o mar e a humilhação e a tortura, para você. Não me parece uma escolha difícil.

Ela correu os dedos pelos cabelos ruivos, com um suspiro. Com a esperança de que ele mudasse de ideia, não discutiu mais.

— Arranje-nos uma viagem de navio somente para que possamos sair do reino, e depois decidimos o que fazer. Uma coisa de cada vez.

O ponto em que o rio se encontrava com o mar era totalmente enlameado e raso, e de difícil navegação. O barco precisou parar muito antes do ponto em que pretendiam chegar, e foi amarrado no grosso tronco de uma palmeira que se curvava sobre as águas. As folhagens murchas e os galhos de arbustos próximos camuflavam a pequena embarcação, para que nenhum malfeitor a levasse enquanto Wilhem e Claire negociavam com os corsários. Subiram pela margem enladeirada, os pés afundando alguns centímetros na grama amassada que crescia por cima da terra úmida, no exato ponto em que a areia branca e fina começava a surgir. Ele ia à frente, com a mão estendida para ajuda-la. Se algum dos dois escorregasse no caminho em aclive, desceriam de uma só vez até a água.

Uma vila de pescadores, com casinhas humildes que mais pareciam choupanas, se estendia até onde a vista alcançava, mas os navios estavam ainda mais longe. Era preciso atravessar uma parte da vila, subir pelas dunas e descer pela areia fofa. Claire protegeu os olhos com as mãos para ver o horizonte sem que o sol a cegasse.

— Nada como uma hora de caminhada pela areia após três horas de barco.

— Mas você não vai — Wilhem parou à frente de uma tenda — Fique aqui nesta taverna, ou seja lá o que for isso, me aguardando com nossas coisas.

Ela pareceu que ia insistir, mas Wilhem tinha o ar sério de quem não admitia discussão.

— Você mesma disse que um barco de corsários não é um lugar para uma senhorita. Tome conta de nossos pertences; retorno em breve.

Pegou a quantidade de moedas que pensou ser suficiente, enfiou em uma pequena bolsa de veludo, e colocou a arma descarregada debaixo da camisa. Antes de partir, deu um beijo na testa de Claire.

Quando ele se afastou, Claire acompanhou-o com um olhar penalizado. Wilhem quase arrastava os pés, visivelmente cansado e dolorido. Depois do ferimento causado pela lança de Hermes, ele jamais fora forte e viçoso como deveria ser próprio de sua idade. Por vezes, parecia um velho, gemendo com qualquer esforço físico e passando horas deitado. Era como se houvesse se curado apenas por fora. Quis se oferecer para ir até os navios em seu lugar, mas seria inapropriado. Os mercadores piratas de Curvavento eram quase todos conhecidos de todo o vilarejo, mas aqueles que Wilhem havia ido encontrar eram completos estranhos.

Colocou as duas sacolas embaixo do banco sob o qual estava sentada, e pôs-se a balançar as pernas no ar, entediada. De nada lhe adiantaria passar horas mirando a direção de onde Wilhem retornaria, na esperança de vê-lo; isso só iria tornar a espera mais angustiante. Percebeu a aproximação de uma mulher muito idosa, curvada e enrugada, vestida com trajes cinzentos, e os olhos miúdos tão úmidos que Claire pensou que estivesse chorando.

— Deseja algo, minha filha? Um peixe com batatas assadas, um copo de cidra?

— Não — Claire forçou-se a sorrir — Agradeço a gentileza, mas não terei como pagar. Meu irmão levou todas as moedas e receio que volte sem elas.

Era mentira. Ainda havia um saco cheio delas, escondido em meio a suas roupas de baixo, mas jamais o revelaria a um estranho. Aquela inofensiva velhinha poderia ser a informante de um bandido. Depois do que seu doce e tímido Vicente lhe fizera, tendia a desconfiar até mesmo de bebês de colo. Fui uma tola, quando meu coração bateu forte por alguém que acabara de conhecer. Sentiu-se idiota por continuar a pensar no antigo informante.

A velha abriu um sorriso de poucos dentes, e todos amarelados ou escurecidos. Quando fez menção de se sentar ao lado de Claire, a garota abriu as pernas disfarçadamente, para que a mulher concluísse que não havia espaço para duas pessoas no banco. Não estava com vontade de conversar, mas a mulher parecia solitária demais para deixar passar a chance de inquirir sobre a vida da visitante.

— É tão fina e elegante, minha menina...tão delicada, essa sua pele... e é tão bem alimentada e perfumada... por que se veste mal assim?

Claire abriu a boca, mas não conseguiu responder. Limitou-se a rir. Tinha consciência de que era bem alimentada — as saliências na barriga e nas coxas não a deixavam mentir — mas, embora gastas, suas roupas eram muito mais novas e jeitosas que os trapos com que a velha cobria o corpo.

— A rainha Catarina, a mãe desses meninos... — fez um gesto vago, como se o rei Miguel e a princesa Oriana estivessem à sua frente — Ela gostava muito de luxo. Veludo, brilho, plumas... todos a chamavam de Rainha P...

— Rainha Perua... — Claire voltou o rosto para o lado e revirou os olhos. Tudo que menos queria era conversar sobre a família real, mas não teve coragem de sugerir que a velha se calasse, e ela continuou.

— Isso, a Rainha Perua. Foi a mulher mais bonita que já tive a honra de ver, parecia um anjo. Claro que sei que era uma devassa, que ria alto, dançava e tinha comportamento inapropriado para uma rainha, mas... não houve mulher mais bonita que meus olhos já tiveram a honra de ver — e repetiu mais algumas vezes, balançando a cabeça para enfatizar — A menina dela puxou ao pai, mas esse príncipe regente, ele é um rapazinho muito, muito bonito também. Puxou à mãe. Não na parte do veludo e da devassidão, eu digo, no rosto de anjo, na pele, nos olhos... e ficou mais bonito agora que cortou aquele cabelo de mulher que ele tinha, e cresceu também... ficou alto, embora não tenha ficado tão alto quanto deveria, porque a mãe dele, afinal de contas, sempre foi baixinha...

Claire teve vontade de avisar à velha que, caso ela não soubesse, o tal príncipe regente já era rei há dois anos, e que havia cortado o cabelo comprido há sete ou oito anos. Também teve ganas de indagar em que fim de mundo estavam, que as notícias demoravam tanto para chegar. Em vez disso, resolveu inquirir sobre a vida da velha.

— Se a senhora mora tão longe da corte, em um lugar tão isolado, como conhece a família real pessoalmente?

A gargalhada da mulher pareceu um arquejo rouco.

— Ora, minha menina, a madrinha do neto do irmão de meu marido era cozinheira no castelo, e eu cheguei a pedir que me deixasse lavar os pratos uma ou duas vezes em troca de moedas. Conheci o primo da rainha, ele cortejou a minha sobrinha, mas ele cortejava todas as jovens da corte... ele era um jovem muito atraente, forte e ...

Descreveu Tomás, o pai de Alonzo, e contou meia dúzia de aventuras sexuais do falecido, que escutara de outras criadas. Claire levou a mão à testa, indignada. Às vezes pensava que não havia qualquer canto do reino em que não houvesse uma mulher que houvesse dormido com Tomás, ou alguém que conhecesse uma antiga amante dele. Não estava interessada na vida sexual dos mortos. Voltou a fitar o horizonte, desejando mais que nunca que Wilhem retornasse, quando escutou o fim de uma história na qual não prestava a menor atenção.

— ...de respeitar a mulher daquele amigo dele, que sempre trazia o falcão empoleirado no braço. Por que eram inseparáveis, e ele não iria roubar a mulher de um amigo.

– Falcão? — repetiu Claire, subitamente interessada. — O nome dele era... é Hermes?

Se ela soubesse que meu irmão o matou...

— Sou péssima com nomes! A idade, minha filha. Pois minha sobrinha era apaixonada por ele. Pense num homem orgulhoso! Nunca nem a olhou. Porque ela já havia dormido com o amigo dele, então, coitadinha... levou fama de mulher perdida. A pior coisa, minha filha. Nunca queira levar fama de perdida. Pois a tolinha era tão apaixonada por ele que aprendeu a atirar flechas somente porque ele gostava de caçar. Hoje ela caça com os irmãos aqui perto, sempre que pode, e o arco dela ainda está ali pendurado.

Só então Claire viu o arco pendurado em um prego na parede da choupana, junto a uma aljava de flechas. Pensou que era uma coincidência fantástica conhecer uma mulher que tinha uma parenta que fora apaixonada por Hermes, mas depois se lembrou de que muitas meninas do reino eram apaixonadas por algum dos homens da corte, e que os recordes de admiradoras pertenciam ao príncipe Miguel, a Tomás — e, posteriormente, ao filho ilegítimo Alonzo— e a Hermes. Suspeitou que metade daquelas histórias eram inventadas.

Já havia se cansado das histórias da velhinha quando surgiu um grupo de pescadores famintos, e a mulher foi preparar um tacho comida para os recém chegados. Claire se sentiu aliviada pelo fim da conversa, mas a demora de Wilhem a angustiava mais, agora que não tinha com o que se distrair. Pelas suas contas, ele já devia ter retornado. A tarde ia embora e mergulhava a praia em sombras. Quando a noite chegou, e os pescadores foram embora, Claire sentiu o coração apertado. Estava prestes a partir para procura-lo quando o viu surgir caminhando lentamente pela areia.

— Wilhem, quase me matou de susto! Por que demorou tanto?

Ele fitava o chão, e ela pressentiu que havia algo de errado, mas somente quando viu suas mãos vazias, e ele ergueu o rosto, ela percebeu do que se tratava.

— Claire... me desculpe...

Tinha uma mancha escura ao redor dos olhos, e havia sangue no seu lábio partido. Claire levou a mão à boca, chocada, se segurando para não desabar em prantos. Wilhem explicou-se, ainda que ela não houvesse perguntado nada.

— Levei as moedas para comprar as balas da arma, e agora estou sem moedas, sem balas e sem a arma. — ele balançou a cabeça, desolado — Acho que só me deixaram ir porque ficaram com pena de mim. Os piratas daqui são malfeitores desgraçados. Sãp bem piores que os de Curvavento.

Os dois largaram-se no banco, desolados. Não havia chance de se vingar, sem aquela arma. Agora eram seus oponentes que possuíam a arma carregada, e eles não tinham nada além de seus corpos, pálidos e cansados alvos. A dura realidade os abateu de tal forma que mal conseguiam conversar sobre o assunto. Acabou para nós. Temos que fugir.

Pediram abrigo à velha, por uma noite. O lugar não era uma hospedaria, mas não podiam passar a noite na areia da praia. A mulher perguntou a Wilhem o que acontecera com o rosto dele, mas ele se limitara a explicar que havia sido roubado — e a idosa contadora de histórias narrou todos os roubos de que já ouvira falar na vida. E, quando finalmente conseguiram dormir, amontoaram-se em uma esteira, cada um em uma ponta, tendo acordado abraçados.

A velha serviu um desjejum de pirão de leite e torradas, e Wilhem mal tocou na comida. Queria partir o quanto antes, de volta ao barco, mesmo que não soubesse o que fariam ou para onde iam depois.

Quando foram embora, Claire recompensou-a com algumas moedas — bem mais do que seria justo, por uma esteira no chão e um pirão aguado e pegajoso. Wilhem estava prestes a recrimina-la na frente da velha, mas deixou para fazê-lo quando já haviam se afastado da cabana o suficiente para não serem ouvidos e nem vistos.

— Claire, quase já não temos dinheiro, e você ainda o desperdiça com essa velha?

— Eu precisava deixar algumas moedas para ela — justificou-se Claire — No meio da noite, me levantei sorrateiramente e acabei pegando uma coisa que lhe pertencia.

E tirou de dentro da sacola um arco com algumas flechas, com um sorriso de triunfo nos lábios.

Notas finais
Embora possa parecer desnecessário para o enredo que a velha desconhecida conte uma história tão longa sobre a corte apenas para que Claire note o arco e a flecha, existe uma razão para essas informações dadas por ela. Gosto de mencionar minhas outras histórias para mostrar a relação entre elas. Tenho histórias que citam Tomás, Hermes e a mãe de Miguel. Inclusive é em homenagem a esse Tomás que foi dado o nome do Tom de "Valsa para Contrabaixo e Piano", já devo ter mencionado isso em alguma nota! Bem, chega de notas, não é? Digam-me o que acharam, e até a próxima!