Uma Balada para Lionor
14 De Resgates Fabulosos
Notas iniciais
Ele corria pelas vielas de Curvavento, passando pela frente das casas dos seus velhos conhecidos, cumprimentando com acenos rápidos, e os via acenar de volta com sorrisos. Haviam peixes assados, e bolos recém saídos do forno esfriando nas janelas, galinhas ciscando, crianças se divertindo sob as pedras do calçamento. Havia cores e sons, cheiros e gostos, e tudo lhe era tão familiar. Claire varria a calçada, e quando o avistou, ergueu a cabeça com curiosidade, e em seu belo rosto abriu-se um sorriso que o embriagou. E ele a tomou pela cintura, satisfeito por ela ter finalmente compreendido que não eram irmãos de verdade, e deixasse que ele aproximasse os lábios dos dela, a tomasse pela cintura e a rodasse em seus braços, e era ela leve, apesar dos bracinhos rechonchudos e da cintura larga, era leve como a criancinha doce que havia crescido ao seu lado. Seus cabelos vermelhos misturavam-se aos seus, também, vermelhos, e os dois ouviram um estouro. E outro estouro.
Wilhem abriu os olhos, sentindo-se febril e cansado demais. Queria fechar os olhos e adormecer novamente, para saber se o sonho continuaria do mesmo ponto em que parara, mas o som que o acordara continuava a incomodá-lo. Era uma sucessão de estouros, um vozerio, berros. Alarmado, apoiou-se nos próprios cotovelos e apurou a audição. À meia luz, olhou ao redor. Estava sozinho, como em todas as noites, e gritou pelo guarda que tomava conta da porta da enfermaria, mas não escutou nenhuma resposta. Tampouco viu sinal do cura. Sentou-se com dificuldade na maca. O ferimento ainda lhe causava uma dor que o impedia de fazer movimentos bruscos, e por isso, quando tentou descer e colocar os pés no chão, o fez com movimentos extremamente lentos.
Quase soltou um grito de dor quando a porta da enfermaria se abriu com estrondo e ele ergueu os braços repentinamente, um gesto de rendição que sempre ensaiara, mas que nunca havia precisado usar. Viu um homem estranho, com brincos nas orelhas e cicatrizes no rosto, e um lenço vermelho amarrado na cintura fazendo as vezes de cinto, adentrar o local com uma tocha em uma mão e uma reluzente arma de fogo na outra. E, atrás dele, vinha uma garota. A luz da tocha iluminou seus cabelos ruivos.
– Claire! – Wilhem sentiu um aperto no peito, mas teve vergonha de chorar. Olhava para ela, para o desconhecido, e de novo para ela – O que... eu não estou entendendo...
– Ele está me ajudando a te resgatar – ela resumiu. – É Baltazar, o corsário.
Correu para ele, dando-lhe um abraço apertado. Ele fez uma careta de dor sem que Claire percebesse, e notou que a garota também trazia uma arma. O pirata bateu palmas.
– Que coisa belíssima, o amor fraternal. Tenho dezesseis irmãos, e nenhum deles nunca esteve preso. E são todos piratas, até as mulheres. E veja esse menino molenga; o que pode ter feito para merecer tal castigo?
– Eu tentei matar um homem da guarda pessoal do rei. – Wilhem afastou Claire de si delicadamente, segurando-a pelos ombros.
Baltazar pareceu não acreditar, e deu um sorriso amarelo.
– Pode andar, companheiro? Parece ferido.
– Vou tentar.
Foi preciso que Baltazar ajudasse Wilhem a sair da enfermaria e a descer as escadas da fortaleza, passando pelos corpos dos guardas mortos em poças de sangue. A descida foi lenta e cheia de pausas pois, pelo caminho, iam saqueando todos os cadáveres, tirando-lhes as espadas e punhais. Um massacre. Wilhem sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Como Claire conseguira se envolver e negociar com um homem violento daqueles?
Ao fim da última escada, pouco antes de cruzarem o corredor em direção à saída, Wilhem parou de caminhar e pediu que Baltazar o largasse. Encostou-se à parede e estendeu a mão a Claire.
– É uma arma de verdade! – ele estava espantado – Mas Claire... sabe como atirar?
– Baltazar me mostrou – ela entregou ao irmão de criação o objeto, para que ele olhasse de perto – Não é muito diferente das espingardas que a gente usava para caçar.
Wilhem fechou os dedos em volta do metal frio. Uma arma de verdade, e carregada. Percebeu que nenhuma bala havia sido disparada e, portanto, todas as mortes haviam sido obra do pirata.
– Obrigado, senhor Baltazar – o garoto inclinou a cabeça.
O pirata fez uma careta de desprezo, como se não se importasse com agradecimentos. Deu-lhe as costas e caminhou em direção à porta, resmungando.
– Obrigado de nada me serve. O que tem valor pra mim é dinheiro no meu bolso e meu pau enfiado em uma virgem.
O grito agudo de Claire ecoou pelas paredes da fortaleza quando, em um brevíssimo instante, Wilhem ergueu a mão que carregava a arma e atirou na nuca do pirata. O homem nem mesmo teve tempo ou forças para se virar e ver qual dos dois havia atirado; caiu pesadamente no chão, o sangue empapando-lhe os cabelos grisalhos, e os olhos arregalados na direção do piso.
– Wilhem, o que fez! – Claire levou as mãos ao rosto – Precisávamos dele para sair daqui. Não posso carregar você junto com as espadas que saqueamos.
O rosto do garoto estava transtornado.
– Não, Claire, só precisávamos dele para o resgate, e o resgate está feito. Posso caminhar, apesar da dificuldade e da dor. Consegue carregar o saque?
Ela assentiu, com um leve movimento de cabeça. Agachou-se para tirar a arma dos dedos retorcidos do pirata morto, e a juntou ao saque. Era uma sacola demasiadamente pesada, mas Wilhem estava ferido, e não podia ajudá-la. Tinha pena dele, cada passo curto e lento impulsionando-o para a frente. Desejou ser forte o suficiente para carregá-lo nos braços.
– Oh, Wilhem, eu tive tanto medo de não mais te ver – ela passou por mais um guarda morto na saída da fortaleza. Sentiu-se aliviada quando conseguiram sair do local sem encontrar nenhum guarda vivo para interceptar-lhes o caminho.
– Eu também tive medo – ele concordou, mas havia mágoa em sua voz – Foi embora sem se despedir, Claire. Passei dias pensando se estaria brava comigo... arrependida do nosso plano... não sei...
– Eu quis me despedir, mas o conde não deixou. Sabe que eu jamais o deixaria sozinho, ainda mais ferido. Falando em ferimento, já deveria estar bem melhor, não acha?
Atravessaram o pátio externo da fortaleza, bem como a grama verde que crescia em volta do lugar, para alcançarem o estreito caminho que levava à hospedaria. Faltava horas para amanhecer, o céu ainda era negro como breu. A única luz que possuíam era a lamparina que Wilhem arrancara da parede ao sair.
– Tentei fugir e Nigel Klein me esmurrou no local do ferimento – a lembrança da dor fez com que seus dedos se fechassem com mais força em volta da lamparina – Aquele filho de uma...
– Ele tentou abusar de mim.
– Ele o que? – Wilhem parou de caminhar, sentindo como se um soco o tivesse atingido novamente. Encostou uma das mãos em uma árvore.
Claire contou o que acontecera, e o garoto teve um ataque de fúria. Depois de praguejar incessantemente por alguns minutos, com a voz muito mais alta do que era necessário, atirou a lamparina no chão, e o azeite foi derramado na terra. Estavam às escuras, mas um tênue luar prateado permitia que vissem o rosto um do outro.
– Claire, eu juro que não descansarei enquanto não matar esse desgraçado
– Precisa descansar primeiro, e depois matá-lo. – Claire lembrou-lhe – precisa estar forte e curado para enfrentá-los. E deve começar pelo duque. Não deve esquecer de que foi ele que ordenou o incêndio do nosso lar, e ele que te enfiou a lança.
Mas não foi ele que abusou de você, ele pensou, a raiva consumindo-o, impedindo-o de pensar racionalmente. Claire colocou o braço sobre o seu ombro e guiou-o pela escuridão, lentamente, pelo caminho que ela já memorizara. Levaram o dobro do tempo que a menina costumava gastar para fazer o trajeto entre a fortaleza e a estalagem e, quando finalmente chegaram, escorregaram silenciosamente pelos fundos. Todas as luzes estavam apagadas, mas uma delas se acendeu quando subiam a escada.
– Não é permitido às moças que tragam rapazes para os quartos – bradou o senhorio, olhando para Claire como se houvesse acabado de descobrir que ela era uma prostituta.
A garota cruzou os braços e se virou, com ar desafiador.
– Ele é meu irmão. Pode ver pela cor dos cabelos. E pagarei pela estadia dele, então, se ele não puder ficar no meu quarto, gostaria que reservasse para ele aquele quarto vago no fim do corredor.
O velho soltou um grunhido. A esposa surgiu atrás dele, com ar ganancioso. Preferia permitir a estadia a ter que ocupar mais um quarto com uma única pessoa.
– Pode ficar, pode ficar. Acertaremos o preço pela manhã. Servimos refeições, ouviu, rapaz? Uma pechincha.
Wilhem não estava interessado em refeições, ou em pechinchas. Tudo que queria era descansar e curar a ferida em seu flanco e em sua alma. Claire ajudou-o a deitar, e contou-lhe como planejara o resgate, como arranjara dinheiro para comprar a arma que levava e como convencera Baltazar a ajudá-la. Ele ouviu somente metade da história, antes de adormecer profundamente, exausto.
Quando acordou, a hora do almoço já se aproximava. Estava sozinho, e não reconheceu o quarto em que estava. Levou alguns instantes para recordar os fatos da noite anterior, e sentiu-se aliviado e agradecido por não estar mais preso. Claire havia deixado para ele alguns biscoitos de milho verde, e uma jarra de água fresca, mas ele não sentia fome. Levantou a camisa e viu as manchas negras, e algumas até mesmo esverdeadas, ao redor do curativo. Sem as poções que lhe aliviavam as dores, mal conseguia se levantar.
– Claire... – ele afundou no colchão, com um suspiro. Precisava dela.
A garota chegou meia hora mais tarde, com duas sacola nas mãos. Quando largou a maior delas no chão, ouviu-se um tilintar de metal.
– Desculpe-me a demora, Wilhem! – ela abriu a sacola menor – Trouxe ataduras para trocar o seu curativo, unguentos e uma poção para a dor. Trouxe também algumas moedas das espadas que vendi, e trouxe de volta aquelas que não foram compradas. O movimento no mercado estava fraco, e não há muitas pessoas interessadas em espadas...
– Claire! – ele sentou-se na cama repentinamente, alarmado, e sentiu uma dor fina como se a lança o estivesse espetando novamente. Respirou fundo para se recompor – Ninguém percebeu que haviam sido roubadas dos guardas da fortaleza?
– Claro que não! Como saberiam? São espadas como outras quaisquer... e ia vender para os corsários também, mas é uma caminhada muito longa.
Levantou a saia e tirou de baixo das anáguas o dinheiro que ganhara com a venda da parte do saque e, em seguida, lavou as mãos em uma bacia d’água a fim de começar a cuidar do ferimento do garoto. Assim que se aproximou, ele agarrou-lhe o pulso.
– Escute-me, temos que ir embora daqui. Os outros guardas que vierem para a troca de turno saberão que fomos nós... e não pode voltar a ver os corsários, se eles souberem que matei Baltazar irão lhe fazer mal. Temos que pegar todos os nossos pertences e partir, o mais rápido possível.
– Mas Wilhem, você está ferido. E, além disso, para onde iríamos?
– Para a corte. – ele largou o pulso dela, devagar — Encontrar as pessoas que temos que matar.
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