Notas iniciais
Como prometido, mais um capítulo novo no mesmo dia. Afinal, eu estava realmente devendo. Já devo ter comentado em alguma nota que havia alguma coisa sobre o passado de Nigel que seria revelado em um capítulo posterior, e o capítulo é esse. Se eu tivesse postado as histórias todas na ordem em que as escrevi, essa revelação não seria bombástica, porque seria algo abertamente mencionado na primeira delas. Vou tomar vergonha na cara e publicar a primeira antes do fim de Uma Balada para Lionor; não prometo nada, porque estou sem tempo para revisar tanta coisa, mas acho que será interessante mostrar de onde estes personagens surgiram. Boa leitura.

O grito dos expectadores na arquibancada fez Lionor tremer. Dentro da tenda, enquanto os escudeiros e criados a arrumavam, ela mal ousava se mexer. O frio no estômago a fez desejar correr para debaixo de suas pesadas colchas bordadas, onde os olhares de toda a corte não poderiam deixá-la nervosa. Temia não se lembraria dos passos ensaiados. Nigel dissera-lhe que podiam improvisar; não seria necessário coreografar toda a luta. Ela era suficientemente boa para lutar com ele sem combinarem cada movimento. E ela sairia vencedora, de qualquer maneira. Era somente uma farsa para deixá-la contente.

A pior parte do evento era o momento de aguardar sozinha na tenda, enquanto todos estavam no camarote do rei, e Nigel estava na arena enfrentando um ou outro oponente de verdade. Lionor espiava pelas frestas da tenda, as mãos geladas segurando o tecido de forma a não deixar que as pessoas percebessem a sua presença. Não havia ninguém para encorajá-la enquanto ela sentia cada vez menos vontade de lutar. E pensar que sempre sonhara em participar de um torneio... jamais se sentira tão exposta em toda a sua vida, mesmo antes de ter pisado na arena.

Como ainda dispunha de tempo suficiente antes da sua luta, Lionor correu para a torre, adentrando a latrina com cuidado. Ao sair, viu o jovem rei caminhando tranquilamente pelo salão, com as mãos às costas.

– Está gostando do torneio, Lionor?

– Sim, Majestade – ela tentou parecer o mais cortês possível, receando que, caso se sentisse desrespeitado novamente, ele decidisse simplesmente tirá-la da disputa no último segundo – embora não esteja vendo muita coisa, estou gostando. Venho treinando todos os dias, e esperava ansiosamente este evento.

Com um leve e constante sorriso nos lábios, Miguel parecia mais descontraído naquele dia. Lionor achou-o ainda mais elegante e bonito do que no dia a dia. O rapaz tirou o sobretudo que vestia e arregaçou a manga da camisa; seu braço estava cheio de hematomas, principalmente acima do cotovelo. A pele muito alva estava enegrecida por marcas escuras.

– Sabe o que é isso?

– Nigel – ela respondeu, erguendo o braço e mostrando que tinha uma marca exatamente igual, embora um pouco menor, mas igualmente dolorida.

– Sim, um presente de Nigel Klein para quem ataca sem defender. E, se ele faz isso nos treinos, com uma espada de torneio, nem quero pensar o que fará com uma de verdade.

Lionor engoliu em seco.

– Usaremos espadas de torneio, sem fio.

– Que bom. Se a senhorita tem as mesmas marcas que estão em meu braço, é provável que seja uma lutadora tão medíocre quanto eu. Não nasci para pegar em uma espada. Não gosto e jamais gostei, e treino somente por obrigação. Sinto-me melhor com o arco. Por isso nunca participo de torneios, mesmo se a luta for ensaiada. Espero com sinceridade que seja um pouco melhor que eu, porque senão, nem com muito ensaio conseguirá derrotá-lo.

Os lábios da garota se entreabriram com espanto. Era impressão dela, ou ele acabara de chamá-la de medíocre? Todo o resto de confiança que havia guardado em si se desvanecia ao ouvir aquelas palavras. Não soube o que dizer – e nem precisou, pois o rei continuou.

– Já vi muitos homens arrogantes caírem com o rosto na terra, em torneios como estes. Já vi muitos pequenos erguerem os troféus da vitória com sorrisos de suor e sangue. Mas o normal é que os fortes ganhem e os fracos percam, e é melhor que coloque logo duas coisas nessa sua bela cabeça: a primeira é que você vai ouvir as vozes te exaltando na arquibancada, vai ouvi-los gritar seu nome e vê-los agitando lenços em sua direção, vai amá-los quando ver que eles o amam, mas você não pode esquecer que eles a veneram por causa de uma farsa. Não se esqueça de que não é capaz de derrotar um verdadeiro oponente que treina desde criança, que é mais alto e mais forte, e tem uma melhor estratégia, e está mais acostumado às armas que usa. Não se esqueça de que é uma menina interpretando um papel, em um torneiozinho cujo único intuito é arrecadar dinheiro para uma empreitada para a qual já temos dinheiro.

Lionor o fitava, confusa. Precisava de palavras de incentivo, não daquele tipo de discurso. Forçou-se a falar.

– E a segunda?

– A segunda coisa é: nunca se esqueça de que é uma menina. E meninas não tem lugar nos torneios. Esta é a sua única chance de mostrar seu valor na arena e, portanto, aproveite cada segundo.

– Sim, Majestade – ela fez uma reverência, sem o fitar – Tenho a sua permissão para me retirar?

Ele não conseguiu evitar um sorriso. Acenou com a cabeça, afirmativamente, e esperou até que ela estivesse quase cruzando o umbral da porta para que a chamasse novamente.

– Lionor, quase me esqueço.

A garota virou a cabeça, devagar, mas não voltou para perto do rei. Permaneceu à porta, com um pé no degrau, enquanto ele falava, com uma expressão desafiadora no rosto.

– Dormi com seu noivo.

Ela empalideceu. E acha que este é o momento certo para me contar isso, Majestade? O momento em que estou prestes a entrar na arena? Lionor fechou o punho, enquanto sentia o lábio inferior tremendo. Pensou que ia chorar, que as lágrimas iriam escorrer, humilhantes, pelo seu rosto, mas conseguiu segurá-las. Não entendia o que ele ganhava desestabilizando-a.

– Mais alguma coisa, Majestade?

– Não. Era só isso.

Quando a luta foi anunciada, Lionor sentia-se cega e confusa. Os olhos dos expectadores pareceram zombar dela por um instante. Meninas não tinham lugar em torneio. Era como se fosse uma atração circense. Uma menina, lutando!

A espada caiu sobre ela sem que ela percebesse, e quase não conseguiu parar a lâmina a tempo. O som das lâminas se chocando fez a plateia vibrar. Lionor percebeu que já não lembrava mais a sequência dos golpes, e acabava se esquivando quando Nigel investia contra ela. Em certos momentos, ele lhe lançava um olhar interrogativo, como se quisesse lhe perguntar se ela esquecera o que haviam ensaiado, mas ela o ignorou. Respirou fundo e investiu sobre ele com uma sequência de golpes que não haviam sido combinados, todos desferidos com tamanho vigor e rapidez que Nigel mal conseguia evitar que a lâmina se chocasse contra o seu corpo desprotegido. Se a lâmina tivesse fio, já teria morrido mais de uma vez.

– Está louca? – Ele sussurrou-lhe, quando ela quase o atinge no rosto – Isto é uma simulação, parece que quer me matar...

– Talvez – ela caiu novamente sobre ele, e ouviu alguém gritar o seu nome.

Ele revidou com meia dúzia de golpes, mas parecia ter receio de feri-la. À medida que ele golpeava, ela era obrigada a dar um passo para trás, e mais outro, e mais outro, até que suas costas tocassem a cerca de proteção. Somente neste momento Nigel pareceu se lembrar de que haviam combinado que ela ganharia. Disposto a terminar logo aquela luta, fez um sinal para ela e baixou a guarda. Estava cansado da brincadeira, precisava despachá-la logo, para enfrentar um oponente de verdade. Assim que ela recomeçou a tentar atingi-lo, caindo sobre ele como se quisesse surrá-lo em vez de atingi-lo com a espada, o rapaz fingiu se desequilibrar e caiu, puxando Lionor consigo. A garota soltou um grito agudo, com o susto, e ao estender as mãos à frente de si para se proteger da queda, deixou a espada cair na terra.

– Lerda! – Nigel irritou-se, mas sua voz era baixa para que somente ela o escutasse – Era para fingir que havia me imobilizado!

Lionor mordeu o lábio e fechou o punho. E, quando o soco atingiu o rosto de Nigel, um clamor subiu das arquibancadas. Por pouco o rapaz não se levantou para revidar o golpe; era uma menina, ele não podia esquecer. Uma menina. E, mais que isso, sua noiva. Havia sido uma infeliz ideia colocá-lo para lutar com alguém que ele não podia espancar nem ferir. Quando tentou se levantar e estendeu a mão para empurrá-la para o lado, ela deu-lhe outro soco, muito mais forte do que o esperado. Durante alguns segundos, ele ficou surpreso demais para reagir. No entanto, ao se recuperar do susto, sentou-se e segurou a garota pelos ombros. Sentiu o sangue escorrer de seu nariz até o queixo. As gotas vermelhas pingavam-lhe na camisa enquanto ele pensava o que poderia ser tão engraçado, ao ver, ao fundo, a risada da rainha Anna Thereza no camarote. Tirou Lionor de cima de si com estupidez, e a garota rolou para o lado, na terra ressecada da arena.

– Ficou maluca? – ele se levantou cambaleando, e deixou a arena sem ajudá-la a se levantar, enxugando o sangue do nariz com a manga da camisa branca suja de terra.

A espada de Lionor ainda jazia na terra, ao lado da garota. Ela não se moveu; deixou-se estar sentada sobre a terra, ofegante, sem saber se estava cansada ou somente irritada. Sentia o sangue ferver em suas veias. Quando a tiraram da arena, pelo braço, como se fosse uma criança teimosa, suas roupas estavam cobertas de terra, e havia sangue em seu punho. Limpou-o na barra da bata, enquanto entrava na tenda, ainda escutando os clamores dos expectadores.

A primeira pessoa a bater palmas foi Anna Thereza, com um sorriso vitorioso no rosto. Ninguém ao seu lado a acompanhou além de Oriana. O rei tinha as mãos nas barras de ferro que o separavam da arena; Alonzo, sentado no banco de madeira, sem prestar muita atenção no evento, e Hermes parecia um poste, em pé, sério e imóvel atrás de todos os outros.

– Satisfeita, Alteza? – Miguel perguntou, abraçando a irmã pelas costas.

– O que quer dizer? – Oriana não se virou para olhá-lo.

– Um castigo moral, e não físico, sem sangue, prisões e mutilações, e à altura do delito que ele confessou. Não pense que eu não sei que partiu de você a ideia de persuadir Hermes a sugerir que eu punisse Nigel. Penso que vê-lo apanhar da noiva dois anos mais nova e alguns vinte centímetros menor tenha sido o suficiente para você.

A princesa fitou a arena vazia, pensativa, e não pode evitar um sorriso, como se recordasse a cena.

– Foi fantástico. Deviam fazer uma canção sobre isso.

Notas finais
E então? Um murro foi o bastante ou merecia uma surra bem dada? Voltaremos a Claire e Wilhem no próximo capítulo. Não percam. Até a próxima!