Uma Balada para Lionor

20 De desculpas e encenações


Notas iniciais
Olá! Estou de volta com mais um capítulo. Um dos capítulos de hoje já havia sido postado erroneamente fora da ordem, em uma ocasião em que resolvi deixar uns cinco capítulos agendados e este acabou sendo postado antes da hora. Resolvi postar dois porque, na época, acabei excluindo uns dois para reorganizar. Prontinho, eis dois capítulos na devida ordem certa. Ao revisar a história, percebo que alguns capítulos podem não ter cenas marcantes e fortes, mas somente conversas e acertos de contas, mas isso acontece porque, ao escrever, não os concebi como episódios. Imaginava que o leitor teria o livro na mão e não precisaria esperar para ler o seguinte. É outro motivo para eu estar postando mais de um hoje: não que eu pense que esse capítulo se trata de um filler, de forma alguma; traz informações importantes, mas não quis terminar o domingo somente com conversas. Continuem acompanhando!

Havia uma pilha de papéis sob a mesa, e Miguel tirou do topo um deles. Era um papel grosso, pardo, e sobre as dobras trazia o selo real da família de Anna Thereza. Leu cuidadosamente, e colocou na pilha ao lado. Outra carta, enrolada e atada com uma fita de seda vermelha, parecia vir das Terras do Sul. Impostos, prestações de contas do Mestre das Moedas. A seguinte era uma carta pessoal, e a outra, uma petição. O rei fazia tudo tão lentamente que Hermes esperou calado por quase uma hora e meia até que tivesse permissão para falar.

– Majestade... receio que Alonzo não possa participar da empreitada de Curvavento a tempo. Aquela garota com quem ele andou se deitando, Caridad... ela está com uma hemorragia séria, corre risco de vid...

– E o que ele tem com isso? Ela é namorada dele, noiva, amante? Que eu saiba, ele continua casado com a condessa. Não tem obrigações com essa garota, a ponto de achar que ficar ao lado dela é mais importante que cumprir uma ordem do rei.

– Ela adoeceu depois de tomar uma poção de ervas para tirar um filho que esperava dele – Hermes retrucou, calmamente – Ele não sabia, sentiu-se culpado, e deseja ficar ao lado dela até que se recupere.

A expressão no rosto de Miguel tornou-se tão sombria que o rapaz pareceu prestes a perder a calma, como quase fizera na noite anterior, mas seu tom de voz não se alterou.

– Meus amigos estão sempre estragando tudo por causa de alguma mulher.

Mas não obrigou Alonzo a deixar a amante enferma e ir para Curvavento. Infelizmente, não conseguia ordenar que ele o fizesse, pois a antiga rainha, mãe de Miguel, falecera ao fazer um aborto. Aquele assunto lhe trazia lembranças ruins.

– Se não posso contar com aqueles em que mais confio, lamento, Hermes, mas terá que ir sozinho a Curvavento.

– Penso que não seria apropriado. Vim solicitar que reconsidere a possibilidade de Nigel e Lionor me acomp...

– Caro amigo, se um rei diz algo e depois desdiz, é um fraco. – Miguel falou, firmemente – Se digo que estão fora da empreitada, não há nada que possam fazer para retornar.

O duque não respondeu, apenas assentiu com a cabeça, um movimento lento e resignado. Miguel estendeu a mão para uma carta que estava na pilha das que já haviam sido abertas, e releu-a lentamente, em silêncio, os lábios se movimentando quase sem que ele percebesse.

– Hermes, recebi um comunicado daquela instituição que Anna Thereza faz cuida. Dizem ter recebido hóspedes suspeitos de delito. Possuíam armas de fogo entre seus objetos pessoais. Armas de fogo, Hermes! Eu mesmo proibi; como podem ter entrado com essas armas em nosso reino? E não eram corsários, eram dois jovens, de quinze ou dezesseis anos, aproximadamente... descrevem suas características físicas, mas é política do abrigo preservar a identidade deles. Quero que leia.

Assim que correu os olhos pela carta, Hermes reconheceu a descrição.

– São os dois irmãos que tentaram matar Nigel e que mantivemos presos. A garota que fez a queixa de estupro à rainha...

– E aqueles que mataram nossos guardas na fortaleza, segundo as investigações que vinham sendo feitas – concluiu Miguel – Até o meio dia, expedirei uma ordem de execução dos dois por assassinato dos membros da guarda. E ordenarei a Nigel e Lionor que os procurem. Não devem estar muito longe daqui, se ainda ontem saíram do Consolo dos Desamparados. Se estavam dormindo num abrigo de indigentes, é porque não devem ter para onde ir.

Hermes franziu as sobrancelhas, pensativo.

– Se me permite, não os considero prontos para isso. Nigel é impulsivo e violento demais, e Lionor ainda é fraca e precisa de uma liderança firme. E são muito passionais quando estão juntos.

– Eu vou dar um jeito nisso – Miguel inclinou-se sobre a mesa para pegar a carta de volta das mãos do Duque – Dar um jeito na impulsividade dele, na fraqueza dela, e nessa paixãozinha cega deles.

A frase soou como uma ameaça velada, mas Hermes não inquiriu a respeito. Parecia pouco interessado no comentário do rei. Estava mais concentrado em seus próprios pensamentos, mas nada disse até que que fosse perguntado sobre o assunto.

– O que sugere, Hermes?

– Nem Lionor e nem Nigel podem enfrentar uma arma de fogo. Eu irei, com dois ou três arqueiros. É suficiente. São apenas dois jovens, e por mais que estejam armados, não são invencíveis.

– Se você for, quem iria a Curvavento? Não acho prudente.

– Curvavento pode esperar uma semana ou duas. Mas, se prefere assim, trate de arranjar um jeito de acabar com a arrogância dele e a passividade dela. Até começo a ter uma ideia.

Dois dias depois, o descampado arenoso que se destacava no meio do jardim do castelo ganhou arquibancadas e enfeites coloridos. Um pequeno torneio seria realizado, com o intuito de chamar a atenção e supostamente angariar recursos para a reconstrução de Curvavento – na realidade, havia ouro suficiente para pagar duas reconstruções, se fosse necessário, mas Miguel sabia que os nobres da corte se sentiriam orgulhosos de serem benfeitores de um vilarejo destruído pela peste, e achava bastante útil ser amado pelo seu povo ajudando a alimentar seu ego. Haviam sido marcados algumas poucas lutas, quase todas a cavalo, meras exibições ensaiadas previamente, com resultados combinados. Músicos entoariam canções heroicas nos intervalos entre as lutas, e carnes seriam servidas com frutas e torradas moídas com torresmos e cebolas fritas.

Alheia a todos os preparativos, Lionor não parecia interessada. Desde a noite em que soubera do que Nigel havia feito com a prisioneira na cela, juntara seus pertences e se dirigira à casa da Condessa. Sua irmã mais velha a recebera sem fazer perguntas, mas Lionor sabia que, se Nina soubesse o que acontecera, sentenciaria “eu avisei que esse Nigel Klein não prestava”. Estava magoada pela falta de consideração do noivo e, para piorar, o rei a havia excluído da empreitada por um motivo banal. Jamais imaginara que ele faria tanta questão de que ela lhe pedisse permissão para sair. Mas não estava arrependida. Apenas se sentia deprimida e injustiçada.

Passava o dia inteiro trancada em casa, ouvindo a irmã tocar harpa, bordando, lendo e escrevendo cartas para os pais e as irmãs mais novas. Sentia tanta falta de treinar que, em certos momentos, saía para os jardins da Casa do Lago, a fim de apunhalar árvores, imaginando um oponente alto e imponente ao desafiá-la. Em um de seus treinos improvisados, ouviu uma voz familiar atrás de si.

– Chega de golpes, ela já está morta.

– Nigel! – ela se virou bruscamente, mas não sabia se estava feliz ou chateada. De qualquer forma, estava satisfeita por ele ter vindo procurá-la.

– Sei que não mereço um beijo.

Ela apertou o punhal com as duas mãos, e ele deu um passo para trás, receoso.

– Não me mate. Nem me mutile. Um dia pode sentir falta.

– Seu idiota... – ela entortou o beiço inferior, e parecia que ia chorar, mas era apenas manha. Quis xingá-lo e bater nele, e se odiou por não conseguir – Suponho que tenha vindo me pedir desculpas.

– É mais ou menos isso. Pensei em te trazer flores, mas trouxe-lhe algo melhor.

E estendeu as mãos vazias. Lionor ergueu as sobrancelhas, sem compreender. Por um instante, pensou que o rapaz faria uma piada digna de Alonzo bêbado: “trouxe-lhe algo melhor que flores: eu mesmo!”, mas aquele tipo de brincadeira não era do feitio de Nigel. Esperou pacientemente o fim do instante de suspense.

– Te trouxe uma boa notícia. O rei está organizando um torneio, e quer que você lute com as espadas.

– Verdade? – ela caiu na armadilha, esqueceu repentina e quase completamente a raiva que sentia dele, e sorriu, levando as duas mãos ao peito. Súbito, recordou-se de algo importante – Mas vocês sempre diziam que não há oponente do meu tamanho e peso...

– Eu lutarei com você. E você ganhará. Mas é apenas uma encenação, e será divulgada como tal, fora da categoria tradicional, para que eu não corra o risco de perder a fama de invicto.

A última frase desanimou Lionor. A graça de participar de uma encenação era justamente fazer o público acreditar que a luta era de verdade. Anunciar sua primeira luta como uma farsa era desmoralizante. Mas, ainda assim, era melhor que nada. Decidiu que precisava retornar ao castelo, e decidiria se perdoaria Nigel ou não enquanto investia sobre ele com sua espada.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Ah, e contrariando aquela velha ordem de capítulos alternados entre Lionor/Nigel e Claire/Wilhem, o próximo capítulo também é sobre Lionor. Acompanharemos o torneio. Continue lendo! Não se esqueçam de me apontar os possíveis erros de digitação, porque algumas coisas podem ter passado despercebidas na edição, e eu não conto com a ajuda de um beta, então já sabem, não é? Pode ir se preparando para o próximo capítulo, pois será postado hoje mesmo.