Um minuto para o fim do mundo

6 6 - 14 de Outubro de 2005


— Aceita, vai! — pediu Patrícia, me oferecendo um copo de água com açúcar num dia de outubro em que tive uma forte crise de choro no meio de uma aula de geometria espacial. Fazia dias que eu vinha me alimentando tão pouco que o simples fato de ter tirado menos do que esperava numa prova para a qual estudei tanto me deixou devastada.

— Eu não posso acreditar que fracassei tanto assim!

— Você não fracassou coisa nenhuma, Lola. Você só não tirou a nota máxima — lembrou a minha melhor amiga.

— Minha mãe tem razão quando fala que eu sou uma inútil...

Patrícia me abraçou e eu molhei a jaqueta cor-de-rosa dela.

— Por que é que eu não morro logo de uma vez por todas?

Patrícia se afastou de mim:

— Ui! Vira essa boca pra lá!

— Eu deveria morrer... Não sei por que eu ainda estou viva... Eu não sirvo pra nada...

— Só pra te lembrar, você odeia matemática... — declarou Patrícia.

— Tá, eu odeio mesmo, mas...

— É só uma prova, Lola.

— Não, não é uma prova, não é só por causa da prova!

— É, sim.

— É porque às vezes eu acho que você só anda comigo porque não encontrou ninguém melhor nessa escola.

— Eu ando com você porque eu quero. Não sou uma sanguessuga interesseira disposta a entrar numa panelinha só para que não falem mal de mim. Dentro ou fora vão falar do mesmo jeito. Eu ando com você porque eu quero, tá? Você é uma das melhores amigas que eu já tive na vida, mas a gente precisa conversar...

— Eu queria saber como me encaixar, fazer tudo certo, não sentir mais esse vazio que me incomoda tanto... As pessoas pensam que é frescura, falta de Deus, que estou tentando chamar a atenção, mas eu não tenho culpa de sentir esse vazio... — cobri o rosto com as mãos e abafei aquele pranto doído que jorrava sem parar.

— Agora sou eu quem poderia dizer que você anda comigo porque não encontrou ninguém melhor — rebateu Patrícia, adotando a tática da terapia reversa. E ela era ótima nisso!

— Não é verdade!

— Quem me garante que não?

— Você é a minha melhor amiga, Paty. Vai duvidar disso agora?

Patrícia assentiu em concordância.

— Tudo bem, Lola. Eu sei que a aproximação do vestibular deixa os nervos da gente por um fio... Tá tudo bem, fica tranquila. É só uma prova. Não é o fim do mundo.

— Você nem vai fazer vestibular...

— E não vou mesmo... Por que é que vou gastar com a inscrição e fazer roleta-russa com a minha vida se eu ainda não sei o que eu quero?

— Eu também não sei — confessei. — Eu não sei se vou ser feliz se passar em Administração...

— Então por que o desespero?

— Se eu não passar no vestibular, todo mundo vai achar que eu sou burra.

— Ninguém tem que achar nada — redarguiu a minha amiga. — Todo mundo acha a prova moleza depois que o gabarito sai no jornal, agora quero ver saber de tudo na hora que entregam o caderno de prova... Liga não, Lola. O povo quer ter alguma coisa pra comentar, mas depois esquece e não passar no vestibular não faz de ninguém um burro, apenas é algo que acontece. Uns entram de primeira, outros não. Acontece que você se cobra tanto que dá uma dimensão grande demais para um acontecimento tão pequeno. Fala sério, Lola, não é uma droga de uma prova que vai determinar sua inteligência. O importante não é passar de ano e vazar desse covil.

Assenti, enquanto bebia o restinho daquela água açucarada. Patrícia e eu estávamos sentadas num banco de concreto da arquibancada do colégio. Naquela época a quadra de esportes ainda não era coberta.

— Você tirou a nota mais alta da sala, cara. Muita gente queria ter tirado essa nota! Eu mesma, mas vida que segue, o importante é que eu vou passar de ano. Amanhã ou depois, ninguém vai se importar com o quanto você tirou numa prova, tente se cobrar um pouco menos senão você vai ficar doente.

A tez pálida, as mãos trêmulas e geladas e a cefaleia insistente faziam com que as palavras de Patrícia não soassem uma sentença infundada. Ela sabia que eu tinha voltado a fazer jejuns prolongados para não me sentir humilhada toda vez que procurava por uma calça jeans numa dessas lojas de departamentos e tinha de aguentar até as vendedoras insinuando que eu estava gorda só porque não vestia 36 ou 38 e sim 42.

— Você tinha me prometido que iria parar com essas dietas idiotas!

— Eu só quero melhorar a relação que tenho com a comida.

— A relação de ódio que você mantém com a comida! — reiterou Patrícia, olhando para as unhas descascadas, mordiscando uma camada de esmalte. Ela se alimentava normalmente, tinha um peso adequado para a sua estatura e idade conforme todos aqueles dados da OMS e para falar a verdade, eu também.

A diferença entre mim e Patrícia era a estatura: ela media um metro e sessenta e cinco e eu, um metro e sessenta. O atributo que salientava os resquícios da puberdade em meu corpo era o bumbum grande e empinado — esse mesmo que faz muitas mulheres suarem nas academias —, algo que odiava porque queria ser como as outras garotas que tinham o quadril estreito, para as quais eu olhava e pensava para onde ia toda aquela comida que digeriam porque as barrigas eram sequinhas, as coxas nem sequer se encostavam e mesmo eu passando dias a pão e água, continuava com celulites e aquela barriguinha que me acanhava de usar biquíni.

— Eu não odeio comer! — retruquei um pouco mais calma do que quando o professor nos deu permissão para sair da sala, mas ainda assim me sentindo terrível, como se uma bomba relógio estivesse tilintando dentro da cabeça.

— Então por que você está se matando aos poucos?

— Eu não estou pensando em me matar...

— Lola, deixar de se alimentar por opção é uma forma de suicídio...

Patrícia foi apresentada àquela versão "patinho feio" de Lola Freitas, da adolescente de dezesseis anos que ainda não havia se acostumado com a transformação drástica do corpo da menina para salientar formas femininas, definitivas, onde caberiam os deleites e dissabores de uma mente inquieta. Era impossível me olhar no espelho e não contabilizar uma centena de defeitos, por isso eu o evitava.

Pouco depois de transformar Patrícia numa nova amiga, esforcei-me sobremaneira para a inserção dela no grupo com o qual eu andava a fim de mostrar às outras que aquela garota não fazia justiça aos julgamentos cruéis que lhe foram designados, todavia apesar de atenuar por ora as silenciosas provocações que as demais faziam para a novata, acabamos nós duas por formar a nossa modesta frigideira à parte de quaisquer panelinhas.

Antes daquela fria e ensolarada segunda-feira de julho, meus intervalos se baseavam em honrar o protótipo da pessoinha café-com-leite do Ensino Médio, ouvir as meninas falando de seus namorados e/ou pretendentes virtuais ou não, suas proezas sexuais, da vida alheia e, claro, reclamar dos próprios corpos, sempre fazendo parecer que uma pessoa acima do peso era indigna de se sentir bonita, amar, sorrir, usar determinadas vestimentas. Não à toa a culpa me assombrava ao consumir uma coxinha ou um pacote de bolacha recheada e eu desejava numa próxima encarnação nascer com o biótipo de uma top model magra de ruim.

— Você já parou para pensar que ninguém sabe ao certo quanto tempo de vida tem pela frente?

— Esse papo é meio mórbido, Paty.

— Eu não tenho culpa por pensar nessas coisas...

— Devia parar de pensar nisso...

— Ter em mente que eu não sei quanto tempo tenho pela frente me faz pensar no que é realmente essencial nessa vida e apesar de querer ter peitos maiores ou ser um pouco mais alta, não acredito que ser extremamente magra me fizesse tão feliz quanto se supõe. É só mais uma ideia ridícula que colocam na nossa cabeça. E você pode mudar de ideia.

— Claro! Você não vai aparecer no vídeo da formatura, não vai ser a mais feia da turma, que pode comprar o vestido mais bonito que não vai cair bem...

— Ah Lola, cala a boca!

— Pra você é fácil falar. Você é linda e magra, qualquer vestido vai cair bem em você. As outras te invejam porque todo mundo olha pra você. É impossível não olhar pra você.

— Posso te falar uma coisa? — inquiriu Patrícia, nada confiante no que eu lhe dizia.

Dei de ombros.

— Quando você estiver no maior clima de paixão com o seu futuro namorado, a última coisa com a qual ele vai se importar é com as suas celulites. Sério, quando a gente está naquele clima de paixão, sentindo aquela tremedeira deliciosa, se beijando, se tocando, se curtindo, você acha mesmo que ele vai se importar com uns buraquinhos que você tem na bunda ou nas coxas? Bom, a mulherada se importa e aí a maioria não sabe por que é que não goza, por que em vez de curtir o momento, se entregar à vibe, fica pensando em coisas irrelevantes, como celulites... Tudo bem, eu costumava pensar nisso quando transava porque o fato de o Diego e eu transarmos na cama dos pais dele não me confortava muito, mas ele gostava de olhar meu corpo descoberto e dizer o quanto eu era linda. O Renan era meio grosseirão, eu fazia sem ter vontade, mas ele estava pouco ligando se eu tinha ou não celulite...

— Provavelmente eu nunca vou saber o que é isso...

— Claro que vai! — sorriu Patrícia. — Parece piegas dizer isso, mas nesses momentos em que a gente é tão a gente mesma com outra pessoa, a verdadeira beleza desponta. Cara, você ainda não tem ideia do quanto é bom encontrar alguém que faz com que você tire camada por camada de roupa sem nenhuma vergonha, de sentir que nada atrapalha essa conexão, pele com pele. Ah, é uma delícia!

Patrícia me contou todas as suas histórias de Abatiá, uma por uma. A primeira paixonite, o primeiro beijo, o primeiro fora, o primeiro namorado, a primeira vez, o primeiro coração partido. Renan era seu antigo namorado, quatro anos mais velho e vir para Curitiba não foi algo fácil de fazer, embora ela tenha se livrado de um embuste machista, tendo um pensamento muito a frente do seu tempo porque tudo o que é discutido e problematizado hoje pela meninada da nova geração, minha amada já o fazia em 2005.

— Lola, você sabe que eu te considero pacas, mas não gosto quando você começa a se depreciar. Você reclama que todo mundo te trata que nem um capacho, mas você mesma se trata como um capacho e as pessoas vão te tratar com base em como você se trata, então se você quer mudar o jeito que te tratam, mude o jeito que você se trata porque mesmo que você chore e se sinta só, chorar e demonstrar fraqueza diante dos outros não vai fazer com que ninguém sinta dó de você. E você não é gorda, mesmo se fosse, qual seria o problema? Ver você se desmerecendo o tempo todo me aborrece. Tudo bem na TPM você se sentir o cocô do cavalo do bandido, mas o tempo todo irrita. Na TPM eu te deixo chorar, resmungar, sei que os hormônios estão malucos, mas para com isso, guria, para de se maltratar desse jeito. São apenas celulites, não são bazucas atoladas num campo minado. Toda mulher tem celulite e quem disser que não tem está mentindo.

— As modelos, atrizes e cantoras não têm.

Patrícia ergueu a cabeça e entoou uma gargalhada.

— As que não tiverem devem ser umas caveiras ambulantes que nem sequer comem ou aquelas que têm muita bala na agulha e vivem em clínica de estética... Nada contra, mas acho que a gente deveria se inspirar no talento das cantoras e atrizes, não só pensar nelas como protótipos de perfeição porque mesmo que não pareça, isso é nocivo para elas porque elas se sentem pressionadas a manterem essa beleza falsa das capas de revista... Às vezes eu tenho essa mania de começar a pensar em coisas com que ninguém se importa... Será que as atrizes e cantoras são tão felizes quanto parecem nas capas das revistas? Será que todo dia elas acordam com o cabelo legal e de bom humor?

Patrícia não desviou o olhar. Ela costumava se impor dessa forma quando havia debates.

— Deve ser uma pressão do caramba ter que se manter sempre bonita, sempre alegre, sempre em evidência. Se você e eu que somos anônimas já sofremos o peso das cobranças que as pessoas fazem em cima de nós, imagine por um segundo alguma atriz famosa mais ou menos da nossa idade, se isso não é pior. Elas são figuras públicas, qualquer passo que elas dão é julgado. Elas não podem nem sequer ter uma simples espinha que isso é tratado como se fosse um crime, imagina exibir um corpo normal de adolescente. Essa pressão é um veneno para todo mundo, mas gera lucro. Para alguém. Para alguém que lucra com quem olha para aquela imagem manipulada e sente ódio de si mesma. Vamos combinar, com tantos problemas realmente sérios acontecendo, perder tempo competindo quem tem a barriga mais seca é de uma estupidez sem limites...

Naquelas geladas e solitárias férias de julho eu não queria voltar para a escola de jeito nenhum. Se a temperatura estava abaixo de zero, minha animação, idem. Por mais que não fosse seguidora de nenhuma religião em especial, costumava me deitar fazendo uma prece e imaginei o quanto gostaria de conhecer uma pessoa que gostasse de mim do jeito que eu era, que fizesse questão da minha presença, que se importasse comigo e não me abandonasse ao perceber que minha vida social era quase nula e eu não tinha tantas histórias para contar.

Enquanto isso, do outro lado do Paraná, Patrícia estava terminando o namoro com Renan, ouvindo Forever do Kiss até entupir o nariz de tanto chorar, para no outro dia terminar de preparar as malas com a mãe e embarcar com destino a Curitiba.

Os delicados fios do acaso se costuraram de modo a juntar o querer do alcançar e na fileira do meio de uma sala de aula situada ao bloco norte do meu antigo colégio, estava à resposta. Tinha nome, sobrenome e antes mesmo de abrir os lábios para retribuir à minha saudação, me ensinou uma lição que ouvi lá no comecinho do ensino fundamental e nunca pratiquei para valer. Não julgar pela aparência.