Verônica estava preocupada. Havia saído do bordel, mas no fundo, sabia que seria difícil se virar sozinha naquele lugar tão desconhecido que era a cidade. No entanto, a raiva que ela estava sentindo de Jonas era forte demais para ela ainda cogitar voltar atrás. Suspirou. “Vamos lá, Verônica. Você consegue”, pensou ela. Sozinha, ela caminhava um tanto insegura, mas não daria o braço a torcer. Aliás, já era tarde demais. Já havia saído da casa das mulheres e não voltaria para lá, correndo o risco de ser chamada de louca ou desequilibrada. Continuaria caminhando sozinha, nem que pra isso tivesse que enfrentar perigos. Ela ouviu um barulho, de repente. Pensou que fosse alguém saindo do matagal ali perto, mas era apenas um animal qualquer. Verônica suspirou outra vez. Achava que estava voltando para o centro da cidade, mas na realidade, não tinha muita certeza disso. Precisava pedir informação, alguma que fosse, mas era impressionante como não aparecia sequer uma alma viva naquela estrada. Parando, ela olhou para trás. – E agora? – pensou ela alto – o que eu faço? Sigo em frente ou volto trás para tentar pedir informação? Acho que viemos por aqui, mas não tenho certeza... – pensou ela, quando, de repente, ouviu mais um barulho vindo do meio do matagal. Dessa vez parecia, realmente, passos de gente. Verônica olhou em volta, assustada. Teve a impressão que viu vultos. Um medo repentino começou a querer tomar conta dela, que ficou paralisada, até que avistou alguém bem conhecido se aproximando. Era Jonas, que vinha ao lado do amigo.

– Ah, não... – resmungou ela, voltando a sentir uma profunda raiva, e então, começou a apressar os passos. Eles, então, correram para alcançá-la. Ela bem que tentou ir mais depressa, mas quando eles chegaram perto, ela percebeu que foi tudo em vão.

– Pra onde está indo?– perguntou Jonas, um pouco ofegante por ter corrido.

– O que você quer? – respondeu ela, ríspida.

– Aonde pensa que está indo? – continuou ele.

– Não é da sua conta.

Silêncio.

– Se for pra cidade – continuou ele, ainda esbaforido – está indo pro lado errado.

– É mesmo? – falou Verônica, evitando fitá-lo – mas não me lembro de ter peço a sua opinião.

– Princesa... – falou o amigo de Jonas, sendo logo interrompido por ela também.

– Me deixem em paz, vocês dois – respondeu ela – eu sei me cuidar sozinha. Obrigada.

– Não é o que parece – respondeu Jonas — sabe — continuou ele, procurando as palavras certas – eu sei que você está com raiva de mim... mas escuta, eu só quero ajudar.

– E mesmo? — respondeu ela — então por que não me faz o favor e some da minha frente? Seria muito melhor.

– E como você chegaria na cidade e encontraria o trouxa do seu príncipe sem a nossa ajuda? – falou Jonas.

– Aceite, alteza – completou Brian – você precisa da gente.

– Me deixem em paz – insistiu ela. O orgulho falava mais alto. Ela já havia jurado pra si mesma que não se humilharia mais pra ele.

– Tá bom – respondeu Jonas, parando no caminho, com as mãos na cintura – vai ficar teimando? Então quer saber? Que se dane. Que se dane você e aquele seu almofadinha francês.

– Ótimo – respondeu ela, voltando-se pra ele, e teve que se controlar para não esbofeteá-lo outra vez – e que se dane você também, seu grosso! – e voltou a seguir – você é o homem mais grosso que eu já conheci, sabia? Não sei o que aquela Sandra viu em você...

Brian divertiu-se, pondo a mão na boca para não rir. Jonas, então, fez caras e bocas, até que xingou alguns palavrões baixo.

– É, man – falou Brian, parando ao lado do amigo – tá difícil, hein... o que você fez com a princesa deve ter sido mesmo grave — zombou.

Jonas, então, por um impulso, voltou a perseguir Verônica, e antes que ela pudesse dizer algo ou mesmo reagir, ele a segurou com firmeza e a jogou nos ombros.

– Ei – gritou ela, revoltada – me solta! Quem você pensa que é? Me ponha no chão agora, seu maluco! Tá pensando que eu sou o quê?

– Se você gosta de teimar – comentou Jonas, ignorando os gritos dela – eu gosto mais ainda.

– Eu não estou brincando, Jonas Marra – gritou ela, dando-lhe tapas – me põe no chão agora ou eu...

– Ou você vai fazer o quê? – zombou ele – vai me bater? Fique à vontade.

– Ridículo! – gritou ela – como você é ridículo! Você não tem noção de como é estúpido e ridículo! Parece um garoto de 11 anos.

– Bom saber que eu pareço ter 11 anos – respondeu ele – pois garotos com 11 anos são inconsequentes.

– Eu vou gritar! – ameaçou ela – vou fazer o maior escândalo aqui se você não me soltar! Me solta agora!

– Pode gritar, princesa – zombou ele – só não sei se vão te ouvir.

– Socorro!!! – gritou ela.

– Alteza, você vai nos agradecer depois... – falou Brian, tentando apaziguar.

– Vai pro inferno você também! – gritou ela – você e esse seu amigo estúpido!

– Ok – continuou o guru, divertido – eu só acho que vocês podem conversar civilizadamente...

– Civilizadamente? – zombou ela – desde quando o seu amiguinho é civilizado? — e voltando-se pra Jonas — me ponha no chão agora! Não estou brincando!

– É mesmo? – falou Jonas, divertido – e eu achando que estava sendo gentil, te carregando. Está certo. Então eu te ponho no chão e a gente conversa.

– Eu agradeceria – respondeu ela, cansada de insistir.

Jonas, então, a pôs de volta no chão. Verônica tratou logo de se ajeitar.

– Pronto – falou ele – agora vamos conversar...

Verônica deu-lhe uma bofetada. Jonas passou a mão no rosto, antes de fitá-la, chocado.

– É assim que você quer conversar civilizadamente? – perguntou ele – depois eu que não sou o civilizado. Tá vendo, Brian?

– Oh, man – respondeu o guru, se afastando – me deixe fora dessa. Eu vou deixar vocês conversando... vou ficar ali mais pra trás um pouco... qualquer coisa, me gritem.

Silêncio.

Quando Brian se afastou, Verônica e Jonas se encararam.

– Você é um grosso, sabia? – falou ela, com os braços cruzados – o que quer de mim agora? Veio pedir desculpas e me dizer o quanto foi idiota?

– Foi a segunda bofetada que você me deu hoje – respondeu ele, ignorando a pergunta dela.

– Você mereceu. Essa e a outra também.

– Tá – riu ele – entendi.

– O que você quer, depois de me usar e humilhar?

– Conversar. Será que podemos conversar um pouco? De preferência, civilizadamente, como o Brian mesmo disse?

– Estamos conversando. Mas eu não estou interessada em ouvir o que você tem a me dizer.

– Pelo amor de Deus, será que você pode abaixar um pouco a guarda e me escutar? É assim que as pessoas conversam lá no castelo?

– A gente não tem nada pra falar. E eu no castelo não converso com quem eu não quero.

Jonas, então, passou as duas mãos no rosto, tentando manter a calma e procurando as palavras certas para dizer...

– Tá bom, tá bom, me desculpe, ok? Eu sei que fui um grande idiota, que falei coisas que não devia. Satisfeita?

– Eu não quero ouvir as suas explicações. Já disse.

Silêncio.

– Sabe o que é? – continuou ele, pensando numa forma de começar a falar – é que eu sou um ogro, Verônica. Pronto. Sou mesmo tudo aquilo que você falou... um grosso, estúpido... um cretino, idiota. Mas é que eu sou um cara das ruas, sabe? Sei lá... eu sempre me virei sozinho nessa minha bosta de vida... sempre tive que dar duro bem cedo, sem ter ninguém que me orientasse. Meus pais morreram muito cedo e eu... eu tive que dar a cara a tapa e aprender a me virar... também não fui criado com essas frescuras, entende? Não tive infância... essas coisas normais que as pessoas têm... o carinho, essas coisas, eu só senti quando comecei a andar com as mulheres do bordel... e eu ainda era muleque... mas o que eu quero te dizer é que... eu sou um grosso, sim, mas não é de propósito... eu não sou um cara ruim... tenho meus defeitos, mas não sou mau... mas também não sou esse homem maravilhoso que as mulheres idealizam... que você, provavelmente, idealiza... como esse príncipe aí francês, por exemplo... eu sou diferente de você, que viveu num castelo, rodeada de cuidados e carinho, cheia de mimos... eu sou rude, você é toda delicada; eu sou largado, você é toda linda; eu sou um pobretão, você é uma... uma princesa...bom, acho que é isso.

Por um momento, Verônica ficou sensibilizada com tudo aquilo que escutava dele, quase se emocionou... mas não podia se deixar envolver. Não outra vez. Então, de repente, surgiu uma charrete...

– Veroquinha – gritou uma voz familiar. Era Barata, que logo depois desceu e se aproximou deles, irreverente como ele só.

– Esse sujeito está te perturbando? – perguntou o comerciante, se aproximando – espero que não...

– Não, Barata – respondeu ela – está tudo bem. Estamos apenas conversando.

– Tem certeza? – perguntou o grandão, encarando Jonas. – porque senão, eu...

– Senão você vai fazer o quê, gordão? – respondeu Jonas, encarando o outro – ninguém te chamou na conversa. Dá o fora daqui.

– Quem é gordão? – perguntou Barata, puxando uma faca do bolso, e apontando-a para Jonas, que logo puxou uma espada da cintura para se defender também.

– Ei, parem vocês dois – falou Verônica, tentando apaziguar – parem com isso agora.

Enquanto um encarava o outro, e ameaçava, Brian se aproximou.

– Eu ouvi gritos – falou o guru – tudo bem aqui?

– Tudo bem, dude – respondeu Jonas, com os olhos fitos no rival – só se prepare para enterrar um elefante.

– Jonas, pare com isso – pediu Verônica, ficando assustada.

– Foi ele que começou – respondeu ele, com a espada apontada para o outro.

– Você provocou – respondeu ela, e virando-se para Barata – Barata, abaixe essa faca, por favor.

– Lamento, Veroquinha, mas esse tolo vai aprender a me respeitar.

– Tolo? – repetiu Jonas, rindo – pode vir. Estou esperando.

– Jonas, por favor – continuou Verônica – pare com isso agora. Eu aceito ir com você. Pronto.

– Manda ele guardar essa faca primeiro, aí eu guardo a espada – respondeu Jonas – foi ele que puxou a faca primeiro pra mim, vai ter que abaixá-la primeiro também.

Barata, então, encarou Jonas. Jonas encarou Barata... até que o comerciante pensou melhor e resolveu puxar a faca de volta. Jonas, ainda desconfiado, abaixou a espada lentamente.

– Isso – comentou Verônica – bem melhor.

– Certo – falou Barata, guardando a faca no bolso – não vamos brigar. Vamos selar a paz então. Lutas não valem a pena.

Jonas, então, guardou a espada de volta.

– Haroldo Barata – falou o comerciante, esticando a mão para cumprimentar o rival – às ordens.

– Jonas Marra – disse ele, ao apertar a mão do outro – e esse é Brian.

– Brian Benson – completou o guru.

– Pra onde vocês estão indo? – quis saber Barata – talvez eu possa ajudar. A minha charretinha não está nos seus melhores dias, mas quem sabe a gente ainda não vive uma grande aventura com ela?

– Barata, eu preciso voltar à cidade – respondeu Verônica – esses dois eu não sei o que vão fazer da vida...

Enquanto eles conversavam, algo chamou a atenção de Jonas, de repente. Era um mapa dentro da charrete do comerciante.

– É um mapa? Que mapa é esse? – perguntou Jonas, intrigado. Todos olharam.

– Um mapa comum – respondeu Barata – comprei no Devendra Ananda. Já ouviram falar nele? Ele tem um monte desses lá onde vive.

– Já ouvimos falar dele – respondeu Brian, e fitando Jonas – está pensando no que eu estou pensando, man?

– Yeah, dude, claro que estou.

Verônica e Barata ficaram sem entender o que eles diziam.

– Onde vive esse homem? – perguntou Jonas para Barata – você pode nos levar até ele?

– Claro – respondeu o comerciante – mas talvez demore umas cinco ou seis horas para chegar...

Quando os quatro seguiram na charrete, o rapaz de capuz, que estava escondido, saiu do matagal e ficou observando-os partirem. Ele esteve ali dentro do mato o tempo todo e pôde ouvir toda a conversa que foi falada ali anteriormente. Então, aquela, realmente, era a princesa que ele procurava. E ele quase a pegou, se não fosse o sujeito da espada aparecer. Bom, fora a segunda vez que alguém aparecia para atrapalhar os seus planos, mas ele continuaria na cola do grupo e pegaria aquela princesa assim que tivesse oportunidade. Herval esperava por isso e ele não poderia decepcioná-lo. Não agora, que precisava da confiança dele...

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