Uma Balada para Lionor
15 Das mensagens
Notas iniciais
O vestido de Lionor arrastava-se atrás de si pelos degraus, enquanto a garota descia as escadas atrás da princesa Oriana e suas damas. Segurava o tecido com as duas mãos, para não tropeçar; usara aquele tipo de traje em sua residência por praticamente uma década e meia; mas, depois que se acostumara aos vestidos leves e às calças que usava para montar, já não se lembrava quão pesadas eram as saias com várias camadas de tecido e anáguas, e de como eram duros os espartilhos que rodeavam sua cintura já tão estreita. Empoara o rosto e pigmentara as bochechas para que parecesse corada pelo sol. Os cabelos compridos haviam sido cacheados a ferro, mas a maioria dos cachos já se desmanchava. Nigel dissera mais cedo que ela estava engraçada. E rira. E ela se chateara com o comentário. A garota tinha consciência de estar elegante, fina e adequada ao ambiente do castelo, e não tinha culpa de que as mulheres na terra de onde Nigel viera andavam com os cabelos soltos e despenteados pelo vento e o rosto lavado, e vestiam-se mais como guerreiros que como damas. Por que não atravessa o oceano de volta e manda buscar uma noiva menos fresca e mais parecida com um bárbaro? E, aparentemente, o comentário o deixara aborrecido. Agora não o via em lugar nenhum, e nem mesmo sabia do seu paradeiro. Alguém lhe dissera que os rapazes discutiram pela manhã com o rei sobre a reconstrução de Curvavento, e ela se sentira deixada de lado, mas aquilo já não tinha mais importância. Devia saber, desde o princípio, que ninguém estava interessado no que uma garotinha teria a dizer em um Conselho.
A criada derramou leite quente em sua caneca, e serviu-lhe compotas de doces com fatias de bolo, e pequenos pães em forma de lua crescente. Seu lanche da tarde mais parecia um desjejum, mas ela não se importou. Não tinha fome.
A rainha se juntou ao grupo alguns minutos mais tarde. Anna Thereza vestia-se com trajes na mesma cor que os de Lionor e, achou divertida a coincidência.
– Ainda bem que não tem cabelos loiros também – gracejou Oriana – Senão poderiam confundi-la com a rainha.
– Acho que não... jamais terei a beleza e a graça de Vossa Majestade – Lionor quis parecer gentil. – Ademais, é apenas um tecido parecido...
Um mensageiro se aproximou da mesa, extremamente melindroso. Era somente um garoto, da idade da princesa, com o rosto marcado por espinhas e dentes tortos que lhe obrigavam a manter a boca constantemente aberta. Trazia dois papéis pardos enrolados e atados com uma fita vermelha.
– Majestade. Alteza. Senhora. Uma mensagem de Curvavento. Para o rei, outra para o duque e sua comitiva.
A rainha ergueu as sobrancelhas, e olhou ao redor de si. Por um momento, Lionor pensou que ela diria “está vendo algum rei ou duque aqui, garoto?” Mas Anna Thereza foi gentil e delicada, como de costume.
– E por que não a entregou pessoalmente ao rei, senhor?
– Bem... fui ao encontro de Sua Majestade, mas ele mandou dizer que estava descansando e não queria ser incomodado. Procurei o Duque de Curvavento, mas fui informado de que ele foi visitar o ferreiro. Então... fui instruído a procurar a sua comitiva.
Por comitiva subentendia-se Nigel e Lionor. Sentindo-se como uma última alternativa, a garota não estendeu a mão para pegar o pedaço do papel. Entrelaçou os dedos e descansou as mãos sobre a mesa.
– E Nigel Klein? Por que não entregou a mensagem a ele?
– Ele também mandou dizer que estava descansando e que não queria ser incomodado? – Oriana indagou, com um ar sarcástico. Estava claro que a princesa jamais gostara de Nigel, e não perdia a oportunidade de zombar dele.
– Deve procurá-lo para entregar a mensagem – Sugeriu Lionor. Lembrou-se que Nigel jamais se preocupara em aprender a ler na língua daquele reino, mas achou que isso não tinha a menor importância; ele poderia pedir que o garoto lesse para ele em voz alta.
O mensageiro fez uma reverência e se afastou. Lionor sentia uma certa curiosidade de saber o que dizia a mensagem, mas ainda estava aborrecida por lembrar que havia sido deixada de fora das decisões no conselho. Ao inferno com aquelas mensagens! Tranquilamente, puxou assunto sobre qualquer bobagem, enquanto passava geleia em seus pãezinhos em forma de meia lua. Se esperavam dela que fosse apenas uma garotinha, ela o seria, e deixaria os assuntos do reino para que os rapazes se preocupassem.
– Daqui a alguns dias teremos o “Pés Descalços” – lembrou a princesa. O “Pés Descalços” era um festival anual durante qual todo o reino, incluindo a família real, vestia-se com roupas humildes. Os abastados faziam obras de caridade, os mais pobres os recebiam – Poderia vir conosco esse ano, Lionor, ao lado da rainha e ao meu lado.
A garota sorriu, quase involuntariamente. Caminhar ao lado da família real era uma honra tão grande, que mal sabia como agradecer. Antes que abrisse a boca, a rainha acrescentou.
– Poderia marchar na nossa escolta. Sei que Sua Majestade jamais permitiria uma mulher na Guarda real, mas acredito que seja suficientemente brava e valorosa para nos escoltar com alguns de nossos melhores homens.
– Ah... – ela não conseguiu esconder a decepção. Devia saber, jamais seria amiga delas como sua irmã havia sido. Sua irmã era Condessa, era nobre, e havia sido esposa do primo do rei. E ela era somente... era nada, apenas. Nem ela mesma sabia se definir. – Será uma honra indescritível fazer parte da Escolta de Vossa Majestade e de Vossa Alteza.
Não se passou mais de meia hora até que Miguel surgisse, e se aproximasse da mesa, com passos largos e rápidos, o papel amarrotado no punho fechado. Atrás dele, vinha Nigel, segurando uma segunda carta nas mãos.
– Lionor, onde está Hermes?
A garota ergueu os olhos, surpresa por ver que o rei se dirigira a ela, em vez da princesa, que era quem deveria saber do paradeiro do próprio marido.
– Majestade. Hermes foi até o ferreiro, buscar as ferraduras das nossas montarias. – lançou um olhar interrogativo a Nigel – O que aconteceu?
– Nossos guardas que ficaram na fortaleza foram assassinados – o rapaz respondeu – Há quem diga que foi obra dos piratas.
– É grave, muito grave – Miguel pôs a mão no queixo, preocupado – Hermes tinha um acerto com os corsários; se algum deles saqueou em terra firme, não vamos deixar que fiquem sem o merecido castigo.
Anna Thereza moveu-se na cadeira desconfortavelmente, descansando a faca na bandeja do queijo e encarando o rei com uma certa insolência no olhar.
– É curioso que, antes de saber que a mensagem era importante, havia mandado dizer que não queria ser incomodado.
Ele levantou os ombros, com atrevimento. Pela expressão em seu rosto, não achava que devia-lhe explicações ou justificativas.
Lionor mal havia terminado de comer os pães de meia lua que colocara no prato, e teve que abandoná-los para seguir Nigel e o rei. Os dois caminhavam apressadamente, e ela mal conseguia acompanhá-los com o vestido pesado e longo arrastando-se na grama. Atravessaram o gramado até a torre da guarda, e durante todo o trajeto, a garota esperou que Nigel segurasse sua mão, mas ele parecia preocupado demais para se lembrar de lhe dar atenção.
– E o prisioneiro? – ela perguntou, para quebrar o silêncio. Queria pedir para ler a carta, mas temeu ser inconveniente demais.
Foi o rei quem respondeu.
– A carta não o menciona. Não acho que tenha morrido; deve ter fugido, com a confusão. – Miguel não parecia dar importância ao fato – Não era um criminoso perigoso, era somente um moleque atrevido.
– É... não é perigoso – Nigel resmungou, fitando as ataduras na mão esquerda – De qualquer modo, o corpo de um pirata estava caído à entrada da fortaleza com um ferimento na cabeça. Um ferimento causado por arma de fogo.
A garota ficou alarmada. Não lhe tinham dito que era proibido por decreto o uso de armas e pólvora? Sentiu um arrepio ao pensar que o ataque poderia ter acontecido quando eles ainda estavam na fortaleza. Juntou as mãos em um agradecimento silencioso aos céus.
Mais tarde, quando se reuniram com Hermes, o rei exigiu que ele negasse o direito dos corsários de circularem com suas mercadorias em Curvavento. O Duque mal conseguia ler a carta enquanto Miguel falava sem parar. Esperou pacientemente que o rei se calasse e disse-lhe.
– Podemos tornar ilegal que circulem pelo norte, mas jamais conseguirei evitar que circulem e negociem em nossas terras, a não ser que eu coloque um homem armado a cada dez metros nas margens do Água de Carpas. Os corsários entram pela parte mais larga do rio, com navios imponentes e grande número de homens. Acha que uma lei pode pará-los?
Sentindo-se desafiado, o rei cruzou os braços.
– Alguma sugestão, caro amigo?
– Pelo que li nesta carta, não houve testemunhas dos assassinatos. O cura havia retornado para casa, e na Fortaleza estavam somente os guardas e o prisioneiro. Então como podemos certeza de que foram mesmo os cor...
– Porque usaram pólvora – interrompeu Nigel. – E um homem com uma espada ou um machado ou o que quer que seja jamais conseguirá se defender contra a pólvora. Se os corsários caírem sobre nós, nos massacrarão, mesmo em quantidade desfavorável.
Lionor apenas os observava conversar. Nada entendia de estratégias de segurança, e receava acabar falando alguma bobagem. Mas, naquele momento, após um instante de hesitação, decidiu dar a sua opinião.
– Deveria liberar o uso da pólvora – disse repentinamente, e sentiu os olhares dos rapazes sobre si, todos muito surpresos por vê-la se intrometendo. Lionor não se intimidou – E devia armar seus homens e treiná-los para defender as nossas fronteiras fluviais...
O rei foi tão incisivo que a garota até mesmo se arrependeu de ter opinado.
– Não. Jamais vou colocar armas de malfeitores nas mãos dos meus homens. Quero os corsários longe da terra firme. Quem quiser negociar com eles, que pegue um maldito barco e compre e venda com eles na margem oposta do trecho mais largo do Água de Carpas, fora do nosso reino, lá nas praias do Mirante. Quero homens vigiando a praia e o dobro deles na fortaleza. Tudo deve estar em ordem antes que vocês três retornem para Curvavento – e, voltando-se para Nigel – E, quanto ao fugitivo, tenho mais com que me preocupar do que com um menino de quinze anos ferido à solta por aí. É provável que tenha morrido antes de conseguir chegar muito longe. E o assunto está encerrado.
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