Alvo e Cecilia sentaram na grama, em frente ao castelo, no mesmo lugar em que Scorpius tinha confessado que amava Rose. A aula tinha acabado, e naquele dia eram só os dois, já que eram uma dupla no torneio e Scorpius estava no jogo de quadribol da Sonserina contra a Grifinória. Cecilia não tinha falado nada o dia todo. Em seus olhos havia alguma tristeza desconhecida, misteriosa. Alvo começou a ficar um pouco nervoso. Ultimamente, nem precisava de um silencio constrangedor para se sentir assim. A própria presença de Cecilia se tornara esmagadora. Queria ter coragem de esticar o braço e tocar no ombro descoberto dela, sentir a sua pele, pega-la em seus braços, abraça-la, e....Mas não podia. Não conseguia.

— Cecilia, me desculpe.

As palavras dele, tão dolorosamente sinceras, pegaram-na desprevenida. Não tinha se esquecido do acidente na torre de astronomia, mas para ela já estava tudo perdoado.

— Obrigada Alvo, isso é muito gentil da sua parte. Está tudo bem – Cece deu um pequeno sorriso. Sua cabeça parecia estar muito longe

— Você está bem?

— Eu, eu... – Ela deu um longo suspiro e se deitou na grama. Al se deitou com ela – Você foi feliz aqui Al?

— Não – não havia rancor na sua voz, só tristeza – Se eu não tivesse Scorpius eu provavelmente já teria fugido ou algo assim – Ele não acreditava nas palavras que saiam da sua boca. Nunca tinha falado isso para ninguém. Mas parecia tão natural, tão verdadeiro, em um sábado frio de outono de céu tão azul.

— E tem toda essa história, com a minha família, quer dizer, com a nossa história, sobre o que meus pais e meus tios fizeram...é difícil, muito, muito, muito difícil. Às vezes eu achei que não conseguiria suportar. – Alvo esfregou os olhos. Cece respirou fundo.

— Sinto muito Al. Também não fui feliz e nunca tive ninguém comigo como você tem o Scorpius, que é a melhor pessoa do mundo, você sabe melhor do que eu. Estou quase desistindo, sempre. Eu sou nascida-trouxa – acho que você já sabe – e eu sinto muita falta da minha vida antes de descobri que eu era bruxa...Sinto falta da minha casa em Londres, da minha mãe, dos meus discos, dos meus livros...De ir ao cinema, meu Deus, como eu sinto falta de ir ao cinema! – Ela caiu na gargalhada ao ver a cara de confusão de Alvo.

— Sabe Al, ninguém fala do silêncio. – Cecilia começou a cavoucar a terra ao seu lado – ninguém fala da solidão, do vazio, de se chegar aqui e é só você e esse lugar imenso cheio de coisas que você nunca viu nem sentiu, cheio de regras e de palavras novas, um mundo sem as músicas que você aprendeu a gostar, sem dança, sem filmes bobos, sem poder ligar chorando para a sua mãe dizendo que tudo está errado e que você não queria estar ali, que aquele não era o seu lugar, que todo mundo é diferente, que seus amigos de infância não te respondem mais porque ninguém mais lê cartas e tudo o que você mais queria era sumir ou não ter nem nascido... – Sua voz começou a tremer. Lágrimas quentes corriam de seus olhos. Ela abraçou as duas pernas e ficou quieta.

Alvo também sofria. Queria que ela gostasse dele, o admirasse, o considerasse. Queria colocar seus dedos no rosto dela, com aqueles olhos que pareciam ter lhe enfeitiçado, tão impossíveis. Ele esticou seu braço, querendo desesperadamente toca-la, senti-la. Mas Cece levantou a cabeça e o olhou e ele o abaixou imediatamente.

— Chega de sentir pena de nós mesmos Potter – Ela se levantou e deu a mão para que ela o puxasse. Al deu um sorriso com aquele contato inesperado — Estou morrendo de fome, o que será que em para o jantar? Tomara que alguma sobremesa boa. Meu suprimento de doces de Hogsmeade já acabou e não tem nem uma semana que fomos lá.

Al riu. Era bom estar ao lado dela, andando em direção ao castelo, parecendo que só havia os dois no mundo. O salão estava em polvorosa. Eles conseguiram encontrar Scorpius, que parecia muito aflito.

— Estão todos falando...Rose perdeu outro jogo. Foi suspensa temporariamente do time de quadribol. Quase partiu para cima do apanhador da Sonserina. Ela estava muito nervosa, nunca a tinha visto naquele jeito.

Alvo olhou para o seu prato e começou a remexer na comida. Não queria saber sobre Rose, mas sentiu um pouco de pena da prima.

Mas não tinha tempo para pensar nisso. Os primeiros duelos iam começar e ele sentia que, pela primeira vez, ele tinha uma chance de ser bem-sucedido em alguma coisa. Ele iria ser alguém.

Notas finais
Comentem, por favor!